“Agora a psicologia se assentará sobre um novo alicerce” ~ Charles Darwin

“Genes estão constantemente se ligando e desligando em resposta a condições tais como estresse, fome ou doença. Agora imagine estes genes dinâmicos construindo veículos (pessoas) que estão obcecadas em se expor a novos climas, predadores, parasitas, opções de comida, estruturas sociais e formas de guerra.” ~ Jonathan Haidt


Estava eu no segundo período do curso de Psicologia. Era uma das primeiras aulas de Antropologia, e eu estava bem empolgado. Eu imaginava que um antropólogo era uma espécie de Indiana Jones que estudava pessoas e não artefatos. Com chapéu e tudo, junto com aquele coletinho que arqueólogos usam.

Já tinha percebido que o Professor era uma sumidade na área, prestes a se aposentar e com nenhuma trava na língua – e com algum mau humor. A preocupação dele ali não era exatamente dar aula, cumprir um conteúdo programático. Ele queria destilar sua erudição acumulada. Era como um vulcão prestes a entrar em erupção.

E isso não é bem uma reclamação. As aulas contavam com dissertações longas e emotivas desde suas mais sofisticadas experiências com o sistema educacional francês até o que certos índios da Amazônia achavam de suas próprias bufas – com direito a imitações com o sovaco e com a boca.

[optinform]

Como bom representante de Franz Boas, ícone da Antropologia Cultural, o acadêmico estava num dos extremos de um gradiente que dizia que tudo era cultural, que a biologia só estava ali em suas manifestações irritantemente óbvias: “Temos dois braços, uma cabeça, duas pernas. O resto é cultura.” – dizia ele.

Um dia comentei que estava lendo um livro do psicolinguista e psicólogo evolucionista Steven Pinker e que o pesquisador dizia que as emoções básicas eram universais, “eram biológicas”. Nesse momento o grisalho professor fez uma cara estranha. Parecia que um padre, em plena missa, tinha ouvido uma anti-versão dos 10 mandamentos, sei lá.

“Mas como o nojo pode ser uma emoção universal, se os chineses não tem nojo de comer pau de cachorro?”

Eu ri discretamente. Tentei dizer que a questão ali era o nojo em si, não seu objeto. Ele ignorou e continuou praguejando.


Entre o ethos e a tabula rasa

O que está por trás da resistência em relação aos universais humanos é um já antigo conflito nomeado nature x nurture, ou natureza versus cultura.

nature x nurture | natureza versus cultura | instintos

Essa oposição entrou em ebulição por quase todo o século XX, mas ainda hoje parece causar alguns tremores de terra aqui e ali. Prova disso é a publicação e o sucesso, nos anos 2000, do calhamaço do Steven Pinker: Tábusa Rasa – A Negação Contemporânea da Natureza Humana.

Em suma, ele explica como a visão que concebe o ser humano como uma folha de papel que nasce em branco e é preenchida inteiramente pelo ambiente é errada, assim como alegar que somos indivíduos movidos inteiramente por reflexos inatos em resposta a gatilhos ambientais.

Esse tema foi a base da disputa intelectual de décadas atrás entre a psicologia, liderada pelo behaviorismo, e a etologia.

Nesse momento, a psicologia tentava se consolidar como uma ciência do comportamento humano, o que era uma resposta à não cientificidade da psicanálise, que era o que tinha de mais próximo de uma psicologia na época.

Para os behavioristas, toda a psicologia se resumiria a desvendar quais estímulos ambientais desencadeariam quais respostas no organismo. Não haveriam predisposições, comportamentos inatos, nada disso.

Hoje alguns behavioristas contestam essa visão de tábula rasa, alegando que nunca pensaram assim na realidade; de qualquer forma, o Behaviorismo Radical de Skinner, o behaviorismo mais moderno, digamos, leva em conta estímulos incondicionados, que leva em conta tais predisposições.

Por outro lado, a etologia era o estudo do ethos, caráter em grego – que aqui tem um significado um tanto diferente do da sociologia.

Através de uma proposta metodológica diferente para estudar e manipular o comportamento animal, para os etólogos – que nesse momento estudavam animais não-humanos – não havia como espécie alguma ter comportamentos tão complexos por puro aprendizado.

Teria de haver algo como predisposições que facilitassem o aprendizado, ou comportamentos mais obviamente instintivos, como se fossem reflexos automáticos.

O problema é que aos poucos essas escolas se polarizaram. As Humanas criaram aversão às explicações que levassem em conta a biologia, enquanto a etologia acabou criando explicações anedóticas que confundiam explicações biológicas e evolutivas com uma legislação sobre o que é moral e imoral.

Não existiam estudos controlados e teste de hipóteses. Apenas pegava-se um comportamento e se especulava sobre sua raiz evolutiva.

Esse é um erro que as ciências integradoras que estudam esse assunto sob a ótica da evolução, como ecologia comportamental e psicologia evolucionista, não cometem mais – como mostrei num recente texto sobre o estudo da personalidade.

Por alto dá para perceber que o debate envolvendo a questão do instinto entre humanos não é nada simples, nem novo. Porém, hoje a discussão se atualizou, de forma que não é nem mesmo muito útil nos referirmos a algo como instinto, dada a integração indissolúvel entre ambiente, cultura e evolução.

É como já disse sobre personalidade e sexualidade: tudo depende da ecologia.


Instinto

Ok, mas até agora estou falando sobre algo que não defini muito bem. De maneira resumida, podemos definir o instinto com um número limitado de afirmativas:

(i) comportamentos inatos;

(ii) comportamento fixo;

(iii) comportamento automático;

(iv) engatilhado por um estímulo.

Grande parte dos comportamentos, mesmo em animais não humanos, não contemplam as características acima. Muitos deles podem sim nascer já com os animais, mas ainda rústicos, sendo refinados pelo ambiente, pela experiência. Alguns só despertam com a maturidade, por exemplo.

As aranhas não nascem sabendo completamente fazer teia. A habilidade de tecer teias vai sendo aprimorada ao longo da vida do animal, conforme ele exercita isso. Ao menos foi isso que pude reter de alguns dos artigos do proeminente etólogo da USP, já falecido, César Ades.

A visão clássica de instinto prega que os animais são como robôs que nascem prontos e vão respondendo ao ambiente automaticamente – aliás, isso é tão ultrapassado que essa própria metáfora é ultrapassada, pois existem IAs programadas pra aprender com a experiência já.

O Homo sapiens é especialmente complexo nesse sentido. Nossa espécie foi moldada ao longo da seleção natural para responder a uma multiplicidade de contextos. Por isso é difícil para quem estuda o assunto ouvir, por exemplo, que o ser humano é naturalmente poligâmico ou monogâmico, violento ou pacífico.

O mesmo serve para a magnitude de certas características consideradas atraentes no sexo oposto. Nossa natureza não é uma coisa nem outra. Em outras palavras, temos a potencialidade para todas essas características.


Nenhum ou mil instintos para o amor?

Fundador da Playboy, Hugh Hefner, em 1969.
Fundador da Playboy, Hugh Hefner, em 1969.

Em Tábula Rasa e em Como a Mente Funciona, Pinker diz que o ser humano é tão flexível e tão suscetível ao aprendizado porque possui muito mais instintos do que as outras espécies, não menos.

Eu não usaria o termo instinto, mas se quisermos requentar a palavra para que ela signifique predisposição a uma pluralidade de comportamentos moldados ao longo da história evolutiva das espécies, aí é mais aceitável.

As múltiplas possibilidades de uniões amorosas, a enorme variação no padrão de beleza considerado ideal, são bons exemplos de como somos moldados biologicamente para responder a variáveis ambientais, como prevalência de patógenos e índices de periculosidade.

À primeira vista, a beleza é subjetiva, ou seja, totalmente aleatória, dependendo do gosto pessoal do indivíduo. O melhor modo de colocar esse dilema é que a nossa opinião pessoal em relação ao que é mais belo sofre influência das variáveis ecológicas, mas variáveis especiais, importantes na história evolutiva do Homo sapiens.

É como com rostos. Ninguém é suficientemente feio que não possa ser considerado atraente por ninguém.

Por exemplo, em geral, quanto mais masculina uma face, mais atraente as mulheres a consideram. Mas esse resultado pode se tornar mais complexo se adicionarmos mais variáveis nas análises. A preferência feminina pela masculinidade das faces é bem maior entre as mulheres de países como a Jamaica do que em outros, como Reino Unido.

Aparentemente o que provoca essa diferença é o risco de contaminação por patógenos na Jamaica que é bem maior, como mostra um estudo publicado em 2010. Essas características mais masculinas indicam maior ação de testosterona no organismo, que é um indicativo indireto de maior saúde.

Variáveis endógenas também fazem parte dessa equação ao mesmo tempo biológica, ao mesmo tempo ambiental. Uma recente metanálise mostrou que a variação no ciclo menstrual tem importantes efeitos sobre as preferências femininas quanto ao parceiro ideal.

As evidências indicam que no período fértil, especialmente se estiverem dispostas a relações de curto prazo, sua preferência recai sobre as características masculinas que indicam boa ‘qualidade genética’ (rostos mais másculos, ombros mais largos, status, dominação, maior índice de consumo conspícuo e etc).


Troque o conflito pela síntese

Passar a entender o comportamento humano (e de outros animais) como fruto de uma série de esferas diferentes e complementares nos leva a abordagens muito mais inteligentes e a questões novas muito mais instigantes do que aquelas que se limitam a ver natureza e cultura como variáveis separadas – ou mesmo como sendo o ser humano exclusivamente “cultural”. 

Infelizmente, o Brasil anda ultrapassado nesse quesito. Ainda ensinamos abordagens antigas e ainda criticamos as novas (que geralmente têm mais evidências do que muitas teorias mais tradicionais).

Laboratório de Pesquisa em Psicologia Social - L2PS | logo | instintos
Laboratório de Pesquisa em Psicologia Social – L2PS

Cursos de Humanas, ainda comprometidos com a formação de uma visão marxista, preferem explicações sobre o comportamento que são as mais desejáveis para fins de militâncias, ou, imaginam eles, mais éticas.

É esse novo fôlego que tentamos dar na psicologia no Laboratório de Pesquisa em Psicologia Social (L2PS), na PUC-Rio.

Lá estamos o tempo todo discutindo como a psicologia social, especialmente no estudo dos relacionamentos e preferências amorosas, se beneficia enormemente da incorporação da evolução e até da economia (temos conceitos como mercado amoroso). 

Para finalizar, aviso que pretendo escrever em breve um texto a respeito das principais dúvidas sobre instinto que os leitores têm enviado pela fanpage do AZ, mas você pode deixar sua dúvida aqui nos comentários. A ideia é que o próximo texto seja mais pontual e menos geral, como foi este.

Mas queria deixar como ideia principal que tomemos cuidado ao usar alguns termos da biologia para explicar comportamentos.

Usar “instinto” pode confundir mais que ajudar, pois seu significado pode variar dependendo de quem o usa. Troque mais vezes “instinto” por predisposição: apesar de também gerar confusões, chega mais próximo da flexibilidade e da raiz biológica que todos os comportamentos têm.


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Felipe Novaes
Já quis ser paleontólogo, biólogo, astrônomo, filósofo e neurocientista, mas parece ter se encontrado na psicologia evolucionista. Nas horas vagas lê compulsivamente, escreve textos sobre a vida, o universo e tudo mais, e arruma um tempinho para o Positrônico Podcast. Contudo, durante todo o tempo procura se aprimorar na sabedoria e nas artes jedis do aikido.
  • Geh Rocha Freitas

    Felipe, que texto foda! Começou citando o Jonathan Haidt, começou acertando. Ele tem uma palestra sensacional sobre os problemas atuais do viés político na universidade que é quase obrigatória.
    Outros pesquisadores da área que despertam meu interesse são Gad Saad – que tem canal no youtube e escreve para a psychology today – e o Geoffrey Miller que fez o livro Mate baseando-se nas últimas pesquisas de psicologia evolutiva.

    Dizem que o ciclo menstrual influencia nas preferências femininas e também influi no modo como elas se vestem. O Geoffrey miller em um estudo recente também observou que mulheres no período ovulatório ganham mais dinheiro em bares de strip. Só não conseguiu determinar se as mulheres que agiam de forma mais provocativa ou os homens que reagiam por alguma razão quiçá hormonal.

    Sobre a beleza, se não me engano, o único “denominador comum” que encontraram em relação às mulheres – isso levando em conta as evidentes discrepâncias – era a relação de 0,7 cintura-quadril. Conseguiram traçar um paralelo de correlação entre essa proporção e partos mais saudáveis.

    Enfim, texto excelente, fico na expectativa dos próximos.

    Grande abraço!

    • Cara, seus comentários também são sempre bem legais e acrescentam bastante!

      Me diz uma coisa: que palestra é essa do Haidt?

      Poxa, olha a coincidência! Eu uso parte da bibliografia do Saad como referência no meu projeto de mestrado! E o que me inspirou no tema foi justamente um dos livros do Miller: Darwin vai às compras.

      “Sobre a beleza, se não me engano, o único “denominador comum” que encontraram em relação às mulheres – isso levando em conta as evidentes discrepâncias – era a relação de 0,7 cintura-quadril. ”

      Então, sim, as melhores evidências são sobre isso. Mas tem estudos de antropologia evolutiva que contestam essa média. Parece que ela só é válida em sociedades globalizadas. Os homens que compõem tribos de caçadores-coletores preferem mulheres mais roliças. Essa preferência masculina pela relação cintura-quadril é suscetível aos hábitos alimentares do grupo, à oferta de alimento.

      Caçadores-coletores não tem oferta de alimento regular o ano todo, então mulheres com relação cintura-quadril lá estariam passando fome, não em forma. Isso significa que eles preferem médias saudáveis mas ao mesmo compatíveis com a disponibilidade de alimentos. Mulheres mais cheinhas são mais belas lá — assim como era na Europa do Renascimento e Medieval.

      Mas uma conclusão é bem clara aí: a relação cintura-quadril é um importante lócus de beleza feminina, por mais que varie um pouco dependendo desses fatores que citei. Não é algo que varia aleatoriamente.

      Espero ter contribuído pro debate!

      Grande abraço!

      • Geh Rocha Freitas

        Está na mão:
        “WHY SO MANY AMERICANS DON’T WANT SOCIAL JUSTICE AND DON’T TRUST SCIENTISTS”
        https://www.youtube.com/watch?v=b86dzTFJbkc

        Vale muito a pena. O foco da palestra é o problema do viés político dentro da academia e como a predominância do pensamento de esquerda dentro dos campus acadêmicos está contaminando a ciência.

        Então Felipe, está de acordo com a informação que tive acesso – via Gad Saad inclusive. O nível de gordura corporal varia de acordo com a disposição de recursos, mas a proporção cintura-quadril se mantém, pois é um indicativo mor de saúde, onde podemos estabelecer, inclusive, uma correlação entre esse ratio e partos mais saudáveis. Isso, por si só, já demole o sócio construtivismo fabulesco onde algumas humanidades se baseiam pra desenhar quadros conceituais bastante descolados da realidade.

      • Geh Rocha Freitas

        Aliás, em outra ocasião já até cheguei a apresentar a você o modo como eu vejo as ciências baseadas em hierarquias.
        O mundo é a priori físico e comandado pelas leis da física. Logo, a química deve levar em consideração os postulados físicos para suas teorias. Seria absurdo um químico ignorar a entropia pois esta veio da física. Seria igualmente estúpido um biólogo ignorar a estequiometria pois esta veio da química. No entanto, é comum várias ciências humanas que tratam da interação do homem com outros homens e consigo mesmo ignorarem a natureza a priori biológica do homem, sendo que por uma razão puramente lógica esse aspecto deveria ser o primeiro a ser levado em consideração.

        Devo salientar que eu dizer que a física não pode ser ignorada na química não significa que a química se reduz à física, a química, em seu campo de atuação, abarca aspectos mais amplos que a física, no entanto, o que eu afirmo é que é totalmente descabido ignorá-la.

        Grande abraço!

        • Talvez sem intenção vc abordou uma polêmica interessante, que é o reducionismo. Não lembro se já conversamos sobre isso em outro texto.

          O lance é que não tem nada de errado com o reducionismo como posição filosófica. Afinal, é como vc falou: seria tolice negar que a física é um nível mais básico de análise do mundo, seguido pela química e pela biologia, para depois falarmos da psicologia e, finalmente, do social. Mas essas duas últimas são componentes mais complexos de um esquema reducionista, mas eu acho bem coerente.

          O que muita gente acaba achando ruim e chamando genericamente de reducionismo é o ELIMINATIVISMO.

          Dizer que a física descreve o mundo de uma forma mais básica que a química não é a mesma coisa que alegar que podemos explicar toda a química através da física. Isso talvez não seja tão polêmico, mas a coisa começa a esquentar quando os eliminativistas dizem que a psicologia pode ser não só reduzida como também eliminada, em favor de explicações neurobiológicas. Elas seriam mais básicas e MAIS VERDADEIRAS.

          Sobre isso é que não estou certo e acho que a maior dos cientistas não está.

          Valeu pela dica de vídeo! Vou ver!

          Abração!

          • Geh Rocha Freitas

            Precisamente.
            A química não se reduz à física, mas a física, dentro da química, não pode ser ignorada. A psicologia não se reduz à biologia, mas a psicologia dentro de um contexto humano essencialmente biológico não pode ser ignorada. Não que de alguma maneira consigamos encontrar todas as respostas dentro da biologia, isso é um engodo, mas fingir que ela não existe ou não afeta a psicologia humana – e de maneira muito evidente – é totalmente descabido.
            Eu já encontrei alguns cientistas, especialmente no campo da neurociência, que tem essa gana de explicar todos os fenômenos através da própria área de atuação. Alguns eram especialmente polêmicos, sugerindo que até as penas carcerárias poderiam ser definidas através de uma análise da capacidade de aprender e se arrepender dos próprios atos, que, segundo eles, atualmente é mensurável.
            E na contramão desse pessoal que vê uma padronização inescapável no humano, há o pessoal que nega qualquer tipo de padrão, onde o aspecto humano de cada um é particularíssimo no macro e no micro. Não há uma essência, ou sequer uma linha comum a ser traçada. Vejo que muito das ciências humanas cabem nesse último. A negação de universais humanos é bem típico, ainda mais para quem gosta de imaginar a nós como massinhas de modelar infinitamente maleáveis.

            Abraço!

          • Velho, muitas coisas hoje são mensuráveis. Não duvido que a capacidade de arrependimento, por exemplo, seja. A psicologia científica, parte dela, precisa dessas medidas, ou então não tem como fazer ciência.

            A grande questão é pra que estamos usando essas ferramentas. Aí entra mais a discussão ética. Eu realmente não sei dizer até que ponto seria eticamente ok determinar a pena de alguém pela capacidade de arrependimento mensurada por um instrumento psicométrico ou por algum tipo de medida neurobiológica. É algo possível, mas temos que discutir se é cabível que se faça assim.

  • Marco Aurélio

    Excelente texto, uma das coisas que mais contaminam os movimentos sociais hoje em dia é a insistência nessa dualidade biologia x cultura, não aceitando inclusive críticas por toda aquela questão do lugar de fala, protagonismo etc; mas isso é outro assunto heheh Chegou ao ponto de uma ativista do movimento negro negar um debate com o Eli Vieira sob a justificativa de ~ser de uma escola epistemológica diferente, que não aceita a biologia no estudo das ciências sociais. O próprio Eli, num texto criticando essa posição dela, comenta sobre como as áreas do conhecimento podem se complementar de forma muito positiva, citando o clássico, entre outros, “Armas, Germes e Aço” do Jared Diamond.

    • Isso é um sintoma do uso que teorias biológicas tiveram como justificativa para iniciativas políticas bizarras, como acontecia muito de meados do seculo XX pra trás.

      Como resquício, muita gente continua encasquetando e se recusando a se atualizar. Principalmente aqui no Brasil, mas ainda tem gente assim até em países com ciência de ponta, como Dinamarca.

  • Ricardo Neves de Almeida Filho

    Felipe, sempre pensei na possibilidade de haver uma espécie de linha que separasse o lado animal do lado racional do ser humano, algo como, x comportamento é aprendido, x comportamento é inato. Com estes estudos chegaríamos num ponto de pensar que isso simplesmente não é possível, ou seja, que o nosso lado animal e racional trabalham o tempo todo em conjunto e não faz sentido pensá-los de forma separada?

    Ou estou falando bobagem? uhsahsusuhah

    • Eu estou mais inclinado a pensar nessa última. É muito difícil separarmos o que é estritamente racional do que é estritamente inato, “animal”. Isso porque a nossa habilidade de pensar racionalmente — o que permite a criação da filosofia, por exemplo — é sobreposta por sistemas emocionais também, e não há nada mais “instintivo” do que as emoções. O Damásio fala muito sobre isso no clássico O Erro de Descartes.

      Ou seja, por mais que tenhamos umas habilidades exclusivamente humanas, elas não estão ali num vácuo. Na base delas existem sistemas biológicos bem essenciais operando.

      Somos animais, ainda que com algumas características singulares.

      • Ricardo Neves de Almeida Filho

        Eu já tinha lido um material de psicologia social que questionava essa ideia de indivíduo x sociedade, colocando que não existe o eu sem o outro. Ou seja, outro conceito fortemente trabalhado por aí. O mais importante disso tudo é manter a mente aberta para entender o que de novo vem por aí, e deixarmos algumas “verdades” para trás.

        • Isso que vc leu deve ter vindo da psicologia social sociológica, ou sócio-histórica. São abordagens bem diferentes.