Não gosto de comentar casos policiais. Vejo muita gente ao meu redor, nas redes sociais, comentando casos que variam em quantidade de sangue e razões para provocar revolta. Respeito a empatia dessas pessoas, entendo sua vontade de protestar diante da injustiça e admiro que ao compartilhar da dor alheia sintam esse instinto de chamar a todos para que vejam, nua e crua, a injustiça.

Mas não gosto, por duas razões. Primeiro, acho que quando estamos insuflados de emoção – de raiva, tristeza, revolta, ultraje – nós acabamos deixando de lado a análise cuidadosa. Pode soar como uma ideia antiquada de um racionalista frio, mas posso citar alguns estudos indicando que dar vazão aos sentimentos negativos raramente é coisa que os alivia. Ou coisa que resolva o problema. Meu segundo motivo é menos reflexivo e menos nobre: quero me proteger de ter que ver essas coisas. Quero poupar minha saúde mental de testemunhar essa face do mundo que os católicos chamam de vale de lágrimas.

Caio em erro, no entanto, nas duas coisas. Na primeira, caio em erro ao não lembrar que podemos ficar sensatamente revoltados por algo que aconteceu. É onde a emoção se vê coberta de razão. Na segunda, caio em erro por egoísmo.

Nesta semana, dois casos se juntaram para quebrar o egoísmo e revoltar com razão qualquer pessoa com bússola moral em funcionamento. João Antônio Donati foi encontrado morto na cidade de Inhumas, Goiás. João tinha apenas 18 anos e era um dos únicos gays assumidos da cidade. Primeiro, noticiou-se que tinha membros e pescoço quebrado e uma nota depositada na boca que dizia “vamos acabar com essa praga”. Segundo as últimas notícias, não é verdade que havia fraturas. E a nota jamais existiu. A polícia trabalha com a hipótese de assassinato motivado por homofobia, entre outras hipóteses. O jovem tinha papeis e sacolas plásticas enfiadas na boca, e hematomas. Foi asfixiado até a morte. Um comentário típico de um portal de notícia, talvez até mais brando que outros, dizia assim: “Eu não acredito que seja crime por homofobia, e sim ciúmes de algum outro gay”. O autor do comentário disse isso antes que fosse desmentida a presença do tal bilhete na boca do garoto assassinado.

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CTG que foi destruído pelo fogo na noite da quarta. O dono já havia sido ameaçado.

Já em Santana do Livramento, RS, um Centro de Tradição Gaúcha foi incendiado. Dessa vez, a hipótese principal é motivação preconceituosa, porque nele estava marcado um casamento coletivo que incluía um casal do mesmo sexo: Sabrine e Solange. Esta é a principal suspeita porque a juíza idealizadora do casamento e o patrão do CTG sofreram ameaças por incluir esse casal. O último está certo de que foi um crime homofóbico, e deu entrevista protestando contra o preconceito: “chega disso”. Negando que o centro seja um CTG legítimo, o “presidente do Movimento Tradicionalista Gaúcho” nega que entre as tradições defendidas pelo seu movimento esteja “preferência sexual”, mas faz questão de deixar claro que nos CTG’s de verdade se exige que “homem se comporte como homem, e mulher se comporte como mulher”. Seja lá o que isso for.

Não acho que os desmentidos no caso do João diminuam a revolta pelo que aconteceu. O motivo para revolta é principalmente o tipo de reação que se viu no comentário citado: sem qualquer acesso a informação privilegiada, muita gente já assume que a culpa só pode ser de outros gays. Se não é preconceito essa vontade de botar a culpa no próprio grupo da pessoa que morreu, manifestada como comentário em notícia dando detalhes vívidos (ainda que falsos) de motivação preconceituosa, então o que seria?

Isso lembra o caso que ocorreu há poucas semanas em Ferguson (EUA): uma polícia ultramilitarizada matou a tiros um jovem negro desarmado e, diante do clamor popular, em vez de liberar detalhes sobre o momento da execução, liberou um vídeo que supostamente mostra o jovem morto roubando cigarros numa loja de conveniência, como se o suposto furto justificasse a morte. Meses antes, os americanos viram também um júri inocentar George Zimmerman por matar a tiros um adolescente negro que estava apenas voltando para a casa em que estava hospedado temporariamente no ‘condomínio’ de Zimmerman. Anos antes, a Georgia executou com injeção letal Troy Davis, negro, mesmo em face de evidência contrária à sua culpa e retratação de testemunhas. Detentos no corredor da morte brancos, que fizeram coisa pior do que o crime atribuído a Davis, e com evidências muito mais convincentes, recebem perdão do estado. Assim como os Estados Unidos acumulam caso após caso num padrão de injustiça motivada por preconceito racial, o Brasil acumula caso após caso de crimes de motivação homofóbica (além, é claro, dos crimes racistas que também temos): o pai que teve a orelha decepada por abraçar o filho em público, os irmãos que foram ambos assassinados também por demonstrarem afeto um pelo outro em público, o jovem assassinado num bar por defender um amigo gay, etc.

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João Donati, 18 anos, pode ter sido vítima de crime de homofobia na região metropolitana de Goiânia (GO).

É claro que crimes noticiados como racistas ou homofóbicos podem ter ocorrido por outro motivo. Num país em que se expulsa frequentemente casais do mesmo sexo por trocarem carícias “leves” em restaurantes e bares, num país em que um líder religioso que faz “exorcismo” de gay tem centenas de milhões de reais em dízimo para fazer um templo luxuoso com pedras de Israel, alguém que acredita que todos ou a maior parte desses crimes não têm nada de motivação homofóbica está totalmente fora da realidade ou acusa a si mesmo como enviesado e preconceituoso nessa questão. Onde há fumaça, há fogo. Onde ainda se xinga as pessoas, a sério ou não, com uma orientação sexual específica, como se esta fosse demérito automático a seus portadores, certamente haverá quem mata, asfixia e mutila alguém por ser gay. Haverá quem ameaça juíza que quer fazer casamentos igualitários, e quem bota fogo no lugar onde esses casamentos inclusivos seriam realizados.

Todos que se revoltarem por essa conjunção de tragédias e tolices, essa orquestra da brutalidade e da estupidez, esse coro de explícita falta de reconhecimento da igual humanidade alheia, esses conselhos fora de lugar sobre “homem se comportar como homem” logo após ouvir falar de incêndio criminoso por homofobia, esse hábito de botar a culpa na vítima e seus pares até quando acabou de ler que havia uma suposta nota de intolerância na boca da vítima, estarão cobertos de razão em sua revolta. Todos que gritarem, chorarem, esmurrarem a mesa e jogarem as mãos para o céu estarão dando uma demonstração não de arroubo de quem perdeu a cabeça, mas uma pura sensatez diante de uma enorme ausência de esclarecimento ético na cabeça de muita gente – e é essa gente que de fato perdeu a cabeça ou nunca a teve, em seu desdém pelo drama alheio.

E quem precisa de estatísticas questionáveis que digam que esses casos estão aumentando? Um único caso de garoto gay de 18 anos asfixiado até a morte por ser gay já é demais. Um único caso de incêndio criminoso por troglodita que não quer ver a felicidade dos diferentes já passou da conta. Não tolerar nem um único caso desses, isso sim seria tradição digna de defesa.

escrito por:

Eli Vieira

Eli Vieira é biólogo evolutivo e geneticista, doutorando pela Universidade de Cambridge. Foi presidente da Liga Humanista Secular do Brasil e é internacionalmente famoso por sua paixão por pães-de-queijo.


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