Conheça o Homo Crisis, uma espécie que evolui e contribui para o mundo quando ele está em crise.


Crise política, crise valorativa, crise econômica, crise social… uma olhada rápida pelos jornais e ela lá estará, indubitavelmente: a tão temida crise. No cotidiano, ela é uma das protagonistas e, basta pouco tempo de conversa, ela aparecerá nominalmente com todo seu ardor. Por um momento, iniciei‐me a escrever um texto sobre as possíveis causas da crise – mas, volvendo‐me a pensar um pouco mais, resolvi mudar o foco. Mas por qual motivo?

Gosto de dizer em sala de aula que a reflexão filosófica se assemelha a um homem e uma bacia: se esse homem estiver no centro, verá partes de uma bacia – e terá de mudar de posição para ver outros cantos; mas se o homem sair da bacia e ver “pelas bordas”, verá a totalidade. Por tal motivo, irei evocar uma outra possibilidade de reflexão sobre a vivência da crise. Sim, irei falar sobre o filósofo como filho da crise.

Há 2500 anos aproximadamente, um modelo de discurso, antes “verdadeiro e seguro”, iniciava sua tormentosa derrocada: o discurso mítico. De fato, ele não iria ser expurgado totalmente da consciência dos gregos, mas gradativamente seria questionado e outras possibilidades de interpretação da realidade colocadas em seu lugar, como o da razão. Pouco a pouco, o discurso filosófico ganharia forma e, no decorrer da história, também sofreria inúmeras crises. Na Idade Média, por exemplo, esse discurso filosófico (racional e totalizante, diríamos) foi cedendo espaço para a religiosidade – com efeito, não substituímos a filosofia, mas agregamos outras características a ela naquele momento.

Imagine‐se sendo um filósofo, em pleno século IV d.C., vendo a religião cristã tomar premissas platônicas para integrá‐las numa nova forma de pensar. A mesma seguridade que o discurso mítico possuía séculos antes, e foi gradativamente afetada, agora acontecia com a forma discursiva ‘racional’. E o mesmo ocorreu na Idade Moderna, com o discurso religioso sendo ‘abalado’ pela racionalidade científica. A História e seu caminhar são, portanto, filhas (e a devem muito!) da mãe crise.

Mas o que temos de perceber é que vestígios de uma tradição superada são encontrados, mesmo quando há essa mudança de paradigma. A crise não é sinônimo de ruptura abrupta de uma situação, mas sim uma abertura e somatório de novas visões possíveis, uma descontinuidade num processo que, até então, abarcava certa segurança. Talvez aí esteja o propósito real das crises: mostrar que não é possível acreditarmos numa segurança absoluta, numa não‐mudança. Certa vez li que a raiz da palavra “crise” possui alguma conexão com a palavra “vento”. Mesmo que tal afirmação não seja verdadeira, metaforicamente é uma bela imagem: o vento pode nos trazer tormentas, mas redireciona a situação (e, em última instância, o olhar). E é aí que tudo ganha novos contornos (inclusive nosso texto).

Citação de Goethe: Ler é a arte de desatar nós cegos. | Conheça o Homo Crisis, uma espécie que evolui e contribui para o mundo quando ele está em crise.

Iniciei dizendo que o filósofo deveria estar à borda da bacia – pois, assim, redirecionaria o olhar. Então, podemos concluir que o papel do filósofo é um re‐olhar (tal como a crise). Afirmo, portanto, sem medo de errar: o filósofo é o Homo Crisis. Em todos os momentos históricos em que havia uma tormenta, nosso amigo do saber (leia‐se filósofo) esteve presente ‐ inclusive vou além: ele ganhava notoriedade quando as instituições sofriam graves ataques, quando as antigas tradições já não respondiam à crise nem abarcavam o novo. Possivelmente porque ele seja apto a questionar, a subverter o ‘normal’.

Tal como a coruja de Minerva alça seu voo à noite, com a incrível capacidade de enxergar na escuridão, o filósofo questiona o mundo ao redor nos momentos turvos. Ora faz duras críticas, ora aponta caminhos. Talvez, por esse motivo, vemos seu espaço crescer na mídia contemporânea, nas rodas de conversa, nas escolas. Talvez possamos acrescentar, na célebre afirmação de Goethe, e dizer que “ler (e filosofar) é a arte de desatar nós cegos”. Nós‐linhas e nós‐sujeitos.

Com prazer, sou um Homo Crisis. Sair da caverna nesses momentos, pensar sobre a ventania, falar sobre a tormenta: eis nosso papel e nossa vocação, desde tempos antigos. Tal como esse texto, não há fim: há o prelúdio do outro – pois é “fácil homologar: tudo é um”, já dizia o velho Heráclito.


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escrito por:

Danilo Švágera

Mestre em Educação, professor de Filosofia, ensaísta e palestrante. Depois de vários anos trabalhando em escolas tradicionais, resolveu que era hora de transformar a Educação – ou, ao menos, uma parte dela. Acredita firmemente nos dizeres: “ser e não estar professor”.