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10 diferenças entre humanos e chimpanzés

Em Ciência por Rodrigo ZottisComentário

Os chim­pan­zés são nos­sos paren­tes mais pró­xi­mos, mas eram des­co­nhe­ci­dos da maior parte do mundo até que Char­les Darwin escre­veu a seu res­peito e os popu­la­ri­zou em 1859. 

A ver­dade é que muito do que sabe­mos sobre eles foi des­co­berto ape­nas recen­te­mente. Por isso, há mui­tos equí­vo­cos devido aos exa­ge­ros e à licença artís­tica uti­li­zada em obras de fic­ção. Nos­sas seme­lhan­ças e dife­ren­ças com os chim­pan­zés não são exa­ta­mente aque­las que mui­tos de nós cos­tu­ma­mos supor.

Ao apren­der­mos sobre nos­sos paren­tes mais pró­xi­mos, pode­mos com­pre­en­der a nós mes­mos um pouco melhor. Eis a seguir 10 dife­ren­ças bási­cas entre nós e os chim­pan­zés.

10 — Número de espécies

Os chim­pan­zés são mui­tas vezes cha­mado incor­re­ta­mente de maca­cos, mas eles na ver­dade per­ten­cem à famí­lia dos gran­des pri­ma­tas, assim como nós. Os outros gran­des pri­ma­tas são os oran­go­tan­gos e os gori­las. No momento pre­sente, existe ape­nas uma espé­cie de huma­nos: o homo sapi­ens. No pas­sado, mui­tos cien­tis­tas ten­ta­ram argu­men­tar que atu­al­mente have­ria várias espé­cies de huma­nos con­vi­vendo no pla­neta, e che­ga­vam a suge­rir, como faziam os nazis­tas, que deter­mi­nada raça era uma espé­cie humana “supe­rior” às demais. No entanto, atu­al­mente todos os seres huma­nos podem pro­du­zir filhos fér­teis entre si. Por­tanto, per­ten­ce­mos todos à uma mesma espé­cie. Os chim­pan­zés, por outro lado, são na ver­dade duas espé­cies: pan tro­glody­tes, o chim­panzé comum, e pan panis­cus, o chim­panzé bonobo ou grá­cil. Estes dois tipos de chim­panzé são espé­cies com­ple­ta­mente dis­tin­tas. Os atu­ais seres huma­nos e as duas espé­cies de chim­pan­zés evo­luí­ram de um ances­tral comum, o sahe­lanth­ro­pus tcha­den­sis, que exis­tia há cerca de 5 ou 7 milhões de anos.

9 — DNA

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Cos­tuma-se dizer que os seres huma­nos e os chim­pan­zés com­par­ti­lham 99% do mesmo DNA. Porém, a com­pa­ra­ção gené­tica não é tão sim­ples assim, devido à natu­reza de repe­ti­ções de genes e muta­ções. Assim, uma melhor esti­ma­tiva está entre 85% e 95%. Esse valor ainda pode pare­cer impres­si­o­nante, mas a mai­o­ria do DNA é usada para fun­ções celu­la­res bási­cas que todos os seres vivos com­par­ti­lham. Por exem­plo, nós com­par­ti­lha­mos cerca de metade do mesmo DNA como uma banana, e as pes­soas não usam esse fato para enfa­ti­zar como bana­nas são seme­lhan­tes a nós! Assim, 95% de DNA não diz muita coisa, como a prin­cí­pio pode pare­cer. Os chim­pan­zés têm 48 cro­mos­so­mos, dois a mais do que os huma­nos. Supõe-se que essa dife­rença decorre do fato de que em nos­sos ances­trais dois pares de cro­mos­so­mas fun­di­ram-se em um único par. Curi­o­sa­mente, os seres huma­nos estão entre os ani­mais com menor vari­a­ção gené­tica na natu­reza, e é por isso que cru­za­men­tos entre huma­nos con­san­guí­neos pode cau­sar pro­ble­mas gené­ti­cos. Mesmo dois seres huma­nos sem qual­quer paren­tesco entre si são gene­ti­ca­mente mais seme­lhan­tes do que dois chim­pan­zés irmãos.

8 — Tamanho do cérebro

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O cére­bro de um chim­panzé tem em média um volume de 370 mL. Em con­traste, os seres huma­nos têm um tama­nho de cére­bro, em média, de 1350mL. O tama­nho do cére­bro sozi­nho, no entanto, não é um indi­ca­dor abso­luto de inte­li­gên­cia. Houve ganha­do­res do Prê­mio Nobel com cére­bros que vari­a­vam de 900 mL até mais de 2000 mL. A estru­tura e orga­ni­za­ção das várias par­tes do cére­bro é a melhor maneira de deter­mi­nar a inte­li­gên­cia. Os cére­bros huma­nos têm uma área de super­fí­cie ele­vada pois são estru­tu­ras mais enru­ga­das do que os cére­bros dos chim­pan­zés, pos­suindo um maior número de liga­ções entre suas par­tes. Isso, bem como um lobo fron­tal rela­ti­va­mente maior, nos pro­pi­cia uma maior capa­ci­dade de pen­sa­mento abs­trato e lógico.

7 — sociabilidade

Os chim­pan­zés gas­tam uma boa parte do seu tempo soci­a­li­zando. Grande parte dessa soci­a­li­za­ção envolve cui­da­dos recí­pro­cos. Chim­pan­zés ado­les­cen­tes mui­tas vezes brin­cam de per­se­guir e de cutu­car um ao outro. Demons­tra­ções de afeto incluem abra­ços e bei­jos, o que é feito entre chim­pan­zés de qual­quer idade ou sexo. Bono­bos são espe­ci­al­mente brin­ca­lhão, e quase toda a demons­tra­ção de cari­nho é feita sexu­al­mente, inde­pen­den­te­mente do sexo. Chim­pan­zés for­ta­le­cem ami­za­des ao pas­sar grande tempo cui­dando uns dos outros. Os seres huma­nos pas­sam um tempo equi­va­lente soci­a­li­zando, embora muito mais atra­vés da con­ver­sa­ção do que do toque. No entanto, grande parte da con­versa fiada que tro­ca­mos uns com os outros é sim­ples­mente uma ver­são mais sofis­ti­cada daquilo que faz o chim­panzé — a taga­re­lice coti­di­ana tem como prin­ci­pal pro­pó­sito  for­ta­le­cer os nos­sos laços de rela­ci­o­na­mento. Os seres huma­nos tam­bém demons­tram a pre­sença de rela­ci­o­na­men­tos mais for­tes atra­vés do con­tato físico — um tapi­nha nas cos­tas, um abraço, ou um empur­rão ami­gá­vel. O tama­nho do grupo social de deter­mi­nada espé­cie de pri­ma­tas reflete usu­al­mente o tama­nho de seus cére­bros. Os chim­pan­zés têm cerca de 50 ami­gos pró­xi­mos e conhe­ci­dos, ao passo que os seres huma­nos têm entre 150 e 200.

6 — Linguagem e expressões faciais

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Chim­pan­zés têm for­mas de cum­pri­mento e meios de se comu­ni­car cuja com­ple­xi­dade depende do seu sta­tus social. Eles se comu­ni­cam ver­bal­mente uti­li­zando uma vari­e­dade de gri­tos, gru­nhi­dos, gemi­dos e outras voca­li­za­ções. A maior parte de sua comu­ni­ca­ção, no entanto, é feita atra­vés de ges­tos e expres­sões faci­ais. Mui­tas de suas expres­sões faci­ais — de sur­presa, arre­ga­nho, súplica, apa­zi­gua­mento — são as mes­mas que as dos seres huma­nos. No entanto, para sor­rir os seres huma­nos dei­xam os den­tes a mos­tra, algo que os chim­pan­zés e mui­tos outros ani­mais sig­ni­fica um sinal de agres­são ou perigo. A maior parte da comu­ni­ca­ção humana é feita atra­vés de voca­li­za­ções. Ape­nas os seres huma­nos têm estru­tu­ras com­ple­xas de cor­das vocais, per­mi­tindo-nos uma grande vari­e­dade de sons, mas isso nos impede de beber e res­pi­rar simul­ta­ne­a­mente, tais como chim­pan­zés podem fazer. Além disso, temos lín­guas e lábios dota­dos de maior feixe de mús­cu­los, per­mi­tindo-nos mani­pu­la­ções pre­ci­sas de nos­sas vozes. É por isso que temos quei­xos pon­tu­dos, enquanto que os chim­pan­zés têm quei­xos recu­a­dos: os mús­cu­los de nos­sos lábios estão conec­ta­dos ao queixo pro­e­mi­nente, enquanto os chim­pan­zés não têm mui­tos des­tes mús­cu­los e, por isso, não pre­ci­sam de um queixo sali­ente.

5 — Dieta

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Os chim­pan­zés e os huma­nos são oní­vo­ros (comem plan­tas e carne). Os seres huma­nos são mais car­ní­vo­ros do que os chim­pan­zés, e têm intes­ti­nos mais refi­na­dos para a diges­tão da carne. Os chim­pan­zés oca­si­o­nal­mente caçam e matam outros mamí­fe­ros, mui­tas vezes outros maca­cos, mas de regra se limi­tam a comer fru­tos e inse­tos. Os seres huma­nos são muito mais depen­den­tes da carne — os seres huma­nos só podem obter vita­mina B12 natu­ral­mente atra­vés de pro­du­tos de ori­gem ani­mal. Com base em nosso sis­tema diges­tivo e no estilo de vida das tri­bos exis­ten­tes, supõe-se que os huma­nos evo­luí­ram para comer carne pelo menos uma vez a cada pou­cos dias. Os seres huma­nos tam­bém ten­dem a comer mais refei­ções em vez de comer de forma con­tí­nua durante todo o dia, um outro traço dos car­ní­vo­ros. Isso se deve ao fato de que a carne é obtida ape­nas depois de uma caçada bem-suce­dida, e por isso pre­cisa ser con­su­mida em gran­des quan­ti­da­des e com pouca freqüên­cia. Chim­pan­zés catam fru­tas cons­tan­te­mente, enquanto a mai­o­ria dos huma­nos têm não mais que três refei­ções por dia.

4 — Sexo

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Os Bono­bos são conhe­ci­dos por seu ape­tite sexual. Chim­pan­zés comuns podem tor­nar-se irri­ta­dos ou vio­len­tos, mas bono­bos neu­tra­li­zam qual­quer situ­a­ção atra­vés do pra­zer sexual. Eles tam­bém saú­dam e demons­tram afeto atra­vés da esti­mu­la­ção sexual. Chim­pan­zés comuns não se envol­vem em sexo recre­a­tivo, e o aca­sa­la­mento leva ape­nas dez ou quinze segun­dos, mui­tas vezes enquanto comem ou fazem outra coisa. Ami­za­des e ape­gos emo­ci­o­nais não tem qual­quer influên­cia sobre com quem os chim­pan­zés tran­sam, e uma fêmea no cio geral­mente aca­sala com vários machos, os quais espe­ram paci­en­te­mente sua vez um após o outro. Os seres huma­nos sen­tem pra­zer sexual como os bono­bos, mas até o sexo para repro­du­ção leva mais tempo e exige mais esforço, de modo que par­ce­rias de longo prazo ten­dem a se for­mar. Ao con­trá­rio dos huma­nos, os chim­pan­zés não têm noção de ciúme sexual ou de com­pe­ti­ção, bem como não pos­suem par­cei­ros de longo prazo.

3 — Caminhar ereto

Os seres huma­nos e os chim­pan­zés são capa­zes de cami­nhar sobre duas per­nas (ere­tos). Os chim­pan­zés, mui­tas vezes, fazem isso para ver mais à frente, mas pre­fe­rem mover-se com os qua­tro mem­bros. Os seres huma­nos andam ere­tos desde sua infân­cia e desen­vol­ve­ram uma pél­vis em forma de taça para apoiar os seus órgãos inter­nos ao cami­nhar. Já os Chim­pan­zés, por se incli­na­rem para a frente durante o movi­mento, não tem a neces­si­dade de apoiar os seus órgãos com a pél­vis, e por­tanto têm qua­dris mais lar­gos. Isso torna o parto muito mais fácil para os chim­pan­zés do que para os seres huma­nos, cuja pél­vis em forma de bacia obs­ta­cu­liza o cami­nho do parto. Os pés huma­nos são retos, com os dedos na frente para impul­si­o­nar o cami­nhar, enquanto os pés dos chim­pan­zés têm dedões opo­si­to­res e são mais pare­ci­dos com mãos for­tes do que com pés. Eles são usa­dos ​​para subir e ras­te­jar, cami­nhar late­ral­mente, em dia­go­nal, ou fazer movi­men­tos de rota­ção.

2 — olhos

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Os seres huma­nos têm o branco em torno de suas íris, enquanto que os chim­pan­zés cos­tu­mam ter uma cor mar­rom escura. Isso torna mais fácil ver para qual dire­ção os outros seres huma­nos estão olhando, e há várias teo­rias a res­peito de por que isso é assim. Pode ser uma adap­ta­ção a situ­a­ções soci­ais mais com­ple­xas, onde é uma van­ta­gem saber para quem os outros estão olhando. Pode tam­bém aju­dar durante uma caçada em grupo, situ­a­ção em que a dire­ção dos olhos é vital para a comu­ni­ca­ção. Ou pode ser sim­ples­mente uma muta­ção gené­tica sem pro­pó­sito, pois a cor branca ao redor da íris é vista em alguns chim­pan­zés tam­bém. Os seres huma­nos e os chim­pan­zés podem ver em cores, aju­dando-os a esco­lher fru­tas e plan­tas madu­ras para comer, e têm visão bino­cu­lar — seus olhos apon­tam para a frente na mesma direc­ção. Isso ajuda a ver em pro­fun­di­dade, o que é cru­cial para a caça, ao invés de ter olhos posi­ci­o­na­dos no lado da cabeça, tal como coe­lhos — posi­ção que ajuda a fugir do caça­dor.

1 — uso de ferramentas

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Durante mui­tos anos, os seres huma­nos foram con­si­de­ra­das a única espé­cie ani­mal que uti­li­zava fer­ra­men­tas. Porém, obser­va­ções de 1960 reve­la­ram que chim­pan­zés usam galhos afi­a­dos para pes­car cupins. Os seres huma­nos e os chim­pan­zés são capa­zes de modi­fi­car o seu ambi­ente e for­jar fer­ra­men­tas para aju­dar nos desa­fios diá­rios. Chim­pan­zés fazem lan­ças, usam pedras como mar­te­los e bigor­nas e assim amas­sam folhas para obter polpa. Supõe-se que, como resul­tado de andar­mos ere­tos, os nos­sos mem­bros dian­tei­ros são mais livres para usar fer­ra­men­tas, e essa seria a razão de ter­mos refi­nado a cri­a­ção e uso de fer­ra­men­tas. Vive­mos cons­tan­te­mente cer­cado pelos pro­du­tos cri­a­dos a par­tir dessa capa­ci­dade, e muito daquilo que a soci­e­dade con­si­dera como sinal de sucesso pes­soal está enrai­zado nessa capa­ci­dade de ela­bo­rar fer­ra­men­tas.


[Tra­du­ção e adap­ta­ção do artigo ori­gi­nal de Kate Mul­cahy]

Rodrigo Zottis
Rapaz que só faz o que faz pois espera que um dia seu legado possa ser completamente auto-explicativo.

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