Recentemente, discutindo com uma pessoa sobre sexualidade e gênero, nos vimos num conflito entre questões biológicas, psicológicas, éticas, sociais e culturais. Incrivelmente, em se tratando de relações humanas, qualquer abstração que possamos fazer acaba por ter alguma relação com o sexo – Freud que o diga.

Num dos comentários dispostos na discussão, eis que surge “Homem com homem não procria”. Comecei a pensar nessa frase, afinal já a tinha visto ser repetida inúmeras vezes antes. Oras, o debate estava super interessante, inclusive com dados objetivos sobre o assunto e opiniões bem fundamentadas. Não era possível que essa afirmação, que até então eu só lera por parte de pessoas com menos instrução sobre o tema, fosse agora dita por alguém com certa estima intelectual.

E, incrivelmente, ele estava certo.

De fato homem com homem não procria (para evitar uma guerra conceitual, deixo claro que a visão de “homem” que disponho aqui é a tradicional que confunde gênero com sexo). Nossa biologia está condicionada a uma cruza entre sexos distintos, inclusive envolvendo fatores aparentemente secundários para que ocorra reprodução, como por exemplo se os agentes são ou não férteis e/ou se há uma mínima capacidade reprodutiva em ambos os envolvidos. O Pirula explicou muito bem sobre a enormidade de variáveis envolvidas para que ocorra a reprodução de nossa espécie. Nesse sentido não há o que discutir, apenas o que analisar.

Porém, comparar procriação com criação é um ato ingênuo, uma vez que tomar os devidos cuidados a fim de garantir o pleno desenvolvimento de uma criança NÃO depende do sexo/gênero de quem cuida.

Alegar biologia para defender a não criação de crianças por conta de casais homoafetivos, portanto, torna-se uma falácia, a não ser que digamos que “mulher foi feita pra criar e homem para procriar”, o que seria no mínimo um tanto quanto machista, por ser uma afirmação determinante e excludente, e retiraria do escopo familiar um pai solteiro, por exemplo.

Fotografia de Rafael Karelisky - Casal Homoafetivo Thomas e Juca
Fotografia de Rafael Karelisky – Casal Homoafetivo Thomas e Juca

A essa defesa recebi uma resposta: “O que se está a fazer no Brasil é puro relativismo moral importado dos Estados Unidos”.

Achei uma colocação pertinente. Realmente há muitas coisas acontecendo atualmente no Brasil que parecem ser importadas de países vizinhos, como que refletindo um mundo cada vez mais globalizado que contém uma mentalidade cada vez mais coletiva. Em contrapartida, temos representantes políticos querendo barrar certas mudanças aparentemente importadas.

Mas, se vamos falar de moralidade, então temos que relevar que, muitas vezes, toda a visão que pregamos sobre um determinado assunto pode estar fadada a um mero ponto de vista sobre o que se considera aceitável ou não para uma sociedade. Com uma visão conservadora de valores, por exemplo, por óbvio um casal homoafetivo não deve criar uma criança. Mas, mesmo adotando essa perspectiva, temos que relevar os fatos: Embora uma aparente maioria da população seja conservadora nesse assunto, boa parte da população também é progressista, e justamente por isso devemos lembrar que democracia não é imposição dos achismos da maioria sobre as minorias, mas a justa medida não-nociva para que todos possamos conviver em paz e harmonia.

Assim sendo, relativismo moral é defender que só pessoas com determinadas características tenham direitos exclusivos que deveriam ser básicos para todo ser humano, como a constituição de uma família, seja ela heteronormativa, mono ou poligâmica, inter-racial ou até mesmo, caso consideremos animais não-humanos seres de direito, composta por membros de nossa espécie e membros de outra, como um cachorro, um gato ou um papagaio (ou o que for).

Quando se trata de ética, devemos notar que em toda a história da humanidade os seres de direito eram reduzidos a algumas características, e tais vão ampliando até se alcançar uma igualdade plena. Mudanças e revoluções acontecem sempre a caminho de ampliar o alcance da dignidade em quantidade e variedade de seres no mundo, a fim de alcançar uma abrangente qualidade de vida para a maior parte. Uma qualidade de vida, arraigada em direitos essenciais, para o todo.

Com o tempo, a visão ética sobre valores vai mudando, incluindo então, ao longo dos séculos, os “diferentes” dentre a moralidade coletiva. Para além da Grécia Antiga, onde reduzia-se o título de cidadão a ser homem com mais de 21 anos, ateniense e filho de ateniense, hoje em dia não admitimos mais escravatura, mulheres podem votar, negros podem ser respeitáveis intelectuais e, acredite, animais estão sendo vistos, mesmo que aos poucos, como seres de direito. Os avanços no campo da moralidade humana rumam a uma visão de família globalizada, onde o diferente é o comum.

Ao que tudo indica, o valor mais intrínseco a uma união familiar não deve ser a constituição ou o que você ou eu achamos dessa questão. O valor que devemos relevar é o amor envolvido, os laços cultivados e a proteção fornecida de uns para os outros. Uma pena termos que discutir algo que deveria ser tão básico em nossa percepção.

Ano Zero apoia todos os tipos de família.
Ano Zero apoia todos os tipos de família.

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escrito por:

Alysson Augusto

Escritor que não compactua com o rótulo. Graduando em Filosofia pela PUCRS. Professor de ensino médio. E, não menos importante, editor do melhor site da internet, o Ano Zero. Mas o necessário a saber mesmo é de seu amor declarado por churros.