Em um Papo de Bar recente do Ano Zero, o tema foi a discussão político-partidária que seguiu a apresentação do exosqueleto de Miguel Nicolelis na abertura da Copa. Contudo, o que me interessou mais foi o desenvolvimento dos comentários. O tema escapuliu da questão estrita sobre ciência e política e adentrou nos meandros da epistemologia.

Duas posições epistemológicas sobressaíram-se: as de Karl Popper e Thomas Kuhn. Duas figuras importantíssimas para filosofia da ciência, cada um propôs uma explicação de como a ciência funciona e do método científico. Porém, creio que nenhum debate sobre epistemologia científica atualmente é completo sem citar Paul Feyerabend, denominado por muitos como “o pior inimigo da ciência”, razão pela qual fiz um breve comentário sobre sua ausência naquele Papo de Bar. Victor Lisboa, o editor de Ano Zero, ficou interessado e me pediu para escrever sobre Feyerabend. Convite feito, convite alegremente aceito.

Antes de adentrar o assunto, um aviso: apesar de ser simpático a muitas posições de Feyerabend, certamente elas não são imunes a críticas, como mostrarei. Minha visão de epistemologia está mais afinada com a proposta de Charles S. Peirce e Susan Haack e suas concepções pragmáticas de evidência, investigação e justificação de crenças, permeada pela epistemologia da complexidade elaborada por Edgar Morin.

Aliás, considero a obra Defending science – within reason: between scientism and cynicism, de Haack, bastante valiosa para um panorama atual da epistemologia científica e seus problemas. Nesse livro, tomei conhecimento de um artigo publicado pela revista Nature em Outubro de 1987, intitulado “Where science has gone wrong”, que me permitiu o breve delineamento das ideias de Popper, Lakatos e Kuhn que realizarei logo adiante. O artigo apresentava a foto dos quatro pensadores, abaixo com a provocante legenda “traidores da verdade?”.

Traidores da verdade? Da esquerda para direita: Karl Popper, Imre Lakatos, Thomas Kuhn e Paul Feyerabend
Da esquerda para direita: Karl Popper, Imre Lakatos, Thomas Kuhn e Paul Feyerabend

Portanto, a afirmação que farei no texto, de que Popper, Lakatos, Kuhn excluíram a noção de verdade das ciências em detrimento do falseacionismo ou historicismo científico-sociológico, permitindo o anarquismo científico e iconoclasta de Feyerabend, foi inspirada na legenda do artigo. Levando tudo isto em conta, nada mais natural que, para compreender a posição de Feyerabend, tracemos um rápido (e incompleto) esboço das ideias dos supracitados Popper e Kuhn, conhecendo um pouco sobre a síntese de ambos pensadores realizada por Imre Lakatos.

 

1. Karl Popper e como trair a verdade

Popper sentia extremo incômodo com afirmações de que as teorias de Marx e Freud, por exemplo, eram científicas. Entretanto, não dispunha de nenhuma forma de refutá-las conclusivamente; as de Einstein, por outro lado, pareciam ser capazes de realizar previsões falsas. Sua solução para o impasse partiu de uma simples premissa: a irrefutabilidade não é uma vantagem teórica, mas antes, um defeito. Uma teoria seria científica apenas enquanto passível de falseamento.

Assim, dizer que “a Terra é quase redonda” não é uma afirmação científica por não ser falseável, mas afirmar que “a Terra é plana”, sim. Então, o objeto da ciência é somente aquilo que pode ser refutado por uma contraprova. Neste processo, a noção positivista ou filosófica de verdade sofre um sério baque, reforçado pelas concepções indeterministas do universo (com as quais que Popper simpatizava).

Porém, Popper indicou que toda observação pressupõe uma sustentação teórica, ou mais precisamente, que qualquer observação é teórica: “Dados dos sentidos (sense-data), itens não-teóricos de observação, simplesmente não existem”. Isto gera uma complicação da qual ele parece não ter se dado conta inteiramente, pois, se levada às últimas consequências, significa que toda observação não passa de uma teoria. Assim sendo, como uma teoria poderia falsear e verificar a validade de outra teoria?

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2. Imre Lakatos e o programa degenerado

Quem tentou resolver este dilema foi Imre Lakatos, que concluiu que as teorias científicas não eram verificáveis ou tampouco falseáveis, e que se uma teoria é refutada, ela não é necessariamente falsa. Proposições refutadas tornam-se algo diferente de afirmações falsas. Se falseabilidade e verificabilidade não são critérios que definem a ciência, então o que poderia constituir uma proposição científica?

Lakatos, levando em conta as noções desenvolvidas por Kuhn em A estrutura das Revoluções Científicas (mais detalhadas adiante), tenta casar a noção de progresso científico deste com uma versão mais elaborada da falseabilidade popperiana. Para Lakatos, uma teoria científica consiste de um núcleo conceitual sólido cercado de asserções auxiliares. O núcleo não pode ser afetado apenas pela observação, e sim, por uma teoria alternativa, o que ele chamou de transferência de problemas (problemshift). A transferência de problemas se realiza por meio de um programa de pesquisa.

Para Lakatos, a garantia científica é determinada se o caminho do programa gerar novas informações e transferências de problemas; se isto não ocorrer, o programa torna-se degenerado. Contudo (como Feyerabend notaria), esta postura de Lakatos no fundo deixa seu sistema epistemológico – ou de Popper – sem qualquer base racional convincente, visto que mesmo um programa degenerado poderia ser redimir levando em conta fatores não-científicos.

 

3. Thomas Kuhn e a sucessão de paradigmas

Lakatos parece sustentar a proposta de Thomas Kuhn: uma afirmação é científica se assim for determinado pela comunidade de pesquisadores. Kuhn constatou que os avanços científicos não surgem em um processo gradual e acumulativo de conhecimento, mas sim em períodos geralmente longos de conformidade intelectual sacudidos por revoluções conceituais breves e violentas que destronam o status quo anterior, para então formar um novo período de conformidade a ser derrubado futuramente.

O período de conformismo, nos quais os cientistas se prendem a um conjunto de métodos e teorias padronizados, é denominado de “ciência normal”, representante daquilo que Kuhn denomina de “paradigma”. Na revolução científica, um novo paradigma emerge para tomar o lugar do antigo. A ciência seria uma questão de paradigmas em eterna mutação, processo este, conforme salienta Kuhn, que não necessariamente conduz o cientista à verdade.

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Entretanto, Popper, Lakatos e Kuhn são defensores de uma objetividade científica e metodológica e críticos de relativismos epistemológicos, ainda que em graus variados. Popper, por exemplo, chegou a afirmar que o método científico não existia, mas que devíamos seguir algumas regras de pensamento e procedimento. Mas o importante é: se mesmo eles, apoiadores do discurso científico, relegam a noção de verdade como preocupação de segundo plano – se tanto! – não surpreende que, por fim, surja o discurso devastador, irônico e anarquista de Paul Feyerabend.

 

4. O pior inimigo da ciência

É importante ressaltar que Popper, Lakatos, Kuhn e Feyerabend se conheciam ou tinham compreensão das ideias uns dos outros – e que, apesar das disparidades teóricas, Lakatos e Feyerabend foram grandes amigos. Mas a trajetória intelectual de Feyerabend foi extremamente camaleônica. Nascido em 1924, não foi exatamente uma criança-prodígio, mas aos dezesseis anos, tinha a reputação de saber mais de matemática e física do que seus professores  (o que não evitou sua expulsão da escola em certa ocasião). Sua ligação com a filosofia surgiu de forma inesperada: interessado em artes dramáticas, Feyerabend chegou a atuar, e muitos dos livros que adquiria sobre peças teatrais continham ensaios filosóficos sobre dramaturgia.

Contudo, o talento para as áreas exatas ainda era alimentado por seus professores, que o incitavam a estudar física e astronomia. Por outro lado,ao mesmo tempo desenvolvia uma nova paixão, que, juntamente com teatro, o acompanharia para o resto da vida: o canto. Chegou a ser pupilo do cantor de ópera Adolf Vogel, mas o início da Segunda Guerra Mundial provocou um hiato em sua rotina dramático-científica.

Convocado em 1942, Feyerabend lutou pela Alemanha, sendo inclusive condecorado com a Cruz de Ferro. Porém, durante a retirada do exército alemão frente ao avanço russo, foi ferido por uma bala que atingiu sua espinha, deixando-o temporariamente paralítico e com dificuldades de locomoção até o fim de sua vida, assim como resultou em impotência sexual permanente.

Depois da guerra, ele retomou a carreira dramática e operística. Porém, insatisfeito, regressou à ciência, e, em 1948, conheceu Karl Popper, de quem foi aluno. Também se envolveu com vários intelectuais marxistas, começando a paulatinamente se desgarrar do positivismo. Pouco depois, fez parte do Círculo de Kraft, no qual conheceu Wittgenstein. Em 1949, ele abriu mão de se tornar assistente de produção de Bertolt Brecht (uma decisão que lamentaria profundamente), e no universo acadêmico trocou a física pela filosofia. Wittgenstein aceitou Feyerabend como aluno em Cambridge, mas morreu antes que o futuro estudante chegasse ao Reino Unido. Consequentemente, a orientação de Feyerabend ficou a cargo de Popper.

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Em 1955, auxiliado por Popper e Erwin Schrödinger, ele conseguiu cargo como professor na Universidade de Bristol, ministrando aulas de filosofia da ciência, enquanto escrevia uma série de artigos sobre as interpretações da física quântica. Em 1958 foi convidado aos Estados Unidos e conheceu Thomas Kuhn, sendo posteriormente convidado a lecionar em Berkeley.

Feyerabend, admirador de A Liberdade, famoso ensaio de Stuart Mill publicado em 1859 sobre liberdades individuais e que denunciava a “tirania da maioria”, percebeu, em 1965, que a metodologia da ciência tinha algo de tirânico. Conversando com um físico (C. F. Von Wizsäcker) e criticando-o com base em considerações metodológicas, Feyerabend percebeu que sua crítica se impunha sem a menor consideração pelas condições ou circunstâncias que levavam ao posicionamento de seu interlocutor.

A partir daí começou a trilhar o caminho que levaria a seu “anarquismo” científico, pois concluía que se alguém tentasse resolver um problema, fosse científico ou não, deveria desfrutar de completa liberdade, sem ser restringido por normas (ainda que fossem plausíveis) e que tais normas não poderiam se submeter a uma suposta teoria da racionalidade. Feyerabend passou a enxergar uma similaridade entre os dogmas religiosos e o pensamento científico.

Em fins dos anos 1960, ele fez uma série de conferências em Londres e conheceu Imre Lakatos, mantendo forte amizade e uma relação intelectual bastante produtiva. Contra o Método, a obra mais famosa de Feyerabend, surgiu como uma “brincadeira” proposta por Lakatos: Feyerabend faria suas críticas ao racionalismo científico e a pretensão de qualquer metodologia se apoiar em bases racionais, que seriam respondidas por Lakatos.

O falecimento do amigo em 1974 impediu que a proposta se concretizasse da forma imaginada, e o livro saiu sem as réplicas de Lakatos, provocando um abalo sísmico na epistemologia da ciência com suas acusações, gerando uma onda de ataques a Feyerabend, que incluíam desde chamá-lo de anarquista, relativista e irracionalista até apontamentos sobre interpretações filosóficas e científicas inexatas que ele teria apresentado na obra. Ataques que, mesmo fundamentados em alguns casos, ainda hoje não proporcionaram uma contestação satisfatória que pudesse salvaguardar a racionalidade científica.

5. O Vale tudo científico

Para Feyerabend, se analisarmos a história da ciência, encontramos inúmeros exemplos de descobertas que não se devem a qualquer aplicação pura ou consistente de uma metodologia racional. Hipóteses não fundamentadas, conclusões idiossincráticas, retórica sinuosa, invenção de dados e informações: tudo isto também faz a ciência se desenvolver, e não uma racionalidade intrínseca às ciências.

Como ilustração, ele tomou o caso de Galileu, argumentando, por exemplo, que a recusa da Igreja em reconhecer as teorias propostas pelo astrônomo não tinham origem, como se imagina, do dogmatismo religioso: ao contrário, Feyerabend afirma que a Igreja se opôs a Galileu justamente por se ater ao que era dito pela ciência do período. Galileu não conseguia dar repostas teóricas satisfatórias ou apresentar evidências de que suas ideias podiam ser corretas, mesmo a seus pares intelectuais, frustrando assim a aceitação de suas novas concepções. Tentando reverter isso, desenvolveu teorias ad hoc sem fundamentos razoáveis para tornar seus dados válidos; fez jogos retóricos; deturpou e interpretou imaginativamente dados – em suma, fez coisas que, segundo quaisquer critérios racionalistas de ciência, seriam inaceitáveis. A repreensão da Igreja, ao menos ostensivamente, repousava nisto.

galileuSe algo que não resiste a qualquer critério profundo de crítica racional ou metodológica apresenta tamanho sucesso, isto não se deve a um valor da metodologia e racionalidade científicas, pois mostra que o sucesso não depende do método. Significa que qualquer coisa vale para a pesquisa científica. É assim que Feyerabend propõe o infame princípio que governaria os procedimentos da descoberta das ciências: tudo vale, a expressão máxima de horror para um racionalista.

Segundo esse princípio, o que garante realmente o progresso das práticas científicas é muito mais um ambiente social plural, de opiniões beligerantes do que qualquer tipo de norma geral que venha reger uma forma correta de pensar e de agir. Ciências diferentes têm necessidades e objetos díspares, exigindo ideias e métodos que não raro entram em contradição com outros ramos dos saberes. Qualquer tentativa de universalizar um tipo de raciocínio e comportamento no processo de descoberta é tirânico e um desserviço para a pesquisa. Qualquer pretensão universalista da verdade seria um “raciofascismo” que poderia seriamente ameaçar valores democráticos.

Feyerabend clama que a “racionalidade científica” não tem privilégio em interpretação da realidade se compararmos com outras práticas culturais como misticismo ou religião. Da mesma forma que o Estado atualmente separa política de religião, deveria separar política da ciência: esta última serviria aos indivíduos apenas em caso de demanda popular, e não por uma determinação a priori no que as pessoas devem acreditar baseadas em uma racionalidade que nada teria, por fim, de superior a outras.  Por isto que, mesmo não acreditando, Feyerabend escreveu a favor do criacionismo para mostrar que, a despeito da ciência, era uma prática discursiva e epistêmica com todo direito de existir se as pessoas assim desejassem, pois a “concordância com a ciência e a decisão de trabalhar com os cânones da ciência deveria ser o resultado de exame e escolha, e não de uma forma particular de educar as crianças”.

 

6. Tudo vale mesmo?

Feyerabend advogava um revisionismo democrático das ciências na sociedade moderna. Mas será esta realmente a melhor saída? Não seria ele ingênuo ao levar as ideias de Stuart Mill ao extremo, principalmente em um ambiente social complexo, cada vez mais dependente da ciência? Aceitar o direito de existência de crenças criacionistas é uma coisa, mas afirmar que elas devam ser ensinadas se uma comunidade assim deseja realmente contribui para o bem-estar e o progresso da sociedade? O “tudo vale’ não pode ser tão desolador quanto a “tirania da maioria”?

Recentemente, surgiram nos Estados Unidos movimentos antivacina, cuja consequência foi um surto de doenças. Na África do Sul, a negação da existência da AIDS ou de sua relação com o HIV, por exemplo, provocou sérios problemas de saúde pública. No mesmo espírito, podemos incluir aqueles que negam mudanças climáticas. Não, raro, governos democraticamente eleitos tomam decisões equivocadas, ainda que apoiadas por boa parte da população.

Ao que parece, Feyerabend acreditava que a mera disponibilidade de informação seria suficiente para que as pessoas tomassem decisão de forma autônoma, permitindo uma crítica saudável da ciência, ou de qualquer outra forma não-científica de interpretar a realidade. Mas o que vemos é justamente o contrário: cada lado se entrincheirando acriticamente em suas posições, em um movimento de negação mútuo que provoca rupturas e pode comprometer o próprio processo democrático tão apreciado por Feyerabend.

É claro que poderíamos pensar que democracia não é algo pronto, fechado, estanque, mas sim um processo em permanente construção e de tensão das partes, no qual o que se considera um revés em certo momento, pode se revelar, a longo prazo, como algo positivo. Mas é igualmente válido que o fio tênue da navalha democrática pode pender para lados inesperados, ameaçando a liberdade individual que Feyerabend defendeu.

Apesar da fama, Feyerabend não era um relativista vulgar, um irracionalista, pós-modernista ou seja lá o que for, embora suas extravagâncias dramáticas e irônicas, constantes em seus escritos, pudessem dar tais impressões. Uma leitura atenta revela que ele apelava à razão (ou a alguma razão) para criticar a racionalidade tal qual propagada pelo discurso científico como panaceia universal e “única palavra definitiva” sobre a realidade.

Feyerabend tinha consciência da fragilidade de qualquer forma de racionalidade em explicar o mundo de forma coerente e consistente, e uma profunda preocupação com os perigos de uma ideologia dominante científica. Mas ele sabia que, da mesma forma que não se pode impositivamente banir astrologia, religião ou curandeirismo do ambiente social e das experiências e escolhas pessoais, o mesmo vale para as práticas científicas: se tudo vale, isto inclui a ciência.

O pior inimigo da ciência talvez possa ser também o melhor amigo. Mas poucos entenderam o recado ou realmente seguiram seu exemplo.


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escrito por:

Attila Piovesan

Formado em Administração e Jornalismo, é também mestre em Letras e professor universitário. Pesquisador de literatura, comunicação e história em quadrinhos. Gosta de semiótica peirciana, teoria da complexidade, epistemologia, antropologia cultural, ética e filosofia do trágico, e jura que todos estes conhecimentos diferentes podem se conectar.


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