Quando ingressei no ensino superior, o primeiro pensamento que tive foi o de que, nesse novo mundo, todos os problemas intelectuais e racionais que eu já tive (e viria a ter) seriam sanados pelos melhores e mais embasados argumentos. Embora eu não tivesse razões inquestionáveis para acreditar que estava pisando no paraíso das verdades objetivas, eu tinha a convicção de que, a partir do momento em que estava tendo a chance de me aproximar da seleta minoria social considerada elite intelectual de nosso país, eu me maximizaria intelectualmente e – por que não – seria um ser mais virtuoso. Ledo engano.

Em 2013, ano em que passei a cursar Filosofia na PUCRS, fui apresentado a uma gama de pensadores e teóricos das mais variadas áreas do conhecimento. Me apaixonei pelos pré-socráticos e sua incrível mania de justificar a existência de todas as coisas a partir de um denominador comum; me aproximei de Aristóteles de modo a associar meu nome ao seu (“alystoteles é, não ria), usando tal apelido como usuário nas redes sociais; presenciei o amor digno de filme francês que Platão cultivara por Sócrates; descobri a relevância da filosofia para as ciências exatas, quando vi Demócrito falar sobre o átomo… Enfim, vi na história da filosofia antiga (afinal era meu primeiro trimestre) uma paixão transcendental pelo conhecimento e pela busca de razões universais.

Mas a vida acadêmica não é tão acadêmica assim.

Período de manifestações sociais, fui apresentado a pessoas interessantes e interessadas em mudar o mundo, predispostas diariamente no centro acadêmico de minha faculdade, cheias de tesão por fazer algo acontecer. Nesse ínterim, descobri que eu não apenas podia ser estudante, eu podia ser militante. Afinal, qual o sentido da aquisição de um conhecimento que não serve a uma prática? Eu passei, então, a ter uma causa pela qual lutar.

Com fortes tendências anarquistas, meu objetivo era me tornar um intelectual para servir aos ideais mais belos da esquerda. Eu sabia, afinal, que Thomas Hobbes estava redondamente errado ao afirmar que “o homem é o lobo do homem”. Bom mesmo era Rousseau, com a sua ideia de “bom selvagem“. A humanidade tinha jeito, e esse jeito apenas seria conquistado derrotando o capitalismo, fazendo a sociedade “virar à esquerda”.


Contei brevemente sobre minha transição de acadêmico apaixonado a militante inconformado. Por quê?

É que hoje as coisas são diferentes. Mudei radicalmente, tanto em ideias quanto em comportamento. Algumas pessoas deixaram de me reconhecer enquanto alguém agradável para se debater um tópico ou mesmo bater um papo qualquer. Nessa mudança drástica, não apenas deixei ideias de lado como também perdi contatos e amigos.

E esse é o problema.

Quando nos fundamentamos em alguns rótulos frágeis e mutáveis (pois “tudo flui”, né Heráclito?) para definir que tipo de relações podemos ou não ter com alguém, deixamos de ter relações sinceras e incondicionais, baseando nossas amizades tão somente no prazer ou na utilidade, como já diria Aristóteles.

Eu, por exemplo, deixei de ser o que convencionamos chamar de esquerdista, alguém apto a defender uma ideologia sobre e perante o mundo, acima de tudo. Alguém que, ao cultivar um círculo de amizades onde todos pensam e, de certa forma, agem de forma muito parecida, está numa constante corda bamba em que qualquer possível mudança pode acabar por fazer com que as pessoas te considerem uma ameaça ao seu círculo social.

E quando você mostra estar pensando de outra forma, bem, você corre o risco quase absoluto de ser excluído – e talvez isso seja o que acontece quando estamos mais preocupados em validar nossas crenças pessoais em detrimento de fazermos uma autocrítica que nos diga se nossa forma de pensar pode ser danosa inclusive pra gente.

De todo modo, o fato é que a forma como você pensa e, principalmente, expressa suas ideias, influenciará a forma como as pessoas reagirão ao seu posicionamento (Newton chamaria isso de “lei de ação e reação” – aos mais fervorosos, perdão a licença poética).

E uma forma bastante comum é a exclusão social.


A Exclusão Social Virtual

Imagem de um grupo de canecas brancas juntas, tendo ao lado uma caneca preta isolada. Imagem simboliza a exclusão social. | infantilidade
Imagem simbolizando a exclusão social.

A exclusão social não é algo característico somente de grupos políticos. Por designar um processo de afastamento de um grupo ou de privação de interação com outros indivíduos, ela diz respeito a todo tipo de espaço e estrutura na sociedade. Quem, afinal, não foi reprimido na fase escolar, na fase universitária ou mesmo na adulta, em seu meio profissional?

Aqui, porém, não me refiro tão somente a meios mais íntimos como núcleos familiares e profissionais. A exclusão social também atinge as redes sociais, e mesmo a internet propriamente dita.

Acontece que, com livre acesso à tecnologia, podemos definir e sermos mais seletivos quanto às pessoas com quem pretendemos nos relacionar. Aplicativos como o Tinder, por exemplo, nos ajudam a encontrar “o par perfeito”, a partir de nossas preferências pessoais, dando-nos a chance de, literalmente, escolher a dedo “a pessoa amada”.

Redes sociais mais amplas como o Facebook, porém, não estão livres disso. Você pode ter um mural aberto, com livre acesso à rede mundial de computadores, e mesmo assim estará apto a definir os padrões pelos quais alguém é bem-vindo a interagir com você.

Como eu sempre digo, o problema não é a coisa em si, mas como a utilizamos. Redes sociais são seguras na medida em que podemos controlar nossos próprios perfis e escolher com quem queremos nos relacionar, por óbvio. Porém, e justamente devido aos vieses cognitivos a que estamos submetidos quando interagimos, facilmente tornamos esses “espaços seguros” (falarei sobre isso em outro artigo, em breve) em um “caos de consenso” (outro termo que dá pano pra manga), adaptando toda a plataforma de forma que tudo, sem exceção, acabe por validar nossas crenças.

Ocorre que, ao delimitarmos tanto o que vemos ao acessar as redes, acabamos não dando espaço ao contraditório, este que é tão necessário para atingirmos aquelas velhas virtudes esquecidas de um bom debate intelectual. Por vezes, não apenas recusamos a presença do contraditório, mas dos contrários, também essenciais para que uma ideologia não torne-se dogmática.

Dito isso – e não entrando no mérito de questionar se a exclusão social é consequência do sistema ou se é uma condição natural de viver-se em comunidades -, é perceptível a normalidade desse comportamento em meios virtuais. Vamos, portanto, a alguns exemplos.


As Bolhas Virtuais

Print de uma atualização de status no Facebook, em que a autora pede que os outros prounistas, apoiadores da queda do governo Dilma, a excluam de seus contatos. | infantilidade
Para esta pessoa, apoiar o impeachment é ser contra o ProUni (mesmo quando você é prounista também).

Como é perceptível no print acima, além do pedido claro para ser isolada das pessoas que, por um acaso, deram apoio ao impeachment, a locutora entende que ter dado tal apoio é “esquecer da sua classe”.

Volto, aqui, ao que já disse antes: quando você está convicto de uma ideologia que te coloca em determinado grupo social, qualquer resvalada (para não dizer mudança de opinião) pode atestar o fim de sua aceitação em determinado grupo.

Neste caso, basta você declarar apoio à destituição de um governo para que, automaticamente, você não seja mais digno da amizade de determinada pessoa.

Print de um tweet, em que o locutor reclama de amigos terem curtido a página de Jair Messias Bolsonaro, no Facebook. | infantilidade
Perfil público, exposição pública.

No caso acima, temos o resultado de uma corrente que circulou no Facebook, em que você poderia, por meio deste link, descobrir quais de seus amigos curtem a página de Bolsonaro. Na corrente, pedia-se que as pessoas desfizessem as amizades com seus curtidores.

Eu mesmo recebi, de alguns amigos, o pedido de verificar e, quiçá, desfazer amizade com curtidores do Bolsonaro.

Para a surpresa deles, eu mesmo “curto” a página do Bolsonaro.

Tirinha em que Deus analisa a lista de "curtidores do diabo" para definir quem entra ou não no Céu. | infantilidade
E se Deus comprasse a ideia?

Acontece que, quando você baseia toda a forma como reagirá a um fato tão somente a partir de um único rótulo (no caso, “curtidor do Bolsonaro”), você acaba por limitar todas as possibilidades de interpretações sobre o fato a um único escopo: o da sua ideologia.

Eu curto sua página por uma questão de saber da necessidade de conviver com o contraditório. Se posso estar próximo e atento aos absurdos defendido por tal “mito” (que, particularmente, espero que torne-se mito mesmo… mitologia), posso estar atento à sua forma de pensar o mundo e de defender suas pautas, para, por fim, poder refutá-las com propriedade e conhecimento de causa.

Conheço, inclusive, outras pessoas que o curtem e acompanham não por sua intolerância, mas porque ele é conveniente ao que essas pessoas acreditam, como por exemplo ao defender a redução da maioridade penal e ao pautar a liberação do porte de armas.

Podemos interpretar um fato de diversas maneiras, não apenas de acordo com o que já acreditamos, com nossos vieses cognitivos que só buscam confirmar nossas predisposições mentais. A vida é fluída demais para que baste o rótulo.

Print de uma pessoa que fala a favor de que amigos de esquerda o excluam devido a ele curtir a página de Bolsonaro. | infantilidade
A bolha não tem lado.

Visões mais à esquerda do espectro político não são as únicas a fecharem-se em bolhas.

Publicamos este artigo aqui no AZ, falando sobre os chamados “justiceiros sociais“, e mostrando o quão danoso um pensamento de porco-espinho pode ser para a sociedade. Porém esse pensamento não se limita a algum espectro político. Muitos, mais à direita, estão recheados de falácias para dar e vender, e com elas justificar suas reações contra possíveis amizades, confirmando a destruição de possíveis e boas relações.

Como mostra a imagem acima, se houvesse um botão para excluir suas amizades que curtem Jean Wyllys, haveria, também, gente de sobra para fazê-lo. A animosidade em ser intolerante não é exclusividade de ninguém.


São diversos os exemplos que podemos dar sobre a infantilidade que é fechar-se numa bolha para proteger-se de ter de enfrentar o contraditório. Excluir quem pensa diferente nada mais é que declarar-se inapto a reagir frente a um obstáculo. Vou além e digo: excluir quem pensa diferente é declarar-se imaturo e cego para o fato de que é a diferença que torna este mundo possível e belo.

Para encerrar, faço um pedido singelo: valorizemos o diálogo. Diálogo sempre, a torto e a direito. Diálogo para dar e vender, reproduzir e consumir. Diálogo para tornar possível o impensável, e criar pontes entre o antes inimaginável.

Diálogo, por fim, para que o mundo seja mais rico. Rico de perspectivas, de razões e de interpretações. Ricos, por fim, de humanidade.
Print em que a pessoa comenta a favor do diálogo, contra a exclusão de contatos tão somente porque eles curtem determinada página de determinado político. | infantilidade

Precisamos vencer a barreira da exclusão e do isolamento social que provocamos a nós mesmos. E não se trata de descobrir “como conversar com um fascista” ou coisa que o valha. Trata-se de conversar com um outro de si mesmo. Um outro humano, imperfeito e cheio de si, assim mesmo como você que, infantilmente, acreditou ter razão ao desfazer uma amizade que poderia ser bela – tudo porque “alguém” não sabe lidar com quem pensa diferente.


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escrito por:

Alysson Augusto

Escritor que não compactua com o rótulo. Graduando em Filosofia pela PUCRS. Professor de ensino médio. E, não menos importante, editor do melhor site da internet, o Ano Zero. Mas o necessário a saber mesmo é de seu amor declarado por churros.


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