Dentes de Sabre contra Wolverine. | Humanas, precisamos falar sobre instinto.

Humanas, precisamos falar sobre instinto

Em Ciência, Comportamento, Consciência por Felipe NovaesComentários

Agora a psi­co­lo­gia se assen­tará sobre um novo ali­cerce” ~ Char­les Darwin

Genes estão cons­tan­te­mente se ligando e des­li­gando em res­posta a con­di­ções tais como estresse, fome ou doença. Agora ima­gine estes genes dinâ­mi­cos cons­truindo veí­cu­los (pes­soas) que estão obce­ca­das em se expor a novos cli­mas, pre­da­do­res, para­si­tas, opções de comida, estru­tu­ras soci­ais e for­mas de guerra.” ~ Jonathan Haidt


Estava eu no segundo período do curso de Psi­co­lo­gia. Era uma das pri­mei­ras aulas de Antro­po­lo­gia, e eu estava bem empol­gado. Eu ima­gi­nava que um antro­pó­logo era uma espé­cie de Indi­ana Jones que estu­dava pes­soas e não arte­fa­tos. Com cha­péu e tudo, junto com aquele cole­ti­nho que arqueó­lo­gos usam. 

Já tinha per­ce­bido que o Pro­fes­sor era uma sumi­dade na área, pres­tes a se apo­sen­tar e com nenhuma trava na lín­gua — e com algum mau humor. A pre­o­cu­pa­ção dele ali não era exa­ta­mente dar aula, cum­prir um con­teúdo pro­gra­má­tico. Ele que­ria des­ti­lar sua eru­di­ção acu­mu­lada. Era como um vul­cão pres­tes a entrar em erup­ção.

E isso não é bem uma recla­ma­ção. As aulas con­ta­vam com dis­ser­ta­ções lon­gas e emo­ti­vas desde suas mais sofis­ti­ca­das expe­ri­ên­cias com o sis­tema edu­ca­ci­o­nal fran­cês até o que cer­tos índios da Amazô­nia acha­vam de suas pró­prias bufas — com direito a imi­ta­ções com o sovaco e com a boca.

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Como bom repre­sen­tante de Franz Boas, ícone da Antro­po­lo­gia Cul­tu­ral, o aca­dê­mico estava num dos extre­mos de um gra­di­ente que dizia que tudo era cul­tu­ral, que a bio­lo­gia só estava ali em suas mani­fes­ta­ções irri­tan­te­mente óbvias: “Temos dois bra­ços, uma cabeça, duas per­nas. O resto é cul­tura.” — dizia ele.

Um dia comen­tei que estava lendo um livro do psi­co­lin­guista e psi­có­logo evo­lu­ci­o­nista Ste­ven Pin­ker e que o pes­qui­sa­dor dizia que as emo­ções bási­cas eram uni­ver­sais, “eram bio­ló­gi­cas”. Nesse momento o gri­sa­lho pro­fes­sor fez uma cara estra­nha. Pare­cia que um padre, em plena missa, tinha ouvido uma anti-ver­são dos 10 man­da­men­tos, sei lá. 

Mas como o nojo pode ser uma emo­ção uni­ver­sal, se os chi­ne­ses não tem nojo de comer pau de cachorro?”

Eu ri dis­cre­ta­mente. Ten­tei dizer que a ques­tão ali era o nojo em si, não seu objeto. Ele igno­rou e con­ti­nuou pra­gue­jando.


Entre o ethos e a tabula rasa

O que está por trás da resis­tên­cia em rela­ção aos uni­ver­sais huma­nos é um já antigo con­flito nome­ado nature x nur­ture, ou natu­reza ver­sus cul­tura.

nature x nurture | natureza versus cultura | instintos

Essa opo­si­ção entrou em ebu­li­ção por quase todo o século XX, mas ainda hoje parece cau­sar alguns tre­mo­res de terra aqui e ali. Prova disso é a publi­ca­ção e o sucesso, nos anos 2000, do calha­maço do Ste­ven Pin­ker: Tábusa Rasa — A Nega­ção Con­tem­po­râ­nea da Natu­reza Humana.

Em suma, ele explica como a visão que con­cebe o ser humano como uma folha de papel que nasce em branco e é pre­en­chida intei­ra­mente pelo ambi­ente é errada, assim como ale­gar que somos indi­ví­duos movi­dos intei­ra­mente por refle­xos ina­tos em res­posta a gati­lhos ambi­en­tais.

Esse tema foi a base da dis­puta inte­lec­tual de déca­das atrás entre a psi­co­lo­gia, lide­rada pelo beha­vi­o­rismo, e a eto­lo­gia.

Nesse momento, a psi­co­lo­gia ten­tava se con­so­li­dar como uma ciên­cia do com­por­ta­mento humano, o que era uma res­posta à não cien­ti­fi­ci­dade da psi­ca­ná­lise, que era o que tinha de mais pró­ximo de uma psi­co­lo­gia na época.

Para os beha­vi­o­ris­tas, toda a psi­co­lo­gia se resu­mi­ria a des­ven­dar quais estí­mu­los ambi­en­tais desen­ca­de­a­riam quais res­pos­tas no orga­nismo. Não have­riam pre­dis­po­si­ções, com­por­ta­men­tos ina­tos, nada disso.

Hoje alguns beha­vi­o­ris­tas con­tes­tam essa visão de tábula rasa, ale­gando que nunca pen­sa­ram assim na rea­li­dade; de qual­quer forma, o Beha­vi­o­rismo Radi­cal de Skin­ner, o beha­vi­o­rismo mais moderno, diga­mos, leva em conta estí­mu­los incon­di­ci­o­na­dos, que leva em conta tais pre­dis­po­si­ções.

Por outro lado, a eto­lo­gia era o estudo do ethos, cará­ter em grego — que aqui tem um sig­ni­fi­cado um tanto dife­rente do da soci­o­lo­gia.

Atra­vés de uma pro­posta meto­do­ló­gica dife­rente para estu­dar e mani­pu­lar o com­por­ta­mento ani­mal, para os etó­lo­gos — que nesse momento estu­da­vam ani­mais não-huma­nos — não havia como espé­cie alguma ter com­por­ta­men­tos tão com­ple­xos por puro apren­di­zado.

Teria de haver algo como pre­dis­po­si­ções que faci­li­tas­sem o apren­di­zado, ou com­por­ta­men­tos mais obvi­a­mente ins­tin­ti­vos, como se fos­sem refle­xos auto­má­ti­cos.

O pro­blema é que aos pou­cos essas esco­las se pola­ri­za­ram. As Huma­nas cri­a­ram aver­são às expli­ca­ções que levas­sem em conta a bio­lo­gia, enquanto a eto­lo­gia aca­bou cri­ando expli­ca­ções ane­dó­ti­cas que con­fun­diam expli­ca­ções bio­ló­gi­cas e evo­lu­ti­vas com uma legis­la­ção sobre o que é moral e imo­ral.

Não exis­tiam estu­dos con­tro­la­dos e teste de hipó­te­ses. Ape­nas pegava-se um com­por­ta­mento e se espe­cu­lava sobre sua raiz evo­lu­tiva.

Esse é um erro que as ciên­cias inte­gra­do­ras que estu­dam esse assunto sob a ótica da evo­lu­ção, como eco­lo­gia com­por­ta­men­tal e psi­co­lo­gia evo­lu­ci­o­nista, não come­tem mais — como mos­trei num recente texto sobre o estudo da per­so­na­li­dade.

Por alto dá para per­ce­ber que o debate envol­vendo a ques­tão do ins­tinto entre huma­nos não é nada sim­ples, nem novo. Porém, hoje a dis­cus­são se atu­a­li­zou, de forma que não é nem mesmo muito útil nos refe­rir­mos a algo como ins­tinto, dada a inte­gra­ção indis­so­lú­vel entre ambi­ente, cul­tura e evo­lu­ção.

É como já disse sobre per­so­na­li­dade e sexu­a­li­dade: tudo depende da eco­lo­gia.


Instinto

Ok, mas até agora estou falando sobre algo que não defini muito bem. De maneira resu­mida, pode­mos defi­nir o ins­tinto com um número limi­tado de afir­ma­ti­vas:

(i) com­por­ta­men­tos ina­tos;

(ii) com­por­ta­mento fixo;

(iii) com­por­ta­mento auto­má­tico;

(iv) enga­ti­lhado por um estí­mulo.

Grande parte dos com­por­ta­men­tos, mesmo em ani­mais não huma­nos, não con­tem­plam as carac­te­rís­ti­cas acima. Mui­tos deles podem sim nas­cer já com os ani­mais, mas ainda rús­ti­cos, sendo refi­na­dos pelo ambi­ente, pela expe­ri­ên­cia. Alguns só des­per­tam com a matu­ri­dade, por exem­plo.

As ara­nhas não nas­cem sabendo com­ple­ta­mente fazer teia. A habi­li­dade de tecer teias vai sendo apri­mo­rada ao longo da vida do ani­mal, con­forme ele exer­cita isso. Ao menos foi isso que pude reter de alguns dos arti­gos do pro­e­mi­nente etó­logo da USP, já fale­cido, César Ades.

A visão clás­sica de ins­tinto prega que os ani­mais são como robôs que nas­cem pron­tos e vão res­pon­dendo ao ambi­ente auto­ma­ti­ca­mente — aliás, isso é tão ultra­pas­sado que essa pró­pria metá­fora é ultra­pas­sada, pois exis­tem IAs pro­gra­ma­das pra apren­der com a expe­ri­ên­cia já.

O Homo sapi­ens é espe­ci­al­mente com­plexo nesse sen­tido. Nossa espé­cie foi mol­dada ao longo da sele­ção natu­ral para res­pon­der a uma mul­ti­pli­ci­dade de con­tex­tos. Por isso é difí­cil para quem estuda o assunto ouvir, por exem­plo, que o ser humano é natu­ral­mente poli­gâ­mico ou mono­gâ­mico, vio­lento ou pací­fico.

O mesmo serve para a mag­ni­tude de cer­tas carac­te­rís­ti­cas con­si­de­ra­das atra­en­tes no sexo oposto. Nossa natu­reza não é uma coisa nem outra. Em outras pala­vras, temos a poten­ci­a­li­dade para todas essas carac­te­rís­ti­cas.


Nenhum ou mil instintos para o amor?

Fundador da Playboy, Hugh Hefner, em 1969.

Fun­da­dor da Play­boy, Hugh Hef­ner, em 1969.

Em Tábula Rasa e em Como a Mente Fun­ci­ona, Pin­ker diz que o ser humano é tão fle­xí­vel e tão sus­ce­tí­vel ao apren­di­zado por­que pos­sui muito mais ins­tin­tos do que as outras espé­cies, não menos. 

Eu não usa­ria o termo ins­tinto, mas se qui­ser­mos requen­tar a pala­vra para que ela sig­ni­fi­que pre­dis­po­si­ção a uma plu­ra­li­dade de com­por­ta­men­tos mol­da­dos ao longo da his­tó­ria evo­lu­tiva das espé­cies, aí é mais acei­tá­vel.

As múl­ti­plas pos­si­bi­li­da­des de uniões amo­ro­sas, a enorme vari­a­ção no padrão de beleza con­si­de­rado ideal, são bons exem­plos de como somos mol­da­dos bio­lo­gi­ca­mente para res­pon­der a variá­veis ambi­en­tais, como pre­va­lên­cia de pató­ge­nos e índi­ces de peri­cu­lo­si­dade.

À pri­meira vista, a beleza é sub­je­tiva, ou seja, total­mente ale­a­tó­ria, depen­dendo do gosto pes­soal do indi­ví­duo. O melhor modo de colo­car esse dilema é que a nossa opi­nião pes­soal em rela­ção ao que é mais belo sofre influên­cia das variá­veis eco­ló­gi­cas, mas variá­veis espe­ci­ais, impor­tan­tes na his­tó­ria evo­lu­tiva do Homo sapi­ens.

É como com ros­tos. Nin­guém é sufi­ci­en­te­mente feio que não possa ser con­si­de­rado atra­ente por nin­guém.

Por exem­plo, em geral, quanto mais mas­cu­lina uma face, mais atra­ente as mulhe­res a con­si­de­ram. Mas esse resul­tado pode se tor­nar mais com­plexo se adi­ci­o­nar­mos mais variá­veis nas aná­li­ses. A pre­fe­rên­cia femi­nina pela mas­cu­li­ni­dade das faces é bem maior entre as mulhe­res de paí­ses como a Jamaica do que em outros, como Reino Unido.

Apa­ren­te­mente o que pro­voca essa dife­rença é o risco de con­ta­mi­na­ção por pató­ge­nos na Jamaica que é bem maior, como mos­tra um estudo publi­cado em 2010. Essas carac­te­rís­ti­cas mais mas­cu­li­nas indi­cam maior ação de tes­tos­te­rona no orga­nismo, que é um indi­ca­tivo indi­reto de maior saúde.

Variá­veis endó­ge­nas tam­bém fazem parte dessa equa­ção ao mesmo tempo bio­ló­gica, ao mesmo tempo ambi­en­tal. Uma recente meta­ná­lise mos­trou que a vari­a­ção no ciclo mens­trual tem impor­tan­tes efei­tos sobre as pre­fe­rên­cias femi­ni­nas quanto ao par­ceiro ideal.

As evi­dên­cias indi­cam que no período fér­til, espe­ci­al­mente se esti­ve­rem dis­pos­tas a rela­ções de curto prazo, sua pre­fe­rên­cia recai sobre as carac­te­rís­ti­cas mas­cu­li­nas que indi­cam boa ‘qua­li­dade gené­tica’ (ros­tos mais más­cu­los, ombros mais lar­gos, sta­tus, domi­na­ção, maior índice de con­sumo cons­pí­cuo e etc).


Troque o conflito pela síntese

Pas­sar a enten­der o com­por­ta­mento humano (e de outros ani­mais) como fruto de uma série de esfe­ras dife­ren­tes e com­ple­men­ta­res nos leva a abor­da­gens muito mais inte­li­gen­tes e a ques­tões novas muito mais ins­ti­gan­tes do que aque­las que se limi­tam a ver natu­reza e cul­tura como variá­veis sepa­ra­das — ou mesmo como sendo o ser humano exclu­si­va­mente “cul­tu­ral”. 

Infe­liz­mente, o Bra­sil anda ultra­pas­sado nesse que­sito. Ainda ensi­na­mos abor­da­gens anti­gas e ainda cri­ti­ca­mos as novas (que geral­mente têm mais evi­dên­cias do que mui­tas teo­rias mais tra­di­ci­o­nais).

Laboratório de Pesquisa em Psicologia Social - L2PS | logo | instintos

Labo­ra­tó­rio de Pes­quisa em Psi­co­lo­gia Social — L2PS

Cur­sos de Huma­nas, ainda com­pro­me­ti­dos com a for­ma­ção de uma visão mar­xista, pre­fe­rem expli­ca­ções sobre o com­por­ta­mento que são as mais dese­já­veis para fins de mili­tân­cias, ou, ima­gi­nam eles, mais éti­cas.

É esse novo fôlego que ten­ta­mos dar na psi­co­lo­gia no Labo­ra­tó­rio de Pes­quisa em Psi­co­lo­gia Social (L2PS), na PUC-Rio.

Lá esta­mos o tempo todo dis­cu­tindo como a psi­co­lo­gia social, espe­ci­al­mente no estudo dos rela­ci­o­na­men­tos e pre­fe­rên­cias amo­ro­sas, se bene­fi­cia enor­me­mente da incor­po­ra­ção da evo­lu­ção e até da eco­no­mia (temos con­cei­tos como mer­cado amo­roso). 

Para fina­li­zar, aviso que pre­tendo escre­ver em breve um texto a res­peito das prin­ci­pais dúvi­das sobre ins­tinto que os lei­to­res têm envi­ado pela fan­page do AZ, mas você pode dei­xar sua dúvida aqui nos comen­tá­rios. A ideia é que o pró­ximo texto seja mais pon­tual e menos geral, como foi este.

Mas que­ria dei­xar como ideia prin­ci­pal que tome­mos cui­dado ao usar alguns ter­mos da bio­lo­gia para expli­car com­por­ta­men­tos.

Usar “ins­tinto” pode con­fun­dir mais que aju­dar, pois seu sig­ni­fi­cado pode variar depen­dendo de quem o usa. Tro­que mais vezes “ins­tinto” por pre­dis­po­si­ção: ape­sar de tam­bém gerar con­fu­sões, chega mais pró­ximo da fle­xi­bi­li­dade e da raiz bio­ló­gica que todos os com­por­ta­men­tos têm.


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Felipe Novaes
Já quis ser paleontólogo, biólogo, astrônomo, filósofo e neurocientista, mas parece ter se encontrado na psicologia evolucionista. Nas horas vagas lê compulsivamente, escreve textos sobre a vida, o universo e tudo mais, e arruma um tempinho para o Positrônico Podcast. Contudo, durante todo o tempo procura se aprimorar na sabedoria e nas artes jedis do aikido.

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