Homem com homem não procria

Homem com homem não procria

Em Comportamento, Consciência, Sociedade por Alysson AugustoComentário

Recen­te­mente, dis­cu­tindo com uma pes­soa sobre sexu­a­li­dade e gênero, nos vimos num con­flito entre ques­tões bio­ló­gi­cas, psi­co­ló­gi­cas, éti­cas, soci­ais e cul­tu­rais. Incri­vel­mente, em se tra­tando de rela­ções huma­nas, qual­quer abs­tra­ção que pos­sa­mos fazer acaba por ter alguma rela­ção com o sexo — Freud que o diga.

Num dos comen­tá­rios dis­pos­tos na dis­cus­são, eis que surge “Homem com homem não pro­cria”. Come­cei a pen­sar nessa frase, afi­nal já a tinha visto ser repe­tida inú­me­ras vezes antes. Oras, o debate estava super inte­res­sante, inclu­sive com dados obje­ti­vos sobre o assunto e opi­niões bem fun­da­men­ta­das. Não era pos­sí­vel que essa afir­ma­ção, que até então eu só lera por parte de pes­soas com menos ins­tru­ção sobre o tema, fosse agora dita por alguém com certa estima inte­lec­tual.

E, incri­vel­mente, ele estava certo.

De fato homem com homem não pro­cria (para evi­tar uma guerra con­cei­tual, deixo claro que a visão de “homem” que dis­po­nho aqui é a tra­di­ci­o­nal que con­funde gênero com sexo). Nossa bio­lo­gia está con­di­ci­o­nada a uma cruza entre sexos dis­tin­tos, inclu­sive envol­vendo fato­res apa­ren­te­mente secun­dá­rios para que ocorra repro­du­ção, como por exem­plo se os agen­tes são ou não fér­teis e/ou se há uma mínima capa­ci­dade repro­du­tiva em ambos os envol­vi­dos. O Pirula expli­cou muito bem sobre a enor­mi­dade de variá­veis envol­vi­das para que ocorra a repro­du­ção de nossa espé­cie. Nesse sen­tido não há o que dis­cu­tir, ape­nas o que ana­li­sar.

Porém, com­pa­rar pro­cri­a­ção com cri­a­ção é um ato ingê­nuo, uma vez que tomar os devi­dos cui­da­dos a fim de garan­tir o pleno desen­vol­vi­mento de uma cri­ança NÃO depende do sexo/gênero de quem cuida.

Ale­gar bio­lo­gia para defen­der a não cri­a­ção de cri­an­ças por conta de casais homo­a­fe­ti­vos, por­tanto, torna-se uma falá­cia, a não ser que diga­mos que “mulher foi feita pra criar e homem para pro­criar”, o que seria no mínimo um tanto quanto machista, por ser uma afir­ma­ção deter­mi­nante e exclu­dente, e reti­ra­ria do escopo fami­liar um pai sol­teiro, por exem­plo.

Fotografia de Rafael Karelisky - Casal Homoafetivo Thomas e Juca

Foto­gra­fia de Rafael Kare­lisky — Casal Homo­a­fe­tivo Tho­mas e Juca

A essa defesa recebi uma res­posta: “O que se está a fazer no Bra­sil é puro rela­ti­vismo moral impor­tado dos Esta­dos Uni­dos”.

Achei uma colo­ca­ção per­ti­nente. Real­mente há mui­tas coi­sas acon­te­cendo atu­al­mente no Bra­sil que pare­cem ser impor­ta­das de paí­ses vizi­nhos, como que refle­tindo um mundo cada vez mais glo­ba­li­zado que con­tém uma men­ta­li­dade cada vez mais cole­tiva. Em con­tra­par­tida, temos repre­sen­tan­tes polí­ti­cos que­rendo bar­rar cer­tas mudan­ças apa­ren­te­mente impor­ta­das.

Mas, se vamos falar de mora­li­dade, então temos que rele­var que, mui­tas vezes, toda a visão que pre­ga­mos sobre um deter­mi­nado assunto pode estar fadada a um mero ponto de vista sobre o que se con­si­dera acei­tá­vel ou não para uma soci­e­dade. Com uma visão con­ser­va­dora de valo­res, por exem­plo, por óbvio um casal homo­a­fe­tivo não deve criar uma cri­ança. Mas, mesmo ado­tando essa pers­pec­tiva, temos que rele­var os fatos: Embora uma apa­rente mai­o­ria da popu­la­ção seja con­ser­va­dora nesse assunto, boa parte da popu­la­ção tam­bém é pro­gres­sista, e jus­ta­mente por isso deve­mos lem­brar que demo­cra­cia não é impo­si­ção dos achis­mos da mai­o­ria sobre as mino­rias, mas a justa medida não-nociva para que todos pos­sa­mos con­vi­ver em paz e har­mo­nia.

Assim sendo, rela­ti­vismo moral é defen­der que só pes­soas com deter­mi­na­das carac­te­rís­ti­cas tenham direi­tos exclu­si­vos que deve­riam ser bási­cos para todo ser humano, como a cons­ti­tui­ção de uma famí­lia, seja ela hete­ro­nor­ma­tiva, mono ou poli­gâ­mica, inter-racial ou até mesmo, caso con­si­de­re­mos ani­mais não-huma­nos seres de direito, com­posta por mem­bros de nossa espé­cie e mem­bros de outra, como um cachorro, um gato ou um papa­gaio (ou o que for).

Quando se trata de ética, deve­mos notar que em toda a his­tó­ria da huma­ni­dade os seres de direito eram redu­zi­dos a algu­mas carac­te­rís­ti­cas, e tais vão ampli­ando até se alcan­çar uma igual­dade plena. Mudan­ças e revo­lu­ções acon­te­cem sem­pre a cami­nho de ampliar o alcance da dig­ni­dade em quan­ti­dade e vari­e­dade de seres no mundo, a fim de alcan­çar uma abran­gente qua­li­dade de vida para a maior parte. Uma qua­li­dade de vida, arrai­gada em direi­tos essen­ci­ais, para o todo.

Com o tempo, a visão ética sobre valo­res vai mudando, incluindo então, ao longo dos sécu­los, os “dife­ren­tes” den­tre a mora­li­dade cole­tiva. Para além da Gré­cia Antiga, onde redu­zia-se o título de cida­dão a ser homem com mais de 21 anos, ate­ni­ense e filho de ate­ni­ense, hoje em dia não admi­ti­mos mais escra­va­tura, mulhe­res podem votar, negros podem ser res­pei­tá­veis inte­lec­tu­ais e, acre­dite, ani­mais estão sendo vis­tos, mesmo que aos pou­cos, como seres de direito. Os avan­ços no campo da mora­li­dade humana rumam a uma visão de famí­lia glo­ba­li­zada, onde o dife­rente é o comum.

Ao que tudo indica, o valor mais intrín­seco a uma união fami­liar não deve ser a cons­ti­tui­ção ou o que você ou eu acha­mos dessa ques­tão. O valor que deve­mos rele­var é o amor envol­vido, os laços cul­ti­va­dos e a pro­te­ção for­ne­cida de uns para os outros. Uma pena ter­mos que dis­cu­tir algo que deve­ria ser tão básico em nossa per­cep­ção.

Ano Zero apoia todos os tipos de família.

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É graduando em Filosofia pela PUCRS, professor de ensino médio e faz vídeos para o Youtube (conheça aqui). E, não menos importante, editor do melhor site da internet, o Ano Zero. Mas o necessário a saber mesmo é de seu amor declarado por churros.

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