Uma das maiores interdições ao debate que já presenciei aconteceu nos anos que seguiram ao 11 de setembro de 2001. Quem viveu os atentados às torres gêmeas nos EUA se lembra bem de como ficou o clima depois: qualquer análise, mesmo a mais razoável, era sufocada com o grito da indignação moral. A mais tímida tentativa de colocar os acontecimentos em uma lente histórica – por que aquilo tinha ocorrido, qual era sua condição de possibilidade, qual era o solo no qual havia florecido aquela organização terrorista – era suficiente para te transformar em um cúmplice de Osama bin Laden. Não era suficiente condenar os atentados, coisa que quase todo mundo fez, da esquerda à direita. Era necessário não dizer mais nada além da condenação.

Para qualquer um com um mínimo de informação e vontade de raciocinar, era mais ou menos óbvio que os atentados não aconteciam em um vazio, mas em um contexto de enorme ressentimento no mundo árabe e/ou muçulmano com décadas de bombardeios, ocupações militares, confisco de terras e golpes de Estado patrocinados pelos EUA ou por outras potências ocidentais. Mas qualquer tentativa de entender o fenômeno era catalogada como justificativa ou racionalização dos atentados. Ou, na gíria contemporânea, como “passada de pano” para terrorista. A única análise que habitava o terreno do aceitável era aquela que insistia que a Al-Qaeda havia explodido as torres gêmeas porque “odiava as liberdades” dos EUA. Se você analisava por aí, tudo bem. Então tá, né. Se você acha que isso explica, beleza, boa sorte.

A direita que governava os EUA naquele momento deitou e rolou com essa interdição, que contribuiu para duas guerras que destruíram países que nada tinham a ver com os atentados: uma inexistente relação do Iraque com o 11 de setembro foi literalmente inventada e, no caso do Afeganistão, o vínculo era tão longínquo que você tinha que passar por várias camadas de explicação para justificar a guerra. A maioria dos terroristas do 11 de setembro eram sauditas, mas é claro que atacar os sauditas, grandes aliados, estava fora de questão. Até na universidade, pessoas passaram a literalmente temer por suas próprias vidas ao colocar essas simples perguntas na mesa.

Essa interdição ao debate também contribuiu para a péssima imagem da política externa dos EUA em quase todo o mundo. De uma situação de simpatia e solidariedade quase unânimes em 2001, os EUA conseguiram, em poucos anos, voltar à condição de país detestado por sua arrogância e por suas explicações auto-congratulatórias para acontecimentos políticos que os envolvem. A exigência de abandono de qualquer reflexão serviu ao lobby da guerra e do petróleo, a Bush, à indústria armamentista, ao lobby da segurança privada e ao Partido Republicano. Não serviu muito à cidadania dos EUA, a vítima dos atentados.

Boa parte da esquerda se encontra hoje em um pântano comparável ao descrito acima: substituindo reflexão por indignação moral, confundindo análise com justificativa, interditando o simples ato de pensar sobre as raízes de fenômenos sociais repugnantes (como uma marcha nazista) porque a reflexão seria supostamente contraditória com a repulsa que esses fenômenos indiscutivelmente merecem.

O emblema perfeito dessa interdição é a invenção dessa curiosíssima palavra, “isentão”, que é usada hoje nas redes para designar qualquer um que tente entender um fenômeno social sem gritos de indignação moral, com parágrafos de mais de duas linhas e períodos que contenham orações subordinadas.

A direita se recusou a pensar as raízes do 11 de setembro, a esquerda tem se recusado a pensar as raízes da eleição de Trump e do recrudescimento do supremacismo branco – porque a condenação moral supostamente deveria bastar. Entender as condições de possibilidade desse surto de simplismo moralizante travestido de radicalidade política e combatê-lo é uma das tarefas que têm que ser encaradas por quem resiste e ainda não foi sugado por ele.

Idelber Avelar
Leciono literatura,escrevo ensaios. Editei o Biscoito Fino http://idelberavelar.com . Torcedor do Galo e membro do MPII (Minorias com Projetos Ideológicos Irreais)
  • Carlos Macedo

    A impressão que eu tenho é de que quem segue ideologias (esquerda x direita) de forma digamos, mais radical, acaba caindo nessa armadilha mesmo. Só enxerga o mal no(s) outro(s), classificando o contrário sempre como nazista por exemplo, usando isso como argumento ao invés de entender a complexidade de determinados assuntos. A indignação moral se torna ainda pior devido as redes sociais, que deram poder para covardes e mentes pequenas de achincalhar e demonstrar essa indignação na comodidade do seu lar. Uma pequena “passeada” nas redes em questões políticas e se vê que a imbecilidade humana impera. Assuntos complexos são “explicados” em apenas duas linhas de palavras!
    No mundo atual de informações que se espalham de modo viral, ninguém mais para pra pensar, têm que ter uma opinião formada sobre tudo.

  • Daniel Sampaio

    Eu não abraço nenhuma idelogia e nem tenho base ideológica justamente por causa disso!

  • Felipe Maná

    Obrigado pelo excelente texto, Idelber!