Foi bom pra você? Pode ser pra mim? De Henri Matisse a Raul Seixas, dos Rolling Stones a Leonardo Da Vinci, gênios provam que atender aos anseios pessoais pode também nos levar a contribuir de forma valiosa para o autoconhecimento e a evolução da humanidade.

Então por que o ato de ceder aos próprios impulsos é muitas vezes encarado pela sociedade como algo a ser combatido, egoísta e imoral? O coletivo, por ser limitado – ao tentar agrupar as pessoas numa tediosa e infeliz zona de conforto – é reacionário e igualmente invejoso do gozo pessoal.

“Um artista nunca deve ser um prisioneiro de si mesmo, prisioneiro do estilo, prisioneiro da reputação, prisioneiro do sucesso,” pregava o pintor francês Henri Matisse, que revolucionou a arte ao criar-se impressionista para depois reinventar-se, escandalizando o mundo com o fauvismo. À revelia da crítica, dizia que o ato de pintar enriquecia sua inteligência e satisfazia os desejos do seu espírito.

Nem mesmo aos 71 anos e acometido por um câncer de intestino, quase sem poder andar, Matisse desistiu de experimentar o novo, ao produzir os geniais cuts out. São telas da sua última fase, algumas delas gigantes, criadas a partir de recortes em papel colorido, transformando-as em elementos de composição, numa serie de obras magistrais de um dos maiores artistas do século XX.

A consagração do homem que pintou acima da ousadia, em plena modernidade, comprovou o seu altruísmo perante a vida e o mundo, apesar de não reconhecido pelos críticos da época. “O tempo extrai vários valores de um trabalho de um pintor. Quando esses valores são esgotados, os quadros são esquecidos, e quanto mais um quadro tem a dar, mais importante ele é”, defendia o artista.

Esse mesmo espírito inovador, ávido por conhecer e experimentar, à revelia de valores morais vigentes, foi cantado pelo baiano Raul Seixas. Nosso gênio do rock, made in Brazil, que berrou o verso “Eu quero é ter tentação no caminho; Pois o homem é o exercício que faz”, armou-se de autenticidade e de uma guitarra na mão para combater a mesmice em nome da liberdade individual.

Na canção “Eu sou egoísta”, Raulzito cospe no status quo, prescrevendo doses maciças de egocentrismo e busca pela satisfação do indivíduo, para o alcance da amplitude, sem riscos aos valores éticos inerentes ao conceito de individuo autônomo de Immanuel Kant: “O que eu quero é o que eu penso e o que eu faço”, tocava Raul.

Na interpretação do conceito Kantiano, pelo filófoso e psicólogo Mario Fleig (entrevista à Revista IHU Online n.417, Ano XIII), “o indivíduo egoísta coloca em primeiro lugar a satisfação de suas pulsões a qualquer preço, ao passo que o individuo autônomo, ideal e propugnado por Kant, quer antes de tudo ser capaz de deliberar sobre as coerções de suas pulsões para, então, poder ter a liberdade de refreá-las ou assumi-las de uma forma simbólica viável”.

De acordo com Fleig, “esse modo autônomo significa não ser condicionado pela vontade de outros, mas ser puro (ou seja, livre, independente, autônomo e incondicionado)”. Originado pelo Iluminismo, o individualismo autônomo de Kant provavelmente tem na figura do pintor, escultor, poeta e arquiteto, entre outras várias habilidades, Leonardo Da Vinci, o seu maior representante. Sob o pretexto de saciar a fome por esclarecimento, Leonardo observava, estudava, experimentava, pintava e escrevia sobre o mundo à sua volta, criando as próprias ferramentas de pesquisa.

davinci | O individualismo e a autossatisfação movem o mundo

O julgamento alheio não o impediu de dar vazão à sua vontade interior. Foi gênio incompreendido, mas esteve à frente do seu tempo, porque respondia às suas autênticas inquietudes. Transformou sua existência numa corajosa e intensa jornada de aventuras pelos mais variados ramos do conhecimento e em prazerosas descobertas, que o elevaram à categoria de homem admiravelmente pleno.

“A água dos rios é a última que vai e a primeira que chega. Assim corre o tempo presente. Uma vida bem preenchida é uma vida longa”, assim Leonardo expressou o que o impulsionava. Era movido pela descoberta, pela vontade de observar o mundo e desvendar a natureza, inspirando-se no ser vivo.

Mas há que se considerar também o outro lado, o dos casos de total “apagão” de altruísmo, praticados por indivíduos egoístas, que geraram coisas legais para o mundo e impulsionaram à reflexão. Exemplo clássico é a composição de “(I Can’t Get No) Satisfation“, pelos Stones Mick Jagger e Keith Richards. O biógrafo de Jagger, Philip Norman, revela em trecho do seu livro sobre a vida do cantor que a parceria entre dois egos incontestavelmente alfa nada tinha de bem intencionada.

jagger | O individualismo e a autossatisfação movem o mundo

Não tratava de nada além do próprio cantor; não falava de seu fracasso em atingir o orgasmo e sim de sua frustração e tédio com uma vida que claramente espelhava a de Mick “ridin round the world doin’ this and singnin’ that”, enquanto a mídia eletrônica e a indústria publicitária competiam por sua atenção e dinheiro. Por sua vez, segundo Norman, para Richards o processo criativo foi ainda mais frugal. Ele conta que o guitarrista acordou no meio da noite, com dois acordes na cabeça, anotou num papel e voltou a roncar. Simplesmente porque a banda precisava de uma música nova, nasceu o hino contemporâneo à masturbação e autossatisfação.

Hoje a prática, além de não ser mais tabu e tratada como causa de doenças, é incentivada por médicos entre homens e, principalmente, mulheres, historicamente reprimidas, em nome da boa saúde. Para a mudança muito contribuíram os coros retumbantes de “Cause I try…and I try…and I try”, em plateias ao redor do mundo. Foi o primeiro single dos Stones a chegar ao primeiro lugar das paradas, após ser lançado em 1965, transformando-se num marco da música pop e catapultando a carreira da banda.

Sendo assim, ao final foi bom pra todos.


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escrito por:

Ilma Pessoa

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