Ayaan Hirsi Ali falando durante o simpósio de St. Gallen, na Suíça.

Por que as críticas de Hirsi Ali irritam a esquerda?

Em Política por Gisele GandinComentários

Este texto é uma tra­du­ção do Why Ayaan Hirsi Ali ’s Cri­ti­cism of Islam Angers Wes­tern Libe­rals, escrito por Jeff Robins.


Ayaan Hirsi Ali* ainda pode con­tar em câmera lenta os even­tos de 2 de Novem­bro de 2004 — o dia em que Theo Van Gogh, seu cola­bo­ra­dor em um filme sobre o abuso de mulhe­res em cer­tas soci­e­da­des muçul­ma­nas, foi assas­si­nado.

A defen­sora dos direi­tos huma­nos e escri­tora de ori­gem somali, então mem­bro do Par­la­mento Holan­dês, rece­beu ela mesma inú­me­ras ame­a­ças de morte por ter escrito este filme, cha­mado Sub­mis­são.

O Minis­tro do Inte­rior holan­dês a infor­mou sobre o que ocor­reu: Van Gogh foi alve­jado 8 vezes e dei­xado numa rua de Ams­terdã com sua gar­ganta cor­tada e uma grande faca fin­cada no seu cora­ção. O assas­sino usou uma segunda faca para dei­xar uma nota no peito de Van Gogh, aler­tando sobre a vio­lên­cia às nações oci­den­tais e aos judeus, e pro­nun­ci­ando uma sen­tença de morte con­tra Hirsi Ali.

A sen­tença de morte come­çava assim: “Em nome de Allah mais gra­ci­oso, mais mise­ri­cor­di­oso”, e depois pro­cla­mava que “todos os ini­mi­gos do Islã devem ser des­truí­dos.”

Com uma esti­ma­tiva de que 140 milhões de meni­nas e de mulhe­res ao redor do mundo são sujei­tas à muti­la­ção geni­tal, com milha­res de assas­si­na­tos a cada ano nos cha­ma­dos “cri­mes de honra” e milhões for­ça­das a casar con­tra a sua von­tade, era de se espe­rar que Hirsi Ali — a mais pro­e­mi­nente crí­tica des­tas prá­ti­cas e defen­sora de suas víti­mas — seria uni­ver­sal­mente acla­mada por aque­les que se dizem pro­gres­sis­tas.

Infográfico sobre a mutilação genital feminina, produzido por Pictoline.

Cré­di­tos: Pic­to­line

Desde que Hirsi Ali fala em nome da defesa das mulhe­res, ela vive sob ame­a­ças de morte há mais de uma década, e era de se espe­rar que ela seria tomada como uma heroína por pro­gres­sis­tas em todos os luga­res.

Entre­tanto, ape­sar de seu tra­ba­lho como par­la­men­tar, como escri­tora, como dire­tora de uma fun­da­ção devota a pro­te­ger mulhe­res e reco­nhe­cida pela revista TIME como uma das 100 pes­soas mais influ­en­tes do pla­neta, Hirsi Ali virou objeto de acrimô­nia [crí­tica severa e injusta] de parte da esquerda, que não pode tolerá-la por esta razão: ela é uma crí­tica do Islã e o que ela vê como o Mundo Muçul­mano abrange não ape­nas uma indul­gên­cia com a vio­lên­cia, mas tam­bém o cos­tume de jus­ti­ficá-la.

 

Hirsi Ali e o islamismo

Hirsi Ali fala sem papas na lín­gua que no Islã existe uma “cul­tura de miso­gi­nia que pre­cisa ser reco­nhe­cida rápida e fran­ca­mente, e que não deve­mos nos cen­su­rar.”

Con­tudo, enquanto Hirsi Ali tra­ba­lha para com­ba­ter estes desa­fios, ela se encon­tra lutando con­tra for­ças per­sis­ten­tes, incan­sá­veis, que a tem cen­su­rado. Os esfor­ços de cen­surá-la atra­vés da “isla­mo­fo­bia” ocor­rem tanto por pode­ro­sas for­ças muçul­ma­nas, que gos­ta­riam de esmagá-la como um inseto, como por parte da esquerda, para quem a nar­ra­tiva de que o Mundo Muçul­mano é vítima do Oci­dente é pre­ci­osa e con­for­tá­vel.

Ambas con­si­de­ram Hirsi Ali um pro­blema. Ela é afi­nal de con­tas uma mulher que nas­ceu e cres­ceu na reli­gião muçul­mana, que expe­ri­men­tou vários dos abu­sos que cri­tica.

A inte­lec­tual de 46 anos é tam­bém uma exce­lente escri­tora, ora­dora e tele­gê­nica [se apre­senta bem na TV]. E é tam­bém uma ateísta. Para aque­les que dese­jam supri­mir as crí­ti­cas refe­ren­tes às con­di­ções das mulhe­res no Islã, ela é, em suma, um infor­tú­nio.

Hirsi Ali aparece no documentário Unbelievers (2013) de Richard Dawkins e Lawrence Krauss.

Hirsi Ali adverte sobre o uso de pala­vras como “extremo” e “radi­cal” para des­cre­ver como peri­fé­rica a ide­o­lo­gia em que, segundo ela, é na ver­dade a pre­va­lente nas comu­ni­da­des muçul­ma­nas ao redor do mundo, e que facil­mente ten­dem à vio­lên­cia — seja na forma de muti­la­ção geni­tal, de cri­mes de honra, de espan­ca­mento de espo­sas ou de homens-bomba.

Ela vê a con­fi­ança nes­tas pala­vras como ilu­sões, um cal­mante, um pali­a­tivo auto-admi­nis­trado cujo efeito é mas­ca­rar as evi­dên­cias de que a vio­lên­cia é uma exten­são natu­ral dos valo­res fun­da­men­ta­lis­tas seve­ra­mente dita­dos e ampla­mente acei­tos nas comu­ni­da­des muçul­ma­nas — valo­res que enco­ra­jam um tra­ta­mento severo às mulhe­res, e até mesmo uma puni­ção bru­tal aos não-cren­tes.

Os seus avi­sos, e de todos os outros que arris­cam suas repu­ta­ções e vidas para cri­ti­car as ins­ti­tui­ções islâ­mi­cas, são dis­tin­ta­mente mal vis­tos no Oci­dente, onde são gra­ve­mente con­si­de­ra­dos como poli­ti­ca­mente incor­re­tos, e onde a nar­ra­tiva de “pou­cas maçãs podres” do extre­mismo islâ­mico é vas­ta­mente pre­fe­rido.

Um rela­tó­rio do Pew Rese­arch Cen­ter de dezem­bro de 2015 reforça o ponto de Hirsi Ali. Uma esma­ga­dora mai­o­ria de muçul­ma­nos nos 39 paí­ses ava­li­a­dos deseja que a Lei da Sha­ria — um código legal fun­da­men­ta­lista base­ado no Corão e em outros tex­tos islâ­mi­cos — seja a lei ofi­cial de seus paí­ses.

Na Indo­né­sia, terra com a maior popu­la­ção muçul­mana do mundo, 77% dos muçul­ma­nos dese­jam que a Lei da Sha­ria seja imposta. No Paquis­tão o índice foi de 84%; nos ter­ri­tó­rios pales­ti­nos, 89%; no Ira­que, 91% e no Afe­ga­nis­tão, 99%.

O pen­sa­mento acei­tá­vel de que o fun­da­men­ta­lismo islâ­mico e a ado­ção da vio­lên­cia são fru­tos de injus­tiça e ali­e­na­ção é pior do que um wish­ful thin­king [pen­sa­mento ilu­só­rio, base­ado em dese­jos e não em evi­dên­cias], segundo Hirsi Ali. “É errado, é peri­goso e é sui­cida”, diz ela, apon­tando para a Grã-Bre­tra­nha para ilus­trar seu argu­mento.

Uma vota­ção con­du­zida neste mês des­co­briu que 88% dos muçul­ma­nos bri­tâ­ni­cos acre­dita que a Bre­ta­nha seja um bom lugar para viver. Essa vota­ção jogou luz na ade­rên­cia desta mesma comu­ni­dade sobre quais valo­res que os polí­ti­cos oci­den­tais rejei­tam como aber­ra­ções.

1/3 dos muçul­ma­nos bri­tâ­ni­cos se recusa a con­de­nar o ape­dre­ja­mento das mulhe­res acu­sa­das de adul­té­rio. 39% acre­dita que as mulhe­res devem sem­pre obe­de­cer aos mari­dos. E quase 1/4 acre­dita que a Lei da Sha­ria deve­ria subs­ti­tuir a lei bri­tâ­nica em áreas com grande con­cen­tra­ção de muçul­ma­nos.

[optin­form]

É esti­mado que 100 mil muçul­ma­nos bri­tâ­ni­cos expres­sem sim­pa­tia por sui­cí­dios de homens-bomba e outros ata­ques ter­ro­ris­tas, e 2/3 dis­se­ram que se recu­sa­riam a con­ta­tar a polí­cia caso des­co­bris­sem que alguém pró­ximo cola­bora com jiha­dis­tas.

Quer por con­ve­ni­ên­cia polí­tica, quer por super­fi­ci­a­li­dade, polí­ti­cos e comen­ta­ris­tas oci­den­tais tra­tam indi­ví­duos como aque­les res­pon­sá­veis pelos mas­sa­cres na França, Bél­gica, Cali­fór­nia e ao longo do Ori­ente Médio e da África como meros aca­sos — fazendo pare­cer, como diz Hirsi Ali, que “um garoto de 21 anos acorda um dia e decide fazer uma Jihad.”

Ela iro­ni­ca­mente se refere a isto como “Sín­drome da Jihad Súbita”. Hirsi Ali vê a ques­tão de outra maneira. “Não é desta forma que ocorre. Isso é o pro­duto de dou­tri­na­ção que ocorre ao longo de anos. Na Amé­rica do Norte e na Europa eles pre­gam a Jihad como obri­ga­tó­ria. Eles podem pre­gar que há um tempo e um lugar para ela, mas eles a pre­gam.”

Em mes­qui­tas e em sites da inter­net, as ins­tru­ções são entre­gues para punir os não-cren­tes, deser­to­res ou até mesmo poten­ci­ais céti­cos, e as jus­ti­fi­ca­ti­vas em nome do Islã são trans­mi­ti­das.

Estas prá­ti­cas, segundo Hirsi Ali, são per­su­a­si­vas, impla­cá­veis e extre­ma­mente fun­da­men­ta­das por paí­ses muçul­ma­nos, doa­do­res e ins­ti­tui­ções ricas, e é bizarro pen­sar o con­trá­rio. “É tempo de lar­gar os eufe­mis­mos e as con­tor­ções ver­bais”.

Hirsi Ali e outros, que têm aten­tado para uma ava­li­a­ção mais rea­lista sobre a liga­ção entre a pro­mo­ção da lei islâ­mica e da vio­lên­cia con­tra a mulher, são roti­nei­ra­mente acu­sa­dos de serem into­le­ran­tes, sio­nis­tas e pro­pa­gan­dis­tas da extrema-direita.

Na Amé­rica, onde ela encon­trou refú­gio há 10 anos, Hirsi Ali tem sido ata­cada por orga­ni­za­ções como o Con­se­lho das rela­ções ame­ri­cano-islâ­mi­cas [CAIR], que mani­fes­tou o desejo de não que­rer vê-la fazendo pales­tras e escre­vendo, e com isso, gerando publi­ci­dade para os seus pon­tos de vista.

Ibrahim Hoo­per, porta voz do CAIR, a acu­sou de ser “uma das pio­res entre os pio­res odi­a­do­res do Islã não ape­nas na Amé­rica, mas no mundo.”

Isto difi­cil­mente é uma sur­presa: enquanto outros deser­to­res muçul­ma­nos têm expres­sado con­fi­den­ci­al­mente des­gosto pelo que acre­di­tam ser uma obs­tru­ção do CAIR aos esfor­ços do governo dos EUA para con­ter os extre­mis­mos islâ­mi­cos, eles não dese­jam fazê-lo publi­ca­mente. Porém, Hirsi Ali não deseja essa dis­cri­ção e tem carac­te­ri­zado o CAIR como “o fronte ame­ri­cano para a irman­dade muçul­mana”.

Ela difi­cil­mente está sozi­nha nesta opi­nião. O Depar­ta­mento de Jus­tiça nomeou o CAIR como um co-cons­pi­ra­dor na acu­sa­ção cri­mi­nal do Hamas, e um agente espe­cial do FBI tes­te­mu­nhou que o CAIR é um grupo do Hamas.

Os ata­ques a ela por mem­bros do CAIR e de outras orga­ni­za­ções simi­la­res tam­bém não sur­pre­en­de­ram ou aba­la­ram Hirsi Ali. “Eles que­rem que todos saiam de seus cami­nhos. Eles temem o pen­sa­mento crí­tico. Qual­quer pes­soa inte­li­gente no Mundo Islâ­mico que toma um minuto para pen­sar, não irá gos­tar do que vê.”

Ela fica satis­feita ao ver que a cora­gem des­tes muçul­ma­nos que deci­di­ram se posi­ci­o­nar, têm enco­ra­jado tam­bém outros muçul­ma­nos a fazer o mesmo — um cres­ci­mento que lhe enche de espe­rança, mas que tam­bém causa pode­ro­sos inte­res­ses no Mundo Islâ­mico para sen­tir pavor e raiva.

A Orga­ni­za­ção da Coo­pe­ra­ção Islâ­mica [OIC], bloco com 57 nações islâ­mi­cas, sedi­ado na Ará­bia Sau­dita, tem se esfor­çado para sis­te­ma­ti­zar um bani­mento glo­bal às crí­ti­cas à Lei Islâ­mica. Mui­tos mem­bros do OIC têm refor­çado bru­tal­mente suas proi­bi­ções con­tra os cida­dãos, e pro­mo­vido um esforço inter­na­ci­o­nal para cri­mi­na­li­zar todas as crí­ti­cas à repres­são de mulhe­res invo­cando “tole­rân­cia reli­gi­osa”, entre outras coi­sas.

Vários paí­ses na Europa estão cedendo a isto”, acres­centa Hirsi Ali. Ela nota que audi­ên­cias no Con­gresso, a par­tir de 11 de setem­bro de 2001, têm repe­ti­da­mente citado o papel da Ará­bia Sau­dita e de outros Esta­dos do Golfo em divul­gar a ide­o­lo­gia que glo­ri­fica a miso­gi­nia, em par­ti­cu­lar, e a reta­li­a­ção con­tra não-cren­tes, no geral, e mesmo assim, não tem havido uma mudança sig­ni­fi­ca­tiva nos EUA con­tra essas nações. “Ficou pior. O lobby sau­dita ficou mais forte.”

Mais per­plexo para Hirsi Ali é a hos­ti­li­dade con­tra ela por parte da esquerda por seus esfor­ços para desa­fiar a Lei Islâ­mica e seus ensi­na­men­tos. Estes crí­ti­cos dizem se pre­o­cu­par com os direi­tos das mulhe­res, mas não cri­ti­cam aque­les que esma­gam estes direi­tos, quando estes pos­suem um ende­reço no Mundo Muçul­mano.

Numa recente pales­tra da cúpula Mulhe­res no Mundo, em Nova Ior­que, o mode­ra­dor acu­sou Hirsi Ali de “esco­lher ape­nas o Islã”. Ela reba­teu “Eu abraço os muçul­ma­nos, mas rejeito a Lei Islâ­mica… por­que é tota­li­tá­ria, por­que é into­le­rante e espe­ci­al­mente into­le­rante con­tra as mulhe­res.” A raiva que ela ins­tiga na esquerda a frus­tra. “Você pre­cisa per­gun­tar a si mesmo por que alguém iria se ali­nhar a pro­po­nen­tes da Lei Islâ­mica.”

Hirsi Ali não pos­sui uma boa res­posta a esta ques­tão, e ela não é a única. “Como eu faço pro­gres­sis­tas enten­de­rem que nós somos os pro­gres­sis­tas neste debate?”

O apre­sen­ta­dor de tele­vi­são Bill Maher per­gun­tou a ela sobre a sub­ju­ga­ção das mulhe­res nas comu­ni­da­des muçul­ma­nas ao redor do mundo e sobre a indul­gên­cia com a vio­lên­cia ensi­nada nes­tes luga­res. Hirsi Ali está fazendo o seu melhor. O que é ter­ri­vel­mente incerto é se a esquerda está pre­pa­rada para ouvir.


Notas de tradução:
  1. Tra­duzi tanto pro­gres­si­ves, quanto libe­rals como pro­gres­sis­tas, por­que no mundo angló­fono, libe­ral é uma pes­soa de esquerda e pro­gres­sista.
  2. Dis­pen­sei os pro­no­mes de tra­ta­mento rela­ti­vos a Senhor e Senhora.
  3. Colo­quei notas minhas entre col­che­tes no texto para con­tex­tu­a­li­zar melhor.

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