Há algo de estranho e admirável no mundo. Pensar, por exemplo, que tudo poderia simplesmente não existir, ou que sequer sabemos o que somos, para onde vamos e qual o sentido de tudo… Pode até causar vertigens. Pois são muitas, e são decisivas, as perguntas que surgem quando indagamos o sentido último de tudo o que nos cerca.

Começa, aqui, uma singular experiência do pensamento – a Filosofia, caminho trilhado desde a Grécia Antiga, ou ainda antes. Mas, além de um começo na história, esse despertar está em cada um que vivencia a mudança de percepção da realidade que as questões filosóficas evocam. Assim como os gregos, um dia começamos a refletir sobre os mitos que narram as origens, os porquês e a finalidade de tudo. Como eles, passamos a estranhar aquilo o que pensávamos ser trivial, a duvidar do óbvio e a buscar as razões das nossas perguntas e respostas.

Tudo se transforma?

Qual o problema que moveu os primeiros filósofos? Quais foram as lentes que eles utilizaram para ver e interpretar o mundo? Eles se deram conta de algo surpreendente: tudo muda, tudo está constantemente deixando de ser o que era para vir a ser outra coisa. Nada permanece igual, nem sequer eu, ou você! Eis que surge o outro lado da questão: se tudo está em transformação, como é possível que o mundo, ou cada um de nós, continue a ser, de certo modo, o mesmo?

Deve haver algo, pensaram os gregos, que permanece idêntico, no fundo de tudo o que se transforma. Um princípio de estabilidade e unidade, apesar da multiplicidade e da mutação incessante de todas as coisas.

Tales e Anaxímenes, no século VI a.C., buscaram esse princípio no âmbito do visível. Julgaram ser algum tipo de matéria, como a água, ou o ar, que se transformaria naquilo que observamos na natureza, podendo voltar a ser o que era. Porém, outro pensador, Heráclito, seguiu um caminho diverso, propondo que a ordem do mundo estava no próprio vir a ser contínuo de todas as coisas. Seria preciso ir além, e filósofos como Pitágoras e Parmênides, dentre outros, pensaram a estabilidade e a unidade do mundo a partir do invisível, chegando aos números e ao Ser como princípios. Inauguraram, com isso, outro problema: o das relações entre conhecimento e realidade. A busca prosseguiu com Demócrito e Leucipo, no século V a.C., que conceberam partículas indivisíveis, os átomos, a sustentar a existência do mundo, uma ideia bastante familiar aos dias atuais.

 

O que é a verdade?

Algo começou a mudar quando Sócrates, nas ruas de Atenas, passou a interrogar àqueles que diziam conhecer a verdade, até que se dessem conta de que, no fundo, não a conheciam. Ele mesmo dizia saber apenas que nada sabia. Livre de preconceitos, cada um poderia fazer nascer, em sua interioridade, novas ideias. Pois só começamos a filosofar quando percebemos que somos aprendizes do aprender, e passamos a pensar sobre como pensamos. Com Sócrates, foi o próprio homem o motivo de admiração e reflexão filosófica.

Platão retratou, em diálogos, este método de educação de Sócrates, a maiêutica, assim como sua vida. Em “O banquete”, disse que a sabedoria não pertence ao ser humano, pois é algo divino, mas é preciso continuar a buscá-la, ser “amigo da sabedoria”, ou seja, filósofo. Ele se voltou, então, contra a relação utilitária com o discurso e o conhecimento que alguns sofistas representavam. Eles eram homens que diziam poder defender igualmente teses contrárias, dependendo dos interesses em jogo. Para tanto, buscavam iludir, distorcendo argumentos e promovendo uma luta verbal. Assim, Platão passou a sua vida buscando distinguir as aparências da realidade. Mas, para isso, precisou refletir sobre a totalidade do mundo e do conhecimento humano.

Platão, assim como Aristóteles, que foi seu discípulo, concebeu o mundo como um sistema, algo como uma pirâmide de ideias ou conceitos, onde, no topo, ou princípio, deveriam estar aqueles que abrangessem a realidade como um todo, conferindo unidade e estabilidade ao real. Na base, as coisas múltiplas e mutáveis que nos cercam. Discordaram, porém, sobre a relação entre essas ideias e o mundo.

Aristóteles vai além, desenvolvendo a Lógica e os fundamentos das ciências, como, por exemplo, a Física. De fato, o mundo atual seria impensável sem o legado destes pensadores.


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escrito por:

Sérgio Sardi

Professor de Filosofia na PUCRS. Atua com Metodologia de Ensino Filosófico, Filosofia da Linguagem e Metafísica, bem como com Filosofia com Crianças. É idealizador das notáveis Olimpíada de Filosofia com Crianças e Olimpíada de Filosofia do Rio Grande do Sul, as quais já estão se espalhando pelo Brasil e o mundo.


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