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O Problema dos Limões e a Informação Assimétrica

Em Consciência, Economia, Política, Sociedade por Douglas DoninComentário

Ima­gi­ne­mos um mer­cado hipo­té­tico de car­ros usa­dos. Sabe­mos que com­prar um carro usado é algo com­pli­cado: o ven­de­dor sem­pre garante que o carro é uma beleza, que a mecâ­nica é uma mara­vi­lha, que o motor está tinindo, e que pechin­cha melhor não será encon­trada. Vamos supor que, neste mer­cado, há um número igual de ven­de­do­res men­ti­ro­sos e de ven­de­do­res sin­ce­ros (ou seja, a sua chance de encon­trar qual­quer um dos dois é a mesma).

E vamos supor, tam­bém, que você, o pobre com­pra­dor, seja um com­pleto leigo em mecâ­nica. Você pode ava­liar exter­na­mente o carro, mas terá que con­fiar na pala­vra do ven­de­dor no que diz res­peito à mecâ­nica.

Vamos igno­rar por um momento a sua deci­são (que é assunto para teo­ria dos jogos), e olhar a estru­tura deste mer­cado – que, por si só, acar­reta em uma série de inte­res­san­tes con­sequên­cias. É pos­sí­vel, de ante­mão, pre­ver uma ten­dên­cia auto-des­tru­tiva deste mer­cado, gerada pela sim­ples assi­me­tria de infor­ma­ções (um dos lados pos­sui muito mais infor­ma­ção do que o outro. No caso, o ven­de­dor).

Vamos supor que o preço de um carro usado bom neste mer­cado é de U$ 10.000,00. Para quem tem um carro bom, vale a pena ven­der por qual­quer valor igual ou supe­rior a U$ 10.000,00, e para qual­quer valor abaixo disso, não vale a pena vendê-lo.

Vamos supor, tam­bém, que o preço de um carro ruim é de U$ 5.000,00. Para quem tem um carro ruim, vale a pena ven­der por qual­quer valor igual ou supe­rior a U$ 5.000,00, e para qual­quer valor abaixo disso, não vale a pena vendê-lo.

O pro­blema é que somente os ven­de­do­res detém esta infor­ma­ção: o com­pra­dor não tem ideia se o carro é bom ou só parece bom. Ele está jogando com pro­ba­bi­li­da­des.

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Sendo o mer­cado um só, com todos os pro­du­tos mis­tu­ra­dos e apa­ren­te­mente indis­tin­guí­veis, sabe­mos duas coi­sas: o preço dos car­ros bons puxa o preço médio para cima, em dire­ção aos U$ 10.000,00, e o preço dos car­ros ruins puxa o preço médio para baixo, em dire­ção aos U$ 5.000,00. O preço, como con­sequên­cia, deve esta­bi­li­zar em um valor médio de U$ 7.500,00, que é o quanto os con­su­mi­do­res, às cegas, pas­sam a pagar em média.

O pro­blema é que isso é um mau negó­cio para quem colo­cou à venda um carro bom (pois perde U$ 2.500,00), e um exce­lente negó­cio para quem colo­cou à venda um carro ruim (pois ganha U$ 2.500,00). Assim, quem tem car­ros bons à venda os retira do mer­cado (vale mais a pena guardá-los), e quem tem car­ros ruins guar­da­dos, os coloca à venda. Ou seja, o uni­verso de bens à venda, para o con­su­mi­dor, é pior na segunda ite­ra­ção. E pior ainda na ter­ceira. E mais ainda na quarta… e assim, até que o con­su­mi­dor tenha a vir­tual cer­teza de que não há mais car­ros bons à venda.

É isto que cha­ma­mos de um fil­tro de sele­ção adversa: um fil­tro que fun­ci­ona de maneira inversa à que dese­ja­mos, que retém o que é bom e per­mite a pas­sa­gem só do que é ruim.

Este pro­blema, apre­sen­tado acima, é conhe­cido como o pro­blema dos limões, em refe­rên­cia ao ape­lido que os ame­ri­ca­nos dão aos car­ros usa­dos que se pro­vam maus negó­cios para o com­pra­dor (“lemons“), e prova como nem sem­pre “escon­der o jogo” para quem tem infor­ma­ções pri­vi­le­gi­a­das é uma estra­té­gia inte­li­gente: pode, isso sim, des­truir a base de con­fi­ança de um mer­cado e invi­a­bi­li­zar qual­quer negó­cio.

Vamos ver como isso fun­ci­ona em um exem­plo de nossa rea­li­dade naci­o­nal: pla­nos de saúde.

Vamos supor que um plano de saúde dis­cri­mina seus cli­en­tes em dois gran­des gru­pos: o grupo dos cli­en­tes de alto risco, que pagam R$ 300,00 para o plano por mês, e os cli­en­tes de baixo risco, que pagam R$ 100,00 para o plano no mesmo período. O plano sabe, por ter acesso a dados esta­tís­ti­cos his­tó­ri­cos, que se con­tasse somente com cli­en­tes de alto risco, o valor teria de ser maior do que os R$ 300,00: ele só con­se­gue ofe­re­cer este valor por­que “sobra”, do grupo de baixo risco, uma soma de recur­sos, que eles, por serem de baixo risco, aca­bam con­tri­buindo e não usando. Assim, ele con­se­gue atrair ambos os tipos de cli­en­tes com valo­res que são jus­tos para cada um.

Mas vamos supor que um depu­tado (sem­pre eles!), munido da maior boa-von­tade, resolve “pro­te­ger o con­su­mi­dor” com uma legis­la­ção muito huma­ni­tá­ria e pie­dosa: a par­tir de agora, é proi­bido aos pla­nos de saúde esta­be­le­ce­rem dis­cri­mi­na­ção por risco, e o mesmo valor deve ser cobrado de todos os cli­en­tes.

Impe­dida de seg­men­tar os cli­en­tes, a segu­ra­dora refaz os cál­cu­los pela média e des­co­bre, então, que um valor de R$ 200,00 cobre os gatos médios do seu uni­verso de segu­ra­dos, base­ado nos seus his­tó­ri­cos de con­sumo de ser­vi­ços de saúde.

Mas R$ 200,00 é um valor que não vale mais a pena para o segu­rado de baixo risco, segundo a sua per­cep­ção pró­pria de risco! Para ele, R$ 100,00 repre­sen­tava bem a sua pre­o­cu­pa­ção com a pró­pria saúde. Mas R$ 200,00? É demais! Assim, ele se retira do con­trato.

Por outro lado, uma série de paci­en­tes de alto risco que não tinham seguro agora olham o valor médio, R$ 100,00 mais barato do que na época da dis­cri­mi­na­ção, e entram no plano.

Com mais cli­en­tes de alto con­sumo e menos de baixo, as finan­ças do plano se dete­ri­o­ram na segunda ite­ra­ção. Para con­tra­ba­lan­cear, o plano aumenta o preço médio – o que expulsa mais cli­en­tes de baixo risco. O que piora a ter­ceira ite­ra­ção, e assim suces­si­va­mente, até a desin­te­gra­ção do mer­cado espe­cí­fico.

Enten­der a mecâ­nica dos fil­tros de sele­ção adversa e como eles são gera­dos pela assi­me­tria infor­ma­ci­o­nal ajuda a pre­ver o resul­tado prá­tico de legis­la­ções res­tri­ti­vas, o que será obtido de fato por regu­la­men­ta­ções ale­ga­da­mente sama­ri­ta­nas. Tam­bém ajuda a pre­ver qual deve ser o papel da boa lei ou da boa inter­ven­ção judi­cial, para auxi­liar no pro­cesso de mútua reve­la­ção de infor­ma­ções, dimi­nuindo o custo de inse­gu­rança ine­rente a cer­tos tipos de nego­ci­a­ção, per­mi­tindo que surja bem-estar em situ­a­ções que, se não fosse faci­li­tada a troca infor­ma­ci­o­nal por um agente externo, seriam esté­reis.

Douglas Donin
Especialista em Direito Internacional e graduando em Economia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, já foi ditador da Latvéria e inimigo de estelionatários neopentecostais no site "Duvido".

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