discurso religioso e homossexualidade

Homofobia e crimes de ódio: o que revelam sobre nós?

Em Comportamento, Consciência, Sociedade por Eli VieiraComentário

Não gosto de comen­tar casos poli­ci­ais. Vejo muita gente ao meu redor, nas redes soci­ais, comen­tando casos que variam em quan­ti­dade de san­gue e razões para pro­vo­car revolta. Res­peito a empa­tia des­sas pes­soas, entendo sua von­tade de pro­tes­tar diante da injus­tiça e admiro que ao com­par­ti­lhar da dor alheia sin­tam esse ins­tinto de cha­mar a todos para que vejam, nua e crua, a injus­tiça.

Mas não gosto, por duas razões. Pri­meiro, acho que quando esta­mos insu­fla­dos de emo­ção – de raiva, tris­teza, revolta, ultraje – nós aca­ba­mos dei­xando de lado a aná­lise cui­da­dosa. Pode soar como uma ideia anti­quada de um raci­o­na­lista frio, mas posso citar alguns estu­dos indi­cando que dar vazão aos sen­ti­men­tos nega­ti­vos rara­mente é coisa que os ali­via. Ou coisa que resolva o pro­blema. Meu segundo motivo é menos refle­xivo e menos nobre: quero me pro­te­ger de ter que ver essas coi­sas. Quero pou­par minha saúde men­tal de tes­te­mu­nhar essa face do mundo que os cató­li­cos cha­mam de vale de lágri­mas.

Caio em erro, no entanto, nas duas coi­sas. Na pri­meira, caio em erro ao não lem­brar que pode­mos ficar sen­sa­ta­mente revol­ta­dos por algo que acon­te­ceu. É onde a emo­ção se vê coberta de razão. Na segunda, caio em erro por egoísmo.

Nesta semana, dois casos se jun­ta­ram para que­brar o egoísmo e revol­tar com razão qual­quer pes­soa com bús­sola moral em fun­ci­o­na­mento. João Antô­nio Donati foi encon­trado morto na cidade de Inhu­mas, Goiás. João tinha ape­nas 18 anos e era um dos úni­cos gays assu­mi­dos da cidade. Pri­meiro, noti­ciou-se que tinha mem­bros e pes­coço que­brado e uma nota depo­si­tada na boca que dizia “vamos aca­bar com essa praga”. Segundo as últi­mas notí­cias, não é ver­dade que havia fra­tu­ras. E a nota jamais exis­tiu. A polí­cia tra­ba­lha com a hipó­tese de assas­si­nato moti­vado por homo­fo­bia, entre outras hipó­te­ses. O jovem tinha papeis e saco­las plás­ti­cas enfi­a­das na boca, e hema­to­mas. Foi asfi­xi­ado até a morte. Um comen­tá­rio típico de um por­tal de notí­cia, tal­vez até mais brando que outros, dizia assim: “Eu não acre­dito que seja crime por homo­fo­bia, e sim ciú­mes de algum outro gay”. O autor do comen­tá­rio disse isso antes que fosse des­men­tida a pre­sença do tal bilhete na boca do garoto assas­si­nado.

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CTG que foi des­truído pelo fogo na noite da quarta. O dono já havia sido ame­a­çado.

Já em San­tana do Livra­mento, RS, um Cen­tro de Tra­di­ção Gaú­cha foi incen­di­ado. Dessa vez, a hipó­tese prin­ci­pal é moti­va­ção pre­con­cei­tu­osa, por­que nele estava mar­cado um casa­mento cole­tivo que incluía um casal do mesmo sexo: Sabrine e Solange. Esta é a prin­ci­pal sus­peita por­que a juíza ide­a­li­za­dora do casa­mento e o patrão do CTG sofre­ram ame­a­ças por incluir esse casal. O último está certo de que foi um crime homo­fó­bico, e deu entre­vista pro­tes­tando con­tra o pre­con­ceito: “chega disso”. Negando que o cen­tro seja um CTG legí­timo, o “pre­si­dente do Movi­mento Tra­di­ci­o­na­lista Gaú­cho” nega que entre as tra­di­ções defen­di­das pelo seu movi­mento esteja “pre­fe­rên­cia sexual”, mas faz ques­tão de dei­xar claro que nos CTG’s de ver­dade se exige que “homem se com­porte como homem, e mulher se com­porte como mulher”. Seja lá o que isso for.

Não acho que os des­men­ti­dos no caso do João dimi­nuam a revolta pelo que acon­te­ceu. O motivo para revolta é prin­ci­pal­mente o tipo de rea­ção que se viu no comen­tá­rio citado: sem qual­quer acesso a infor­ma­ção pri­vi­le­gi­ada, muita gente já assume que a culpa só pode ser de outros gays. Se não é pre­con­ceito essa von­tade de botar a culpa no pró­prio grupo da pes­soa que mor­reu, mani­fes­tada como comen­tá­rio em notí­cia dando deta­lhes vívi­dos (ainda que fal­sos) de moti­va­ção pre­con­cei­tu­osa, então o que seria?

Isso lem­bra o caso que ocor­reu há pou­cas sema­nas em Fer­gu­son (EUA): uma polí­cia ultra­mi­li­ta­ri­zada matou a tiros um jovem negro desar­mado e, diante do cla­mor popu­lar, em vez de libe­rar deta­lhes sobre o momento da exe­cu­ção, libe­rou um vídeo que supos­ta­mente mos­tra o jovem morto rou­bando cigar­ros numa loja de con­ve­ni­ên­cia, como se o suposto furto jus­ti­fi­casse a morte. Meses antes, os ame­ri­ca­nos viram tam­bém um júri ino­cen­tar George Zim­mer­man por matar a tiros um ado­les­cente negro que estava ape­nas vol­tando para a casa em que estava hos­pe­dado tem­po­ra­ri­a­mente no ‘con­do­mí­nio’ de Zim­mer­man. Anos antes, a Geor­gia exe­cu­tou com inje­ção letal Troy Davis, negro, mesmo em face de evi­dên­cia con­trá­ria à sua culpa e retra­ta­ção de tes­te­mu­nhas. Deten­tos no cor­re­dor da morte bran­cos, que fize­ram coisa pior do que o crime atri­buído a Davis, e com evi­dên­cias muito mais con­vin­cen­tes, rece­bem per­dão do estado. Assim como os Esta­dos Uni­dos acu­mu­lam caso após caso num padrão de injus­tiça moti­vada por pre­con­ceito racial, o Bra­sil acu­mula caso após caso de cri­mes de moti­va­ção homo­fó­bica (além, é claro, dos cri­mes racis­tas que tam­bém temos): o pai que teve a ore­lha dece­pada por abra­çar o filho em público, os irmãos que foram ambos assas­si­na­dos tam­bém por demons­tra­rem afeto um pelo outro em público, o jovem assas­si­nado num bar por defen­der um amigo gay, etc.

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João Donati, 18 anos, pode ter sido vítima de crime de homo­fo­bia na região metro­po­li­tana de Goi­â­nia (GO).

É claro que cri­mes noti­ci­a­dos como racis­tas ou homo­fó­bi­cos podem ter ocor­rido por outro motivo. Num país em que se expulsa fre­quen­te­mente casais do mesmo sexo por tro­ca­rem carí­cias “leves” em res­tau­ran­tes e bares, num país em que um líder reli­gi­oso que faz “exor­cismo” de gay tem cen­te­nas de milhões de reais em dízimo para fazer um tem­plo luxu­oso com pedras de Israel, alguém que acre­dita que todos ou a maior parte des­ses cri­mes não têm nada de moti­va­ção homo­fó­bica está total­mente fora da rea­li­dade ou acusa a si mesmo como envi­e­sado e pre­con­cei­tu­oso nessa ques­tão. Onde há fumaça, há fogo. Onde ainda se xinga as pes­soas, a sério ou não, com uma ori­en­ta­ção sexual espe­cí­fica, como se esta fosse demé­rito auto­má­tico a seus por­ta­do­res, cer­ta­mente haverá quem mata, asfi­xia e mutila alguém por ser gay. Haverá quem ame­aça juíza que quer fazer casa­men­tos igua­li­tá­rios, e quem bota fogo no lugar onde esses casa­men­tos inclu­si­vos seriam rea­li­za­dos.

Todos que se revol­ta­rem por essa con­jun­ção de tra­gé­dias e toli­ces, essa orques­tra da bru­ta­li­dade e da estu­pi­dez, esse coro de explí­cita falta de reco­nhe­ci­mento da igual huma­ni­dade alheia, esses con­se­lhos fora de lugar sobre “homem se com­por­tar como homem” logo após ouvir falar de incên­dio cri­mi­noso por homo­fo­bia, esse hábito de botar a culpa na vítima e seus pares até quando aca­bou de ler que havia uma suposta nota de into­le­rân­cia na boca da vítima, esta­rão cober­tos de razão em sua revolta. Todos que gri­ta­rem, cho­ra­rem, esmur­ra­rem a mesa e joga­rem as mãos para o céu esta­rão dando uma demons­tra­ção não de arroubo de quem per­deu a cabeça, mas uma pura sen­sa­tez diante de uma enorme ausên­cia de escla­re­ci­mento ético na cabeça de muita gente – e é essa gente que de fato per­deu a cabeça ou nunca a teve, em seu des­dém pelo drama alheio.

E quem pre­cisa de esta­tís­ti­cas ques­ti­o­ná­veis que digam que esses casos estão aumen­tando? Um único caso de garoto gay de 18 anos asfi­xi­ado até a morte por ser gay já é demais. Um único caso de incên­dio cri­mi­noso por tro­glo­dita que não quer ver a feli­ci­dade dos dife­ren­tes já pas­sou da conta. Não tole­rar nem um único caso des­ses, isso sim seria tra­di­ção digna de defesa.

Eli Vieira
Eli Vieira é biólogo evolutivo e geneticista, doutorando pela Universidade de Cambridge. Foi presidente da Liga Humanista Secular do Brasil e é internacionalmente famoso por sua paixão por pães-de-queijo.

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