Pablo Picasso

O que é esse tal de impulso criativo?

Em Consciência por Jussara AlmeidaComentário

O que leva uma pes­soa a criar algo, seja nas artes, na filo­so­fia, no design ou em qual­quer outra cir­cuns­tân­cia da vida? Foi essa per­gunta que ins­pi­rou, alguns anos atrás, um longo bate-papo — que se trans­for­mou em um pod­cast — para o qual me con­vi­dou Ivan Mizan­zuk, ide­a­li­za­dor do Anti­cast, com par­ti­ci­pa­ção de Mar­cos Bec­cari, cri­a­dor do Filo­so­fia do Design. Como o assunto é bas­tante com­plexo, opta­mos por redu­zir o escopo da con­versa ao pen­sa­dor ame­ri­cano Ernest Bec­ker, sobre o qual escre­via uma dis­ser­ta­ção de mes­trado na época.

A con­versa aca­bou não ficando só nisso, claro. Como acon­tece em qual­quer bate-papo, diva­ga­mos um bocado e algu­mas ques­tão rele­van­tes não foram abor­da­das. Por conta disso, resolvi escre­ver este texto para o Anti­cast alguns meses depois, a fim de tocar nos pon­tos que havía­mos dei­xado de fora.

Ernest Bec­ker, pouco conhe­cido no Bra­sil até o momento, com ape­nas uma de suas obras tra­du­zida para o por­tu­guês (A Nega­ção da Morte), não abor­dou exten­si­va­mente a ques­tão do impulso cri­a­tivo. No entanto, suas pes­qui­sas apon­tam para outro teó­rico, o psi­ca­na­lista aus­tríaco Otto Rank que, por cerca de duas déca­das, fez parte do cír­culo de cola­bo­ra­do­res de Sig­mund Freud e desen­vol­veu um pro­fundo estudo a res­peito desse impulso.

Os fru­tos desse tra­ba­lho foram apre­sen­ta­dos em seu livro mais impor­tante, Art and Artist: Cre­a­tive Urge and Per­so­na­lity Deve­lop­ment (sem tra­du­ção no Bra­sil). Base­ando-se na obra de Rank, Bec­ker desen­vol­veu a ideia de que o ser humano cria para supor­tar sua con­di­ção de fini­tude — como uma forma de “defesa” con­tra a cons­ci­ên­cia de seu ine­vi­tá­vel des­tino — e tam­bém para encon­trar algum sen­tido para a sua exis­tên­cia.

Será que Bec­ker tem razão? Bem, minha inten­ção aqui não é abor­dar a difi­cul­dade humana em rela­ção à pró­pria fini­tude. Fiz isso no mes­trado e deixo agora o tra­ba­lho des­can­sar em paz. O que pre­tendo é suge­rir algu­mas for­mas de abor­dar a ideia do impulso cri­a­tivo. Há mui­tas defi­ni­ções para o que vem a ser esse impulso, o que não faci­lita em nada a tarefa. 

Assim, par­ti­rei de uma ideia bas­tante sim­ples: a de que sem­pre exis­ti­ram pes­soas que não ape­nas sen­tem o impulso de criar obras de arte, como tam­bém pos­suem habi­li­dade e/ou talento para fazê-lo; homens e mulhe­res para os quais a cri­a­ção artís­tica — e a comu­ni­ca­ção de suas expe­ri­ên­cias atra­vés dos pro­du­tos dessa cri­a­ção — é o prin­ci­pal, senão o único, meio para encon­trar satis­fa­ção em suas vidas. A par­tir daí, é pos­sí­vel afir­mar que esse impulso, ape­sar de ter sido pes­qui­sado e dis­cu­tido por mui­tos pen­sa­do­res de dife­ren­tes áreas, ainda se apre­senta, em última aná­lise, como um ele­mento mis­te­ri­oso da per­so­na­li­dade humana.

becker - impulso criativo

Em qual­quer estado de civi­li­za­ção ou bar­ba­rismo, o impulso cri­a­tivo sem­pre sobre­vi­veu. Em todas as épo­cas e luga­res do pla­neta, o ser humano sem­pre criou, em pala­vra ou linha, cor ou som, obras que não admi­tem uma expli­ca­ção uni­ca­mente uti­li­tá­ria. Isso é o que nos lem­bra Hugo Caudwell, que escre­veu sobre o impulso cri­a­tivo na escrita e na pin­tura.

No caso das cri­a­ções arqui­te­tu­rais, ele aponta que sur­gi­ram ini­ci­al­mente de uma neces­si­dade de criar habi­ta­ções para pro­te­ger o ser humano das intem­pé­ries e peri­gos exte­ri­o­res. Pos­te­ri­or­mente, sur­gi­ram os edi­fí­cios públi­cos para reu­nir os mem­bros da comu­ni­dade e orga­ni­zar suas ati­vi­da­des e inte­res­ses. Ou seja, essas cri­a­ções foram esti­mu­la­das por neces­si­da­des e obje­ti­vos “prá­ti­cos”. Não é pos­sí­vel dizer o mesmo da música, da poe­sia, da pin­tura, da escul­tura e da dança.

Ainda que se acre­dite que algu­mas des­sas expres­sões artís­ti­cas tive­ram ori­gem na magia ou na reli­gião, para Caudwell essa é uma expli­ca­ção insu­fi­ci­ente para o apa­re­ci­mento do impulso cri­a­tivo, dessa ânsia que con­ti­nua pre­sente mesmo “onde os moti­vos mági­cos e reli­gi­o­sos já foram há muito esque­ci­dos, ou onde nunca exis­ti­ram”.

Penso que a ideia de épo­cas ou luga­res com­ple­ta­mente livres de magia e reli­gião seja dis­cu­tí­vel, mas vale a pena con­si­de­rar a suges­tão de Caudwell: para com­pre­en­der a natu­reza do impulso cri­a­tivo de forma mais com­pleta é neces­sá­rio inves­ti­gar como ele é satis­feito. Resu­mindo muito as suas con­clu­sões, é pos­sí­vel dizer que uma espé­cie de feli­ci­dade reside na satis­fa­ção par­cial de cer­tos dese­jos inter­nos pro­fun­dos, e ela só pode ser con­se­guida atra­vés da cri­a­ção de obras de arte; ao menos para aque­les indi­ví­duos reco­nhe­ci­dos, ou que se reco­nhe­cem, como artis­tas.

De acordo com essa ideia, o pri­meiro passo para o enten­di­mento da mente cri­a­tiva seria uma aná­lise des­ses dese­jos pro­fun­dos que o artista tenta satis­fa­zer atra­vés de sua ati­vi­dade.

E o que pode­ria estar por trás des­tes dese­jos pro­fun­dos? Den­tre as diver­sas hipó­te­ses dis­po­ní­veis, é inte­res­sante res­sal­tar duas espe­cí­fi­cas: o desejo de atin­gir a “per­fei­ção”, e a neces­si­dade de alcan­çar uma sen­sa­ção de valor pró­prio. No pri­meiro caso, o artista acaba con­ce­bendo ou ide­a­li­zando uma noção de per­fei­ção – de inte­gra­li­dade da expres­são artís­tica – que sem­pre bus­cará alcan­çar em suas obras, seja de forma cons­ci­ente ou incons­ci­ente.

Essa é a razão por­que toda obra de arte começa com gran­des espe­ran­ças, mesmo que na maior parte das vezes elas se des­fa­çam durante o pro­cesso cri­a­tivo. No segundo caso, o desejo de se sen­tir valo­ri­zado depende, obvi­a­mente, do desen­vol­vi­mento do indi­ví­duo durante o pro­cesso de cres­ci­mento e ama­du­re­ci­mento, mas tam­bém da maneira como ele con­cebe as for­mas ide­ais que pro­cura expres­sar em suas obras. A crença na per­fei­ção da expres­são artís­tica está na base de todo o trabalho/esforço do artista, e seja lá o que essa per­fei­ção sig­ni­fi­que, em última ins­tân­cia ela per­ma­nece fora do alcance de todo e qual­quer indi­ví­duo. Em resumo, na opi­nião de Caudwell, o ver­da­deiro artista nunca pode se sen­tir com­ple­ta­mente satis­feito com as suas cri­a­ções.

Já para Otto Rank, o impulso ou a ânsia do ser humano para criar não encon­tra expres­são ape­nas em obras de arte. Tam­bém pro­duz as reli­giões e as mito­lo­gias, assim como as ins­ti­tui­ções soci­ais cor­res­pon­den­tes.

 Otto Rank - impulso criativo

Em outras pala­vras, o impulso cri­a­tivo pro­duz a cul­tura, da qual os obje­tos de arte, de uma época ou estilo par­ti­cu­lar, podem ser con­si­de­ra­dos como for­mas de expres­são. Por essa razão, Rank acon­se­lha que evi­te­mos toda ten­ta­tiva de expli­car com­ple­ta­mente qual­quer uma des­sas for­mas de expres­são a par­tir de outras for­mas. Ao invés disso, deve­mos con­si­de­rar todas essas for­mas pri­mei­ra­mente em rela­ção ao impulso cri­a­tivo que as pro­du­ziu.

O impulso indi­vi­dual para criar não é, de forma alguma, uma carac­te­rís­tica espe­cí­fica do artista. Rank afirma que os câno­nes do estilo, que evo­luí­ram a par­tir de uma “cons­ci­ên­cia cole­tiva”, tam­bém não podem ser con­si­de­ra­dos como a ver­da­deira essên­cia da cri­a­ção artís­tica.

O fator indi­vi­dual repre­senta a força motriz, enquanto o ele­mento cole­tivo dita as for­mas que seriam mais ade­qua­das para a expres­são cri­a­tiva, segundo os mode­los con­si­de­ra­dos váli­dos em cada época e lugar. Mesmo no indi­ví­duo artís­tico, tudo que lhe é real­mente carac­te­rís­tico é o modo espe­cí­fico pelo qual ele reage aos fenô­me­nos indi­vi­dual e social, ou seja, ao seu ego e à cul­tura. Ou seja, o que carac­te­riza um artista é a maneira como ele se uti­liza de uma dada forma, ine­rente a um estilo espe­cí­fico, para a sua expres­são artís­tica pes­soal.

Sendo assim, pode­mos ima­gi­nar que o mesmo pro­cesso cri­a­tivo que desen­volve nosso mundo exte­rior tam­bém desen­volve o mundo inte­rior. Esses dois pro­ces­sos estão inter­li­ga­dos, capa­ci­tando e enri­que­cendo ambos os mun­dos: um desen­volve a cul­tura e o outro o “eu” psi­co­ló­gico, sendo que o pro­cesso cri­a­tivo interno sem­pre pre­cede o des­do­bra­mento exte­rior. Para os seres huma­nos, nada “existe” – ou seja, nada é per­ce­bido como exis­tente – até que o pro­cesso cri­a­tivo de auto-desen­vol­vi­mento tenha pro­du­zido a cons­ci­ên­cia.

Nesse sen­tido, a per­cep­ção de opos­tos den­tro e fora de nós é abso­lu­ta­mente neces­sá­ria, como afirma Carl Jung, “não há cons­ci­ên­cia sem a dis­cri­mi­na­ção de opos­tos. Nada pode exis­tir sem o seu oposto: o dois era um no prin­cí­pio e vol­tará a ser um no fim”. Os opos­tos são fun­da­men­tais para toda a cri­a­ção, pois pos­si­bi­li­tam o sur­gi­mento da cons­ci­ên­cia humana e da vida como a conhe­ce­mos.

Jung não é o único a acre­di­tar que os opos­tos são neces­sá­rios para o desen­vol­vi­mento da cons­ci­ên­cia, assim como para a arqui­te­tura da psi­que. Lawrence Sta­ples, em seu livro The Cre­a­tive Soul, lem­bra que a base mítica para o sur­gi­mento da cons­ci­ên­cia humana pode ser encon­trada em gran­des nar­ra­ti­vas, como a his­tó­ria bíblica do fruto proi­bido no Jar­dim do Éden. Per­de­mos nossa “ino­cên­cia para­di­síaca” quando nos tor­na­mos cons­ci­en­tes da exis­tên­cia de opos­tos, sim­bo­li­za­dos no mito judaico-cris­tão como bem e mal. Nas­ce­mos dessa forma, com o fluxo de ener­gia psí­quica seme­lhante ao fluxo da ele­tri­ci­dade (base­ado no mesmo prin­cí­pio).

pollock - impulso criativo

Desse modo, o fluxo ocorre entre as pola­ri­da­des opos­tas: nega­tivo e posi­tivo, femi­nino e mas­cu­lino. Se a ener­gia psí­quica não fluir, então não esta­mos ou somos cons­ci­en­tes. O corpo pode até estar vivo, mas não sabe­mos disso. As pola­ri­da­des opos­tas são uma pré-con­di­ção indis­pen­sá­vel para toda a vida psí­quica, mas ao mesmo tempo, tam­bém criam um dos obs­tá­cu­los mais for­mi­dá­veis para o desen­vol­vi­mento da vida humana. Jung se refere a essa con­di­ção como o pro­blema dos opos­tos.

Resu­mi­da­mente, o ser humano reprime, ainda na infân­cia, alguns des­ses opos­tos que são con­si­de­ra­dos como ina­cei­tá­veis pelos pais, cui­da­do­res ou outras figu­ras de auto­ri­dade com quem con­vive, espe­ci­al­mente emo­ções e sen­ti­men­tos vis­tos por eles como “maus” ou poten­ci­al­mente peri­go­sos — ódio, ciúme, ambi­ção des­me­dida, inveja, dese­jos sexu­ais, etc. A repres­são é um meca­nismo men­tal incons­ci­ente, e ocorre para supri­mir ideias/impulsos inde­se­já­veis ou ina­cei­tá­veis. Atra­vés dele, pode­mos man­ter afas­tado da mente cons­ci­ente (impe­dir a recor­da­ção volun­tá­ria de) tudo aquilo que causa des­con­forto, ou até mesmo ter­ror.

No caso das impo­si­ções ou regras dos adul­tos, a repres­são serve para que pos­sa­mos man­ter os laços afe­ti­vos com essas pes­soas e asse­gu­rar nosso lugar “res­pei­tá­vel” no mundo; ou para que seja­mos acei­tos pelos que estão à nossa volta. Esse pro­cesso gera, segundo Jung, uma “ferida” em nosso jovem e frá­gil “eu”, que acaba por dimi­nuir nossa capa­ci­dade de auto-desen­vol­vi­mento inte­rior e gera con­fli­tos com os quais tere­mos difi­cul­da­des de lidar por uma boa parte de nos­sas vidas.

Ernest Bec­ker, tam­bém foi influ­en­ci­ado pela ideia das pola­ri­da­des opos­tas. Para ele, a exis­tên­cia humana é carac­te­ri­zada pelo para­doxo. O “eu” já desen­vol­vido con­tém em si ambas as pola­ri­da­des e, no entanto, não pode ser defi­nido exclu­si­va­mente por nenhuma, nem por ambas simul­ta­ne­a­mente.

Na ver­dade, somos jus­ta­mente o fruto do con­flito entre elas, de sua con­tra­di­ção. A vida humana cons­ci­ente é pro­duto da ten­são pro­du­zida entre os opos­tos. Nossa rea­li­dade, quando ple­na­mente desen­vol­vida, é carac­te­ri­zada por uma ambi­va­lên­cia que apre­senta o valor de cada um dos opos­tos como rela­tivo, ao invés de abso­luto. Nesse sen­tido, pode­ría­mos pen­sar que todas as solu­ções cri­a­ti­vas huma­nas se desen­vol­vem a par­tir de acor­dos, ajus­tes ou con­ces­sões entre os opos­tos. As solu­ções cri­a­ti­vas sem­pre refle­tem pola­ri­da­des opos­tas e, toda­via, não são nem uma, nem outra.

dança - impulso criativo

O pro­cesso cri­a­tivo na arte, assim como na vida, depende de apro­xi­mar o sufi­ci­ente os pólos opos­tos de modo a pro­du­zir um “filho” (um livro, uma sin­fo­nia, um qua­dro, uma escul­tura…), sem que este se iden­ti­fi­que uni­ca­mente com nenhum dos dois pólos que o cri­a­ram. Esse pro­cesso demanda o aban­dono con­tí­nuo de uma posi­ção segura, o sacri­fí­cio do que é conhe­cido no pre­sente, para que se possa seguir em frente em dire­ção ao des­co­nhe­cido.

Nas pala­vras de Sta­ples, “o artista pre­cisa aden­trar o vazio da mesma forma que uma pala­vra pene­tra uma folha em branco. De forma simi­lar, um escri­tor pre­cisa dei­xar para trás uma pala­vra ou uma sen­tença ante­rior e atra­ves­sar um inter­valo, um hiato, a fim de alcan­çar a pró­xima pala­vra ou sen­tença, e assim por diante até que seu texto esteja com­pleto”. Um com­po­si­tor faz a mesma coisa quando deixa para trás cada nota inse­rida na com­po­si­ção e atra­vessa uma pausa até gerar a pró­xima nota.

Aban­do­nar aquilo que nos é conhe­cido e apa­ren­te­mente seguro pode ser assus­ta­dor. Diante do medo do des­co­nhe­cido, da tra­ves­sia do vazio ou salto no escuro, como se cos­tuma dizer, pode­mos resis­tir e aca­bar pro­vo­cando um blo­queio do impulso cri­a­tivo. Segundo a psi­ca­ná­lise, essa rea­ção repre­senta, den­tre outras coi­sas, o medo da aber­tura do pró­prio eu ao “oce­ano do incons­ci­ente”, o medo de ser engo­lido por ele. Assim como Sta­ples, tam­bém acho duvi­doso que pos­sa­mos supe­rar esse medo abis­sal sem estar­mos cons­ci­en­tes, mesmo que de forma mar­gi­nal, de uma pos­si­bi­li­dade de avanço; sem que pos­sa­mos sen­tir a agi­ta­ção emo­ci­o­nal que vem com o tras­pas­sa­mento do vazio.

A mai­o­ria de nós é cons­ci­ente deste sen­ti­mento, mesmo que não use as mes­mas pala­vras para des­crevê-lo. É como se uma enorme tor­rente de água esti­vesse ten­tando atra­ves­sar um canudo de plás­tico. De certa forma, não é tão dife­rente de um orgasmo, e pode ocor­rer repe­ti­da­mente durante o tra­ba­lho cri­a­tivo. O inte­res­sante é que jus­ta­mente esse sen­ti­mento pode nos aju­dar a supe­rar a resis­tên­cia pro­vo­cada pelo temor de aban­do­nar o que é seguro. Ven­cendo nossa pró­pria resis­tên­cia, pode­mos atra­ves­sar esse vazio que nos leva ao des­co­nhe­cido, àquilo que se tor­nará o fruto do impulso cri­a­tivo ini­cial: o pro­duto da apro­xi­ma­ção das pola­ri­da­des opos­tas que habi­tam nosso mundo inte­rior e exte­rior.

Cer­ta­mente, os artis­tas são os mais fami­li­a­ri­za­dos com esse sen­ti­mento intenso de pra­zer que os arrasta para o tra­ba­lho cri­a­tivo, e conhe­cem bem o medo ater­ro­ri­zante que impede o seu desen­vol­vi­mento. Segundo Sta­ples, esse sen­ti­mento ele­vado que seduz os artis­tas e leva-os ao tra­ba­lho cri­a­tivo é o mesmo que nos seduz a todos para dar iní­cio ao pro­cesso cri­a­tivo sub­ja­cente ao nosso cres­ci­mento e desen­vol­vi­mento em indi­ví­duos madu­ros.

fellini - impulso criativo

Embora seja impor­tante enfa­ti­zar a neces­si­dade do “dei­xar para trás” (o lugar seguro, o pre­sente, aquilo que já foi cri­ado), o movi­mento oposto – de per­sis­tir, de man­ter-se firme – tam­bém é neces­sá­rio. A ques­tão é a do tempo ideal que se deve per­ma­ne­cer na “posi­ção segura” antes de sal­tar para o des­co­nhe­cido. Qual o momento exato em que o tra­pe­zista deve lar­gar de um tra­pé­zio e sal­tar para o pró­ximo, a fim de con­se­guir agarrá-lo sem cair? 

Não dese­ja­mos pas­sar para o momento seguinte de cri­a­ção antes que aquele no qual tra­ba­lha­mos esteja “per­feito”, ou pelo menos até que nos pareça com­pleto. Mas tam­bém não pode­mos demo­rar demais para seguir em frente, senão cor­re­mos o risco de arrui­nar todo o pro­cesso, impos­si­bi­li­tando a sua con­clu­são. Tal­vez essa seja uma das razões para mui­tos artis­tas se recu­sa­rem a mos­trar seu tra­ba­lho antes que o con­si­de­rem “ter­mi­nado”: temem que olhos crí­ti­cos pos­sam pre­ju­di­car seu pro­cesso cri­a­tivo e des­truir a obra que estão ten­tando criar; da mesma forma que um bolo mur­cha se o tira­mos do forno antes do momento certo de cozi­mento da massa. Seja como for, fico ainda com as pala­vras de Sta­ples quando diz que

o mis­té­rio da cri­a­ção encon­tra-se de algum modo nessa lacuna entre tra­pé­zios, pala­vras, notas e pin­ce­la­das. Toda­via, jus­ta­mente por que o momento da cri­a­ção é, em última aná­lise, um mis­té­rio, temos de usar ana­lo­gias, pala­vras e ima­gens para des­cre­ver uma expe­ri­ên­cia vis­ce­ral que é pro­fun­da­mente sen­tida, porém extre­ma­mente difí­cil, senão impos­sí­vel, de des­cre­ver.” (Sta­ples, p. 12)

Con­si­de­rando essa difi­cul­dade, é pos­sí­vel com­pre­en­der a razão de tan­tos artis­tas acre­di­ta­rem que falar sobre cri­a­ti­vi­dade é algo inú­til. Mas isso não nos impede de con­ti­nuar inves­ti­gando e escre­vendo sobre o assunto, é claro.

Em uma entre­vista para o Nati­o­nal Post (Canadá), o artista Ian Wal­lace, con­si­de­rado um poeta das ima­gens e um padri­nho do foto­con­cei­tu­a­lismo, diz que a ideia do impulso cri­a­tivo é uma forma bas­tante român­tica de des­cre­ver o pro­cesso de cri­a­ção de um artista, já que no fim das con­tas “é real­mente ape­nas um monte de tra­ba­lho duro”. Ele não deixa de ter razão, mas o pro­cesso não se resume ape­nas a isso. A neces­si­dade de tra­ba­lho duro é evi­dente para qual­quer pes­soa que tenha um mínimo de expe­ri­ên­cia com o pro­cesso cri­a­tivo; entre­tanto, há outras variá­veis que devem ser leva­das em con­si­de­ra­ção nessa equa­ção.

No fim das con­tas, nin­guém melhor do que um poeta para des­cre­ver a alma desse impulso que anima todos os que se aven­tu­ram nessa tra­ves­sia em dire­ção ao des­co­nhe­cido. Pego empres­ta­das as pala­vras da polo­nesa Wis­lawa Szym­borska, ao rece­ber o Prê­mio Nobel de Lite­ra­tura em 1996, publi­ca­das pela revista Piauí. Ainda que ela fale de ins­pi­ra­ção, suas pala­vras tocam em um ponto essen­cial do impulso cri­a­tivo, este que não é um pri­vi­lé­gio exclu­sivo de poe­tas e artis­tas:

Existe, exis­tiu, exis­tirá sem­pre certo grupo de pes­soas a quem a ins­pi­ra­ção visita. É for­mado por todos aque­les que cons­ci­en­te­mente esco­lhe­ram sua voca­ção, e fazem seu tra­ba­lho com amor e ima­gi­na­ção. Pode incluir médi­cos, pro­fes­so­res, jar­di­nei­ros – eu pode­ria fazer uma lista de mais de cem pro­fis­sões. Seu tra­ba­lho se torna uma aven­tura cons­tante, enquanto forem capa­zes de con­ti­nuar a des­co­brir nele novos desa­fios. Difi­cul­da­des e reve­ses nunca sufo­cam a sua curi­o­si­dade. Um enxame de ques­tões novas emerge de cada pro­blema que eles solu­ci­o­nam. Seja lá o que for, nasce de um con­tí­nuo ‘não sei’.”

Compartilhe