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Interestelar e o confronto com o indizível

Em Comportamento por Felipe NovaesComentário

Inte­res­te­lar é um daque­les fil­mes que tra­tam de tan­tas ques­tões que quando acaba, demo­ra­mos um bom tempo para pro­ces­sar o que viven­ci­a­mos. São temas que tocam em nossa vida indi­vi­dual tanto quanto na his­tó­ria da espé­cie humana, o que inclui o aspecto estri­ta­mente bio­ló­gico, mas tam­bém o cul­tu­ral, ligado à habi­li­dade humana para criar, mas tam­bém à mani­fes­ta­ções de temas bási­cos uni­ver­sais tais como nos­sos mais pro­fun­dos medos e inse­gu­ran­ças (que apa­re­cem com rou­pa­gens dife­ren­tes).

Na trama, num futuro pró­ximo a Terra encon­tra-se exau­rida, com solos impro­du­ti­vos. Como recurso emer­gen­cial, a NASA recruta um grupo de astro­nau­tas para explo­rar pla­ne­tas seme­lhan­tes ao nosso fora da Via Lác­tea, inves­ti­gando a pos­si­bi­li­dade de res­tau­rar a vida fora daqui.

O que a sinopse não revela (sendo um arti­fí­cio muito útil para man­ter o clima de expec­ta­tiva durante o filme) é que essa via­gem se dá por meios dig­nos de uma série inteira do Dis­co­very ou de um novo livro de Stephen Haw­king.

A grande enras­cada é que não há como seguir via­gem por meios tra­di­ci­o­nais, isto é, pegando uma nave e indo até esses pla­ne­tas. Isso ocorre por dois moti­vos sim­ples: (1) os pla­ne­tas em ques­tão se loca­li­zam em outra galá­xia; e (2) por­que essa via­gem demo­ra­ria sécu­los (levando em conta a dis­tân­cia astronô­mica e ainda os efei­tos da Rela­ti­vi­dade sobre o tempo).

O arti­fí­cio que o filme ofe­rece, pau­tado na atual rea­li­dade das teo­rias cos­mo­ló­gi­cas, é o wormhole, ou buraco de minhoca, um rasgo na estru­tura do espaço-tempo, que liga duas regiões dis­tan­tes como se fosse um ata­lho.

Interestelar

A repre­sen­ta­ção ima­gé­tica mais mara­vi­lhosa e ater­ra­dora do Kra­ken moderno

O pro­blema é que essa ano­ma­lia da física não é só um ata­lho espa­cial, é tam­bém tem­po­ral, segundo a Teo­ria da Rela­ti­vi­dade de Albert Eins­tein, que encara o tempo e o espaço como uma estru­tura uni­fi­cada (espaço-tempo). Em esca­las astronô­mi­cas, se você mexe em um, pode mexer no outro tam­bém de maneira men­su­rá­vel. Assim, é pro­du­zido um tipo de corte tem­po­ral, então o tempo gasto por Coo­per e sua equipe é muito menor se com­pa­rar­mos com o tempo que se pas­sa­ria na Terra. No fim da via­gem, Coo­per pode­ria vol­tar para casa e encon­trar a filha mais velha que ele — o que seria um cená­rio teó­rico seme­lhante ao pro­posto por Eins­tein, para expli­car os efei­tos da Rela­ti­vi­dade, no para­doxo dos gêmeos.

Algo pare­cido ocorre com os bura­cos negros, pre­sen­tes na trama, para com­ple­tar o momento mind­fuck que Chris­topher Nolan nos pro­por­ci­ona. Bura­cos negros são…bem, bura­cos, que se for­mam quando uma estrela muito mas­siva (uma super­nova) entra em colapso. A gra­vi­dade é tão forte que nem a luz escapa. Só em ter­mos ima­gé­ti­cos, é como se tivés­se­mos numa cama elás­tica uma bola de gude com o peso de uma bola de boli­che. Toda a estru­tura ao redor vai se cur­var sem que enxer­gue­mos o que exa­ta­mente está cau­sando a defor­ma­ção.

O con­fronto com o intan­gí­vel ao longo do tempo

Planeta desconhecido interestelar

A per­gunta certa não é onde esta­mos, mas quando

Esses even­tos não são ape­nas recur­sos para tor­nar a trama mais com­plexa ou ins­ti­gante. Esses assun­tos estra­nhos real­mente são obje­tos de estudo de cos­mó­lo­gos e físi­cos teó­ri­cos. E para além da aná­lise neces­sa­ri­a­mente fria que o cien­tista deve ter em suas inves­ti­ga­ções, o modo emo­ci­o­nal e exis­ten­cial com o qual os enca­ra­mos é uma ques­tão que se coloca sem­pre, pois somos huma­nos.

O des­co­nhe­cido sem­pre foi uma ques­tão pul­sante para nossa espé­cie, desde tem­pos ime­mo­ri­ais. Quando o Homo sapi­ens ainda não tinha con­di­ções de sair de seu habi­tat nas sava­nas afri­ca­nas, havia o mis­té­rio sobre o que exis­tia além dos limi­tes daquela mata, e do que ocor­ria depois do fim da vida. Há indí­cios, inclu­sive, de que o homem de Nean­derthal já se fazia per­gun­tas desse tipo, pois abriam covas para enter­rar seus par­cei­ros junto com seus anti­gos per­ten­ces.

De certo modo, os mis­té­rios do além físico e meta­fí­sico se inter­li­ga­vam, tal­vez por­que anti­ga­mente não exis­tiam duas esfe­ras bem deli­mi­ta­das do natu­ral e do sobre­na­tu­ral. Os anti­gos gre­gos, por exem­plo, acre­di­ta­vam na exis­tên­cia dos deu­ses olim­pi­a­nos, que não eram com­pre­en­di­dos da mesma maneira como enten­de­mos o con­ceito de divin­dade hoje. O Monte Olimpo, a morada des­ses deu­ses, era um lugar bem real no espaço e no tempo. E de maneira bem con­ve­ni­ente, ficava numa mon­ta­nha afas­tada, de modo que nin­guém podia ir lá inves­ti­gar. Era a mesma con­cep­ção sobre os Cam­pos Elí­sios, local para onde todo guer­reiro hon­rado ia, ao con­trá­rio dos que não tinham gran­des gló­rias para con­tar, que iam direto para o sub­mundo, o Hades. Algo aná­logo era pen­sado pelos nór­di­cos, em que os homens sonha­vam em mor­rer guer­re­ando, pois isso garan­ti­ria um jan­tar sun­tu­oso com o pró­prio Odin, em Valhalla.

O impassível guerreiro nórdico espera ansiosamente pela chegada ao desconhecido, ao insondável, ao incógnito reino de Valhalla.

O impas­sí­vel guer­reiro nór­dico espera ansi­o­sa­mente pela che­gada ao des­co­nhe­cido, ao inson­dá­vel, ao incóg­nito reino de Valhalla.

Sécu­los depois, na Era das Gran­des Nave­ga­ções, exis­tia o medo dos mares e das ter­ras des­co­nhe­ci­das. Acre­di­tava-se em todo tipo de coisa: ser­pen­tes e dra­gões mari­nhos gigan­tes­cos, abis­mos cuja queda não tinha fim, mares de fogo, demô­nios fla­me­jan­tes etc. A ati­tude essen­ci­al­mente supers­ti­ci­osa do homem não mudou muito desde os tem­pos anti­gos, se pen­sar­mos nos lusi­ta­nos, que tam­bém tinham tais cren­di­ces ape­sar de seu domí­nio sobre a tec­no­lo­gia dis­po­ní­vel na Europa da época.

Esse ele­mento de mis­té­rio sublime e teme­rá­rio está pre­sente tam­bém na raiz das cren­ças judaico cris­tãs. O Antigo Tes­ta­mento é cheio de amos­tras do quão ter­rí­vel e bene­vo­lente Javé pode­ria ser, de acordo com aque­les judeus. Isso é per­fei­ta­mente coe­rente com o que gru­pos tri­bais geral­mente pro­fes­sam, pois o ambi­ente mui­tas vezes hos­til em que vivem cons­trói todo um enten­di­mento base­ado na falta de con­trole da natu­reza, em sua ‘impre­vi­si­bi­li­dade’, no fato de for­ne­cer abrigo e ali­mento, mas tam­bém de poder ser fatal na forma de tor­na­dos, gran­des secas, pra­gas. É como se a divin­dade fosse mesmo a per­so­ni­fi­ca­ção das for­ças natu­rais, que aos olhos huma­nos podem soar ter­rí­veis ou/e mara­vi­lho­sas, mas que em sua onto­lo­gia mais pro­funda ape­nas são, não podendo ser sub­me­ti­das aos nos­sos jugos morais ou pro­je­ção de inten­ci­o­na­li­dade.

Quem quer ter uma boa amos­tra de inter­pre­ta­ção par­ti­cu­lar­mente pes­si­mista sobre isso, basta ler O Rei de Ama­relo. Na obra, Robert Cham­bers escreve e orga­niza uma série de con­tos conec­ta­dos entre si de for­mas obs­cu­ras, sobre pes­soas que leram um ensaio poé­tico que trans­mi­tia ver­da­des impen­sá­veis, capa­zes de enlou­que­cer a mente mais sadia. Como, tam­bém, no filme Pi, do dire­tor Dar­ren Aro­nofsky, cujo plano de fundo é a perda da sani­dade dos mate­má­ti­cos que tive­ram sucesso em des­co­brir a “face de Deus” atra­vés da mate­má­tica. A visão é tão estar­re­ce­dora e indi­zí­vel que a mente humana se des­man­tela ao con­tem­plá-la.

A ima­gem moderna do encon­tro com o Mis­té­rio

Eis a imagem do "mysterium tremendum" moderno.

Eis a ima­gem do “mys­te­rium tre­men­dum” moderno.

Per­ce­be­mos nes­sas refe­rên­cias várias mudan­ças no con­teúdo dos mis­té­rios que se apre­sen­tam aos huma­nos, mas não de sua estru­tura psi­co­ló­gica fun­da­men­tal.

Antes o que inqui­e­tava o homem era a dúvida pro­funda a res­peito do que encon­trar no seu pró­prio pla­neta, hoje essa ati­tude se pro­jeta sobre os locais obs­cu­ros do espaço, e tam­bém sobre os mais bizar­ros fenô­me­nos da Física, que desa­fiam nossa “física intui­tiva” e a física for­mal a qual nos acos­tu­ma­mos no colé­gio.

Inte­res­te­lar tor­nou evi­dente essa nossa dúvida quase mís­tica em rela­ção à coi­sas cuja natu­reza nossa mente nem foi mol­dada para com­pre­en­der. Enten­der wormho­les não é o mesmo que enten­der enge­nho­cas ter­rá­queas, que lidam com as leis de New­ton e que,  bem ou mal, a sele­ção natu­ral nos pre­pa­rou para enten­der (ao menos poten­ci­al­mente). Enten­der a parte da natu­reza que não nos for­jou é uma tarefa her­cú­lea, pois só pode ser feita basi­ca­mente por meio da intui­ção mate­má­tica.

Bura­cos negros, wormho­les, via­gem no tempo e todas as con­sequên­cias pre­vis­tas por teo­rias que hoje já fazem parte de uma rea­li­dade pal­pá­vel para o cien­tista, são os novos limi­tes da ima­gi­na­ção humana, e são tam­bém aquilo que pode repre­sen­tar pro­gresso, mas tam­bém nosso fim.

Um exem­plo icô­nico foi a inau­gu­ra­ção do LHC. Hoje sabe­mos que o empre­en­di­mento foi fru­tí­fero, ao tra­zer evi­dên­cias da exis­tên­cia do bóson de Higgs, mas na época muita incer­teza ron­dou a mídia. Maté­rias mais sen­sa­ci­o­na­lis­tas fala­vam da pos­si­bi­li­dade forte da cri­a­ção de bura­cos negros durante o expe­ri­mento, outras já con­cluíam daí que a máquina pode­ria oca­si­o­nar o fim do mundo.

Na obra de Nolan, nos defron­ta­mos com o mesmo cená­rio. A tec­no­lo­gia, res­pon­sá­vel por ampliar nos­sos conhe­ci­men­tos, e os fenô­me­nos natu­rais em ques­tão podem ser usa­dos para sal­var a raça humana, mas paira a pos­si­bi­li­dade de Coo­per e toda a sua equipe ser levada a um beco sem saída, em que uma aven­tura de espe­rança se trans­forma num mer­gu­lho no vazio abis­sal das con­di­ções extre­mas do espaço side­ral e de seus “mons­tros” muito reais, assus­ta­do­res e impo­nen­tes.

Se ainda vivês­se­mos imer­sos numa cul­tura cri­a­dora de mitos anti­gos, pode­ría­mos divi­ni­zar bura­cos negros, por exem­plo. Eles se tor­na­riam divin­da­des ter­rí­veis, mons­tros a serem com­ba­ti­dos, ou locais mor­tais. E, de fato, o sen­ti­mento que se abate sobre nós quando refle­ti­mos seri­a­mente sobre um local cujas leis da física mudam com­ple­ta­mente, é algo que se alterna entre o res­peito por uma natu­reza mani­pu­lá­vel e conhe­cida, mas ao mesmo tempo extre­ma­mente hos­til e impre­vi­sí­vel.

Des­co­brir um espaço cheio de mun­dos, habi­tá­veis ou não, é como a jor­nada do guer­reiro antigo que mer­gu­lha no Hades com a pos­si­bi­li­dade de se per­der por lá para sem­pre, ou de retor­nar com o segredo da res­sur­rei­ção em suas mãos, como fize­ram mui­tos per­so­na­gens mito­ló­gi­cos, de modo meta­fó­rico ou não, como Ulis­ses e Jesus. 

Felipe Novaes
Já quis ser paleontólogo, biólogo, astrônomo, filósofo e neurocientista, mas parece ter se encontrado na psicologia evolucionista. Nas horas vagas lê compulsivamente, escreve textos sobre a vida, o universo e tudo mais, e arruma um tempinho para o Positrônico Podcast. Contudo, durante todo o tempo procura se aprimorar na sabedoria e nas artes jedis do aikido.

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