Mary Jane e Peter Parker em teia de aranha. | Darwin, por que homens e mulheres são diferentes?

Darwin, por que homens e mulheres são diferentes?

Em Ciência por Felipe NovaesComentário

Há algum tempo, um texto apa­ren­te­mente ino­fen­sivo no AZ gerou uma sur­pre­en­dente onda de ódio. Era a tra­du­ção de uma maté­ria de divul­ga­ção sobre o estudo Altruism pre­dicts mating suc­cess in humans, recém publi­cado numa revista cien­tí­fica inter­na­ci­o­nal.

Basi­ca­mente, a maté­ria dizia que, segundo pes­qui­sa­do­res res­pon­sá­veis pelo estudo, o altruísmo é um dos cri­té­rios de atra­ti­vi­dade amo­rosa mais forte, espe­ci­al­mente para as mulhe­res.

Por vários moti­vos dife­ren­tes, um bom número de lei­to­res ques­ti­o­nou a con­clu­são dos pes­qui­sa­do­res — muito embora seja pro­vá­vel que nenhum dos crí­ti­cos tenha lido o estudo ori­gi­nal (o que não é uma obri­ga­ção mesmo). 

Os comen­tá­rios foram bem áci­dos. Você pode vê-los no final do pró­prio texto ou nos com­par­ti­lha­men­tos da fan­page do AZ. Resu­mindo todo o pala­vró­rio, che­ga­mos na seguinte essên­cia das prin­ci­pais recla­ma­ções:

  • É errado investigar se homens e mulheres têm diferentes critérios de atratividade.

atração

Ima­gino que essa crí­tica tenha algo a ver com uma crí­tica ao machismo.

As pes­soas andam teme­ro­sas de que o dis­curso machista seja legi­ti­mado, mas aca­bam apli­cando essa exces­siva cau­tela na dire­ção errada. Isso acaba gerando a falá­cia da ladeira escor­re­ga­dia:

se con­ti­nu­a­rem fazendo estu­dos desse tipo, no futuro a ciên­cia vai fun­da­men­tar o machismo, a miso­gi­nia, o racismo, a desi­gual­dade, che­gando com cer­teza em alguma ver­são de Admi­rá­vel Mundo Novo ou 1984.”

Diga­mos que eu tenha muita expe­ri­ên­cia no negó­cio. É que meu pro­jeto de mes­trado tem a ver com dife­ren­ças nos cri­té­rios de atra­ti­vi­dade entre homens e mulhe­res, o que sig­ni­fica que já recebi e con­ti­nuo rece­bendo mui­tas crí­ti­cas desse tipo.

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Essa crí­tica sim­plo­ri­a­mente pres­su­põe algo que não faz parte da ciên­cia, que é a mora­li­za­ção dos seus resul­ta­dos. Os cien­tis­tas não estão pes­qui­sando como as pes­soas devem agir, mas como elas agem — inde­pen­dente de isso ser eti­ca­mente cor­reto ou não.

A con­fu­são entre o “ser” e o “dever ser” é comum no coti­di­ano e os aca­dê­mi­cos não ficam de fora. 

 

 

  • Esses resultados não correspondem à realidade cotidiana (esse foi um dos argumentos mais usados no Facebook e nos comentários do texto).

estereótipos de gênero

Alguns este­reó­ti­pos…

Se você acha que um sinal de legi­ti­mi­dade de uma des­co­berta cien­tí­fica é o quanto ela con­firma impres­sões do senso comum e da vida coti­di­ana, pre­ciso dizer que você entende muito pouco sobre esse jogo cha­mado pes­quisa cien­tí­fica.

Se isso esti­vesse cor­reto, pode­ría­mos jogar fora ⅔ da ciên­cia moderna, incluindo o melhor da Física e da Bio­lo­gia, por exem­plo. A mai­o­ria das teo­rias cien­tí­fi­cas que melhor des­cre­vem e pre­di­zem a rea­li­dade são bem con­tra-intui­ti­vas.

Se o senso comum bas­tasse ou se a pes­quisa cien­tí­fica tivesse que ser sua subor­di­nada, não pre­ci­sa­ría­mos de pes­qui­sas em psi­co­lo­gia (aliás, você pode cli­car aqui se qui­ser saber e par­ti­ci­par das pes­qui­sas que esta­mos fazendo lá no meu grupo de pes­quisa).

Bas­ta­ria ir na piz­za­ria com os ami­gos, che­gar em casa, ano­tar sua impres­sões e achis­mos e man­dar o manus­crito para qual­quer revista publi­car. Sério, meu cur­ri­cu­lum Lat­tes agra­de­ce­ria.

Ah, além do mais, ques­ti­o­nar esse resul­tado dessa forma é sim­ples­mente ama­dor, já que exis­tem outros estu­dos cor­ro­bo­rando essas con­clu­sões.

É como ver um enge­nheiro falando da cons­tru­ção de um pré­dio base­ado nas leis de New­ton e sair ques­ti­o­nando “Ah, mas quem garante que ele não mani­pu­lou seus pró­prios resul­ta­dos por moti­vos polí­ti­cos?”.

 

 

  • Usar uma pesquisa quantitativa para concluir coisas sobre mulheres é errado; o ideal seria uma pesquisa qualitativa, que possibilitaria ouvir os motivos de cada uma das participantes.

Pesquisa homens e mulheres.

Estu­dos como esse sobre altruísmo geral­mente são quan­ti­ta­ti­vos, o que sig­ni­fica que se usa uma amos­tra de cen­te­nas ou mesmo de milha­res de par­ti­ci­pan­tes.

A ideia é ter:

(i) uma amos­tra repre­sen­ta­tiva da popu­la­ção para a qual se pre­tende gene­ra­li­zar as con­clu­sões dos dados obti­dos, e quanto maior o número de par­ti­ci­pan­tes (n), melhor;

(ii) para rea­li­zar as aná­li­ses esta­tís­ti­cas ade­qua­da­mente tam­bém é neces­sá­rio ter um número alto de par­ti­ci­pan­tes, senão as infe­rên­cias ficam muito sus­ce­tí­veis a erros, diga­mos assim (sim, psi­có­lo­gos usam esta­tís­tica).

Por isso que fico tão deses­pe­rado atrás de par­ti­ci­pan­tes quando estou com minhas pes­qui­sas no ar. Eu não posso me basear na visão de duas pes­soas e achar que posso gene­ra­li­zar as con­clu­sões.

 

 

  • Homens e mulheres não são diferentes. Dizer o contrário é errado.

Igualdade de gênero

Seriam homens e mulhe­res tão “iguais” assim?

Esse é um erro que merece minha aten­ção mais de perto.

Sei que a prer­ro­ga­tiva prin­ci­pal do movi­mento femi­nista e suas diver­sas ver­ten­tes é a igual­dade de direi­tos entre homens e mulhe­res, mas a mili­tân­cia radi­cal acaba eclip­sando o fato de que homens e mulhe­res são dife­ren­tes sim, e que isso não se deve uni­ca­mente às dife­ren­tes con­tin­gên­cias sócio-cul­tu­rais.

Para além do modo como gos­ta­ría­mos que o mundo fosse, exis­tem evi­dên­cias (vali­da­das trans­cul­tu­ral­mente) soli­da­mente cor­ro­bo­ra­das por diver­sos estu­dos, que mos­tram que homens e mulhe­res são dife­ren­tes em um nível bem mais básico, que é expli­cado pela evo­lu­ção.

Quando se fala em expli­ca­ções evo­lu­ci­o­nis­tas para um dado com­por­ta­mento, diz-se que está sendo res­pon­dida uma ques­tão do tipo “por que deter­mi­nado meca­nismo bio­ló­gico ocorre dessa maneira e não de outra?”.

Isso sig­ni­fica que expli­car um com­por­ta­mento evo­lu­ti­va­mente não implica negar outras esfe­ras de aná­lise, como expli­ca­ções fisi­o­ló­gi­cas ou mesmo cul­tu­rais, dois outros níveis de aná­lise pos­sí­veis. Há alguns meses expli­quei isso mais deta­lha­da­mente no site Uni­verso Raci­o­na­lista.

Pense nas dife­ren­ças entre homens e mulhe­res como se pensa no nosso gosto por ali­men­tos extre­ma­mente caló­ri­cos.

Está certo, temos Bur­ger King, o bar podrão da esquina, comer­ci­ais de tv, vida cor­rida, ou seja, uma sopa de fato­res que pro­va­vel­mente faci­lita nossa esco­lha por uma má ali­men­ta­ção.

Mas, para iní­cio de con­versa, por que a pro­pa­ganda tem tanto sucesso em nos fazer con­su­mir esses ali­men­tos e não fru­tas ou legu­mes? Por­que gos­ta­mos muito de ali­men­tos gor­dos. E isso ocorre porque gos­tar de ali­men­tos caló­ri­cos fez nos­sos ances­trais (do gênero Homo e antes disso) sobre­vi­ve­rem numa época em que não exis­tia almoço grá­tis.

Caçar era difí­cil, e levava tempo. O orga­nismo tinha que estar pre­pa­rado para sobre­vi­ver a gran­des perío­dos de escas­sez. Uma des­sas estra­té­gias evo­lu­ti­vas foi pre­dis­por o orga­nismo a pre­fe­rir ali­men­tos gor­du­ro­sos, pois o custo-bene­fí­cio com­pensa (mui­tas calo­rias em pou­cas refei­ções).

A pre­fe­rên­cia ali­men­tar humana resol­veu o pro­blema da escas­sez, recor­rente no pas­sado.

Do mesmo modo, por exem­plo, os dife­ren­tes cri­té­rios amo­ro­sos de homens e mulhe­res se mol­da­ram como uma reso­lu­ção ótima para uma série de desa­fios evo­lu­ti­vos recor­ren­tes para homens e mulhe­res ances­trais.

Uma des­sas prin­ci­pais pres­sões sele­ti­vas diz res­peito ao cha­mado inves­ti­mento paren­tal.

Espe­ci­al­mente nos mamí­fe­ros, o custo bio­ló­gico mínimo para a repro­du­ção da fêmea é muito maior do que o do macho. Elas pas­sam por um longo período de ges­ta­ção e depois pela lac­ta­ção.

Sem con­tar que ao longo da vida as mulhe­res pro­du­zem muito menos célu­las ger­mi­na­ti­vas do que os homens. Por outro lado, o custo bio­ló­gico mínimo repro­du­tivo do homem é o mate­rial gené­tico.

Em ter­mos de custo-bene­fí­cio bio­ló­gico, as mulhe­res ficam impe­di­das de se repro­du­zir até o fim da gra­vi­dez, enquanto o homem bio­lo­gi­ca­mente está desim­pe­dido pouco tempo depois da cópula.

No entanto, o homem pode inves­tir com recur­sos — e de fato o Homo sapi­ens é o pri­mata que mais con­tri­bui nesse sen­tido.

Assim, sur­gem basi­ca­mente as prin­ci­pais dife­ren­ças nos cri­té­rios de atra­ti­vi­dade mas­cu­li­nos e femi­ni­nos.

As mulhe­res, que pagam mais, em ter­mos bio­ló­gi­cos, pela repro­du­ção, cos­tu­mam ser mais sele­ti­vas em rela­ção aos par­cei­ros. Seus cri­té­rios mais for­tes giram em torno de indí­cios de inves­ti­mento paren­tal (quan­ti­dade de recur­sos do poten­cial par­ceiro, tra­ços de per­so­na­li­dade como ambi­ção e altruísmo). 

Por outro lado, como os homens pagam pouco, em ter­mos bio­ló­gi­cos, são menos sele­ti­vos nos cri­té­rios amo­ro­sos. Homens geral­mente estão mais pre­o­cu­pa­dos com carac­te­rís­ti­cas femi­ni­nas que indi­quem fer­ti­li­dade (beleza física).

Uma série de estu­dos, desde os anos 80 do século pas­sado, vêm cor­ro­bo­rando os mode­los ins­pi­ra­dos na sele­ção sexual e na teo­ria do inves­ti­mento paren­tal, que des­cre­vem e pre­di­zem dife­ren­ças impor­tan­tes entre homens e mulhe­res nes­ses con­tex­tos amo­ro­sos.

Tendo em vista que essas teo­rias pare­cem estar sendo bem suce­di­das tanto no estudo de seres huma­nos quanto no de outros ani­mais, con­si­dero sim­ples­mente uma ten­ta­tiva fútil de bazó­fia ten­tar refu­tar isso não com dados, mas com pro­ble­ma­ti­za­ções pós-moder­nas.

Digo isso por­que foi muito fre­quente as pes­soas con­tes­ta­rem a vali­dade desse tipo de pes­quisa sim­ples­mente rela­ti­vi­zando a coisa. Mas nunca res­pon­dem a seguinte per­gunta: “ok, mas e o sucesso pre­di­tivo das teo­rias e repli­ca­ção dos resul­ta­dos?”

Por outro lado, algu­mas crí­ti­cas aca­bam acer­tando ao falar de variá­veis con­tex­tu­ais que podem inter­vir nes­ses resul­ta­dos. E isso está certo.

Mas exis­tem hoje uma série de mode­los evo­lu­ci­o­nis­tas, para ani­mais huma­nos e não-huma­nos, que incluem essas variá­veis. Já ten­tei expli­car como isso fun­ci­ona em alguns tex­tos meus sobre per­so­na­li­dade e eco­lo­gia com­por­ta­men­tal.

Por fim, o que deve­ria ficar claro é que a crí­tica é per­mi­tida, mas ela deve ser feita com sabe­do­ria. E tudo bem se o crí­tico for leigo e per­gun­tar para apren­der mais. 

Adi­ci­o­nal­mente, é bom refor­çar que deve­mos estar sem­pre aten­tos se um texto está cons­ta­tando que um com­por­ta­mento existe, ou se está dizendo que as pes­soas devem agir de tal modo. 

Grande parte do que foi dito sobre a maté­ria divul­gada pelo AZ pode ser res­pon­dido nesse sen­tido, por­que me parece que todas as crí­ti­cas erra­ram um pouco o alvo real.


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Felipe Novaes
Já quis ser paleontólogo, biólogo, astrônomo, filósofo e neurocientista, mas parece ter se encontrado na psicologia evolucionista. Nas horas vagas lê compulsivamente, escreve textos sobre a vida, o universo e tudo mais, e arruma um tempinho para o Positrônico Podcast. Contudo, durante todo o tempo procura se aprimorar na sabedoria e nas artes jedis do aikido.

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