Última divisão do exército Espanhol, antes de ser completamente dizimado por uma coligação protestante na Batalha de Rocroi.

A guerra religiosa volta à Europa

Em Política por Leandro BellatoComentário

Até há pouco, era uma ou duas vezes por mês, no máximo uma vez por semana. E já era muito. Agora, todo dia ocorre alguma malu­quice assas­sina moti­vada por ide­o­lo­gia reli­gi­osa na Europa. E não é como se isso fosse novi­dade aos euro­peus.

Foi no século XVIII que o ânimo euro­peu pras guer­ras reli­gi­o­sas decaiu e que o secu­la­rismo come­çou a tomar cada vez mais fôlego.

Déca­das antes, infin­dá­veis con­fli­tos entre peque­ni­nos Esta­dos, às vezes envol­vendo o que de maior havia na orga­ni­za­ção polí­tica euro­péia de então, espa­lha­ram morte, fome, misé­ria e ban­di­tismo por todo canto.

Quanto mais cedo um pequeno reino afas­tasse a reli­gião da polí­tica, mais cedo a paz se esta­be­le­cia e alguma pros­pe­ri­dade era alcan­çada.

Daí veio todo aquele papo de Ilu­mi­nismo, Revo­lu­ção Fran­cesa, Pri­ma­vera dos Povos, etc.

Com a moda anti­cle­ri­cal asso­lando o con­ti­nente e colhendo os fru­tos da pujança tec­no­ló­gica (que resi­dia, em última aná­lise, na pre­do­mi­nân­cia da raci­o­na­li­dade sobre o obs­cu­ran­tismo), a par­tir da segunda metade do século XIX a mor­tan­dade advinda da reli­gião pare­cia cada vez mais ana­crô­nica. Tanto que o IRA foi uma dolo­rosa ver­go­nha até pouco tempo atrás.

Só que houve dois gran­des cho­ques de cons­ci­ên­cia na comu­ni­dade euro­péia do século XX que dei­xa­ram o con­ti­nente, além do res­tante do Oci­dente (o que inclui Aus­trá­lia e, em certa medida, o Japão), vul­ne­rá­vel à pene­tra­ção de ide­o­lo­gias reli­gi­o­sas tóxi­cas.

O pri­meiro cho­que de cons­ci­ên­cia foi o ine­vi­tá­vel mea culpa pelo racismo tra­ves­tido de ciên­cia, que pos­si­bi­li­tou aos nazis­tas a implan­ta­ção de geno­cí­dio indus­tri­a­li­zado.

Embora os dedos sejam apon­ta­dos em riste para a Ale­ma­nha, uma breve pas­sada de olhos na intel­li­gent­sia de todo o con­ti­nente mos­tra que o padrão de auto­pro­mo­ção étnica era gene­ra­li­zado.

O segundo cho­que de cons­ci­ên­cia, con­co­mi­tante, foi a ver­go­nha pela situ­a­ção cala­mi­tosa das popu­la­ções sob o jugo das gran­des nações euro­peias.

Sur­giu uma aglu­ti­na­ção de con­sen­sos peri­go­sos acerca da “per­ver­si­dade” europeia/ocidental e da neces­si­dade de se ter culpa ou ver­go­nha por conta des­tes dois gran­des “peca­dos”.

Para se redi­mir, os inte­lec­tu­ais euro­peus aban­do­na­ram a obje­ti­vi­dade em tudo aquilo que esti­vesse rela­ci­o­nado com inter­câm­bio cul­tu­ral.

O dis­curso era de que “não há pos­si­bi­li­dade de hie­rar­qui­zar, sob qual­quer pers­pec­tiva, de modo que cos­tu­mes e valo­res de dife­ren­tes cul­tu­ras têm todos igual valor”, mas na prá­tica isso vale para todas as cul­tu­ras, “exceto para os valo­res e cos­tu­mes Oci­den­tais que, cul­pa­dos pelos dois gran­des peca­dos do século XX, são obvi­a­mente pér­fi­dos”.

Para o típico oci­den­tal pre­ten­sa­mente culto e civi­li­zado, certo cui­dado com sua repu­ta­ção é reque­rido. O novo europeu/ocidental pre­cisa expres­sar um curi­oso e muito ence­nado remorso pelos cri­mes ances­trais e teme sobre­tudo ser tido como racista/ufanista/xenofóbico.

Exal­tar qual­quer valor cen­tral à cul­tura euro­peia é repre­en­sí­vel, mas não tanto quanto cri­ti­car quais­quer valo­res e cul­tu­ras “exó­ti­cos” que, se não são mera­mente iguais, são “supe­ri­o­res” aos euro­peus, tendo em vista os cri­mes ances­trais do racismo e do colo­ni­a­lismo.

Esta é uma bre­cha muito obje­ti­va­mente clara e facil­mente explo­rá­vel. E não é como se alguém não fosse usar esta fra­queza.

Sem­pre que cri­ti­cada pela forma com que trata suas popu­la­ções, prin­ci­pal­mente as etnias mino­ri­tá­rias, a China ataca enfi­ando os dedos nas feri­das euro­peias e abu­sando do remorso fin­gido que os oci­den­tais têm com o racismo e o colo­ni­a­lismo. Mas não são os úni­cos a faze­rem isso.

E foi assim que as pio­res ide­o­lo­gias reli­gi­o­sas, por déca­das, se infil­tra­ram na Europa.

Déca­das atrás, fugindo de um mundo vio­lento e bár­baro, liba­ne­ses, arge­li­nos, ira­ni­a­nos e outros gru­pos popu­la­ci­o­nais bus­ca­ram refú­gio na Europa.

Eles eram, em sua mai­o­ria, pes­soas decen­tes que aban­do­na­ram sua terra natal por con­si­de­ra­rem-na inós­pita. Foram cida­dãos paca­tos, alguns pou­cos secu­la­ri­za­dos, a mai­o­ria man­teve sua reli­gião de forma laica.

Mas as ide­o­lo­gias tóxi­cas se infil­tra­ram facil­mente no con­ti­nente e os filhos e netos des­ses imi­gran­tes mais anti­gos são agora a matriz cul­tu­ral do pro­blema domés­tico do ter­ro­rismo islâ­mico no Oci­dente.

Os ata­ques de Paris foram lide­ra­dos por um belga culto, de classe média alta, cujos pais não eram faná­ti­cos reli­gi­o­sos e com­par­ti­lham com os demais euro­peus o apego pelo lai­cismo, tole­rân­cia reli­gi­osa e cul­tu­ral e bem-estar geral das pes­soas.

A horda de euro­peus que se afi­lia ao ISIS, em con­junto com uma horda ainda maior de muçul­ma­nos euro­peus que, ao con­trá­rio de seus pais e avós, têm uma forte que­di­nha pelas ide­o­lo­gias tóxi­cas cresce a cada dia.

A Europa errou demais quando dei­xou de defen­der os valo­res que desen­vol­veu após mil anos de misé­ria e con­fli­tos, valo­res estes que jus­ta­mente per­mi­ti­ram ao con­ti­nente se sobre­por aos demais em tec­no­lo­gia, pros­pe­ri­dade e bem-estar.

Seu remorso fin­gido per­mi­tiu uma ver­da­deira infec­ção de ide­o­lo­gias que a impor­tu­na­ram por quase dez sécu­los. O pro­blema é que o remorso é muito mais fin­gido do que genuíno.

Em breve uma turba de euro­peus, revol­ta­dos com a situ­a­ção e cegos de fúria, fus­ti­ga­dos pelo medo, ele­gerá o que há de pior na polí­tica daquele con­ti­nente para revi­dar as déca­das de pro­mo­ção do remorso ence­nado.

E esse, sim, será um tempo para se ter remorso genuíno.

Na ima­gem de capa, a última divi­são do exér­cito Espa­nhol, antes de ser com­ple­ta­mente dizi­mado por uma coli­ga­ção pro­tes­tante na Bata­lha de Rocroi, uma das milha­res que nada muda­ram no curso da his­tó­ria euro­peia, moti­vada por polí­ti­cas con­fu­sas e ide­o­lo­gias reli­gi­o­sas tóxi­cas.


Conheça o Patreon do AZ e finan­cie este pro­jeto.
Cli­que aqui.


Você pode que­rer ler tam­bém:

Espi­noza, o herói da liber­dade inte­lec­tual
O cris­ti­a­nismo é melhor que o isla­mismo?

Leandro Bellato
Metereologista com a cabeça nas nuvens e o pé nas estrelas, flutua sem rumo satisfazendo sua vasta curiosidade sobre os mais variados e desconexos temas, de literatura à astrofísica, de antropologia à bioquímica, de cultura pop aos pré-socráticos.

Compartilhe