Há algum tempo, um texto aparentemente inofensivo no AZ gerou uma surpreendente onda de ódio. Era a tradução de uma matéria de divulgação sobre o estudo Altruism predicts mating success in humans, recém publicado numa revista científica internacional.

Basicamente, a matéria dizia que, segundo pesquisadores responsáveis pelo estudo, o altruísmo é um dos critérios de atratividade amorosa mais forte, especialmente para as mulheres.

Por vários motivos diferentes, um bom número de leitores questionou a conclusão dos pesquisadores – muito embora seja provável que nenhum dos críticos tenha lido o estudo original (o que não é uma obrigação mesmo).

Os comentários foram bem ácidos. Você pode vê-los no final do próprio texto ou nos compartilhamentos da fanpage do AZ. Resumindo todo o palavrório, chegamos na seguinte essência das principais reclamações:

  • É errado investigar se homens e mulheres têm diferentes critérios de atratividade.

atração

Imagino que essa crítica tenha algo a ver com uma crítica ao machismo.

As pessoas andam temerosas de que o discurso machista seja legitimado, mas acabam aplicando essa excessiva cautela na direção errada. Isso acaba gerando a falácia da ladeira escorregadia:

“se continuarem fazendo estudos desse tipo, no futuro a ciência vai fundamentar o machismo, a misoginia, o racismo, a desigualdade, chegando com certeza em alguma versão de Admirável Mundo Novo ou 1984.”

Digamos que eu tenha muita experiência no negócio. É que meu projeto de mestrado tem a ver com diferenças nos critérios de atratividade entre homens e mulheres, o que significa que já recebi e continuo recebendo muitas críticas desse tipo.

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Essa crítica simploriamente pressupõe algo que não faz parte da ciência, que é a moralização dos seus resultados. Os cientistas não estão pesquisando como as pessoas devem agir, mas como elas agem – independente de isso ser eticamente correto ou não.

A confusão entre o “ser” e o “dever ser” é comum no cotidiano e os acadêmicos não ficam de fora.

 

 

  • Esses resultados não correspondem à realidade cotidiana (esse foi um dos argumentos mais usados no Facebook e nos comentários do texto).

estereótipos de gênero
Alguns estereótipos…

Se você acha que um sinal de legitimidade de uma descoberta científica é o quanto ela confirma impressões do senso comum e da vida cotidiana, preciso dizer que você entende muito pouco sobre esse jogo chamado pesquisa científica.

Se isso estivesse correto, poderíamos jogar fora ⅔ da ciência moderna, incluindo o melhor da Física e da Biologia, por exemplo. A maioria das teorias científicas que melhor descrevem e predizem a realidade são bem contra-intuitivas.

Se o senso comum bastasse ou se a pesquisa científica tivesse que ser sua subordinada, não precisaríamos de pesquisas em psicologia (aliás, você pode clicar aqui se quiser saber e participar das pesquisas que estamos fazendo lá no meu grupo de pesquisa).

Bastaria ir na pizzaria com os amigos, chegar em casa, anotar sua impressões e achismos e mandar o manuscrito para qualquer revista publicar. Sério, meu curriculum Lattes agradeceria.

Ah, além do mais, questionar esse resultado dessa forma é simplesmente amador, já que existem outros estudos corroborando essas conclusões.

É como ver um engenheiro falando da construção de um prédio baseado nas leis de Newton e sair questionando “Ah, mas quem garante que ele não manipulou seus próprios resultados por motivos políticos?”.

 

 

  • Usar uma pesquisa quantitativa para concluir coisas sobre mulheres é errado; o ideal seria uma pesquisa qualitativa, que possibilitaria ouvir os motivos de cada uma das participantes.

Pesquisa homens e mulheres.

Estudos como esse sobre altruísmo geralmente são quantitativos, o que significa que se usa uma amostra de centenas ou mesmo de milhares de participantes.

A ideia é ter:

(i) uma amostra representativa da população para a qual se pretende generalizar as conclusões dos dados obtidos, e quanto maior o número de participantes (n), melhor;

(ii) para realizar as análises estatísticas adequadamente também é necessário ter um número alto de participantes, senão as inferências ficam muito suscetíveis a erros, digamos assim (sim, psicólogos usam estatística).

Por isso que fico tão desesperado atrás de participantes quando estou com minhas pesquisas no ar. Eu não posso me basear na visão de duas pessoas e achar que posso generalizar as conclusões.

 

 

  • Homens e mulheres não são diferentes. Dizer o contrário é errado.

Igualdade de gênero
Seriam homens e mulheres tão “iguais” assim?

Esse é um erro que merece minha atenção mais de perto.

Sei que a prerrogativa principal do movimento feminista e suas diversas vertentes é a igualdade de direitos entre homens e mulheres, mas a militância radical acaba eclipsando o fato de que homens e mulheres são diferentes sim, e que isso não se deve unicamente às diferentes contingências sócio-culturais.

Para além do modo como gostaríamos que o mundo fosse, existem evidências (validadas transculturalmente) solidamente corroboradas por diversos estudos, que mostram que homens e mulheres são diferentes em um nível bem mais básico, que é explicado pela evolução.

Quando se fala em explicações evolucionistas para um dado comportamento, diz-se que está sendo respondida uma questão do tipo “por que determinado mecanismo biológico ocorre dessa maneira e não de outra?”.

Isso significa que explicar um comportamento evolutivamente não implica negar outras esferas de análise, como explicações fisiológicas ou mesmo culturais, dois outros níveis de análise possíveis. Há alguns meses expliquei isso mais detalhadamente no site Universo Racionalista.

Pense nas diferenças entre homens e mulheres como se pensa no nosso gosto por alimentos extremamente calóricos.

Está certo, temos Burger King, o bar podrão da esquina, comerciais de tv, vida corrida, ou seja, uma sopa de fatores que provavelmente facilita nossa escolha por uma má alimentação.

Mas, para início de conversa, por que a propaganda tem tanto sucesso em nos fazer consumir esses alimentos e não frutas ou legumes? Porque gostamos muito de alimentos gordos. E isso ocorre porque gostar de alimentos calóricos fez nossos ancestrais (do gênero Homo e antes disso) sobreviverem numa época em que não existia almoço grátis.

Caçar era difícil, e levava tempo. O organismo tinha que estar preparado para sobreviver a grandes períodos de escassez. Uma dessas estratégias evolutivas foi predispor o organismo a preferir alimentos gordurosos, pois o custo-benefício compensa (muitas calorias em poucas refeições).

A preferência alimentar humana resolveu o problema da escassez, recorrente no passado.

Do mesmo modo, por exemplo, os diferentes critérios amorosos de homens e mulheres se moldaram como uma resolução ótima para uma série de desafios evolutivos recorrentes para homens e mulheres ancestrais.

Uma dessas principais pressões seletivas diz respeito ao chamado investimento parental.

Especialmente nos mamíferos, o custo biológico mínimo para a reprodução da fêmea é muito maior do que o do macho. Elas passam por um longo período de gestação e depois pela lactação.

Sem contar que ao longo da vida as mulheres produzem muito menos células germinativas do que os homens. Por outro lado, o custo biológico mínimo reprodutivo do homem é o material genético.

Em termos de custo-benefício biológico, as mulheres ficam impedidas de se reproduzir até o fim da gravidez, enquanto o homem biologicamente está desimpedido pouco tempo depois da cópula.

No entanto, o homem pode investir com recursos – e de fato o Homo sapiens é o primata que mais contribui nesse sentido.

Assim, surgem basicamente as principais diferenças nos critérios de atratividade masculinos e femininos.

As mulheres, que pagam mais, em termos biológicos, pela reprodução, costumam ser mais seletivas em relação aos parceiros. Seus critérios mais fortes giram em torno de indícios de investimento parental (quantidade de recursos do potencial parceiro, traços de personalidade como ambição e altruísmo).

Por outro lado, como os homens pagam pouco, em termos biológicos, são menos seletivos nos critérios amorosos. Homens geralmente estão mais preocupados com características femininas que indiquem fertilidade (beleza física).

Uma série de estudos, desde os anos 80 do século passado, vêm corroborando os modelos inspirados na seleção sexual e na teoria do investimento parental, que descrevem e predizem diferenças importantes entre homens e mulheres nesses contextos amorosos.

Tendo em vista que essas teorias parecem estar sendo bem sucedidas tanto no estudo de seres humanos quanto no de outros animais, considero simplesmente uma tentativa fútil de bazófia tentar refutar isso não com dados, mas com problematizações pós-modernas.

Digo isso porque foi muito frequente as pessoas contestarem a validade desse tipo de pesquisa simplesmente relativizando a coisa. Mas nunca respondem a seguinte pergunta: “ok, mas e o sucesso preditivo das teorias e replicação dos resultados?”

Por outro lado, algumas críticas acabam acertando ao falar de variáveis contextuais que podem intervir nesses resultados. E isso está certo.

Mas existem hoje uma série de modelos evolucionistas, para animais humanos e não-humanos, que incluem essas variáveis. Já tentei explicar como isso funciona em alguns textos meus sobre personalidade e ecologia comportamental.

Por fim, o que deveria ficar claro é que a crítica é permitida, mas ela deve ser feita com sabedoria. E tudo bem se o crítico for leigo e perguntar para aprender mais.

Adicionalmente, é bom reforçar que devemos estar sempre atentos se um texto está constatando que um comportamento existe, ou se está dizendo que as pessoas devem agir de tal modo.

Grande parte do que foi dito sobre a matéria divulgada pelo AZ pode ser respondido nesse sentido, porque me parece que todas as críticas erraram um pouco o alvo real.


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escrito por:

Felipe Novaes

Já quis ser paleontólogo, biólogo, astrônomo, filósofo e neurocientista, mas parece ter se encontrado na psicologia evolucionista. Nas horas vagas lê compulsivamente, escreve textos sobre a vida, o universo e tudo mais, e arruma um tempinho para o Positrônico Podcast. Contudo, durante todo o tempo procura se aprimorar na sabedoria e nas artes jedis do aikido.


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