Interestelar é um daqueles filmes que tratam de tantas questões que quando acaba, demoramos um bom tempo para processar o que vivenciamos. São temas que tocam em nossa vida individual tanto quanto na história da espécie humana, o que inclui o aspecto estritamente biológico, mas também o cultural, ligado à habilidade humana para criar, mas também à manifestações de temas básicos universais tais como nossos mais profundos medos e inseguranças (que aparecem com roupagens diferentes).

Na trama, num futuro próximo a Terra encontra-se exaurida, com solos improdutivos. Como recurso emergencial, a NASA recruta um grupo de astronautas para explorar planetas semelhantes ao nosso fora da Via Láctea, investigando a possibilidade de restaurar a vida fora daqui.

O que a sinopse não revela (sendo um artifício muito útil para manter o clima de expectativa durante o filme) é que essa viagem se dá por meios dignos de uma série inteira do Discovery ou de um novo livro de Stephen Hawking.

A grande enrascada é que não há como seguir viagem por meios tradicionais, isto é, pegando uma nave e indo até esses planetas. Isso ocorre por dois motivos simples: (1) os planetas em questão se localizam em outra galáxia; e (2) porque essa viagem demoraria séculos (levando em conta a distância astronômica e ainda os efeitos da Relatividade sobre o tempo).

O artifício que o filme oferece, pautado na atual realidade das teorias cosmológicas, é o wormhole, ou buraco de minhoca, um rasgo na estrutura do espaço-tempo, que liga duas regiões distantes como se fosse um atalho.

Interestelar
A representação imagética mais maravilhosa e aterradora do Kraken moderno

O problema é que essa anomalia da física não é só um atalho espacial, é também temporal, segundo a Teoria da Relatividade de Albert Einstein, que encara o tempo e o espaço como uma estrutura unificada (espaço-tempo). Em escalas astronômicas, se você mexe em um, pode mexer no outro também de maneira mensurável. Assim, é produzido um tipo de corte temporal, então o tempo gasto por Cooper e sua equipe é muito menor se compararmos com o tempo que se passaria na Terra. No fim da viagem, Cooper poderia voltar para casa e encontrar a filha mais velha que ele – o que seria um cenário teórico semelhante ao proposto por Einstein, para explicar os efeitos da Relatividade, no paradoxo dos gêmeos.

Algo parecido ocorre com os buracos negros, presentes na trama, para completar o momento mindfuck que Christopher Nolan nos proporciona. Buracos negros são…bem, buracos, que se formam quando uma estrela muito massiva (uma supernova) entra em colapso. A gravidade é tão forte que nem a luz escapa. Só em termos imagéticos, é como se tivéssemos numa cama elástica uma bola de gude com o peso de uma bola de boliche. Toda a estrutura ao redor vai se curvar sem que enxerguemos o que exatamente está causando a deformação.

O confronto com o intangível ao longo do tempo

Planeta desconhecido interestelar
A pergunta certa não é onde estamos, mas quando

Esses eventos não são apenas recursos para tornar a trama mais complexa ou instigante. Esses assuntos estranhos realmente são objetos de estudo de cosmólogos e físicos teóricos. E para além da análise necessariamente fria que o cientista deve ter em suas investigações, o modo emocional e existencial com o qual os encaramos é uma questão que se coloca sempre, pois somos humanos.

O desconhecido sempre foi uma questão pulsante para nossa espécie, desde tempos imemoriais. Quando o Homo sapiens ainda não tinha condições de sair de seu habitat nas savanas africanas, havia o mistério sobre o que existia além dos limites daquela mata, e do que ocorria depois do fim da vida. Há indícios, inclusive, de que o homem de Neanderthal já se fazia perguntas desse tipo, pois abriam covas para enterrar seus parceiros junto com seus antigos pertences.

De certo modo, os mistérios do além físico e metafísico se interligavam, talvez porque antigamente não existiam duas esferas bem delimitadas do natural e do sobrenatural. Os antigos gregos, por exemplo, acreditavam na existência dos deuses olimpianos, que não eram compreendidos da mesma maneira como entendemos o conceito de divindade hoje. O Monte Olimpo, a morada desses deuses, era um lugar bem real no espaço e no tempo. E de maneira bem conveniente, ficava numa montanha afastada, de modo que ninguém podia ir lá investigar. Era a mesma concepção sobre os Campos Elísios, local para onde todo guerreiro honrado ia, ao contrário dos que não tinham grandes glórias para contar, que iam direto para o submundo, o Hades. Algo análogo era pensado pelos nórdicos, em que os homens sonhavam em morrer guerreando, pois isso garantiria um jantar suntuoso com o próprio Odin, em Valhalla.

O impassível guerreiro nórdico espera ansiosamente pela chegada ao desconhecido, ao insondável, ao incógnito reino de Valhalla.
O impassível guerreiro nórdico espera ansiosamente pela chegada ao desconhecido, ao insondável, ao incógnito reino de Valhalla.

Séculos depois, na Era das Grandes Navegações, existia o medo dos mares e das terras desconhecidas. Acreditava-se em todo tipo de coisa: serpentes e dragões marinhos gigantescos, abismos cuja queda não tinha fim, mares de fogo, demônios flamejantes etc. A atitude essencialmente supersticiosa do homem não mudou muito desde os tempos antigos, se pensarmos nos lusitanos, que também tinham tais crendices apesar de seu domínio sobre a tecnologia disponível na Europa da época.

Esse elemento de mistério sublime e temerário está presente também na raiz das crenças judaico cristãs. O Antigo Testamento é cheio de amostras do quão terrível e benevolente Javé poderia ser, de acordo com aqueles judeus. Isso é perfeitamente coerente com o que grupos tribais geralmente professam, pois o ambiente muitas vezes hostil em que vivem constrói todo um entendimento baseado na falta de controle da natureza, em sua ‘imprevisibilidade’, no fato de fornecer abrigo e alimento, mas também de poder ser fatal na forma de tornados, grandes secas, pragas. É como se a divindade fosse mesmo a personificação das forças naturais, que aos olhos humanos podem soar terríveis ou/e maravilhosas, mas que em sua ontologia mais profunda apenas são, não podendo ser submetidas aos nossos jugos morais ou projeção de intencionalidade.

Quem quer ter uma boa amostra de interpretação particularmente pessimista sobre isso, basta ler O Rei de Amarelo. Na obra, Robert Chambers escreve e organiza uma série de contos conectados entre si de formas obscuras, sobre pessoas que leram um ensaio poético que transmitia verdades impensáveis, capazes de enlouquecer a mente mais sadia. Como, também, no filme Pi, do diretor Darren Aronofsky, cujo plano de fundo é a perda da sanidade dos matemáticos que tiveram sucesso em descobrir a “face de Deus” através da matemática. A visão é tão estarrecedora e indizível que a mente humana se desmantela ao contemplá-la.

A imagem moderna do encontro com o Mistério

Eis a imagem do "mysterium tremendum" moderno.
Eis a imagem do “mysterium tremendum” moderno.

Percebemos nessas referências várias mudanças no conteúdo dos mistérios que se apresentam aos humanos, mas não de sua estrutura psicológica fundamental.

Antes o que inquietava o homem era a dúvida profunda a respeito do que encontrar no seu próprio planeta, hoje essa atitude se projeta sobre os locais obscuros do espaço, e também sobre os mais bizarros fenômenos da Física, que desafiam nossa “física intuitiva” e a física formal a qual nos acostumamos no colégio.

Interestelar tornou evidente essa nossa dúvida quase mística em relação à coisas cuja natureza nossa mente nem foi moldada para compreender. Entender wormholes não é o mesmo que entender engenhocas terráqueas, que lidam com as leis de Newton e que,  bem ou mal, a seleção natural nos preparou para entender (ao menos potencialmente). Entender a parte da natureza que não nos forjou é uma tarefa hercúlea, pois só pode ser feita basicamente por meio da intuição matemática.

Buracos negros, wormholes, viagem no tempo e todas as consequências previstas por teorias que hoje já fazem parte de uma realidade palpável para o cientista, são os novos limites da imaginação humana, e são também aquilo que pode representar progresso, mas também nosso fim.

Um exemplo icônico foi a inauguração do LHC. Hoje sabemos que o empreendimento foi frutífero, ao trazer evidências da existência do bóson de Higgs, mas na época muita incerteza rondou a mídia. Matérias mais sensacionalistas falavam da possibilidade forte da criação de buracos negros durante o experimento, outras já concluíam daí que a máquina poderia ocasionar o fim do mundo.

Na obra de Nolan, nos defrontamos com o mesmo cenário. A tecnologia, responsável por ampliar nossos conhecimentos, e os fenômenos naturais em questão podem ser usados para salvar a raça humana, mas paira a possibilidade de Cooper e toda a sua equipe ser levada a um beco sem saída, em que uma aventura de esperança se transforma num mergulho no vazio abissal das condições extremas do espaço sideral e de seus “monstros” muito reais, assustadores e imponentes.

Se ainda vivêssemos imersos numa cultura criadora de mitos antigos, poderíamos divinizar buracos negros, por exemplo. Eles se tornariam divindades terríveis, monstros a serem combatidos, ou locais mortais. E, de fato, o sentimento que se abate sobre nós quando refletimos seriamente sobre um local cujas leis da física mudam completamente, é algo que se alterna entre o respeito por uma natureza manipulável e conhecida, mas ao mesmo tempo extremamente hostil e imprevisível.

Descobrir um espaço cheio de mundos, habitáveis ou não, é como a jornada do guerreiro antigo que mergulha no Hades com a possibilidade de se perder por lá para sempre, ou de retornar com o segredo da ressurreição em suas mãos, como fizeram muitos personagens mitológicos, de modo metafórico ou não, como Ulisses e Jesus.

escrito por:

Felipe Novaes

Já quis ser paleontólogo, biólogo, astrônomo, filósofo e neurocientista, mas parece ter se encontrado na psicologia evolucionista. Nas horas vagas lê compulsivamente, escreve textos sobre a vida, o universo e tudo mais, e arruma um tempinho para o Positrônico Podcast. Contudo, durante todo o tempo procura se aprimorar na sabedoria e nas artes jedis do aikido.


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