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Da hostilidade nas redes sociais às jaulas dos primatólogos

Em Ciência por Felipe NovaesComentário

Wild Eyed Southern Boys, da banda 38 Spe­cial, é uma das músi­cas que mais gosto den­tro do gênero southern rock. A música fala basi­ca­mente de um bar pacato, que toca blues, no qual che­gam uns roquei­ros que deci­dem dar um pouco de agito ao lugar, o que faz as mulhe­res fica­rem entre um misto de medo e sedu­ção.

Isso tra­duz muito da tra­di­ção do sul dos EUA, base­ada numa cul­tura da honra, que faz espe­ci­al­mente os homens não leva­rem desa­foro para casa — e até a cri­a­rem alguns desa­fo­ros só para ter o pra­zer de “lavar sua honra” e assim pro­var sua viri­li­dade.

Existe um prê­mio cha­mado Darwin Awards. Esse prê­mio é cômico e trá­gico. Trata-se de uma com­pi­la­ção das mor­tes regis­tra­das mais tos­cas e des­ne­ces­sá­rias. A piada embu­tida no nome do prê­mio é que a sele­ção natu­ral se incum­biu de eli­mi­nar da face da Terra esses sujei­tos “nada adap­ta­dos”, diga­mos assim.

O curi­oso é que a mai­o­ria dos sujei­tos que se engaja em com­por­ta­men­tos de risco tolos o sufi­ci­ente para ganhar um Darwin Awards, são homens.

Darwin Awards.

Outro dia estava andando pela rua e escu­tei um daque­les sons altos que as motos sol­tam. Segun­dos depois, passa por mim um cara empi­nando a moto­ci­cleta. Está­va­mos numa pequena ladeira, e ele foi empi­nando a magrela enve­ne­nada até o outro extremo da rua, que já era uma des­cida. Nesse momento me per­gun­tei qual tinha sido a última vez que vi uma mulher fazendo isso. Eu nunca vi. 

A mai­o­ria dos sujei­tos que usam suas motos para fazer algo além de se loco­mo­ver mais rápido de um lugar para outro, empi­nando, der­ra­pando e cau­sando aci­den­tes, são homens.

 

Assim no mundo offline como no online

Não gostou? Vem pro duelo.

Não gos­tou? Vem pro duelo.

Essas evi­dên­cias ane­dó­ti­cas mos­tram que os homens são os prin­ci­pais envol­vi­dos em casos de vio­lên­cia, hos­ti­li­dade con­tra outros gru­pos e em ações que envol­vem risco alto e des­ne­ces­sá­rio.

O inte­res­sante é que pes­qui­sas com cen­te­nas de par­ti­ci­pan­tes mos­tram que exis­tem mesmo razões espe­ci­ais para esse pro­ta­go­nismo mas­cu­lino.

Esses epi­só­dios iso­la­dos se conec­ta­ram subi­ta­mente quando li o texto Como aca­bar com tre­tas e ter deba­tes trans­for­ma­do­res, sobre a hos­ti­li­dade dos deba­tes na inter­net. As redes soci­ais podem ser um exce­lente cená­rio para tro­car infor­ma­ções enri­que­ce­do­ras, mas tam­bém pode ser uma praça de guerra. O mundo offline é exa­ta­mente assim, das pri­mei­ras ágo­ras ate­ni­en­ses aos fóruns da inter­net.

E se isso tivesse algo a ver com a cul­tura de honra e agres­si­vi­dade na qual os homens pare­cem estar quase sem­pre envol­vi­dos?

Algu­mas con­clu­sões esta­tís­ti­cas base­a­das em estu­dos empí­ri­cos suge­rem inclu­sive que essa ten­dên­cia é mais pro­funda do que somente um apren­di­zado pro­mo­vido por cul­tu­ras patri­ar­cais.

Não gostou? Me mostre então suas habilidades como espadachim.

Não gos­tou? Me mos­tre então suas habi­li­da­des como espa­da­chim.

Assim, (1) homens comu­mente estão meti­dos em situ­a­ções que aumen­tam o risco de aci­den­tes e de mor­ta­li­dade, (2) sendo que eles fazem isso com muito mais frequên­cia que as mulhe­res, (3) espe­ci­al­mente quando em idade repro­du­tiva, e (4) alguns des­ses padrões são cons­ta­ta­dos tam­bém entre outros pri­ma­tas.

Mais do que isso, e se a agres­si­vi­dade mas­cu­lina tivesse algo a ver com algum tipo de estra­té­gia mol­dada ao longo da evo­lu­ção não só para dis­pu­tas entre outros homens, mas tam­bém para impres­si­o­nar mulhe­res?

 

Eu, Primata

O pri­ma­to­lo­gista Frans de Waal, em Eu, Pri­mata, sugere que alguns aspec­tos asso­ci­a­dos à vio­lên­cia em huma­nos são com­par­ti­lha­das por machos de seus pri­mos pró­xi­mos, os chim­pan­zés.

A agres­si­vi­dade é espe­ci­al­mente fre­quente entre jovens em idade repro­du­tiva, e pode ser ati­vada na frente das fêmeas como uma forma de impres­si­oná-las (pro­te­gendo-as, pro­te­gendo a cria, pro­te­gendo o ter­ri­tó­rio, mos­trando que pode arcar com os cus­tos de um com­por­ta­mento hos­til), ou sur­gir como estra­té­gia de con­flito gru­pal, defesa e dis­puta por hie­rar­quia.

Chim­pan­zés são nos­sos pri­mos, ainda que muito dis­tan­tes, então é pos­sí­vel que guar­de­mos algu­mas simi­la­ri­da­des.

Pense por um momento: se a vio­lên­cia é uma estra­té­gia que surge diante de cer­tos con­tex­tos, e se esse recurso foi “ins­ta­lado” em nos­sos softwa­res pela evo­lu­ção, é bem pos­sí­vel que os mes­mos estí­mu­los capa­zes de dis­pa­rar a agres­si­vi­dade no mundo offline, pos­sam fazê-lo tam­bém no online.

Violência entre primatas.

Não gos­tou? Galera, vamos aca­bar com esse aqui.

Até onde sei, isso é só espe­cu­la­ção, mas com alguma base num lon­gín­quo ras­tro de evi­dên­cias. Não exis­tem estu­dos sobre agres­si­vi­dade entre homens nas redes soci­ais (como xin­ga­men­tos e pala­vras rudes nos comen­tá­rios do Face­book, por exem­plo), mas faria todo sen­tido que os fato­res deter­mi­nan­tes para esse tipo de con­duta fos­sem os mes­mos no mundo real e no vir­tual.

É como se fosse uma cul­tura da honra, sur­gida espon­ta­ne­a­mente das inte­ra­ções online. Comen­tá­rios de outros homens, espe­ci­al­mente se não for do seu grupo seleto de ami­za­des, pode ser o gati­lho per­feito para o sur­gi­mento da agres­si­vi­dade.

Algo que pode tor­nar isso ainda mais intenso é a cons­tante pres­são da pre­sença femi­nina. Como a agres­si­vi­dade foi uma solu­ção evo­lu­tiva (não que seja defen­sá­vel moral­mente) para, den­tre outros desa­fios, resol­ver o pro­blema da pro­te­ção da prole e ao mesmo tempo sina­li­zar carac­te­rís­ti­cas dese­já­veis do ponto de vista repro­du­tivo (só pode assu­mir com­por­ta­men­tos de risco quem tem recur­sos míni­mos para arcar com o custo desse tipo de ati­vi­dade: saúde). Isso sig­ni­fica que, numa rede social, é pos­sí­vel que mulhe­res este­jam vendo o “duelo”, e essa pos­si­bi­li­dade pode ser um estí­mulo a mais para que as rela­ções mas­cu­li­nas fiquem ainda mais esquen­ta­das.

 

Isso não é uma discussão ética

Nunca é tarde para lem­brar que essa não é uma defesa ética da vio­lên­cia ou da agres­si­vi­dade em geral. Esses são com­por­ta­men­tos repro­vá­veis moral­mente, deve­mos lutar para criar con­di­ções para dimi­nuí-los o quanto for pos­sí­vel.

Estu­dar o que dis­para esses com­por­ta­men­tos (quais con­tex­tos, quais fato­res indi­vi­du­ais) é um passo neces­sá­rio para apli­car medi­das efi­ci­en­tes em dimi­nuí-los. E parte dessa jor­nada é inves­ti­gar quais pres­sões sele­ti­vas mol­da­ram essas pre­dis­po­si­ções nos seres huma­nos (assim como seria útil tam­bém estu­dar as pres­sões evo­lu­ti­vas que mol­da­ram com­por­ta­men­tos altruís­tas).

Como vive­mos num mundo cada vez mais imerso na inter­net, é útil refle­tir e estu­dar como isso se reflete nesse recente nicho humano.

Felipe Novaes
Já quis ser paleontólogo, biólogo, astrônomo, filósofo e neurocientista, mas parece ter se encontrado na psicologia evolucionista. Nas horas vagas lê compulsivamente, escreve textos sobre a vida, o universo e tudo mais, e arruma um tempinho para o Positrônico Podcast. Contudo, durante todo o tempo procura se aprimorar na sabedoria e nas artes jedis do aikido.

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