Todas as soluções criativas humanas se desenvolvem a partir de acordos, ajustes ou concessões entre os opostos. As soluções criativas sempre refletem polaridades opostas e, todavia, não são nem uma, nem outra.

(Versão revisada do texto originalmente publicado em fevereiro de 2012 no antigo site do Anticast [atualmente incorporado ao Brainstorm9]).

O que leva uma pessoa a criar algo, seja nas artes, na filosofia, no design ou em qualquer outra circunstância da vida? Foi essa pergunta que inspirou, alguns anos atrás, um longo bate-papo – que se transformou em um podcast – para o qual me convidou Ivan Mizanzuk, idealizador do Anticast, com participação de Marcos Beccari, criador do Filosofia do Design. Como o assunto é bastante complexo, optamos por reduzir o escopo da conversa ao pensador americano Ernest Becker, sobre o qual escrevia uma dissertação de mestrado na época.

A conversa acabou não ficando só nisso, claro. Como acontece em qualquer bate-papo, divagamos um bocado e algumas questão relevantes não foram abordadas. Por conta disso, resolvi escrever este texto para o Anticast alguns meses depois, a fim de tocar nos pontos que havíamos deixado de fora.

Ernest Becker, pouco conhecido no Brasil até o momento, com apenas uma de suas obras traduzida para o português (A Negação da Morte), não abordou extensivamente a questão do impulso criativo. No entanto, suas pesquisas apontam para outro teórico, o psicanalista austríaco Otto Rank que, por cerca de duas décadas, fez parte do círculo de colaboradores de Sigmund Freud e desenvolveu um profundo estudo a respeito desse impulso.

Os frutos desse trabalho foram apresentados em seu livro mais importante, Art and Artist: Creative Urge and Personality Development (sem tradução no Brasil). Baseando-se na obra de Rank, Becker desenvolveu a ideia de que o ser humano cria para suportar sua condição de finitude — como uma forma de “defesa” contra a consciência de seu inevitável destino — e também para encontrar algum sentido para a sua existência.

Será que Becker tem razão? Bem, minha intenção aqui não é abordar a dificuldade humana em relação à própria finitude. Fiz isso no mestrado e deixo agora o trabalho descansar em paz. O que pretendo é sugerir algumas formas de abordar a ideia do impulso criativo. Há muitas definições para o que vem a ser esse impulso, o que não facilita em nada a tarefa.

Assim, partirei de uma ideia bastante simples: a de que sempre existiram pessoas que não apenas sentem o impulso de criar obras de arte, como também possuem habilidade e/ou talento para fazê-lo; homens e mulheres para os quais a criação artística — e a comunicação de suas experiências através dos produtos dessa criação — é o principal, senão o único, meio para encontrar satisfação em suas vidas. A partir daí, é possível afirmar que esse impulso, apesar de ter sido pesquisado e discutido por muitos pensadores de diferentes áreas, ainda se apresenta, em última análise, como um elemento misterioso da personalidade humana.

becker - impulso criativo

Em qualquer estado de civilização ou barbarismo, o impulso criativo sempre sobreviveu. Em todas as épocas e lugares do planeta, o ser humano sempre criou, em palavra ou linha, cor ou som, obras que não admitem uma explicação unicamente utilitária. Isso é o que nos lembra Hugo Caudwell, que escreveu sobre o impulso criativo na escrita e na pintura.

No caso das criações arquiteturais, ele aponta que surgiram inicialmente de uma necessidade de criar habitações para proteger o ser humano das intempéries e perigos exteriores. Posteriormente, surgiram os edifícios públicos para reunir os membros da comunidade e organizar suas atividades e interesses. Ou seja, essas criações foram estimuladas por necessidades e objetivos “práticos”. Não é possível dizer o mesmo da música, da poesia, da pintura, da escultura e da dança.

Ainda que se acredite que algumas dessas expressões artísticas tiveram origem na magia ou na religião, para Caudwell essa é uma explicação insuficiente para o aparecimento do impulso criativo, dessa ânsia que continua presente mesmo “onde os motivos mágicos e religiosos já foram há muito esquecidos, ou onde nunca existiram”.

Penso que a ideia de épocas ou lugares completamente livres de magia e religião seja discutível, mas vale a pena considerar a sugestão de Caudwell: para compreender a natureza do impulso criativo de forma mais completa é necessário investigar como ele é satisfeito. Resumindo muito as suas conclusões, é possível dizer que uma espécie de felicidade reside na satisfação parcial de certos desejos internos profundos, e ela só pode ser conseguida através da criação de obras de arte; ao menos para aqueles indivíduos reconhecidos, ou que se reconhecem, como artistas.

De acordo com essa ideia, o primeiro passo para o entendimento da mente criativa seria uma análise desses desejos profundos que o artista tenta satisfazer através de sua atividade.

E o que poderia estar por trás destes desejos profundos? Dentre as diversas hipóteses disponíveis, é interessante ressaltar duas específicas: o desejo de atingir a “perfeição”, e a necessidade de alcançar uma sensação de valor próprio. No primeiro caso, o artista acaba concebendo ou idealizando uma noção de perfeição – de integralidade da expressão artística – que sempre buscará alcançar em suas obras, seja de forma consciente ou inconsciente.

Essa é a razão porque toda obra de arte começa com grandes esperanças, mesmo que na maior parte das vezes elas se desfaçam durante o processo criativo. No segundo caso, o desejo de se sentir valorizado depende, obviamente, do desenvolvimento do indivíduo durante o processo de crescimento e amadurecimento, mas também da maneira como ele concebe as formas ideais que procura expressar em suas obras. A crença na perfeição da expressão artística está na base de todo o trabalho/esforço do artista, e seja lá o que essa perfeição signifique, em última instância ela permanece fora do alcance de todo e qualquer indivíduo. Em resumo, na opinião de Caudwell, o verdadeiro artista nunca pode se sentir completamente satisfeito com as suas criações.

Já para Otto Rank, o impulso ou a ânsia do ser humano para criar não encontra expressão apenas em obras de arte. Também produz as religiões e as mitologias, assim como as instituições sociais correspondentes.

 Otto Rank - impulso criativo

Em outras palavras, o impulso criativo produz a cultura, da qual os objetos de arte, de uma época ou estilo particular, podem ser considerados como formas de expressão. Por essa razão, Rank aconselha que evitemos toda tentativa de explicar completamente qualquer uma dessas formas de expressão a partir de outras formas. Ao invés disso, devemos considerar todas essas formas primeiramente em relação ao impulso criativo que as produziu.

O impulso individual para criar não é, de forma alguma, uma característica específica do artista. Rank afirma que os cânones do estilo, que evoluíram a partir de uma “consciência coletiva”, também não podem ser considerados como a verdadeira essência da criação artística.

O fator individual representa a força motriz, enquanto o elemento coletivo dita as formas que seriam mais adequadas para a expressão criativa, segundo os modelos considerados válidos em cada época e lugar. Mesmo no indivíduo artístico, tudo que lhe é realmente característico é o modo específico pelo qual ele reage aos fenômenos individual e social, ou seja, ao seu ego e à cultura. Ou seja, o que caracteriza um artista é a maneira como ele se utiliza de uma dada forma, inerente a um estilo específico, para a sua expressão artística pessoal.


Sendo assim, podemos imaginar que o mesmo processo criativo que desenvolve nosso mundo exterior também desenvolve o mundo interior. Esses dois processos estão interligados, capacitando e enriquecendo ambos os mundos: um desenvolve a cultura e o outro o “eu” psicológico, sendo que o processo criativo interno sempre precede o desdobramento exterior. Para os seres humanos, nada “existe” – ou seja, nada é percebido como existente – até que o processo criativo de auto-desenvolvimento tenha produzido a consciência.

Nesse sentido, a percepção de opostos dentro e fora de nós é absolutamente necessária, como afirma Carl Jung, “não há consciência sem a discriminação de opostos. Nada pode existir sem o seu oposto: o dois era um no princípio e voltará a ser um no fim”. Os opostos são fundamentais para toda a criação, pois possibilitam o surgimento da consciência humana e da vida como a conhecemos.

Jung não é o único a acreditar que os opostos são necessários para o desenvolvimento da consciência, assim como para a arquitetura da psique. Lawrence Staples, em seu livro The Creative Soul, lembra que a base mítica para o surgimento da consciência humana pode ser encontrada em grandes narrativas, como a história bíblica do fruto proibido no Jardim do Éden. Perdemos nossa “inocência paradisíaca” quando nos tornamos conscientes da existência de opostos, simbolizados no mito judaico-cristão como bem e mal. Nascemos dessa forma, com o fluxo de energia psíquica semelhante ao fluxo da eletricidade (baseado no mesmo princípio).

pollock - impulso criativo

Desse modo, o fluxo ocorre entre as polaridades opostas: negativo e positivo, feminino e masculino. Se a energia psíquica não fluir, então não estamos ou somos conscientes. O corpo pode até estar vivo, mas não sabemos disso. As polaridades opostas são uma pré-condição indispensável para toda a vida psíquica, mas ao mesmo tempo, também criam um dos obstáculos mais formidáveis para o desenvolvimento da vida humana. Jung se refere a essa condição como o problema dos opostos.

Resumidamente, o ser humano reprime, ainda na infância, alguns desses opostos que são considerados como inaceitáveis pelos pais, cuidadores ou outras figuras de autoridade com quem convive, especialmente emoções e sentimentos vistos por eles como “maus” ou potencialmente perigosos — ódio, ciúme, ambição desmedida, inveja, desejos sexuais, etc. A repressão é um mecanismo mental inconsciente, e ocorre para suprimir ideias/impulsos indesejáveis ou inaceitáveis. Através dele, podemos manter afastado da mente consciente (impedir a recordação voluntária de) tudo aquilo que causa desconforto, ou até mesmo terror.

No caso das imposições ou regras dos adultos, a repressão serve para que possamos manter os laços afetivos com essas pessoas e assegurar nosso lugar “respeitável” no mundo; ou para que sejamos aceitos pelos que estão à nossa volta. Esse processo gera, segundo Jung, uma “ferida” em nosso jovem e frágil “eu”, que acaba por diminuir nossa capacidade de auto-desenvolvimento interior e gera conflitos com os quais teremos dificuldades de lidar por uma boa parte de nossas vidas.

Ernest Becker, também foi influenciado pela ideia das polaridades opostas. Para ele, a existência humana é caracterizada pelo paradoxo. O “eu” já desenvolvido contém em si ambas as polaridades e, no entanto, não pode ser definido exclusivamente por nenhuma, nem por ambas simultaneamente.

Na verdade, somos justamente o fruto do conflito entre elas, de sua contradição. A vida humana consciente é produto da tensão produzida entre os opostos. Nossa realidade, quando plenamente desenvolvida, é caracterizada por uma ambivalência que apresenta o valor de cada um dos opostos como relativo, ao invés de absoluto. Nesse sentido, poderíamos pensar que todas as soluções criativas humanas se desenvolvem a partir de acordos, ajustes ou concessões entre os opostos. As soluções criativas sempre refletem polaridades opostas e, todavia, não são nem uma, nem outra.

dança - impulso criativo

O processo criativo na arte, assim como na vida, depende de aproximar o suficiente os pólos opostos de modo a produzir um “filho” (um livro, uma sinfonia, um quadro, uma escultura…), sem que este se identifique unicamente com nenhum dos dois pólos que o criaram. Esse processo demanda o abandono contínuo de uma posição segura, o sacrifício do que é conhecido no presente, para que se possa seguir em frente em direção ao desconhecido.

Nas palavras de Staples, “o artista precisa adentrar o vazio da mesma forma que uma palavra penetra uma folha em branco. De forma similar, um escritor precisa deixar para trás uma palavra ou uma sentença anterior e atravessar um intervalo, um hiato, a fim de alcançar a próxima palavra ou sentença, e assim por diante até que seu texto esteja completo”. Um compositor faz a mesma coisa quando deixa para trás cada nota inserida na composição e atravessa uma pausa até gerar a próxima nota.


Abandonar aquilo que nos é conhecido e aparentemente seguro pode ser assustador. Diante do medo do desconhecido, da travessia do vazio ou salto no escuro, como se costuma dizer, podemos resistir e acabar provocando um bloqueio do impulso criativo. Segundo a psicanálise, essa reação representa, dentre outras coisas, o medo da abertura do próprio eu ao “oceano do inconsciente”, o medo de ser engolido por ele. Assim como Staples, também acho duvidoso que possamos superar esse medo abissal sem estarmos conscientes, mesmo que de forma marginal, de uma possibilidade de avanço; sem que possamos sentir a agitação emocional que vem com o traspassamento do vazio.

A maioria de nós é consciente deste sentimento, mesmo que não use as mesmas palavras para descrevê-lo. É como se uma enorme torrente de água estivesse tentando atravessar um canudo de plástico. De certa forma, não é tão diferente de um orgasmo, e pode ocorrer repetidamente durante o trabalho criativo. O interessante é que justamente esse sentimento pode nos ajudar a superar a resistência provocada pelo temor de abandonar o que é seguro. Vencendo nossa própria resistência, podemos atravessar esse vazio que nos leva ao desconhecido, àquilo que se tornará o fruto do impulso criativo inicial: o produto da aproximação das polaridades opostas que habitam nosso mundo interior e exterior.

Certamente, os artistas são os mais familiarizados com esse sentimento intenso de prazer que os arrasta para o trabalho criativo, e conhecem bem o medo aterrorizante que impede o seu desenvolvimento. Segundo Staples, esse sentimento elevado que seduz os artistas e leva-os ao trabalho criativo é o mesmo que nos seduz a todos para dar início ao processo criativo subjacente ao nosso crescimento e desenvolvimento em indivíduos maduros.

fellini - impulso criativo

Embora seja importante enfatizar a necessidade do “deixar para trás” (o lugar seguro, o presente, aquilo que já foi criado), o movimento oposto – de persistir, de manter-se firme – também é necessário. A questão é a do tempo ideal que se deve permanecer na “posição segura” antes de saltar para o desconhecido. Qual o momento exato em que o trapezista deve largar de um trapézio e saltar para o próximo, a fim de conseguir agarrá-lo sem cair?

Não desejamos passar para o momento seguinte de criação antes que aquele no qual trabalhamos esteja “perfeito”, ou pelo menos até que nos pareça completo. Mas também não podemos demorar demais para seguir em frente, senão corremos o risco de arruinar todo o processo, impossibilitando a sua conclusão. Talvez essa seja uma das razões para muitos artistas se recusarem a mostrar seu trabalho antes que o considerem “terminado”: temem que olhos críticos possam prejudicar seu processo criativo e destruir a obra que estão tentando criar; da mesma forma que um bolo murcha se o tiramos do forno antes do momento certo de cozimento da massa. Seja como for, fico ainda com as palavras de Staples quando diz que

“o mistério da criação encontra-se de algum modo nessa lacuna entre trapézios, palavras, notas e pinceladas. Todavia, justamente por que o momento da criação é, em última análise, um mistério, temos de usar analogias, palavras e imagens para descrever uma experiência visceral que é profundamente sentida, porém extremamente difícil, senão impossível, de descrever.” (Staples, p. 12)

Considerando essa dificuldade, é possível compreender a razão de tantos artistas acreditarem que falar sobre criatividade é algo inútil. Mas isso não nos impede de continuar investigando e escrevendo sobre o assunto, é claro.

Em uma entrevista para o National Post (Canadá), o artista Ian Wallace, considerado um poeta das imagens e um padrinho do fotoconceitualismo, diz que a ideia do impulso criativo é uma forma bastante romântica de descrever o processo de criação de um artista, já que no fim das contas “é realmente apenas um monte de trabalho duro”. Ele não deixa de ter razão, mas o processo não se resume apenas a isso. A necessidade de trabalho duro é evidente para qualquer pessoa que tenha um mínimo de experiência com o processo criativo; entretanto, há outras variáveis que devem ser levadas em consideração nessa equação.

No fim das contas, ninguém melhor do que um poeta para descrever a alma desse impulso que anima todos os que se aventuram nessa travessia em direção ao desconhecido. Pego emprestadas as palavras da polonesa Wislawa Szymborska, ao receber o Prêmio Nobel de Literatura em 1996, publicadas pela revista Piauí. Ainda que ela fale de inspiração, suas palavras tocam em um ponto essencial do impulso criativo, este que não é um privilégio exclusivo de poetas e artistas:

“Existe, existiu, existirá sempre certo grupo de pessoas a quem a inspiração visita. É formado por todos aqueles que conscientemente escolheram sua vocação, e fazem seu trabalho com amor e imaginação. Pode incluir médicos, professores, jardineiros – eu poderia fazer uma lista de mais de cem profissões. Seu trabalho se torna uma aventura constante, enquanto forem capazes de continuar a descobrir nele novos desafios. Dificuldades e reveses nunca sufocam a sua curiosidade. Um enxame de questões novas emerge de cada problema que eles solucionam. Seja lá o que for, nasce de um contínuo ‘não sei’.”


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escrito por:

Jussara Almeida