Até há pouco, era uma ou duas vezes por mês, no máximo uma vez por semana. E já era muito. Agora, todo dia ocorre alguma maluquice assassina motivada por ideologia religiosa na Europa. E não é como se isso fosse novidade aos europeus.

Foi no século XVIII que o ânimo europeu pras guerras religiosas decaiu e que o secularismo começou a tomar cada vez mais fôlego.

Décadas antes, infindáveis conflitos entre pequeninos Estados, às vezes envolvendo o que de maior havia na organização política européia de então, espalharam morte, fome, miséria e banditismo por todo canto.

Quanto mais cedo um pequeno reino afastasse a religião da política, mais cedo a paz se estabelecia e alguma prosperidade era alcançada.

Daí veio todo aquele papo de Iluminismo, Revolução Francesa, Primavera dos Povos, etc.

Com a moda anticlerical assolando o continente e colhendo os frutos da pujança tecnológica (que residia, em última análise, na predominância da racionalidade sobre o obscurantismo), a partir da segunda metade do século XIX a mortandade advinda da religião parecia cada vez mais anacrônica. Tanto que o IRA foi uma dolorosa vergonha até pouco tempo atrás.

Só que houve dois grandes choques de consciência na comunidade européia do século XX que deixaram o continente, além do restante do Ocidente (o que inclui Austrália e, em certa medida, o Japão), vulnerável à penetração de ideologias religiosas tóxicas.

O primeiro choque de consciência foi o inevitável mea culpa pelo racismo travestido de ciência, que possibilitou aos nazistas a implantação de genocídio industrializado.

Embora os dedos sejam apontados em riste para a Alemanha, uma breve passada de olhos na intelligentsia de todo o continente mostra que o padrão de autopromoção étnica era generalizado.

O segundo choque de consciência, concomitante, foi a vergonha pela situação calamitosa das populações sob o jugo das grandes nações europeias.

Surgiu uma aglutinação de consensos perigosos acerca da “perversidade” europeia/ocidental e da necessidade de se ter culpa ou vergonha por conta destes dois grandes “pecados”.

Para se redimir, os intelectuais europeus abandonaram a objetividade em tudo aquilo que estivesse relacionado com intercâmbio cultural.

O discurso era de que “não há possibilidade de hierarquizar, sob qualquer perspectiva, de modo que costumes e valores de diferentes culturas têm todos igual valor”, mas na prática isso vale para todas as culturas, “exceto para os valores e costumes Ocidentais que, culpados pelos dois grandes pecados do século XX, são obviamente pérfidos”.

Para o típico ocidental pretensamente culto e civilizado, certo cuidado com sua reputação é requerido. O novo europeu/ocidental precisa expressar um curioso e muito encenado remorso pelos crimes ancestrais e teme sobretudo ser tido como racista/ufanista/xenofóbico.

Exaltar qualquer valor central à cultura europeia é repreensível, mas não tanto quanto criticar quaisquer valores e culturas “exóticos” que, se não são meramente iguais, são “superiores” aos europeus, tendo em vista os crimes ancestrais do racismo e do colonialismo.

Esta é uma brecha muito objetivamente clara e facilmente explorável. E não é como se alguém não fosse usar esta fraqueza.

Sempre que criticada pela forma com que trata suas populações, principalmente as etnias minoritárias, a China ataca enfiando os dedos nas feridas europeias e abusando do remorso fingido que os ocidentais têm com o racismo e o colonialismo. Mas não são os únicos a fazerem isso.

E foi assim que as piores ideologias religiosas, por décadas, se infiltraram na Europa.

Décadas atrás, fugindo de um mundo violento e bárbaro, libaneses, argelinos, iranianos e outros grupos populacionais buscaram refúgio na Europa.

Eles eram, em sua maioria, pessoas decentes que abandonaram sua terra natal por considerarem-na inóspita. Foram cidadãos pacatos, alguns poucos secularizados, a maioria manteve sua religião de forma laica.

Mas as ideologias tóxicas se infiltraram facilmente no continente e os filhos e netos desses imigrantes mais antigos são agora a matriz cultural do problema doméstico do terrorismo islâmico no Ocidente.

Os ataques de Paris foram liderados por um belga culto, de classe média alta, cujos pais não eram fanáticos religiosos e compartilham com os demais europeus o apego pelo laicismo, tolerância religiosa e cultural e bem-estar geral das pessoas.

A horda de europeus que se afilia ao ISIS, em conjunto com uma horda ainda maior de muçulmanos europeus que, ao contrário de seus pais e avós, têm uma forte quedinha pelas ideologias tóxicas cresce a cada dia.

A Europa errou demais quando deixou de defender os valores que desenvolveu após mil anos de miséria e conflitos, valores estes que justamente permitiram ao continente se sobrepor aos demais em tecnologia, prosperidade e bem-estar.

Seu remorso fingido permitiu uma verdadeira infecção de ideologias que a importunaram por quase dez séculos. O problema é que o remorso é muito mais fingido do que genuíno.

Em breve uma turba de europeus, revoltados com a situação e cegos de fúria, fustigados pelo medo, elegerá o que há de pior na política daquele continente para revidar as décadas de promoção do remorso encenado.

E esse, sim, será um tempo para se ter remorso genuíno.

Na imagem de capa, a última divisão do exército Espanhol, antes de ser completamente dizimado por uma coligação protestante na Batalha de Rocroi, uma das milhares que nada mudaram no curso da história europeia, motivada por políticas confusas e ideologias religiosas tóxicas.


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escrito por:

Leandro Bellato

Com a cabeça nas nuvens e o pé nas estrelas, flutuo sem rumo satisfazendo minha vasta curiosidade sobre os mais variados e desconexos temas, de literatura à astrofísica, de antropologia à bioquímica, de cultura pop aos pré-socráticos.


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