Ideias são lentes?

Ideias são lentes?

Em Consciência, Filosofia por Sérgio SardiComentário

Há algo de estra­nho e admi­rá­vel no mundo. Pen­sar, por exem­plo, que tudo pode­ria sim­ples­mente não exis­tir, ou que sequer sabe­mos o que somos, para onde vamos e qual o sen­tido de tudo… Pode até cau­sar ver­ti­gens. Pois são mui­tas, e são deci­si­vas, as per­gun­tas que sur­gem quando inda­ga­mos o sen­tido último de tudo o que nos cerca.

Começa, aqui, uma sin­gu­lar expe­ri­ên­cia do pen­sa­mento — a Filo­so­fia, cami­nho tri­lhado desde a Gré­cia Antiga, ou ainda antes. Mas, além de um começo na his­tó­ria, esse des­per­tar está em cada um que viven­cia a mudança de per­cep­ção da rea­li­dade que as ques­tões filo­só­fi­cas evo­cam. Assim como os gre­gos, um dia come­ça­mos a refle­tir sobre os mitos que nar­ram as ori­gens, os porquês e a fina­li­dade de tudo. Como eles, pas­sa­mos a estra­nhar aquilo o que pen­sá­va­mos ser tri­vial, a duvi­dar do óbvio e a bus­car as razões das nos­sas per­gun­tas e res­pos­tas.

Tudo se transforma?

Qual o pro­blema que moveu os pri­mei­ros filó­so­fos? Quais foram as len­tes que eles uti­li­za­ram para ver e inter­pre­tar o mundo? Eles se deram conta de algo sur­pre­en­dente: tudo muda, tudo está cons­tan­te­mente dei­xando de ser o que era para vir a ser outra coisa. Nada per­ma­nece igual, nem sequer eu, ou você! Eis que surge o outro lado da ques­tão: se tudo está em trans­for­ma­ção, como é pos­sí­vel que o mundo, ou cada um de nós, con­ti­nue a ser, de certo modo, o mesmo?

Deve haver algo, pen­sa­ram os gre­gos, que per­ma­nece idên­tico, no fundo de tudo o que se trans­forma. Um prin­cí­pio de esta­bi­li­dade e uni­dade, ape­sar da mul­ti­pli­ci­dade e da muta­ção inces­sante de todas as coi­sas.

Tales e Ana­xí­me­nes, no século VI a.C., bus­ca­ram esse prin­cí­pio no âmbito do visí­vel. Jul­ga­ram ser algum tipo de maté­ria, como a água, ou o ar, que se trans­for­ma­ria naquilo que obser­va­mos na natu­reza, podendo vol­tar a ser o que era. Porém, outro pen­sa­dor, Herá­clito, seguiu um cami­nho diverso, pro­pondo que a ordem do mundo estava no pró­prio vir a ser con­tí­nuo de todas as coi­sas. Seria pre­ciso ir além, e filó­so­fos como Pitá­go­ras e Par­mê­ni­des, den­tre outros, pen­sa­ram a esta­bi­li­dade e a uni­dade do mundo a par­tir do invi­sí­vel, che­gando aos núme­ros e ao Ser como prin­cí­pios. Inau­gu­ra­ram, com isso, outro pro­blema: o das rela­ções entre conhe­ci­mento e rea­li­dade. A busca pros­se­guiu com Demó­crito e Leu­cipo, no século V a.C., que con­ce­be­ram par­tí­cu­las indi­vi­sí­veis, os áto­mos, a sus­ten­tar a exis­tên­cia do mundo, uma ideia bas­tante fami­liar aos dias atu­ais.

 

O que é a verdade?

Algo come­çou a mudar quando Sócra­tes, nas ruas de Ate­nas, pas­sou a inter­ro­gar àque­les que diziam conhe­cer a ver­dade, até que se des­sem conta de que, no fundo, não a conhe­ciam. Ele mesmo dizia saber ape­nas que nada sabia. Livre de pre­con­cei­tos, cada um pode­ria fazer nas­cer, em sua inte­ri­o­ri­dade, novas ideias. Pois só come­ça­mos a filo­so­far quando per­ce­be­mos que somos apren­di­zes do apren­der, e pas­sa­mos a pen­sar sobre como pen­sa­mos. Com Sócra­tes, foi o pró­prio homem o motivo de admi­ra­ção e refle­xão filo­só­fica.

Pla­tão retra­tou, em diá­lo­gos, este método de edu­ca­ção de Sócra­tes, a mai­êu­tica, assim como sua vida. Em “O ban­quete”, disse que a sabe­do­ria não per­tence ao ser humano, pois é algo divino, mas é pre­ciso con­ti­nuar a buscá-la, ser “amigo da sabe­do­ria”, ou seja, filó­sofo. Ele se vol­tou, então, con­tra a rela­ção uti­li­tá­ria com o dis­curso e o conhe­ci­mento que alguns sofis­tas repre­sen­ta­vam. Eles eram homens que diziam poder defen­der igual­mente teses con­trá­rias, depen­dendo dos inte­res­ses em jogo. Para tanto, bus­ca­vam ilu­dir, dis­tor­cendo argu­men­tos e pro­mo­vendo uma luta ver­bal. Assim, Pla­tão pas­sou a sua vida bus­cando dis­tin­guir as apa­rên­cias da rea­li­dade. Mas, para isso, pre­ci­sou refle­tir sobre a tota­li­dade do mundo e do conhe­ci­mento humano.

Pla­tão, assim como Aris­tó­te­les, que foi seu dis­cí­pulo, con­ce­beu o mundo como um sis­tema, algo como uma pirâ­mide de ideias ou con­cei­tos, onde, no topo, ou prin­cí­pio, deve­riam estar aque­les que abran­ges­sem a rea­li­dade como um todo, con­fe­rindo uni­dade e esta­bi­li­dade ao real. Na base, as coi­sas múl­ti­plas e mutá­veis que nos cer­cam. Dis­cor­da­ram, porém, sobre a rela­ção entre essas ideias e o mundo.

Aris­tó­te­les vai além, desen­vol­vendo a Lógica e os fun­da­men­tos das ciên­cias, como, por exem­plo, a Física. De fato, o mundo atual seria impen­sá­vel sem o legado des­tes pen­sa­do­res.


Você pode que­rer ler tam­bém:

O que pen­sava Aris­tó­te­les sobre a edu­ca­ção?
E se Pla­tão esti­ver certo?

Sérgio Sardi
Professor de Filosofia na PUCRS. Atua com Metodologia de Ensino Filosófico, Filosofia da Linguagem e Metafísica, bem como com Filosofia com Crianças. É idealizador das notáveis Olimpíada de Filosofia com Crianças e Olimpíada de Filosofia do Rio Grande do Sul, as quais já estão se espalhando pelo Brasil e o mundo.

Compartilhe