Imagem de capa do texto "Por que é impossível ser vegetariano", de Andrew Smith, traduzido e publicado em Ano-Zero.com

Por que é impossível ser realmente vegetariano

Em Comportamento, Consciência, Meio Ambiente por Andrew SmithComentários

Caso você tenha esque­cido das aulas sobre a cadeia ali­men­tar de bio­lo­gia do ensino médio, aqui vai um resumo rápido.

As plan­tas for­mam a base de toda a cadeia ali­men­tar (tam­bém cha­mada de ciclo ali­men­tar). As plan­tas usam a luz solar dis­po­ní­vel para con­ver­ter água do solo e dió­xido de car­bono do ar em gli­cose, que lhes dá a ener­gia neces­sá­ria para viver. Ao con­trá­rio das plan­tas, os ani­mais não podem sin­te­ti­zar seu pró­prio ali­mento. Eles sobre­vi­vem comendo plan­tas ou outros ani­mais.

Cla­ra­mente, os ani­mais comem plan­tas. O que não está tão claro a par­tir desta ima­gem é que as plan­tas tam­bém comem os ani­mais. Elas pros­pe­ram sobre eles, na ver­dade (dê uma goo­glada em “emul­são de peixe”). Em meu novo livro, “A Crí­tica da Defesa Moral do vege­ta­ri­a­nismo”, eu o chamo de “a tran­si­ti­vi­dade do comer”. E eu argu­mento que isso sig­ni­fica que não se pode ser um vege­ta­ri­ano.

Mastigue isto

Farei uma pausa para dei­xar que os uivos cole­ti­vos tanto dos bió­lo­gos quanto dos (outrora) vege­ta­ri­a­nos dimi­nua.

Uma pro­pri­e­dade tran­si­tó­ria diz que, se um ele­mento de uma sequên­cia refere-se de um certo modo a um segundo ele­mento, e o segundo ele­mento refere-se da mesma forma a um ter­ceiro, então o pri­meiro e o ter­ceiro se rela­ci­o­nam da mesma forma tam­bém.

Tome como exem­plo o cli­chê “você é o que você come”. Ao invés disso, diga­mos que nós somos quem nós come­mos. Isso faz com que a ale­ga­ção fique mais pes­soal e tam­bém mos­tra que os seres que tra­ta­mos como comida não são ape­nas “coi­sas”.

Como a nossa comida vive e morre importa. Se nós somos o que come­mos, nossa comida é o que ela come tam­bém. Isso sig­ni­fica que somos o que nos­sos ali­men­tos comem em igual medida.

As plan­tas adqui­rem nutri­en­tes do solo, o qual é com­posta, entre outras coi­sas, de res­tos de plan­tas e de ani­mais. Assim sendo, mesmo aque­les que dizem viver ape­nas de uma dieta base­ada em plan­tas na ver­dade comem res­tos de ani­mais tam­bém.

É por isso que é impos­sí­vel ser [total­mente] um vege­ta­ri­ano.

A fins de regis­tro, eu tenho sido um “vege­ta­ri­ano” por apro­xi­ma­da­mente 20 anos e quase “vegan” durante seis. Eu não me opo­nho a essas prá­ti­cas ali­men­ta­res. Esse não é o meu ponto. Mas penso que mui­tos “vege­ta­ri­a­nos” e “vegans” pode­riam pres­tar mais aten­ção às expe­ri­ên­cias dos seres que nós faze­mos de comida.

Por exem­plo, mui­tos vege­ta­ri­a­nos citam a sen­ci­ên­cia dos ani­mais como uma razão para se abs­ter de comê-los. Mas há boas razões para acre­di­tar que as plan­tas tam­bém são sen­ci­en­tes. Em outras pala­vras, elas estão bem cons­ci­en­tes e sen­sí­veis de seus arre­do­res, e elas res­pon­dem, ao seu modo, a expe­ri­ên­cias tanto agra­dá­veis quanto desa­gra­dá­veis.

Con­fira os tra­ba­lhos dos cien­tis­tas de plan­tas Anthony Trewa­vas, Ste­fano Man­cuso, Daniel Cha­mowitz e Fran­tišek Baluška — se você não acre­dita em mim. Eles mos­tra­ram que as plan­tas com­par­ti­lham nos­sos cinco sen­ti­dos — e têm algo como 20 a mais. Elas têm um sis­tema de pro­ces­sa­mento de infor­ma­ção hor­mo­nal que é homó­logo à rede neu­ral dos ani­mais. Elas exi­bem cla­ros sinais de auto­cons­ci­ên­cia e inten­ci­o­na­li­dade. E elas podem até apren­der e ensi­nar.

Tam­bém é impor­tante estar ciente de que “vege­ta­ri­a­nismo” e “vega­nismo” nem sem­pre são eco-fri­en­dly. Pes­quisa sobre a pegada de car­bono do seu café da manhã, ou quanta água é neces­sá­ria para pro­du­zir as amên­doas de que você tanto gosta como lan­che da tarde, e você verá.

Uma palavra para os céticos

Eu sus­peito que alguns bió­lo­gos pos­sam res­pon­der: em pri­meiro lugar, as plan­tas na ver­dade não comem, já que “comer” envolve inges­tão — via mas­ti­ga­ção e deglu­ti­ção — de outras for­mas de vida. Em segundo lugar, embora seja ver­dade que as plan­tas absor­vem os nutri­en­tes do solo e que esses nutri­en­tes pode­riam ter vindo de ani­mais, eles são estri­ta­mente inor­gâ­ni­cos: nitro­gê­nio, potás­sio, fós­foro e tra­ços de outros ele­men­tos. Eles são os cons­ti­tuin­tes de mine­rais reci­cla­dos, des­pro­vi­dos de qual­quer ves­tí­gios de ani­ma­li­dade.

Quanto à pri­meira pre­o­cu­pa­ção, tal­vez possa aju­dar se eu dis­ser que ambas as plan­tas e os ani­mais “tomam”, “con­so­mem” ou “fazem uso”, em vez de usar a pala­vra “comer”. Eu acho que não sou sufi­ci­en­te­mente exi­gente para con­cei­tuar o que comer acar­reta. O ponto é que as plan­tas inge­rem dió­xido de car­bono, luz solar, água e mine­rais que são então uti­li­za­dos para cons­truir e sus­ten­tar seus cor­pos. Plan­tas con­so­mem na medida em que pro­du­zem, e elas não são uma exce­ção sobre as ori­gens dos miné­rios que adqui­rem.

No que diz res­peito ao segundo pro­blema, por que deve­ria impor­tar que os nutri­en­tes tira­dos pelas plan­tas a par­tir de ani­mais sejam inor­gâ­ni­cos? O ponto é que tais ingre­di­en­tes ape­nas têm um papel essen­cial na faci­li­ta­ção da vida dos ani­mais. Nós somos o que come­mos ape­nas se a maté­ria dos seres que se tor­nam nossa comida for orgâ­nica? Con­fesso que eu não entendo por que deve­ria ser assim. Pri­vi­le­giar maté­ria orgâ­nica me parece ape­nas ser o viés de um bió­logo.

Depois, há o argu­mento de que a reci­cla­gem mine­ral limpa os nutri­en­tes de sua ani­ma­li­dade. Esta é uma afir­ma­ção con­tro­versa, e não me parece que isso seja um fato da maté­ria. Ela vai ao núcleo da nossa forma de ver a nossa rela­ção com a nossa comida. Pode-se dizer que exis­tem ques­tões espi­ri­tu­ais em jogo aqui, não ape­nas ques­tões de bioquí­mica.

Mudando a forma como vemos a nossa comida

Vamos ver a nossa rela­ção com a nossa comida de uma maneira dife­rente: tendo em conta o fato de que somos parte de uma comu­ni­dade de seres vivos — vege­tal e ani­mal — que habi­tam o lugar que nós vemos como casa.

Nós somos come­do­res, sim, e tam­bém esta­mos sendo comi­dos. É isso mesmo, tam­bém somos parte da cadeia ali­men­tar! E o bem-estar de cada um é depen­dente do bem-estar de todos.

A par­tir desta pers­pec­tiva, o que o auto-pro­cla­mado “far­mo­sopher” Glenn Albre­cht chama sum­bi­o­ta­ri­a­nismo (da pala­vra grega sum­bi­oun — para viver jun­tos) tem van­ta­gens cla­ras.

Sum­bi­o­cul­tura” é uma forma de per­ma­cul­tura ou agri­cul­tura sus­ten­tá­vel. É uma maneira orgâ­nica e bio­di­nâ­mica da agri­cul­tura que é con­sis­tente com a saúde dos ecos­sis­te­mas intei­ros.

Sum­bi­o­ta­ri­a­nos comem em har­mo­nia com seu ecos­sis­tema. Por isso eles encar­nam, lite­ral­mente, a ideia de que o bem-estar da nossa ali­men­ta­ção (por­tanto, o nosso pró­prio bem-estar) é uma ques­tão de saúde da terra.

Para que nos­sas neces­si­da­des sejam satis­fei­tas, as neces­si­da­des e inte­res­ses da terra devem vir em pri­meiro lugar. E em áreas onde é proi­bi­ti­va­mente difí­cil de adqui­rir as gor­du­ras essen­ci­ais que pre­ci­sa­mos a par­tir de óleos vege­tais, isso pode incluir for­mas de uso de ani­mais — para carne, esterco e assim por diante.

Sim­pli­fi­cando, viver de forma sus­ten­tá­vel em alguma des­sas áreas — quer se trate de New England ou mesmo Aus­tra­lian Out­back — pode muito bem impli­car em depen­der de ani­mais para ali­men­ta­ção, pelo menos, de uma forma limi­tada.

Todas as vidas estão vin­cu­la­das em uma com­plexa rede de rela­ções inter­de­pen­den­tes entre indi­ví­duos, espé­cies e ecos­sis­te­mas intei­ros. Cada um de nós toma empres­tado, usa e devolve nutri­en­tes. Este ciclo é o que per­mite que a vida con­ti­nue — a terra preta é rica e tão fér­til por­que é cheia de res­tos decom­pos­tos dos mor­tos, jun­ta­mente com os resí­duos dos vivos.

Na ver­dade, não é inco­mum para os povos indí­ge­nas iden­ti­fi­car a vene­ra­ção de seus ante­pas­sa­dos e de sua terra ances­tral com a cele­bra­ção da per­so­na­gem que dá a vida, a mãe terra. Veja o que diz a eco­lo­gista cul­tu­ral e estu­di­osa-ati­vista indí­gena Melissa Nel­son:

Os ossos de nos­sos ances­trais se tor­na­ram o solo, no solo cresce a nossa comida, a comida ali­menta nos­sos cor­pos, e nós nos tor­na­mos um, lite­ral e meta­fo­ri­ca­mente, com as nos­sas ter­ras e ter­ri­tó­rios.

Sinta-se livre para dis­cor­dar de mim, é claro. Mas é inte­res­sante notar que o que pro­po­nho tem raí­zes con­cei­tu­ais que podem ser tão anti­gas quanto a pró­pria huma­ni­dade. E pro­va­vel­mente vale a pena tomar algum tempo para dige­rir isso.


Tra­du­zido por Alys­son Augusto e ori­gi­nal­mente publi­cado no site The Con­ver­sa­tion.


Seja patrono do AZ e garanta já sua recom­pensa.
CLIQUE AQUI e esco­lha sua recom­pensa.


Newsletter AZ | sabedoria budista


Você pode que­rer ler tam­bém:

Con­su­mismo e Ética Ani­mal
Se a carne pudesse falar, você come­ria?
Os vege­ta­ri­a­nos estão na mira

Andrew Smith
Professor assistente de Inglês e Filosofia na Drexel University.

Compartilhe