Imagem de capa do artigo "Homo crisis: entre filosofias e tormentas", de Danilo Švágera, publicado no Portal Ano Zero.

Homo Crisis: sobre filosofia e tormentas

Em Consciência, Filosofia por Danilo ŠvágeraComentário

Conheça o Homo Cri­sis, uma espé­cie que evo­lui e con­tri­bui para o mundo quando ele está em crise.


Crise polí­tica, crise valo­ra­tiva, crise econô­mica, crise social… uma olhada rápida pelos jor­nais e ela lá estará, indu­bi­ta­vel­mente: a tão temida crise. No coti­di­ano, ela é uma das pro­ta­go­nis­tas e, basta pouco tempo de con­versa, ela apa­re­cerá nomi­nal­mente com todo seu ardor. Por um momento, iniciei‐me a escre­ver um texto sobre as pos­sí­veis cau­sas da crise – mas, volvendo‐me a pen­sar um pouco mais, resolvi mudar o foco. Mas por qual motivo?

Gosto de dizer em sala de aula que a refle­xão filo­só­fica se asse­me­lha a um homem e uma bacia: se esse homem esti­ver no cen­tro, verá par­tes de uma bacia – e terá de mudar de posi­ção para ver outros can­tos; mas se o homem sair da bacia e ver “pelas bor­das”, verá a tota­li­dade. Por tal motivo, irei evo­car uma outra pos­si­bi­li­dade de refle­xão sobre a vivên­cia da crise. Sim, irei falar sobre o filó­sofo como filho da crise.

Há 2500 anos apro­xi­ma­da­mente, um modelo de dis­curso, antes “ver­da­deiro e seguro”, ini­ci­ava sua tor­men­tosa der­ro­cada: o dis­curso mítico. De fato, ele não iria ser expur­gado total­mente da cons­ci­ên­cia dos gre­gos, mas gra­da­ti­va­mente seria ques­ti­o­nado e outras pos­si­bi­li­da­des de inter­pre­ta­ção da rea­li­dade colo­ca­das em seu lugar, como o da razão. Pouco a pouco, o dis­curso filo­só­fico ganha­ria forma e, no decor­rer da his­tó­ria, tam­bém sofre­ria inú­me­ras cri­ses. Na Idade Média, por exem­plo, esse dis­curso filo­só­fico (raci­o­nal e tota­li­zante, diría­mos) foi cedendo espaço para a reli­gi­o­si­dade – com efeito, não subs­ti­tuí­mos a filo­so­fia, mas agre­ga­mos outras carac­te­rís­ti­cas a ela naquele momento.

Imagine‐se sendo um filó­sofo, em pleno século IV d.C., vendo a reli­gião cristã tomar pre­mis­sas platô­ni­cas para integrá‐las numa nova forma de pen­sar. A mesma segu­ri­dade que o dis­curso mítico pos­suía sécu­los antes, e foi gra­da­ti­va­mente afe­tada, agora acon­te­cia com a forma dis­cur­siva ‘raci­o­nal’. E o mesmo ocor­reu na Idade Moderna, com o dis­curso reli­gi­oso sendo ‘aba­lado’ pela raci­o­na­li­dade cien­tí­fica. A His­tó­ria e seu cami­nhar são, por­tanto, filhas (e a devem muito!) da mãe crise.

Mas o que temos de per­ce­ber é que ves­tí­gios de uma tra­di­ção supe­rada são encon­tra­dos, mesmo quando há essa mudança de para­digma. A crise não é sinô­nimo de rup­tura abrupta de uma situ­a­ção, mas sim uma aber­tura e soma­tó­rio de novas visões pos­sí­veis, uma des­con­ti­nui­dade num pro­cesso que, até então, abar­cava certa segu­rança. Tal­vez aí esteja o pro­pó­sito real das cri­ses: mos­trar que não é pos­sí­vel acre­di­tar­mos numa segu­rança abso­luta, numa não‐mudança. Certa vez li que a raiz da pala­vra “crise” pos­sui alguma cone­xão com a pala­vra “vento”. Mesmo que tal afir­ma­ção não seja ver­da­deira, meta­fo­ri­ca­mente é uma bela ima­gem: o vento pode nos tra­zer tor­men­tas, mas redi­re­ci­ona a situ­a­ção (e, em última ins­tân­cia, o olhar). E é aí que tudo ganha novos con­tor­nos (inclu­sive nosso texto).

Citação de Goethe: Ler é a arte de desatar nós cegos. | Conheça o Homo Crisis, uma espécie que evolui e contribui para o mundo quando ele está em crise.

Ini­ciei dizendo que o filó­sofo deve­ria estar à borda da bacia – pois, assim, redi­re­ci­o­na­ria o olhar. Então, pode­mos con­cluir que o papel do filó­sofo é um re‐olhar (tal como a crise). Afirmo, por­tanto, sem medo de errar: o filó­sofo é o Homo Cri­sis. Em todos os momen­tos his­tó­ri­cos em que havia uma tor­menta, nosso amigo do saber (leia‐se filó­sofo) esteve pre­sente ‐ inclu­sive vou além: ele ganhava noto­ri­e­dade quando as ins­ti­tui­ções sofriam gra­ves ata­ques, quando as anti­gas tra­di­ções já não res­pon­diam à crise nem abar­ca­vam o novo. Pos­si­vel­mente por­que ele seja apto a ques­ti­o­nar, a sub­ver­ter o ‘nor­mal’.

Tal como a coruja de Minerva alça seu voo à noite, com a incrí­vel capa­ci­dade de enxer­gar na escu­ri­dão, o filó­sofo ques­ti­ona o mundo ao redor nos momen­tos tur­vos. Ora faz duras crí­ti­cas, ora aponta cami­nhos. Tal­vez, por esse motivo, vemos seu espaço cres­cer na mídia con­tem­po­râ­nea, nas rodas de con­versa, nas esco­las. Tal­vez pos­sa­mos acres­cen­tar, na céle­bre afir­ma­ção de Goethe, e dizer que “ler (e filo­so­far) é a arte de desa­tar nós cegos”. Nós‐linhas e nós‐sujeitos.

Com pra­zer, sou um Homo Cri­sis. Sair da caverna nes­ses momen­tos, pen­sar sobre a ven­ta­nia, falar sobre a tor­menta: eis nosso papel e nossa voca­ção, desde tem­pos anti­gos. Tal como esse texto, não há fim: há o pre­lú­dio do outro – pois é “fácil homo­lo­gar: tudo é um”, já dizia o velho Herá­clito.


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Danilo Švágera
Mestre em Educação, professor de Filosofia, ensaísta e palestrante. Depois de vários anos trabalhando em escolas tradicionais, resolveu que era hora de transformar a Educação - ou, ao menos, uma parte dela. Acredita firmemente nos dizeres: "ser e não estar professor".

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