Capa do artigo "A infantilidade de excluir quem pensa diferente", por Alysson Augusto. Publicação: Portal Ano Zero. Na imagem, uma seta percorre ao encontro da opção "desfazer amizade", no Facebook.

A infantilidade em excluir quem pensa diferente

Em Comportamento por Alysson AugustoComentários

Quando ingres­sei no ensino supe­rior, o pri­meiro pen­sa­mento que tive foi o de que, nesse novo mundo, todos os pro­ble­mas inte­lec­tu­ais e raci­o­nais que eu já tive (e viria a ter) seriam sana­dos pelos melho­res e mais emba­sa­dos argu­men­tos. Embora eu não tivesse razões inques­ti­o­ná­veis para acre­di­tar que estava pisando no paraíso das ver­da­des obje­ti­vas, eu tinha a con­vic­ção de que, a par­tir do momento em que estava tendo a chance de me apro­xi­mar da seleta mino­ria social con­si­de­rada elite inte­lec­tual de nosso país, eu me maxi­mi­za­ria inte­lec­tu­al­mente e — por que não — seria um ser mais vir­tu­oso. Ledo engano.

Em 2013, ano em que pas­sei a cur­sar Filo­so­fia na PUCRS, fui apre­sen­tado a uma gama de pen­sa­do­res e teó­ri­cos das mais vari­a­das áreas do conhe­ci­mento. Me apai­xo­nei pelos pré-socrá­ti­cos e sua incrí­vel mania de jus­ti­fi­car a exis­tên­cia de todas as coi­sas a par­tir de um deno­mi­na­dor comum; me apro­xi­mei de Aris­tó­te­les de modo a asso­ciar meu nome ao seu (“alys­to­te­les - é, não ria), usando tal ape­lido como usuá­rio nas redes soci­ais; pre­sen­ciei o amor digno de filme fran­cês que Pla­tão cul­ti­vara por Sócra­tes; des­co­bri a rele­vân­cia da filo­so­fia para as ciên­cias exa­tas, quando vi Demó­crito falar sobre o átomo… Enfim, vi na his­tó­ria da filo­so­fia antiga (afi­nal era meu pri­meiro tri­mes­tre) uma pai­xão trans­cen­den­tal pelo conhe­ci­mento e pela busca de razões uni­ver­sais.

Mas a vida aca­dê­mica não é tão aca­dê­mica assim.

Período de mani­fes­ta­ções soci­ais, fui apre­sen­tado a pes­soas inte­res­san­tes e inte­res­sa­das em mudar o mundo, pre­dis­pos­tas dia­ri­a­mente no cen­tro aca­dê­mico de minha facul­dade, cheias de tesão por fazer algo acon­te­cer. Nesse ínte­rim, des­co­bri que eu não ape­nas podia ser estu­dante, eu podia ser mili­tante. Afi­nal, qual o sen­tido da aqui­si­ção de um conhe­ci­mento que não serve a uma prá­tica? Eu pas­sei, então, a ter uma causa pela qual lutar.

Com for­tes ten­dên­cias anar­quis­tas, meu obje­tivo era me tor­nar um inte­lec­tual para ser­vir aos ide­ais mais belos da esquerda. Eu sabia, afi­nal, que Tho­mas Hob­bes estava redon­da­mente errado ao afir­mar que “o homem é o lobo do homem”. Bom mesmo era Rous­seau, com a sua ideia de “bom sel­va­gem”. A huma­ni­dade tinha jeito, e esse jeito ape­nas seria con­quis­tado der­ro­tando o capi­ta­lismo, fazendo a soci­e­dade “virar à esquerda”.


Con­tei bre­ve­mente sobre minha tran­si­ção de aca­dê­mico apai­xo­nado a mili­tante incon­for­mado. Por quê?

É que hoje as coi­sas são dife­ren­tes. Mudei radi­cal­mente, tanto em ideias quanto em com­por­ta­mento. Algu­mas pes­soas dei­xa­ram de me reco­nhe­cer enquanto alguém agra­dá­vel para se deba­ter um tópico ou mesmo bater um papo qual­quer. Nessa mudança drás­tica, não ape­nas dei­xei ideias de lado como tam­bém perdi con­ta­tos e ami­gos.

E esse é o pro­blema.

Quando nos fun­da­men­ta­mos em alguns rótu­los frá­geis e mutá­veis (pois “tudo flui”, né Herá­clito?) para defi­nir que tipo de rela­ções pode­mos ou não ter com alguém, dei­xa­mos de ter rela­ções sin­ce­ras e incon­di­ci­o­nais, base­ando nos­sas ami­za­des tão somente no pra­zer ou na uti­li­dade, como já diria Aris­tó­te­les.

Eu, por exem­plo, dei­xei de ser o que con­ven­ci­o­na­mos cha­mar de esquer­dista, alguém apto a defen­der uma ide­o­lo­gia sobre e perante o mundo, acima de tudo. Alguém que, ao cul­ti­var um cír­culo de ami­za­des onde todos pen­sam e, de certa forma, agem de forma muito pare­cida, está numa cons­tante corda bamba em que qual­quer pos­sí­vel mudança pode aca­bar por fazer com que as pes­soas te con­si­de­rem uma ame­aça ao seu cír­culo social.

E quando você mos­tra estar pen­sando de outra forma, bem, você corre o risco quase abso­luto de ser excluído — e tal­vez isso seja o que acon­tece quando esta­mos mais pre­o­cu­pa­dos em vali­dar nos­sas cren­ças pes­so­ais em detri­mento de fazer­mos uma auto­crí­tica que nos diga se nossa forma de pen­sar pode ser danosa inclu­sive pra gente.

De todo modo, o fato é que a forma como você pensa e, prin­ci­pal­mente, expressa suas ideias, influ­en­ci­ará a forma como as pes­soas rea­gi­rão ao seu posi­ci­o­na­mento (New­ton cha­ma­ria isso de “lei de ação e rea­ção” — aos mais fer­vo­ro­sos, per­dão a licença poé­tica).

E uma forma bas­tante comum é a exclu­são social.


A Exclusão Social Virtual

Imagem de um grupo de canecas brancas juntas, tendo ao lado uma caneca preta isolada. Imagem simboliza a exclusão social. | infantilidade

Ima­gem sim­bo­li­zando a exclu­são social.

A exclu­são social não é algo carac­te­rís­tico somente de gru­pos polí­ti­cos. Por desig­nar um pro­cesso de afas­ta­mento de um grupo ou de pri­va­ção de inte­ra­ção com outros indi­ví­duos, ela diz res­peito a todo tipo de espaço e estru­tura na soci­e­dade. Quem, afi­nal, não foi repri­mido na fase esco­lar, na fase uni­ver­si­tá­ria ou mesmo na adulta, em seu meio pro­fis­si­o­nal?

Aqui, porém, não me refiro tão somente a meios mais ínti­mos como núcleos fami­li­a­res e pro­fis­si­o­nais. A exclu­são social tam­bém atinge as redes soci­ais, e mesmo a inter­net pro­pri­a­mente dita.

Acon­tece que, com livre acesso à tec­no­lo­gia, pode­mos defi­nir e ser­mos mais sele­ti­vos quanto às pes­soas com quem pre­ten­de­mos nos rela­ci­o­nar. Apli­ca­ti­vos como o Tin­der, por exem­plo, nos aju­dam a encon­trar “o par per­feito”, a par­tir de nos­sas pre­fe­rên­cias pes­so­ais, dando-nos a chance de, lite­ral­mente, esco­lher a dedo “a pes­soa amada”.

Redes soci­ais mais amplas como o Face­book, porém, não estão livres disso. Você pode ter um mural aberto, com livre acesso à rede mun­dial de com­pu­ta­do­res, e mesmo assim estará apto a defi­nir os padrões pelos quais alguém é bem-vindo a inte­ra­gir com você.

Como eu sem­pre digo, o pro­blema não é a coisa em si, mas como a uti­li­za­mos. Redes soci­ais são segu­ras na medida em que pode­mos con­tro­lar nos­sos pró­prios per­fis e esco­lher com quem que­re­mos nos rela­ci­o­nar, por óbvio. Porém, e jus­ta­mente devido aos vie­ses cog­ni­ti­vos a que esta­mos sub­me­ti­dos quando inte­ra­gi­mos, facil­mente tor­na­mos esses “espa­ços segu­ros” (fala­rei sobre isso em outro artigo, em breve) em um “caos de con­senso” (outro termo que dá pano pra manga), adap­tando toda a pla­ta­forma de forma que tudo, sem exce­ção, acabe por vali­dar nos­sas cren­ças.

Ocorre que, ao deli­mi­tar­mos tanto o que vemos ao aces­sar as redes, aca­ba­mos não dando espaço ao con­tra­di­tó­rio, este que é tão neces­sá­rio para atin­gir­mos aque­las velhas vir­tu­des esque­ci­das de um bom debate inte­lec­tual. Por vezes, não ape­nas recu­sa­mos a pre­sença do con­tra­di­tó­rio, mas dos con­trá­rios, tam­bém essen­ci­ais para que uma ide­o­lo­gia não torne-se dog­má­tica.

Dito isso — e não entrando no mérito de ques­ti­o­nar se a exclu­são social é con­sequên­cia do sis­tema ou se é uma con­di­ção natu­ral de viver-se em comu­ni­da­des -, é per­cep­tí­vel a nor­ma­li­dade desse com­por­ta­mento em meios vir­tu­ais. Vamos, por­tanto, a alguns exem­plos.


As Bolhas Virtuais

Print de uma atualização de status no Facebook, em que a autora pede que os outros prounistas, apoiadores da queda do governo Dilma, a excluam de seus contatos. | infantilidade

Para esta pes­soa, apoiar o impe­a­ch­ment é ser con­tra o ProUni (mesmo quando você é prou­nista tam­bém).

Como é per­cep­tí­vel no print acima, além do pedido claro para ser iso­lada das pes­soas que, por um acaso, deram apoio ao impe­a­ch­ment, a locu­tora entende que ter dado tal apoio é “esque­cer da sua classe”.

Volto, aqui, ao que já disse antes: quando você está con­victo de uma ide­o­lo­gia que te coloca em deter­mi­nado grupo social, qual­quer res­va­lada (para não dizer mudança de opi­nião) pode ates­tar o fim de sua acei­ta­ção em deter­mi­nado grupo.

Neste caso, basta você decla­rar apoio à des­ti­tui­ção de um governo para que, auto­ma­ti­ca­mente, você não seja mais digno da ami­zade de deter­mi­nada pes­soa.

Print de um tweet, em que o locutor reclama de amigos terem curtido a página de Jair Messias Bolsonaro, no Facebook. | infantilidade

Per­fil público, expo­si­ção pública.

No caso acima, temos o resul­tado de uma cor­rente que cir­cu­lou no Face­book, em que você pode­ria, por meio deste link, des­co­brir quais de seus ami­gos cur­tem a página de Bol­so­naro. Na cor­rente, pedia-se que as pes­soas des­fi­zes­sem as ami­za­des com seus cur­ti­do­res.

Eu mesmo recebi, de alguns ami­gos, o pedido de veri­fi­car e, quiçá, des­fa­zer ami­zade com cur­ti­do­res do Bol­so­naro.

Para a sur­presa deles, eu mesmo “curto” a página do Bol­so­naro.

Tirinha em que Deus analisa a lista de "curtidores do diabo" para definir quem entra ou não no Céu. | infantilidade

E se Deus com­prasse a ideia?

Acon­tece que, quando você baseia toda a forma como rea­girá a um fato tão somente a par­tir de um único rótulo (no caso, “cur­ti­dor do Bol­so­naro”), você acaba por limi­tar todas as pos­si­bi­li­da­des de inter­pre­ta­ções sobre o fato a um único escopo: o da sua ide­o­lo­gia.

Eu curto sua página por uma ques­tão de saber da neces­si­dade de con­vi­ver com o con­tra­di­tó­rio. Se posso estar pró­ximo e atento aos absur­dos defen­dido por tal “mito” (que, par­ti­cu­lar­mente, espero que torne-se mito mesmo… mito­lo­gia), posso estar atento à sua forma de pen­sar o mundo e de defen­der suas pau­tas, para, por fim, poder refutá-las com pro­pri­e­dade e conhe­ci­mento de causa.

Conheço, inclu­sive, outras pes­soas que o cur­tem e acom­pa­nham não por sua into­le­rân­cia, mas por­que ele é con­ve­ni­ente ao que essas pes­soas acre­di­tam, como por exem­plo ao defen­der a redu­ção da mai­o­ri­dade penal e ao pau­tar a libe­ra­ção do porte de armas.

Pode­mos inter­pre­tar um fato de diver­sas manei­ras, não ape­nas de acordo com o que já acre­di­ta­mos, com nos­sos vie­ses cog­ni­ti­vos que só bus­cam con­fir­mar nos­sas pre­dis­po­si­ções men­tais. A vida é fluída demais para que baste o rótulo.

Print de uma pessoa que fala a favor de que amigos de esquerda o excluam devido a ele curtir a página de Bolsonaro. | infantilidade

A bolha não tem lado.

Visões mais à esquerda do espec­tro polí­tico não são as úni­cas a fecha­rem-se em bolhas.

Publi­ca­mos este artigo aqui no AZ, falando sobre os cha­ma­dos “jus­ti­cei­ros soci­ais”, e mos­trando o quão danoso um pen­sa­mento de porco-espi­nho pode ser para a soci­e­dade. Porém esse pen­sa­mento não se limita a algum espec­tro polí­tico. Mui­tos, mais à direita, estão reche­a­dos de falá­cias para dar e ven­der, e com elas jus­ti­fi­car suas rea­ções con­tra pos­sí­veis ami­za­des, con­fir­mando a des­trui­ção de pos­sí­veis e boas rela­ções.

Como mos­tra a ima­gem acima, se hou­vesse um botão para excluir suas ami­za­des que cur­tem Jean Wyllys, have­ria, tam­bém, gente de sobra para fazê-lo. A ani­mo­si­dade em ser into­le­rante não é exclu­si­vi­dade de nin­guém.


São diver­sos os exem­plos que pode­mos dar sobre a infan­ti­li­dade que é fechar-se numa bolha para pro­te­ger-se de ter de enfren­tar o con­tra­di­tó­rio. Excluir quem pensa dife­rente nada mais é que decla­rar-se inapto a rea­gir frente a um obs­tá­culo. Vou além e digo: excluir quem pensa dife­rente é decla­rar-se ima­turo e cego para o fato de que é a dife­rença que torna este mundo pos­sí­vel e belo.

Para encer­rar, faço um pedido sin­gelo: valo­ri­ze­mos o diá­logo. Diá­logo sem­pre, a torto e a direito. Diá­logo para dar e ven­der, repro­du­zir e con­su­mir. Diá­logo para tor­nar pos­sí­vel o impen­sá­vel, e criar pon­tes entre o antes ini­ma­gi­ná­vel.

Diá­logo, por fim, para que o mundo seja mais rico. Rico de pers­pec­ti­vas, de razões e de inter­pre­ta­ções. Ricos, por fim, de huma­ni­dade.
Print em que a pessoa comenta a favor do diálogo, contra a exclusão de contatos tão somente porque eles curtem determinada página de determinado político. | infantilidade

Pre­ci­sa­mos ven­cer a bar­reira da exclu­são e do iso­la­mento social que pro­vo­ca­mos a nós mes­mos. E não se trata de des­co­brir “como con­ver­sar com um fas­cista” ou coisa que o valha. Trata-se de con­ver­sar com um outro de si mesmo. Um outro humano, imper­feito e cheio de si, assim mesmo como você que, infan­til­mente, acre­di­tou ter razão ao des­fa­zer uma ami­zade que pode­ria ser bela — tudo por­que “alguém” não sabe lidar com quem pensa dife­rente.


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É graduando em Filosofia pela PUCRS, professor de ensino médio e faz vídeos para o Youtube (conheça aqui). E, não menos importante, editor do melhor site da internet, o Ano Zero. Mas o necessário a saber mesmo é de seu amor declarado por churros.

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