inimigo da ciencia

O pior inimigo da ciência é seu melhor amigo?

Em Ciência por Attila PiovesanComentário

Em um Papo de Bar recente do Ano Zero, o tema foi a dis­cus­são polí­tico-par­ti­dá­ria que seguiu a apre­sen­ta­ção do exos­que­leto de Miguel Nico­le­lis na aber­tura da Copa. Con­tudo, o que me inte­res­sou mais foi o desen­vol­vi­mento dos comen­tá­rios. O tema esca­pu­liu da ques­tão estrita sobre ciên­cia e polí­tica e aden­trou nos mean­dros da epis­te­mo­lo­gia.

Duas posi­ções epis­te­mo­ló­gi­cas sobres­saí­ram-se: as de Karl Pop­per e Tho­mas Kuhn. Duas figu­ras impor­tan­tís­si­mas para filo­so­fia da ciên­cia, cada um propôs uma expli­ca­ção de como a ciên­cia fun­ci­ona e do método cien­tí­fico. Porém, creio que nenhum debate sobre epis­te­mo­lo­gia cien­tí­fica atu­al­mente é com­pleto sem citar Paul Feye­ra­bend, deno­mi­nado por mui­tos como “o pior ini­migo da ciên­cia”, razão pela qual fiz um breve comen­tá­rio sobre sua ausên­cia naquele Papo de Bar. Vic­tor Lis­boa, o edi­tor de Ano Zero, ficou inte­res­sado e me pediu para escre­ver sobre Feye­ra­bend. Con­vite feito, con­vite ale­gre­mente aceito.

Antes de aden­trar o assunto, um aviso: ape­sar de ser sim­pá­tico a mui­tas posi­ções de Feye­ra­bend, cer­ta­mente elas não são imu­nes a crí­ti­cas, como mos­tra­rei. Minha visão de epis­te­mo­lo­gia está mais afi­nada com a pro­posta de Char­les S. Peirce e Susan Haack e suas con­cep­ções prag­má­ti­cas de evi­dên­cia, inves­ti­ga­ção e jus­ti­fi­ca­ção de cren­ças, per­me­ada pela epis­te­mo­lo­gia da com­ple­xi­dade ela­bo­rada por Edgar Morin.

Aliás, con­si­dero a obra Defen­ding sci­ence — within rea­son: between sci­en­tism and cyni­cism, de Haack, bas­tante vali­osa para um pano­rama atual da epis­te­mo­lo­gia cien­tí­fica e seus pro­ble­mas. Nesse livro, tomei conhe­ci­mento de um artigo publi­cado pela revista Nature em Outu­bro de 1987, inti­tu­lado “Where sci­ence has gone wrong”, que me per­mi­tiu o breve deli­ne­a­mento das ideias de Pop­per, Laka­tos e Kuhn que rea­li­za­rei logo adi­ante. O artigo apre­sen­tava a foto dos qua­tro pen­sa­do­res, abaixo com a pro­vo­cante legenda “trai­do­res da ver­dade?”.

Traidores da verdade? Da esquerda para direita: Karl Popper, Imre Lakatos, Thomas Kuhn e Paul Feyerabend

Da esquerda para direita: Karl Pop­per, Imre Laka­tos, Tho­mas Kuhn e Paul Feye­ra­bend

Por­tanto, a afir­ma­ção que farei no texto, de que Pop­per, Laka­tos, Kuhn excluí­ram a noção de ver­dade das ciên­cias em detri­mento do fal­se­a­ci­o­nismo ou his­to­ri­cismo cien­tí­fico-soci­o­ló­gico, per­mi­tindo o anar­quismo cien­tí­fico e ico­no­clasta de Feye­ra­bend, foi ins­pi­rada na legenda do artigo. Levando tudo isto em conta, nada mais natu­ral que, para com­pre­en­der a posi­ção de Feye­ra­bend, tra­ce­mos um rápido (e incom­pleto) esboço das ideias dos supra­ci­ta­dos Pop­per e Kuhn, conhe­cendo um pouco sobre a sín­tese de ambos pen­sa­do­res rea­li­zada por Imre Laka­tos.

 

1. Karl Popper e como trair a verdade

Pop­per sen­tia extremo incô­modo com afir­ma­ções de que as teo­rias de Marx e Freud, por exem­plo, eram cien­tí­fi­cas. Entre­tanto, não dis­pu­nha de nenhuma forma de refutá-las con­clu­si­va­mente; as de Eins­tein, por outro lado, pare­ciam ser capa­zes de rea­li­zar pre­vi­sões fal­sas. Sua solu­ção para o impasse par­tiu de uma sim­ples pre­missa: a irre­fu­ta­bi­li­dade não é uma van­ta­gem teó­rica, mas antes, um defeito. Uma teo­ria seria cien­tí­fica ape­nas enquanto pas­sí­vel de fal­se­a­mento.

Assim, dizer que “a Terra é quase redonda” não é uma afir­ma­ção cien­tí­fica por não ser fal­seá­vel, mas afir­mar que “a Terra é plana”, sim. Então, o objeto da ciên­cia é somente aquilo que pode ser refu­tado por uma con­tra­prova. Neste pro­cesso, a noção posi­ti­vista ou filo­só­fica de ver­dade sofre um sério baque, refor­çado pelas con­cep­ções inde­ter­mi­nis­tas do uni­verso (com as quais que Pop­per sim­pa­ti­zava).

Porém, Pop­per indi­cou que toda obser­va­ção pres­su­põe uma sus­ten­ta­ção teó­rica, ou mais pre­ci­sa­mente, que qual­quer obser­va­ção é teó­rica: “Dados dos sen­ti­dos (sense-data), itens não-teó­ri­cos de obser­va­ção, sim­ples­mente não exis­tem”. Isto gera uma com­pli­ca­ção da qual ele parece não ter se dado conta intei­ra­mente, pois, se levada às últi­mas con­sequên­cias, sig­ni­fica que toda obser­va­ção não passa de uma teo­ria. Assim sendo, como uma teo­ria pode­ria fal­sear e veri­fi­car a vali­dade de outra teo­ria?

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2. Imre Lakatos e o programa degenerado

Quem ten­tou resol­ver este dilema foi Imre Laka­tos, que con­cluiu que as teo­rias cien­tí­fi­cas não eram veri­fi­cá­veis ou tam­pouco fal­seá­veis, e que se uma teo­ria é refu­tada, ela não é neces­sa­ri­a­mente falsa. Pro­po­si­ções refu­ta­das tor­nam-se algo dife­rente de afir­ma­ções fal­sas. Se fal­se­a­bi­li­dade e veri­fi­ca­bi­li­dade não são cri­té­rios que defi­nem a ciên­cia, então o que pode­ria cons­ti­tuir uma pro­po­si­ção cien­tí­fica?

Laka­tos, levando em conta as noções desen­vol­vi­das por Kuhn em A estru­tura das Revo­lu­ções Cien­tí­fi­cas (mais deta­lha­das adi­ante), tenta casar a noção de pro­gresso cien­tí­fico deste com uma ver­são mais ela­bo­rada da fal­se­a­bi­li­dade pop­pe­ri­ana. Para Laka­tos, uma teo­ria cien­tí­fica con­siste de um núcleo con­cei­tual sólido cer­cado de asser­ções auxi­li­a­res. O núcleo não pode ser afe­tado ape­nas pela obser­va­ção, e sim, por uma teo­ria alter­na­tiva, o que ele cha­mou de trans­fe­rên­cia de pro­ble­mas (pro­blemshift). A trans­fe­rên­cia de pro­ble­mas se rea­liza por meio de um pro­grama de pes­quisa.

Para Laka­tos, a garan­tia cien­tí­fica é deter­mi­nada se o cami­nho do pro­grama gerar novas infor­ma­ções e trans­fe­rên­cias de pro­ble­mas; se isto não ocor­rer, o pro­grama torna-se dege­ne­rado. Con­tudo (como Feye­ra­bend nota­ria), esta pos­tura de Laka­tos no fundo deixa seu sis­tema epis­te­mo­ló­gico — ou de Pop­per — sem qual­quer base raci­o­nal con­vin­cente, visto que mesmo um pro­grama dege­ne­rado pode­ria ser redi­mir levando em conta fato­res não-cien­tí­fi­cos.

 

3. Thomas Kuhn e a sucessão de paradigmas

Laka­tos parece sus­ten­tar a pro­posta de Tho­mas Kuhn: uma afir­ma­ção é cien­tí­fica se assim for deter­mi­nado pela comu­ni­dade de pes­qui­sa­do­res. Kuhn cons­ta­tou que os avan­ços cien­tí­fi­cos não sur­gem em um pro­cesso gra­dual e acu­mu­la­tivo de conhe­ci­mento, mas sim em perío­dos geral­mente lon­gos de con­for­mi­dade inte­lec­tual sacu­di­dos por revo­lu­ções con­cei­tu­ais bre­ves e vio­len­tas que des­tro­nam o sta­tus quo ante­rior, para então for­mar um novo período de con­for­mi­dade a ser der­ru­bado futu­ra­mente.

O período de con­for­mismo, nos quais os cien­tis­tas se pren­dem a um con­junto de méto­dos e teo­rias padro­ni­za­dos, é deno­mi­nado de “ciên­cia nor­mal”, repre­sen­tante daquilo que Kuhn deno­mina de “para­digma”. Na revo­lu­ção cien­tí­fica, um novo para­digma emerge para tomar o lugar do antigo. A ciên­cia seria uma ques­tão de para­dig­mas em eterna muta­ção, pro­cesso este, con­forme sali­enta Kuhn, que não neces­sa­ri­a­mente con­duz o cien­tista à ver­dade.

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Entre­tanto, Pop­per, Laka­tos e Kuhn são defen­so­res de uma obje­ti­vi­dade cien­tí­fica e meto­do­ló­gica e crí­ti­cos de rela­ti­vis­mos epis­te­mo­ló­gi­cos, ainda que em graus vari­a­dos. Pop­per, por exem­plo, che­gou a afir­mar que o método cien­tí­fico não exis­tia, mas que devía­mos seguir algu­mas regras de pen­sa­mento e pro­ce­di­mento. Mas o impor­tante é: se mesmo eles, apoi­a­do­res do dis­curso cien­tí­fico, rele­gam a noção de ver­dade como pre­o­cu­pa­ção de segundo plano — se tanto! — não sur­pre­ende que, por fim, surja o dis­curso devas­ta­dor, irô­nico e anar­quista de Paul Feye­ra­bend.

 

4. O pior inimigo da ciência

É impor­tante res­sal­tar que Pop­per, Laka­tos, Kuhn e Feye­ra­bend se conhe­ciam ou tinham com­pre­en­são das ideias uns dos outros — e que, ape­sar das dis­pa­ri­da­des teó­ri­cas, Laka­tos e Feye­ra­bend foram gran­des ami­gos. Mas a tra­je­tó­ria inte­lec­tual de Feye­ra­bend foi extre­ma­mente cama­leô­nica. Nas­cido em 1924, não foi exa­ta­mente uma cri­ança-pro­dí­gio, mas aos dezes­seis anos, tinha a repu­ta­ção de saber mais de mate­má­tica e física do que seus pro­fes­so­res  (o que não evi­tou sua expul­são da escola em certa oca­sião). Sua liga­ção com a filo­so­fia sur­giu de forma ines­pe­rada: inte­res­sado em artes dra­má­ti­cas, Feye­ra­bend che­gou a atuar, e mui­tos dos livros que adqui­ria sobre peças tea­trais con­ti­nham ensaios filo­só­fi­cos sobre dra­ma­tur­gia.

Con­tudo, o talento para as áreas exa­tas ainda era ali­men­tado por seus pro­fes­so­res, que o inci­ta­vam a estu­dar física e astro­no­mia. Por outro lado,ao mesmo tempo desen­vol­via uma nova pai­xão, que, jun­ta­mente com tea­tro, o acom­pa­nha­ria para o resto da vida: o canto. Che­gou a ser pupilo do can­tor de ópera Adolf Vogel, mas o iní­cio da Segunda Guerra Mun­dial pro­vo­cou um hiato em sua rotina dra­má­tico-cien­tí­fica.

Con­vo­cado em 1942, Feye­ra­bend lutou pela Ale­ma­nha, sendo inclu­sive con­de­co­rado com a Cruz de Ferro. Porém, durante a reti­rada do exér­cito ale­mão frente ao avanço russo, foi ferido por uma bala que atin­giu sua espi­nha, dei­xando-o tem­po­ra­ri­a­mente para­lí­tico e com difi­cul­da­des de loco­mo­ção até o fim de sua vida, assim como resul­tou em impo­tên­cia sexual per­ma­nente.

Depois da guerra, ele reto­mou a car­reira dra­má­tica e ope­rís­tica. Porém, insa­tis­feito, regres­sou à ciên­cia, e, em 1948, conhe­ceu Karl Pop­per, de quem foi aluno. Tam­bém se envol­veu com vários inte­lec­tu­ais mar­xis­tas, come­çando a pau­la­ti­na­mente se des­gar­rar do posi­ti­vismo. Pouco depois, fez parte do Cír­culo de Kraft, no qual conhe­ceu Witt­gens­tein. Em 1949, ele abriu mão de se tor­nar assis­tente de pro­du­ção de Ber­tolt Bre­cht (uma deci­são que lamen­ta­ria pro­fun­da­mente), e no uni­verso aca­dê­mico tro­cou a física pela filo­so­fia. Witt­gens­tein acei­tou Feye­ra­bend como aluno em Cam­bridge, mas mor­reu antes que o futuro estu­dante che­gasse ao Reino Unido. Con­se­quen­te­mente, a ori­en­ta­ção de Feye­ra­bend ficou a cargo de Pop­per.

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Em 1955, auxi­li­ado por Pop­per e Erwin Schrö­din­ger, ele con­se­guiu cargo como pro­fes­sor na Uni­ver­si­dade de Bris­tol, minis­trando aulas de filo­so­fia da ciên­cia, enquanto escre­via uma série de arti­gos sobre as inter­pre­ta­ções da física quân­tica. Em 1958 foi con­vi­dado aos Esta­dos Uni­dos e conhe­ceu Tho­mas Kuhn, sendo pos­te­ri­or­mente con­vi­dado a leci­o­nar em Ber­ke­ley.

Feye­ra­bend, admi­ra­dor de A Liber­dade, famoso ensaio de Stu­art Mill publi­cado em 1859 sobre liber­da­des indi­vi­du­ais e que denun­ci­ava a “tira­nia da mai­o­ria”, per­ce­beu, em 1965, que a meto­do­lo­gia da ciên­cia tinha algo de tirâ­nico. Con­ver­sando com um físico (C. F. Von Wizsäc­ker) e cri­ti­cando-o com base em con­si­de­ra­ções meto­do­ló­gi­cas, Feye­ra­bend per­ce­beu que sua crí­tica se impu­nha sem a menor con­si­de­ra­ção pelas con­di­ções ou cir­cuns­tân­cias que leva­vam ao posi­ci­o­na­mento de seu inter­lo­cu­tor.

A par­tir daí come­çou a tri­lhar o cami­nho que leva­ria a seu “anar­quismo” cien­tí­fico, pois con­cluía que se alguém ten­tasse resol­ver um pro­blema, fosse cien­tí­fico ou não, deve­ria des­fru­tar de com­pleta liber­dade, sem ser res­trin­gido por nor­mas (ainda que fos­sem plau­sí­veis) e que tais nor­mas não pode­riam se sub­me­ter a uma suposta teo­ria da raci­o­na­li­dade. Feye­ra­bend pas­sou a enxer­gar uma simi­la­ri­dade entre os dog­mas reli­gi­o­sos e o pen­sa­mento cien­tí­fico.

Em fins dos anos 1960, ele fez uma série de con­fe­rên­cias em Lon­dres e conhe­ceu Imre Laka­tos, man­tendo forte ami­zade e uma rela­ção inte­lec­tual bas­tante pro­du­tiva. Con­tra o Método, a obra mais famosa de Feye­ra­bend, sur­giu como uma “brin­ca­deira” pro­posta por Laka­tos: Feye­ra­bend faria suas crí­ti­cas ao raci­o­na­lismo cien­tí­fico e a pre­ten­são de qual­quer meto­do­lo­gia se apoiar em bases raci­o­nais, que seriam res­pon­di­das por Laka­tos.

O fale­ci­mento do amigo em 1974 impe­diu que a pro­posta se con­cre­ti­zasse da forma ima­gi­nada, e o livro saiu sem as répli­cas de Laka­tos, pro­vo­cando um abalo sís­mico na epis­te­mo­lo­gia da ciên­cia com suas acu­sa­ções, gerando uma onda de ata­ques a Feye­ra­bend, que incluíam desde chamá-lo de anar­quista, rela­ti­vista e irra­ci­o­na­lista até apon­ta­men­tos sobre inter­pre­ta­ções filo­só­fi­cas e cien­tí­fi­cas ine­xa­tas que ele teria apre­sen­tado na obra. Ata­ques que, mesmo fun­da­men­ta­dos em alguns casos, ainda hoje não pro­por­ci­o­na­ram uma con­tes­ta­ção satis­fa­tó­ria que pudesse sal­va­guar­dar a raci­o­na­li­dade cien­tí­fica.

5. O Vale tudo científico

Para Feye­ra­bend, se ana­li­sar­mos a his­tó­ria da ciên­cia, encon­tra­mos inú­me­ros exem­plos de des­co­ber­tas que não se devem a qual­quer apli­ca­ção pura ou con­sis­tente de uma meto­do­lo­gia raci­o­nal. Hipó­te­ses não fun­da­men­ta­das, con­clu­sões idi­os­sin­crá­ti­cas, retó­rica sinu­osa, inven­ção de dados e infor­ma­ções: tudo isto tam­bém faz a ciên­cia se desen­vol­ver, e não uma raci­o­na­li­dade intrín­seca às ciên­cias.

Como ilus­tra­ção, ele tomou o caso de Gali­leu, argu­men­tando, por exem­plo, que a recusa da Igreja em reco­nhe­cer as teo­rias pro­pos­tas pelo astrô­nomo não tinham ori­gem, como se ima­gina, do dog­ma­tismo reli­gi­oso: ao con­trá­rio, Feye­ra­bend afirma que a Igreja se opôs a Gali­leu jus­ta­mente por se ater ao que era dito pela ciên­cia do período. Gali­leu não con­se­guia dar repos­tas teó­ri­cas satis­fa­tó­rias ou apre­sen­tar evi­dên­cias de que suas ideias podiam ser cor­re­tas, mesmo a seus pares inte­lec­tu­ais, frus­trando assim a acei­ta­ção de suas novas con­cep­ções. Ten­tando rever­ter isso, desen­vol­veu teo­rias ad hoc sem fun­da­men­tos razoá­veis para tor­nar seus dados váli­dos; fez jogos retó­ri­cos; detur­pou e inter­pre­tou ima­gi­na­ti­va­mente dados – em suma, fez coi­sas que, segundo quais­quer cri­té­rios raci­o­na­lis­tas de ciên­cia, seriam ina­cei­tá­veis. A repre­en­são da Igreja, ao menos osten­si­va­mente, repou­sava nisto.

galileuSe algo que não resiste a qual­quer cri­té­rio pro­fundo de crí­tica raci­o­nal ou meto­do­ló­gica apre­senta tama­nho sucesso, isto não se deve a um valor da meto­do­lo­gia e raci­o­na­li­dade cien­tí­fi­cas, pois mos­tra que o sucesso não depende do método. Sig­ni­fica que qual­quer coisa vale para a pes­quisa cien­tí­fica. É assim que Feye­ra­bend pro­põe o infame prin­cí­pio que gover­na­ria os pro­ce­di­men­tos da des­co­berta das ciên­cias: tudo vale, a expres­são máxima de hor­ror para um raci­o­na­lista.

Segundo esse prin­cí­pio, o que garante real­mente o pro­gresso das prá­ti­cas cien­tí­fi­cas é muito mais um ambi­ente social plu­ral, de opi­niões beli­ge­ran­tes do que qual­quer tipo de norma geral que venha reger uma forma cor­reta de pen­sar e de agir. Ciên­cias dife­ren­tes têm neces­si­da­des e obje­tos dís­pa­res, exi­gindo ideias e méto­dos que não raro entram em con­tra­di­ção com outros ramos dos sabe­res. Qual­quer ten­ta­tiva de uni­ver­sa­li­zar um tipo de raci­o­cí­nio e com­por­ta­mento no pro­cesso de des­co­berta é tirâ­nico e um des­ser­viço para a pes­quisa. Qual­quer pre­ten­são uni­ver­sa­lista da ver­dade seria um “raci­o­fas­cismo” que pode­ria seri­a­mente ame­a­çar valo­res demo­crá­ti­cos.

Feye­ra­bend clama que a “raci­o­na­li­dade cien­tí­fica” não tem pri­vi­lé­gio em inter­pre­ta­ção da rea­li­dade se com­pa­rar­mos com outras prá­ti­cas cul­tu­rais como mis­ti­cismo ou reli­gião. Da mesma forma que o Estado atu­al­mente separa polí­tica de reli­gião, deve­ria sepa­rar polí­tica da ciên­cia: esta última ser­vi­ria aos indi­ví­duos ape­nas em caso de demanda popu­lar, e não por uma deter­mi­na­ção a pri­ori no que as pes­soas devem acre­di­tar base­a­das em uma raci­o­na­li­dade que nada teria, por fim, de supe­rior a outras.  Por isto que, mesmo não acre­di­tando, Feye­ra­bend escre­veu a favor do cri­a­ci­o­nismo para mos­trar que, a des­peito da ciên­cia, era uma prá­tica dis­cur­siva e epis­tê­mica com todo direito de exis­tir se as pes­soas assim dese­jas­sem, pois a “con­cor­dân­cia com a ciên­cia e a deci­são de tra­ba­lhar com os câno­nes da ciên­cia deve­ria ser o resul­tado de exame e esco­lha, e não de uma forma par­ti­cu­lar de edu­car as cri­an­ças”.

 

6. Tudo vale mesmo?

Feye­ra­bend advo­gava um revi­si­o­nismo demo­crá­tico das ciên­cias na soci­e­dade moderna. Mas será esta real­mente a melhor saída? Não seria ele ingê­nuo ao levar as ideias de Stu­art Mill ao extremo, prin­ci­pal­mente em um ambi­ente social com­plexo, cada vez mais depen­dente da ciên­cia? Acei­tar o direito de exis­tên­cia de cren­ças cri­a­ci­o­nis­tas é uma coisa, mas afir­mar que elas devam ser ensi­na­das se uma comu­ni­dade assim deseja real­mente con­tri­bui para o bem-estar e o pro­gresso da soci­e­dade? O “tudo vale’ não pode ser tão deso­la­dor quanto a “tira­nia da mai­o­ria”?

Recen­te­mente, sur­gi­ram nos Esta­dos Uni­dos movi­men­tos anti­va­cina, cuja con­sequên­cia foi um surto de doen­ças. Na África do Sul, a nega­ção da exis­tên­cia da AIDS ou de sua rela­ção com o HIV, por exem­plo, pro­vo­cou sérios pro­ble­mas de saúde pública. No mesmo espí­rito, pode­mos incluir aque­les que negam mudan­ças cli­má­ti­cas. Não, raro, gover­nos demo­cra­ti­ca­mente elei­tos tomam deci­sões equi­vo­ca­das, ainda que apoi­a­das por boa parte da popu­la­ção.

Ao que parece, Feye­ra­bend acre­di­tava que a mera dis­po­ni­bi­li­dade de infor­ma­ção seria sufi­ci­ente para que as pes­soas tomas­sem deci­são de forma autô­noma, per­mi­tindo uma crí­tica sau­dá­vel da ciên­cia, ou de qual­quer outra forma não-cien­tí­fica de inter­pre­tar a rea­li­dade. Mas o que vemos é jus­ta­mente o con­trá­rio: cada lado se entrin­chei­rando acri­ti­ca­mente em suas posi­ções, em um movi­mento de nega­ção mútuo que pro­voca rup­tu­ras e pode com­pro­me­ter o pró­prio pro­cesso demo­crá­tico tão apre­ci­ado por Feye­ra­bend.

É claro que pode­ría­mos pen­sar que demo­cra­cia não é algo pronto, fechado, estan­que, mas sim um pro­cesso em per­ma­nente cons­tru­ção e de ten­são das par­tes, no qual o que se con­si­dera um revés em certo momento, pode se reve­lar, a longo prazo, como algo posi­tivo. Mas é igual­mente válido que o fio tênue da nava­lha demo­crá­tica pode pen­der para lados ines­pe­ra­dos, ame­a­çando a liber­dade indi­vi­dual que Feye­ra­bend defen­deu.

Ape­sar da fama, Feye­ra­bend não era um rela­ti­vista vul­gar, um irra­ci­o­na­lista, pós-moder­nista ou seja lá o que for, embora suas extra­va­gân­cias dra­má­ti­cas e irô­ni­cas, cons­tan­tes em seus escri­tos, pudes­sem dar tais impres­sões. Uma lei­tura atenta revela que ele ape­lava à razão (ou a alguma razão) para cri­ti­car a raci­o­na­li­dade tal qual pro­pa­gada pelo dis­curso cien­tí­fico como pana­ceia uni­ver­sal e “única pala­vra defi­ni­tiva” sobre a rea­li­dade.

Feye­ra­bend tinha cons­ci­ên­cia da fra­gi­li­dade de qual­quer forma de raci­o­na­li­dade em expli­car o mundo de forma coe­rente e con­sis­tente, e uma pro­funda pre­o­cu­pa­ção com os peri­gos de uma ide­o­lo­gia domi­nante cien­tí­fica. Mas ele sabia que, da mesma forma que não se pode impo­si­ti­va­mente banir astro­lo­gia, reli­gião ou curan­dei­rismo do ambi­ente social e das expe­ri­ên­cias e esco­lhas pes­so­ais, o mesmo vale para as prá­ti­cas cien­tí­fi­cas: se tudo vale, isto inclui a ciên­cia.

O pior ini­migo da ciên­cia tal­vez possa ser tam­bém o melhor amigo. Mas pou­cos enten­de­ram o recado ou real­mente segui­ram seu exem­plo.


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Attila Piovesan
Formado em Administração e Jornalismo, é também mestre em Letras e professor universitário. Pesquisador de literatura, comunicação e história em quadrinhos. Gosta de semiótica peirciana, teoria da complexidade, epistemologia, antropologia cultural, ética e filosofia do trágico, e jura que todos estes conhecimentos diferentes podem se conectar.

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