Há uma guerra dentro de você

Em Comportamento, Consciência por Rodolfo Dall'AgnoComentário

De todos os assun­tos inves­ti­ga­dos pela filo­so­fia e pelas ciên­cias huma­nas, a natu­reza essen­cial do ser humano, o que é o humano em si, tal­vez seja um dos mais espe­cu­la­dos tema de deba­tes den­tro desta área. Filó­so­fos como Sócra­tes e Pla­tão, o psi­qui­a­tra suíço Carl Gus­tav Jung, além da tra­di­ção de todas as civi­li­za­ções da Anti­gui­dade que já tive con­tato inte­lec­tual, pre­zam pela ideia de que há algo que define nossa huma­ni­dade desde o nosso nas­ci­mento, ou seja, que os atos que nos fazem huma­nos vêm de uma essên­cia natu­ral à nossa con­di­ção. Mesmo que haja muito de ani­mal em nós, não sig­ni­fica que seja­mos ani­mais em si só por com­par­ti­lhar­mos carac­te­rís­ti­cas com eles, assim como ani­mais não são plan­tas só por com­par­ti­lha­rem com elas a carac­te­rís­tica de pos­suí­rem meca­nis­mos de res­pi­ra­ção e cir­cu­la­ção.

No entanto, há tam­bém alguns pen­sa­do­res moder­nos, como o filó­sofo Tho­mas Hob­bes e o pai da psi­ca­ná­lise Sig­mund Freud, que defen­dem que o humano se torna humano uni­ca­mente a par­tir de uma neces­si­dade social, e que sua natu­reza pri­mor­dial em nada difere da de um ani­mal.

Seja como for, duas coi­sas sobre esse tema da natu­reza humana são muito evi­den­tes e quase não são dis­cu­ti­das:

1 — O ser humano pos­sui carac­te­rís­ti­cas que com­par­ti­lha com os ani­mais;

2 — O ser humano pos­sui carac­te­rís­ti­cas que dife­rem muito das dos ani­mais.

Assim, pode­mos esti­pu­lar dois eu’s aos quais esta­mos sujei­tos em nosso inte­rior: o eu humano e o eu ani­mal. Sobre esse último é fácil de espe­cu­lar: trata-se do que pode­mos obser­var tanto nos ani­mais quanto em nós mes­mos. Esta­mos ati­vando-o quando nos­sos atos, pen­sa­men­tos e emo­ções têm como fun­da­mento-base algum ins­tinto. Para sim­pli­fi­car a ques­tão, gosto de clas­si­ficá-los do seguinte modo: auto-pre­ser­va­ção, repro­du­ção e poder. Quando somos movi­dos inter­na­mente por um des­tes três, esta­mos sendo influ­en­ci­a­dos pelo eu ani­mal, inde­pen­den­te­mente de sua mani­fes­ta­ção externa.

Explico esta última parte: doar san­gue, por exem­plo, pode à pri­meira vista pare­cer um ato que jamais esta­ria atre­lado a uma moti­va­ção do eu ani­mal. Mas diga­mos que, um certo indi­ví­duo per­tence a um grupo que com­bi­nou que iriam todos os mem­bros doar san­gue; ele, no entanto, não tem a mínima von­tade de ir tam­bém, o fará ape­nas para não per­der a apro­va­ção dos outros mem­bros, mas não por cons­ci­ên­cia e boa von­tade em levar em conta as con­sequên­cias que o pro­cesso resulta. Ou seja, mesmo que os efei­tos a natu­reza do ato des­vin­cu­lada de sua inten­ção pare­çam boas e altruís­tas, o que o moti­vou está atado, em sua causa pri­meira, a um ins­tinto de auto-pre­ser­va­ção.

Da mesma forma, coi­sas que em si podem pare­cer ser imo­rais, como men­tir, podem sim estar a ser­viço do eu humano. Há um exem­plo que cai muito bem que Pla­tão dá na sua obra A Repú­blica. Ele coloca que, se por acaso um amigo nos empresta algu­mas armas, mas então a força do des­tino o faz endoi­de­cer e é neste momento que ele as pede de volta, parece pru­dente que se minta dizendo que as não têm ou que as per­deu, de modo a pre­ser­var a paz sem magoar o amigo lhe dizendo a dura ver­dade. Assim, agiu-se por um bem maior que a si mesmo, pelo sim­ples fato de ser uma deci­são inte­li­gente e sen­sata e não por algum inte­resse egoísta, mesmo que sua mani­fes­ta­ção externa tenha sido a men­tira. O eu humano, por­tanto, é quando nos­sas inten­ções estão (pelo menos até onde chega nossa cons­ci­ên­cia) des­pi­das de inten­ções estri­ta­mente egoís­tas, seja isto vindo de uma subli­ma­ção dos ins­tin­tos ou de um essên­cia humana natu­ral. É uma ação pelo dever, que visa o bem da vida em geral e não ape­nas do bem daquele que a pra­tica.

Pode-se notar cla­ra­mente que há uma rela­ti­vi­za­ção na mani­fes­ta­ção de nos­sos atos quanto às suas inten­ções. As inten­ções são abso­lu­tas: ou se pensa e se age uni­ca­mente em/para si mesmo, ou se pensa e se age visando o melhor para o todo; mas o jeito pelo qual ela há de se mani­fes­tar está total­mente atre­lado às cir­cuns­tân­cias. Há de se ter, por­tanto, um pro­fundo dis­cer­ni­mento para saber jul­gar cla­ra­mente as inten­ções por trás dos atos, tanto os dos outros quanto os nos­sos. Já diria Antoine de Saint-Exu­péry no seu O Pequeno Prín­cipe, a famosa frase: “o essen­cial é invi­sí­vel aos olhos”.

Aquarelas em O Pequeno Príncipe feitas pelo próprio Antoine de Saint-Exupéry

Aqua­re­las em O Pequeno Prín­cipe fei­tas pelo pró­prio Antoine de Saint-Exu­péry

 

A Guerra Santa

 

Há uma grande bata­lha em nós entre o eu ani­mal e o eu humano.

Ape­sar de algu­mas cor­ren­tes de pen­sa­mento moder­nas, como os liber­ti­nos à la Marquês de Sade, con­si­de­ra­rem que o eu ani­mal é fonte de feli­ci­dade, é fácil ima­gi­nar que os mais vir­tu­o­sos seres huma­nos dis­cor­dam disso vee­men­te­mente — e dessa pro­po­si­ção tam­bém dis­corda, é claro, a tra­di­ção da filo­so­fia clás­sica. Aris­tó­te­les, por exem­plo, atrela a feli­ci­dade fun­da­men­tal­mente ao desen­vol­vi­mento do que ele chama de “vir­tude”, que não é igual ao sen­tido cris­tão de algo como “bem com­por­tado” que temos dessa pala­vra atu­al­mente. “Vir­tude” diz res­peito, essen­ci­al­mente, aos poten­ci­ais huma­nos, ou seja, do eu humano. Isto esta­ria de acordo com a con­cep­ção colo­cada no pri­meiro pará­grafo deste artigo defen­dendo a exis­tên­cia de uma essên­cia humana natu­ral, pois se assim for, é evi­dente que o que age mais de acordo com tal essên­cia mais feliz será, uma vez que é impos­sí­vel que algo seja feliz sendo o que não é.

Da mesma forma, é impor­tante para os pen­sa­do­res que dis­cor­dam da exis­tên­cia de uma essên­cia humana dife­ren­ci­ada dos ani­mais, como Freud e Tho­mas Hob­bes, que se desen­volva esse eu humano que eles dizem pro­vir da neces­si­dade de adap­ta­ção social. Afi­nal, é esse eu humano que garante a ordem, coe­são e a paz na soci­e­dade.

Para as duas cor­ren­tes de pen­sa­mento, por­tanto, é inte­res­sante que se desen­volva e pre­va­leça o eu humano sobre o eu ani­mal, seja pela feli­ci­dade, pela ordem social ou por ambos. Assim, nesta guerra entre os eu’s, tudo leva a crer que deve­mos estar ao lado do eu humano.

Mas aten­ção: não se deve se jogar no campo de bata­lha com seu eu humano se uti­li­zando das armas do eu ani­mal. Em outras pala­vras: estra­té­gias como opres­são ou cul­pa­bi­li­za­ção, pare­ci­das, de certa forma, com a luta e fuga, são ama­das pelos gene­rais ani­mai­si­nhos den­tro de nós, pois nos fazem deses­ta­bi­li­zar e pro­va­vel­mente per­pe­tuar ainda mais nos­sos vícios. Há de se encon­trar estra­té­gias mais sofis­ti­ca­das, pró­prias do eu humano, ins­pi­ra­das no dis­cer­ni­mento ou a inte­li­gên­cia, que nos fazem esca­par de maneira mais cri­a­tiva de nos­sas adver­si­da­des, algo que seja tal­vez com­pa­rá­vel às moder­nas téc­ni­cas da tera­pia cog­ni­tivo-com­por­ta­men­tal. Um pequeno exem­plo: pode­mos com­ba­ter um defeito uti­li­zando um outro defeito. Se temos vai­dade e pre­guiça, e esta última está nos ven­cendo e nos impe­dindo de ir à aca­de­mia, pode­mos uti­li­zar a vai­dade como moti­va­ção para ir à aca­de­mia, ven­cendo a pre­guiça. Desta forma, con­fun­di­mos o exér­cito ini­migo, pois nos­sas estra­té­gias vão além da mera bru­ta­li­dade ani­ma­lesca, elas estão ins­pi­ra­das na har­mo­nia que pro­põe o eu humano, uma espé­cie de paz guer­reira.

As cha­ma­das reli­giões mono­teís­tas moder­nas (que, como diz Joseph Camp­bell, de mono­teís­tas não têm nada, levando em conta todos os san­tos, anjos, demô­nios, etc) detur­pa­ram essa ideia de guerra inte­rior ao des­con­si­de­ra­rem essa grande dife­rença da natu­reza ani­mal da humana. Jung coloca que isto pro­vo­cou uma cisão na psi­que humana que desen­ca­deou sécu­los e déca­das de sofri­mento que ainda hoje são muito pre­sen­tes. Sem que­rer (ou tal­vez não), ao con­fun­di­rem as armas pró­prias de cada eu, as auto­ri­da­des reli­gi­o­sas mili­ta­ram muito mais pelo eu ani­mal do que pelo eu humano, fazendo com as guer­ras inte­ri­o­res (e, con­se­quen­te­mente, as exte­ri­o­res) do mundo se asse­me­lhas­sem mais a um caça­dor e uma presa, do que a um doma­dor e a um leão. Que fique claro: o eu humano tem muito mais a ver com auto-conhe­ci­mento, con­trole, har­mo­ni­za­ção e sabe­do­ria do que com qual­quer outra coisa.

Os mitos do pas­sado, em seus sig­ni­fi­ca­dos mais pro­fun­dos, con­tém ele­men­tos muito belos quando tra­tam da guerra inte­rior de maneira dife­rente do jeito que hoje as reli­giões pos­sam nos fazer enten­der. O Bha­ga­vad Gita, uma parte do monu­men­tal épico indi­ano Mahabha­rata, nos pode ser muito útil ainda nos dias de hoje. Trata-se da his­tó­ria de uma guerra entre os Pan­da­vas, repre­sen­tan­tes sim­bó­li­cos do eu humano, con­tra os Kau­ra­vas, do eu ani­mal. Exer­cite sua capa­ci­dade sim­bó­lica: os Pan­da­vas são ape­nas cinco, porém muito mais for­tes e inte­li­gen­tes que os Kau­ra­vas, que são cen­te­nas, supe­ri­o­res ape­nas no número; ambos os clãs, porém, são paren­tes, des­cen­den­tes da linha­gem de Kuru.

Os Pan­da­vas con­tam ainda com uma ajuda espe­cial: Krishna, o deus supremo. O Bha­ga­vad Gita inteiro se trata de um diá­logo entre Arjuna, um dos Pan­da­vas, e Krishna, no meio do campo de bata­lha, minu­tos antes do iní­cio do con­flito. Arjuna com­par­ti­lha com o deus as suas dúvi­das e o deus o ensina os segre­dos da Vida Una. Até que chega um momento em que Arjuna diz não que­rer com­ba­ter, pois não quer der­ra­mar o san­gue daque­les que outrora foram tão que­ri­dos e esti­ma­dos. Krishna o diz que em ver­dade a bata­lha já está ganha, por­que há um deus imor­tal ao lado deles que fará com que seja impos­sí­vel com que per­cam, porém, é impres­cin­dí­vel que ele lute, doa o quanto doer e san­gre o quanto san­grar, mesmo estando a guerra já ganha.

Manuscrito mostrando a batalha dos Pandavas e Kurus, com Arjuna e Krishna no meio.

Manus­crito mos­trando a bata­lha dos Pan­da­vas e Kurus, com Arjuna e Krishna no meio.

 

Esta hesi­ta­ção de Arjuna repre­senta muito bem nosso apego às ques­tões do eu ani­mal, afi­nal, todos pos­suí­mos uma evi­dente herança ani­mal que em algum tempo era tudo o que tínha­mos. Mas as coi­sas devem evo­luir, e sen­ti­mos que é assim que deve ser, e é isto o que pode repre­sen­tar Krishna. Se Deus está do lado dos Pan­da­vas, sugere-se que a natu­reza cons­pira para que seja deles a vitó­ria, pois este é o plano do Uni­verso, este é o des­tino ao qual os hin­dus deno­mi­na­vam Dharma, que se mani­fes­tara sutil­mente nessa guerra, com tru­ques seme­lhan­tes ao que pro­põe o moderno con­ceito de sin­cro­ni­ci­dade de Jung.

Outra ques­tão inte­res­sante sobre Krishna, que tam­bém pode ser uma chave inter­pre­ta­tiva, é que nas adver­si­da­des que sur­gem durante todo o Mahabha­rata, ele sem­pre con­se­gue fazer seus ami­gos ven­ce­rem os pro­ble­mas de maneira esperta, porém nunca injusta; jamais cedendo ao deses­pero. Asso­cia-se o seu sim­bo­lismo, por­tanto, ao que há de melhor em nosso eu humano, que vence as pro­vas ins­pi­ra­dos por sua inte­li­gên­cia, com estra­té­gias sofis­ti­ca­das, como comen­tado ante­ri­or­mente.

Outra faceta sim­bó­lica é a quan­ti­dade maior de Kau­ra­vas; ou seja, temos muito mais repre­sen­tan­tes do eu ani­mal den­tro de nós, ape­sar de serem menos pode­ro­sos.

Tudo isso des­crito são cha­ves que não eli­mi­nam outras inter­pre­ta­ções alter­na­ti­vas; tal é a riqueza do sím­bolo e do mito: não existe a limi­ta­ção de uma única res­posta exata, podendo tra­zer no indi­ví­duo que sobre eles medita a elu­ci­da­ção de inú­me­ras ques­tões pro­fun­das sobre si e sobre o mundo, sim­ples­mente se apoi­ando nas rela­ções que encon­tra ao bus­car sig­ni­fi­ca­dos.

Outro mito inte­res­sante que pode­mos asso­ciar à essa ques­tão, desta vez, grego, é a famosa his­tó­ria de Teseu e o Mino­tauro. Sem mui­tas delon­gas, lem­bra­mos que Teseu fora con­vo­cado a se per­der em um grande labi­rinto onde se escon­dia o mons­tro com cabeça de touro e corpo de homem cha­mado Minou­tauro, que deve­ria ser e foi morto pelo herói. Havia, entre­tanto, a grande ame­aça de Teseu jamais con­se­guir sair do monu­men­tal labi­rinto, ficando lá per­dido para sem­pre. Entre­tanto, a bela Ari­adne o pre­sen­teou com um novelo de lã, que ele uti­li­zou para vol­tar ao local por onde entrou.

Teseu lutando contra o Minotauro, de Ètienne-Jules Ramey, 1826. Hoje no Jardin des Tuileries, em Paris.

Teseu lutando con­tra o Mino­tauro, de Èti­enne-Jules Ramey, 1826. Hoje no Jar­din des Tui­le­ries, em Paris.

Isi­doro de Sevi­lha, um arce­bispo de Sevi­lha do século VI que foi, nas pala­vras do his­to­ri­a­dor Mon­ta­lem­bert, “o último aca­dê­mico do mundo antigo”, a par­tir de suas pes­qui­sas, atri­buiu a eti­mo­lo­gia da pala­vra “labi­rinto” ao latim labor (tra­ba­lho, tarefa) e intus (inte­rior). Assim, o herói deve matar o Mino­tauro, que é um homem com cabeça de ani­mal, ou seja, um homem domi­nado pelo seu eu ani­mal, (ao con­trá­rio dos cha­ma­dos Cen­tau­ros, que era quando o eu humano domi­nava o eu ani­mal, em uma inter­pre­ta­ção sim­bó­lica seus mem­bros infe­ri­o­res de touro e tronco e cabeça de homem) a par­tir do seu labi­rinto, ou seja, de um tra­ba­lho inte­rior (já a ques­tão do novelo de lã e do per­der-se nesse labi­rinto dei­xa­rei para a ima­gi­na­ção sim­bó­lica do lei­tor ou sua pró­pria inqui­e­ta­ção inves­ti­ga­tiva).

Pode­mos encon­trar alguns labi­rin­tos no Egito, Gré­cia e outros locais da Europa que estão car­re­ga­dos com esse sim­bo­lismo, a exem­plo dos das ilhas gre­gas de Lem­nos e Creta e da cate­dral gótica da cidade de Char­tres, na França.

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Labi­rinto da Cate­dral de Char­tres, França.

 

 

A guerra interior na atualidade religiosa

 

Hou­ve­ram tem­pos e luga­res em que essa Guerra Santa den­tro de cada ser humano era a pre­o­cu­pa­ção cen­tral da soci­e­dade. Na arcai­ci­dade da Gré­cia, Pér­sia, Egito, Índia, Amé­rica Pré-colom­bi­ana e até mesmo nos pri­mór­dios da cul­tura judaico-cristã, a pre­pon­de­rân­cia do eu humano sobre o eu ani­mal era o obje­tivo final de todo e qual­quer indi­ví­duo e tam­bém de qual­quer polí­tica. O que há de mais humano em alguém é o que deve­ria governá-lo, e os que eram mais huma­nos e vir­tu­o­sos eram os que deve­riam gover­nar a soci­e­dade. Pode­mos encon­trar ele­men­tos que sus­ten­tam essa afir­ma­ção em fon­tes moder­nas como Vik­tor D. Salis e Helena Bla­vatsky, e fon­tes muito anti­gas como as obras de Pla­tão ou o Papiro de Turim.

Com o vai-e-vem da his­tó­ria, entre­tanto, essa ideia de luta inte­rior foi sendo subs­ti­tuída na cul­tura Oci­den­tal por uma espé­cie de sis­tema de puni­ção e recom­pensa, repre­sen­tado prin­ci­pal­mente por dife­ren­tes momen­tos his­tó­ri­cos em cada uma das cha­ma­das reli­giões abraâ­mi­cas (cris­ti­a­nismo, isla­mismo e judaísmo). Ao invés do incen­tivo à cons­ci­ên­cia da guerra interna humana e da impor­tân­cia que sucumbe a pre­pon­de­rân­cia do eu humano, criou-se a ideia do pecado, que mesmo que segundo o psi­có­logo Jean-Yves Leloup em sua ori­gem sig­ni­fi­cava algo como “o des­vio do cami­nho do des­ven­dar da essên­cia de um ser”, hoje se prende ao sig­ni­fi­cado que todos conhe­ce­mos do erro pela ten­ta­ção atre­lado à culpa.

Nessa nova pers­pec­tiva, o que ocorre é que se erra­mos, se somos ata­ca­dos pelos Kaur­vas ou pelo Mino­tauro, o esforço não deve ser o de nos vol­tar­mos a nós mes­mos para des­co­brir as debi­li­da­des de nosso exér­cito de Pan­da­vas e o refor­çar, mas sim o de cum­prir ritu­ais como o de orar o número neces­sá­rio de vezes para “apa­gar” o pecado que con­du­zirá ao eterno inferno, algo muito seme­lhante a lógica obses­siva-com­pul­siva, como Freud obser­vou muito bem.

A sal­va­ção pas­sou a ser atre­lada a um mero ritual exte­rior e per­deu-se com o tempo o sig­ni­fi­cado interno que repre­sen­ta­vam os ritos reli­gi­o­sos, que, em sua essên­cia, fun­ci­o­na­vam como cata­li­sa­do­res para a com­pre­en­são de algum sim­bo­lismo pro­fundo.

Um bom exem­plo que pode­mos dar para ilus­trar bem esta última ques­tão é um epi­só­dio des­crito pelo antro­pó­logo romeno Mir­cea Eli­ade. Estando ele resi­dindo em uma tribo indigna, que, para os padrões oci­den­tais, seria pri­mi­tiva, eis que ele pre­sen­ciou um eclipse solar. Neste momento, todos os habi­tan­tes da tribo saí­ram às ruas fazendo um grande estar­da­lhaço, com o pres­su­posto de espan­tar as for­ças negras que ame­a­ça­vam o Sol. O antro­pó­logo não resis­tiu, e deci­diu con­sul­tar o xamã da tribo, lhe per­gun­tando se eles real­mente acre­di­ta­vam que se não fizes­sem todo a baru­lheira o Sol iria ser der­ro­tado. O xamã deu uma boa gar­ga­lhada, achando graça na petu­lân­cia do pes­qui­sa­dor, e o disse que o Sol que viam no céu já tinha triun­fado sobre as tre­vas há muito tempo, mas que todos nós temos um pequeno sol que ainda não ven­ceu.

Não se tra­tava, por­tanto, do sol visí­vel que reina como um deus e que evi­den­te­mente triun­fará sobre as tre­vas, mas sim do pequeno sol invi­sí­vel que jaz ainda em uma guerra san­grenta.

O rito ser­via para fazer com que os índios lem­bras­sem e infe­ris­sem de maneira mais pro­funda esta ques­tão, assim como na Anti­gui­dade de nossa civi­li­za­ção Oci­den­tal, quando se enten­dia que para a com­pre­en­são de ques­tões tão inter­nas e até mis­te­ri­o­sas, se neces­si­tam recur­sos que vão para além da razão; se pre­cisa da lin­gua­gem sim­bó­lica, diziam os anti­gos, seja pela alma tra­ba­lhando em um mito, ou o corpo em um rito.

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Quando se per­dem os sím­bo­los e essên­cias, ficam ape­nas as apa­rên­cias exte­ri­o­res, que em si mes­mas não sig­ni­fi­cam nada. Assim sur­gem as cha­ma­das “supers­ti­ções”, pala­vra que, segundo Eliphas Lévi, vem do latim supers­tes, que sig­ni­fica “o que sobre­vive”; são os res­tos mor­tais das ciên­cias que tinham vida no pas­sado, e que hoje não pas­sam de cadá­ve­res que sobre­vi­vem meca­ni­ca­mente gra­ças à dog­mas irra­ci­o­nais.

É bem pos­sí­vel, por­tanto, que os índios des­cri­tos por Mir­cea Eli­ade per­cam as essên­cias de seus ritos com o tempo, assim como é pos­sí­vel que nós as recu­pe­re­mos. De fato, os ritu­ais das reli­giões moder­nas já foram reple­tos de sím­bo­los pro­fun­dos e belos que diziam res­peito a temá­ti­cas seme­lhan­tes ao da his­tó­ria dos índios.

Que não dei­xe­mos este lindo legado ser apa­gado da his­tó­ria por causa de “reli­gi­o­sos” faná­ti­cos e cegos ou de aber­ra­ções mate­ri­a­lis­tas.

 

Consequencias políticas

 

Com a perda da noção clara da guerra entre o eu ani­mal e o eu humano no pas­sar do tempo, os seres huma­nos dei­xa­ram de ter essa pre­sun­ção de que o que há de mais humano den­tro de cada um deve gover­nar o indi­ví­duo, assim ocor­rendo da mesma forma no con­junto social. Ou seja, per­deu-se a noção de que os líde­res devem ser os melho­res no sen­tido de terem o mais desen­vol­vido eu humano. As “con­se­quen­cias polí­ti­cas” aqui refe­ri­das, por­tanto, não dizem res­peito ape­nas ao social, mas tam­bém ao indi­vi­dual.

Essa ideia de cor­res­pon­dên­cia entre a forma de governo de uma nação ou cidade com o habi­tante que nela vive é uma hipó­tese do mag­ní­fico tra­tado de Pla­tão sobre polí­tica e jus­tiça, A Repú­blica. O governo ideal em que o eu humano pre­pon­dera sobre o eu ani­mal é na obra cha­mado (vejam só que iro­nia) Aris­to­cra­cia, que vem do grego arethé, ou seja, “vir­tude” ou “exce­lên­cia”. Quando se perde a ideia de que é a vir­tude, de que o que há de mais belo e bom em nós, que deve gover­nar tanto indi­vi­du­al­mente quanto soci­al­mente, o dis­cer­ni­mento dos cida­dãos enfra­quece e os dese­jos e gover­nan­tes são elei­tos sim­ples­mente pelo cri­té­rio de mai­o­ria, ou seja, caí­mos na tão moder­na­mente lou­vada e “bei­jada-nos-pés” Demo­cra­cia (de novo: que grande iro­nia).

Note que os Kau­ra­vas são muito mais nume­ro­sos que os Pan­da­vas! Quando se elege algo, seja um desejo ou um gover­nante, sim­ples­mente pelo cri­té­rio de que tem mais ele­men­tos que a isto mili­tam, per­de­mos e des­con­si­de­ra­mos a ava­li­a­ção de se o ele­mento é bom ou ruim, em outras pala­vras, se satis­faz o eu humano ou o eu ani­mal.

Se segundo Pla­tão o cida­dão é aná­logo em seu inte­rior ao governo da soci­e­dade em que vive, então indi­ví­duo demo­crá­tico alterna seus inves­ti­men­tos psí­qui­cos em Pan­da­vas e Kau­ra­vas. Afi­nal, elege-os sim­ples­mente pela maior quan­ti­dade de ener­gia que cada um emite em deter­mi­nado momento, dei­xando de ava­liar a qua­li­dade da ener­gia que quer se mani­fes­tar (qual­quer seme­lhança com nossa soci­e­dade não é mera coin­ci­dên­cia). O agir pelo dever, por­tanto, começa a viver em con­co­mi­tân­cia com o agir influ­en­ci­ado pelos ins­tin­tos (de novo, para jun­tar­mos os pon­tos: auto-pre­ser­va­ção, repro­du­ção e poder).

O passo seguinte no esquema de Pla­tão é a Tira­nia, quando o eu ani­mal é pre­pon­de­rante ao eu humano e a bar­bá­rie é ins­tau­rada.


Se tudo isso assim for, o que se deve mudar na sociedade atual para garantir a vitória do eu humano?

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Eis alguns dos meus pon­tos aos lei­to­res que se inte­res­sam em refle­tir sobre esta ques­tão (e que me jul­ga­rem digno de “ofe­re­cer pon­tos”):

  1. Com todos os argu­men­tos huma­nís­ti­cos, reli­gi­o­sos e polí­ti­cos colo­ca­dos, se torna cada vez mais clara a urgên­cia de desen­vol­ver uma edu­ca­ção base­ada em valo­res que preze pelo desen­vol­vi­mento das poten­ci­a­li­da­des do eu humano ou das “vir­tu­des”, e, prin­ci­pal­mente, de fomen­tar o ideal de uma fra­ter­ni­dade uni­ver­sal, ao invés do atual arre­messo de infor­ma­ções às cri­an­ças.
  1. A cons­ci­ên­cia da luta inte­rior deve ser res­tau­rada nas pes­soas, para que não cai­a­mos na tira­nia de nossa herança ani­mal. Assim como as estra­té­gias para lutar nesta guerra.
  1. As for­mas reli­gi­o­sas devem estar imbuí­das de sím­bo­los que repre­sen­tem ideias pro­fun­das em seus mitos e ritos, que devem ser des­pi­dos de qual­quer excesso de rigi­dez for­mal, pre­zando pelo intuito de fazer refle­tir no que os pra­tica um con­tato medi­ta­tivo pro­fundo com as ideias sim­bo­li­za­das. Para isso, pre­ci­sa­mos desen­vol­ver uma inter­dis­ci­pli­na­ri­dade e um estudo com­pa­rado entre as ciên­cias, reli­giões e filo­so­fias, bus­cando o que há em comum entre elas e não só o que as dife­ren­cia, para que as essên­cias que ins­pi­ra­ram os povos anti­gos sejam rega­ta­das.

E final­mente, não esqueça: a natu­reza a isto cons­pira. Pois já fomos ani­mais e agora está na hora de ser­mos huma­nos: esta e mais nenhuma é a von­tade cós­mica nesta ques­tão.

Krishna luta ao lado dos Pan­da­vas.

Rodolfo Dall'Agno
Psicologia de formação, mas música e filosofia de coração. Participante do programa Empresa Viva. Buscador de essências.

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