Existem algumas preciosas ideias tão simples e, ao mesmo tempo, tão transformadoras e capazes de explicar tanta coisa. São simples ao ponto de ser justo perguntar: como ninguém pensou nisso antes? Mas não se engane: não é porque são simples que são fáceis de serem construídas. De fato, apenas gênios são capazes de articulá-las pela primeira vez; mas, uma vez articuladas, qualquer pessoa pode entendê-las e apreciar a sua beleza e capacidade de explicação do mundo.

Dou três exemplos desse tipo de ideia.

1- A Teoria da Evolução das Espécies, de Darwin.

É uma teoria em essência muito simples. Ela explica toda a complexidade biológica existente no mundo a partir de dois pressupostos [1]: (i) existe escassez; (ii) surgiu no passado uma molécula auto-replicante cujas cópias não eram perfeitas. Uma vez que essa molécula surgiu — e existem algumas teorias tentando explicar como ela surgiu —, aquelas cópias mais adaptadas para as condições ambientes locais fizeram mais auto-replicações do que aquelas menos adaptadas, pois dada a existência de escassez de energia, aquelas mais adaptadas foram capazes de consumir mais energia e, portanto, fazer mais cópias. Com o tempo, as estratégias adaptativas foram melhorando, as moléculas foram ficando mais cada vez mais complexas, algumas foram se unindo, pois assim poderiam sobreviver melhor ao ambiente, com cada parte se especializando em uma função. Da união das moléculas complexas vieram as organelas, as células, as espécies.

Continue com esse processo durante bilhões de anos e, voilà, você terá espécies extremamente complexas. Tão complexas que algumas mentes não são capazes de conceber como toda essa complexidade pode ser capaz de surgir de um processo cego e sem propósito, e acabam aderindo à tese anti-científica de que alguma consciência inteligente supra-humana modelou todas as espécies.

Depois que esse processo rodou por bilhões de anos, surgiu uma espécie — do ramo dos primatas bípedes —que tomou consciência da sua existência e a partir de então passou a balbuciar erraticamente teorias fantasiosas sobre sua origem.

2 – A teoria dos preços como transmissores de informação, de Hayek.

Esta é outra teoria bela e simples. Ela explica basicamente o mecanismo de funcionamento do sistema de mercado. Dado que a forma de produção e distribuição da economia moderna é extremamente complexa, como se pode alocar os fatores de produção e os bens de consumo gerados a partir deles da maneira mais eficiente possível? Em suma, como se pode resolver o problema fundamental da economia, isto é, o problema da distribuição do consumo dos bens, já que os mesmos são escassos e não têm para todo mundo?

Hayek matou a charada: com o sistema de preços. O sistema de preços é eficiente porque ele transmite de forma rápida informações sobre mudanças que estão restritas a apenas um punhado de pessoas, e faz com que todo mundo passe a se comportar de uma forma socialmente desejável, como se eles próprios soubessem da causa fundamental das mudanças.

Exemplo simples: se há uma quebra de safra de laranjas em determinado ano, de modo que a oferta de laranjas diminua muito, todas as pessoas vão comprar menos laranjas [2]. Perceba: tem menos laranjas, então qual é o comportamento socialmente desejável por parte das pessoas? Ora, que cada uma delas compre menos laranja(!), pois a oferta desta fruta está menor. E, como se fosse mágica, elas de fato passam a comprar menos laranjas. Sem ninguém obrigando-as a fazer isso. Como esta “mágica” ocorre? Simplesmente ocorre que as pessoas compram menos laranjas porque o preço da laranja ficou mais caro. O sistema de preços, de forma implícita, transmitiu a informação da quebra de safra a todos.

A alternativa a este sistema de organização econômica orgânico, descentralizado, espontâneo, é que uma autoridade central obrigue as pessoas a comer menos laranjas. Mas, para isso acontecer, esta autoridade central precisa primeiro saber que a oferta de laranjas diminuiu. E é aí que fica evidente a fraqueza deste sistema: e se, por acaso, esta informação demorar a chegar à autoridade organizadora da economia? O exemplo das laranjas esconde o tamanho deste problema, pois a informação de uma quebra de safra de laranjas é facilmente transmitida. Mas e quanto à transmissão de informações relativas à milhares de bens de consumo emilhares de fatores de produção ao mesmo tempo, com todas as mudanças interagindo dinamicamente entre si?

No sistema econômico centralizado, a reação às mudanças é lenta, confusa, parcial. As pessoas se comportam de maneira socialmente indesejável: elas comem a mesma quantidade de laranjas mesmo quando deveriam comer menos. Há muito desperdício de recursos — mesmo utilizando-se de métodos sofisticados de produção, como a matriz de Leontief e a otimização de Kantorovich. Aí está a principal vantagem do capitalismo sobre o socialismo. E é por isso que o Muro de Berlim caiu com os moradores do lado leste o derrubando.

Perceba que a teoria do sistema de preços como transmissor de informações é simples e tem um poder explanatório imenso. Ela é uma das bases da ciência econômica, afinal. É por isso que Lawrence Summers, uma sumidade da economia americana, disse certa feita que esta é a ideia mais importante para se aprender em um curso de economia.

3 – A ideia de que o diferencial do ser humano é a capacidade de acreditar em ficções socialmente compartilhadas, de Harari.

Esta ideia ainda não é tão influente quanto as duas mencionadas acima, mas certamente o será no futuro.

Qual o diferencial do ser humano em relação às demais espécies? Por que nós, afinal, acabamos conseguindo habitar todos os biomas terrestres, desde os locais mais secos aos mais frios? Certamente, não é devido à nossa distinção física: um gorila é muito mais forte que nós e uma zebra muito mais rápida. Também nosso poder não está na nossa capacidade de cooperação em larga escala: formigas e abelhas fazem isso de forma exímia. Você pode imaginar então que é devido a nossa capacidade de cooperação flexível: podemos nos adaptar a várias circunstâncias enquanto espécie, ao passo que formigas e abelhas não. Acontece que, por exemplo, a organização social de lobos e chimpanzés também é flexível.

Mas então, porra, qual é o nosso diferencial? Esta: somos capazes de cooperar em larga escala de maneira flexível. E como fazemos isso? Aqui está a grande sacada do historiador israelense: fazemos isso porque somos a única espécie capaz de acreditar em ficções compartilhadas por todos. Essas ficções permitem nos mantermos unidos enquanto sociedade e elas podem ser mudadas ao longo do tempo de modo que nos adaptemos a novas circustâncias.

Pegue como exemplo a ficção do estado-nação. Estados-nações simplesmente não existem de verdade, só de mentirinha. O que existem são as bandeiras, as construções arquetetônicas, as pessoas que compõem o aparato estatal (membros do exército, políticos, juízes, policiais) e as que compõem o setor civil. Tudo isso existe e dá sentido ao Estado, mas o Estado não existe de forma palpável, concreta. É apenas uma abstração em que todo mundo acredita.

Outro exemplo de ficção são as empresas. O que existem de verdade, mesmo, são as máquinas, ferramentas, construções e pessoas, arranjados de tal forma a dar sentido ao conceito de empresa.

Harari diz que a ficção mais bem sudedida na história da humanidade é o dinheiro. Aquilo que chamamos de dinheiro é apenas um pedaço de papel pintado. Um chimpanzé, por exemplo, jamais aceitaria trocar uma banana sua por um pedaço de papel pintado. Mas nós aceitamos. Por quê? Ora, porque existe a crença difusa generalizada de que outras pessoas aceitarão esse mesmo pedaço de papel, portanto conseguiremos obter no futuro alguns bens que deserjamos só oferecendo tal pedaço de papel em troca.

Perceba que toda a humanidade está assentada sobre um punhado de “realidades” que só existem na mente de todos nós, mas que, não obstante, se deixarmos instantaneamente de acreditar nelas, não sobra humanidade nenhuma. Estados, dinheiro, empresas, sistemas econômicos e políticos, leis, cerimônias, religiões, deuses, etc — todas essas instituições e doutrinas são ficções que dão cola à humanidade.

Quando eu li Uma Breve História da Humanidade [3], que é onde Harari expõe esta tese, fiquei chocado: “Meu deus, mas isso é óbvio! Mas é genial! Como eu não pensei nisso antes?”. Ora, por que um historiador israelense até então obscuro teve que parar para escrever um livro cujo tema central trata de algo tão simples, que é de se supor que todos já deveriam saber de antemão?

Talvez seja porque essa ideia é tão trivial, mas tão trivial, que ninguém se dá conta dela até topar com alguém que a esfregue na sua cara. Foi o que Harari fez comigo e com todos que leram seu livro. Só uma pessoa muito inteligente teria a capacidade de articulá-la pela primeira vez e oferecê-la aos demais.


[1] Essa não é uma explicação científica da teoria da evolução, tampouco é a explicação concebida em sua forma original. É apenas a forma como eu penso nela, e é bem possível que alguns aspectos da minha descrição estejam errados.

[2] A não ser que a elasticidade-preço da demanda por laranjas de alguém seja zero àquele preço.

[3] Este é um dos melhores livros que já, senão o melhor. Recomendo enfaticamente, caso ainda não tenha o lido. Para uma apresentação no TED do livro, veja aqui.

Lucas Favaro
Cursa economia pela UEM. Tem interesse em vários assuntos, mas principalmente em economia e história da ciência.
  • Fernando Henrique Abreu

    Muito bom!

  • Helisa Kahanni

    adorei 🙂