Sejam todos bem-vindos à guerra eleitoral

Em Consciência, Política, Sociedade por Natalia MarquesComentário

(a charge que ilus­tra este artigo é do car­tu­nista Aoreira)

Tiros des­fe­ri­dos, gra­na­das arre­mes­sa­das, bom­bas explo­dindo e mís­seis des­truindo tudo. Mulhe­res e cri­an­ças ame­a­ça­das. Homens dis­cur­sando o ódio por seus ini­mi­gos com base nos mais diver­sos inte­res­ses. Tudo isso carac­te­ri­za­ria muito bem uma cena de guerra.

No entanto, nosso mundo se moder­niza, e o com­bate assu­miu uma nova forma, num novo local, com pos­si­bi­li­dade de qual­quer um par­ti­ci­par. Isso mesmo, qual­quer um pode com­ba­ter, e não é neces­sá­rio sequer uma pre­pa­ra­ção pré­via.

Para isso, basta ter acesso ao mundo vir­tual.

A inter­net, essa coisa meio abs­trata e que se con­funde com nos­sas vidas, nunca esteve tão pre­sente no coti­di­ano das pes­soas. Com a inclu­são digi­tal cada vez mais ampli­ada, milha­res de pes­soas por dia aces­sam a inter­net pela pri­meira vez.

O Bra­sil, que ocupa o ter­ceiro lugar em número de usuá­rios ati­vos, ainda con­se­gue a meda­lha de ouro quando se trata em tempo gasto na rede (dados do Net Insight do IBOPE Media). Entre­tanto, as dife­ren­ças soci­ais e regi­o­nais são ver­da­dei­ros obs­tá­cu­los a uma inclu­são mais uni­forme, onde as regiões sul e sudeste enca­be­çam o ran­king naci­o­nal dos deten­to­res do pre­ci­oso acesso a inter­net, segundo pes­quisa do Cetic.br.

A cada dia, mais e mais pes­soas que­rem ter seu espaço vir­tual, aces­sar as redes soci­ais e exi­bir seus ava­ta­res. Na mai­o­ria das vezes, os usuá­rios bra­si­lei­ros da inter­net mos­tram-se muito cora­jo­sos e pre­ten­sa­mente enten­de­do­res dos mais diver­sos temas — como. por exem­plo, a polí­tica, o assunto que tomou conta da rede devido o período elei­to­ral.

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O Face­book, o Twit­ter e até mesmo o Ins­ta­gram se tor­na­ram um campo de bata­lha da moder­ni­dade quando o assunto é o futuro do país. Para as pró­xi­mas elei­ções, os par­ti­dos pode­riam gas­tar bem menos com pro­pa­ganda, pois já des­co­bri­ram que os inter­nau­tas são bem mais efi­ci­en­tes nisso.

O sigilo de voto já não existe mais. Nossa time­line ficou repleta de exem­plos de coli­nhas com a com­bi­na­ção “per­feita” para todos os car­gos, mos­trando que o bra­si­leiro é orga­ni­zado e efi­ci­ente quando quer.

E de repente todos se tor­na­ram ver­da­dei­ros espe­ci­a­lis­tas nos mais diver­sos assun­tos, pro­fe­rindo argu­men­tos tão pro­fun­dos quanto uma poça d’agua em São Paulo atu­al­mente.

Ame­a­ças e insul­tos se tor­na­ram cor­ri­quei­ros ao can­di­dato e seu elei­to­rado. Dis­cur­sos de ódio e indig­na­ção com o amigo, ao saber quem era seu can­di­dato. A perda da ami­zade, casais dis­cu­tindo, tios pare­ciam ver­da­dei­ros gla­di­a­do­res.

As crí­ti­cas e o foco foram cons­tan­te­mente dire­ci­o­na­dos para os pre­si­den­ciá­veis, e os inter­nau­tas dos Esta­dos com maior acesso a infor­ma­ção digi­tal esque­ce­ram-se de falar dos car­gos legis­la­ti­vos e de sua impor­tân­cia. Resul­tado: o pes­soal ree­le­geu os pito­res­cos Bol­so­naro, Feli­ci­ano e Tiri­rica — e eles foram os mais vota­dos.

E par­ti­mos agora para o segundo turno. Ape­nas dois can­di­da­tos para o cargo de pre­si­dên­cia.

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O campo de bata­lha ficou ainda mais vio­lento, dis­cur­sos sem fun­da­men­tos e cheios de ódio a popu­la­ção do Norte e Nor­deste, con­tra­ri­ando qual­quer indí­cio da liber­dade de poder esco­lher sua repre­sen­ta­ção polí­tica e escan­ca­rando que tuca­nos podem ser tão faná­ti­cos quanto petis­tas. Ambos, mui­tas vezes com alto nível de esco­la­ri­dade, defen­dem seus pon­tos de vis­tas como ver­da­des abso­lu­tas a serem colo­ca­das goela abaixo do opo­nente.

Enquanto os ver­me­lhos ficam cegos em rela­ção ao cres­ci­mento econô­mico, a infla­ção e os juros, pois nem só de polí­ti­cas públi­cas sobre­vive um país, os azuis, can­sa­dos dos epi­só­dios de cor­rup­ção, pare­cem não ter acom­pa­nhado o his­tó­rico e as notí­cias sobre o can­di­dato tucano durante todo esse tempo. Defi­ni­ti­va­mente não acom­pa­nha­ram.

A tática de guerra que sobra a quem não qui­ser per­der os ami­gos, o casa­mento ou até mesmo o emprego, pisando nesse campo minado que as redes soci­ais se tor­na­ram é só uma, a mesma para o bom uso da inter­net: usar seu bom senso e inte­li­gên­cia antes de com­par­ti­lhar qual­quer pen­sa­mento ou post des­ne­ces­sá­rio, sem a con­fir­ma­ção da vera­ci­dade, que não agre­gue nada ou incite o ódio e a vio­lên­cia. Pois enquanto a polí­tica for tra­tada com esse senso crí­tico que esta­mos vendo, mais palha­ços serão elei­tos, e quem con­ti­nu­ará ves­tindo o nariz ver­me­lho somos nós mes­mos.

Se nem isso fun­ci­o­nar, aban­done a rede social e volte quando os tiros ces­sa­rem e a poeira bai­xar.


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5 Táti­cas para esca­par da Guerra Elei­to­ral — Vic­tor Lis­boa

Car­ti­lha Elei­ções 2014 — Equipe Ano Zero


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