Wild Eyed Southern Boys, da banda 38 Special, é uma das músicas que mais gosto dentro do gênero southern rock. A música fala basicamente de um bar pacato, que toca blues, no qual chegam uns roqueiros que decidem dar um pouco de agito ao lugar, o que faz as mulheres ficarem entre um misto de medo e sedução.

Isso traduz muito da tradição do sul dos EUA, baseada numa cultura da honra, que faz especialmente os homens não levarem desaforo para casa — e até a criarem alguns desaforos só para ter o prazer de “lavar sua honra” e assim provar sua virilidade.

Existe um prêmio chamado Darwin Awards. Esse prêmio é cômico e trágico. Trata-se de uma compilação das mortes registradas mais toscas e desnecessárias. A piada embutida no nome do prêmio é que a seleção natural se incumbiu de eliminar da face da Terra esses sujeitos “nada adaptados”, digamos assim.

O curioso é que a maioria dos sujeitos que se engaja em comportamentos de risco tolos o suficiente para ganhar um Darwin Awards, são homens.

Darwin Awards.

Outro dia estava andando pela rua e escutei um daqueles sons altos que as motos soltam. Segundos depois, passa por mim um cara empinando a motocicleta. Estávamos numa pequena ladeira, e ele foi empinando a magrela envenenada até o outro extremo da rua, que já era uma descida. Nesse momento me perguntei qual tinha sido a última vez que vi uma mulher fazendo isso. Eu nunca vi.

A maioria dos sujeitos que usam suas motos para fazer algo além de se locomover mais rápido de um lugar para outro, empinando, derrapando e causando acidentes, são homens.

 

Assim no mundo offline como no online

Não gostou? Vem pro duelo.
Não gostou? Vem pro duelo.

Essas evidências anedóticas mostram que os homens são os principais envolvidos em casos de violência, hostilidade contra outros grupos e em ações que envolvem risco alto e desnecessário.

O interessante é que pesquisas com centenas de participantes mostram que existem mesmo razões especiais para esse protagonismo masculino.

Esses episódios isolados se conectaram subitamente quando li o texto Como acabar com tretas e ter debates transformadores, sobre a hostilidade dos debates na internet. As redes sociais podem ser um excelente cenário para trocar informações enriquecedoras, mas também pode ser uma praça de guerra. O mundo offline é exatamente assim, das primeiras ágoras atenienses aos fóruns da internet.

E se isso tivesse algo a ver com a cultura de honra e agressividade na qual os homens parecem estar quase sempre envolvidos?

Algumas conclusões estatísticas baseadas em estudos empíricos sugerem inclusive que essa tendência é mais profunda do que somente um aprendizado promovido por culturas patriarcais.

Não gostou? Me mostre então suas habilidades como espadachim.
Não gostou? Me mostre então suas habilidades como espadachim.

Assim, (1) homens comumente estão metidos em situações que aumentam o risco de acidentes e de mortalidade, (2) sendo que eles fazem isso com muito mais frequência que as mulheres, (3) especialmente quando em idade reprodutiva, e (4) alguns desses padrões são constatados também entre outros primatas.

Mais do que isso, e se a agressividade masculina tivesse algo a ver com algum tipo de estratégia moldada ao longo da evolução não só para disputas entre outros homens, mas também para impressionar mulheres?

 

Eu, Primata

O primatologista Frans de Waal, em Eu, Primata, sugere que alguns aspectos associados à violência em humanos são compartilhadas por machos de seus primos próximos, os chimpanzés.

A agressividade é especialmente frequente entre jovens em idade reprodutiva, e pode ser ativada na frente das fêmeas como uma forma de impressioná-las (protegendo-as, protegendo a cria, protegendo o território, mostrando que pode arcar com os custos de um comportamento hostil), ou surgir como estratégia de conflito grupal, defesa e disputa por hierarquia.

Chimpanzés são nossos primos, ainda que muito distantes, então é possível que guardemos algumas similaridades.

Pense por um momento: se a violência é uma estratégia que surge diante de certos contextos, e se esse recurso foi “instalado” em nossos softwares pela evolução, é bem possível que os mesmos estímulos capazes de disparar a agressividade no mundo offline, possam fazê-lo também no online.

Violência entre primatas.
Não gostou? Galera, vamos acabar com esse aqui.

Até onde sei, isso é só especulação, mas com alguma base num longínquo rastro de evidências. Não existem estudos sobre agressividade entre homens nas redes sociais (como xingamentos e palavras rudes nos comentários do Facebook, por exemplo), mas faria todo sentido que os fatores determinantes para esse tipo de conduta fossem os mesmos no mundo real e no virtual.

É como se fosse uma cultura da honra, surgida espontaneamente das interações online. Comentários de outros homens, especialmente se não for do seu grupo seleto de amizades, pode ser o gatilho perfeito para o surgimento da agressividade.

Algo que pode tornar isso ainda mais intenso é a constante pressão da presença feminina. Como a agressividade foi uma solução evolutiva (não que seja defensável moralmente) para, dentre outros desafios, resolver o problema da proteção da prole e ao mesmo tempo sinalizar características desejáveis do ponto de vista reprodutivo (só pode assumir comportamentos de risco quem tem recursos mínimos para arcar com o custo desse tipo de atividade: saúde). Isso significa que, numa rede social, é possível que mulheres estejam vendo o “duelo”, e essa possibilidade pode ser um estímulo a mais para que as relações masculinas fiquem ainda mais esquentadas.

 

Isso não é uma discussão ética

Nunca é tarde para lembrar que essa não é uma defesa ética da violência ou da agressividade em geral. Esses são comportamentos reprováveis moralmente, devemos lutar para criar condições para diminuí-los o quanto for possível.

Estudar o que dispara esses comportamentos (quais contextos, quais fatores individuais) é um passo necessário para aplicar medidas eficientes em diminuí-los. E parte dessa jornada é investigar quais pressões seletivas moldaram essas predisposições nos seres humanos (assim como seria útil também estudar as pressões evolutivas que moldaram comportamentos altruístas).

Como vivemos num mundo cada vez mais imerso na internet, é útil refletir e estudar como isso se reflete nesse recente nicho humano.

Felipe Novaes

Felipe Novaes

Já quis ser paleontólogo, biólogo, astrônomo, filósofo e neurocientista, mas parece ter se encontrado na psicologia evolucionista. Nas horas vagas lê compulsivamente, escreve textos sobre a vida, o universo e tudo mais, e arruma um tempinho para o Positrônico Podcast. Contudo, durante todo o tempo procura se aprimorar na sabedoria e nas artes jedis do aikido.
Felipe Novaes
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