De todos os assuntos investigados pela filosofia e pelas ciências humanas, a natureza essencial do ser humano, o que é o humano em si, talvez seja um dos mais especulados tema de debates dentro desta área. Filósofos como Sócrates e Platão, o psiquiatra suíço Carl Gustav Jung, além da tradição de todas as civilizações da Antiguidade que já tive contato intelectual, prezam pela ideia de que há algo que define nossa humanidade desde o nosso nascimento, ou seja, que os atos que nos fazem humanos vêm de uma essência natural à nossa condição. Mesmo que haja muito de animal em nós, não significa que sejamos animais em si só por compartilharmos características com eles, assim como animais não são plantas só por compartilharem com elas a característica de possuírem mecanismos de respiração e circulação.

No entanto, há também alguns pensadores modernos, como o filósofo Thomas Hobbes e o pai da psicanálise Sigmund Freud, que defendem que o humano se torna humano unicamente a partir de uma necessidade social, e que sua natureza primordial em nada difere da de um animal.

Seja como for, duas coisas sobre esse tema da natureza humana são muito evidentes e quase não são discutidas:

1 – O ser humano possui características que compartilha com os animais;

2 – O ser humano possui características que diferem muito das dos animais.

Assim, podemos estipular dois eu’s aos quais estamos sujeitos em nosso interior: o eu humano e o eu animal. Sobre esse último é fácil de especular: trata-se do que podemos observar tanto nos animais quanto em nós mesmos. Estamos ativando-o quando nossos atos, pensamentos e emoções têm como fundamento-base algum instinto. Para simplificar a questão, gosto de classificá-los do seguinte modo: auto-preservação, reprodução e poder. Quando somos movidos internamente por um destes três, estamos sendo influenciados pelo eu animal, independentemente de sua manifestação externa.

Explico esta última parte: doar sangue, por exemplo, pode à primeira vista parecer um ato que jamais estaria atrelado a uma motivação do eu animal. Mas digamos que, um certo indivíduo pertence a um grupo que combinou que iriam todos os membros doar sangue; ele, no entanto, não tem a mínima vontade de ir também, o fará apenas para não perder a aprovação dos outros membros, mas não por consciência e boa vontade em levar em conta as consequências que o processo resulta. Ou seja, mesmo que os efeitos a natureza do ato desvinculada de sua intenção pareçam boas e altruístas, o que o motivou está atado, em sua causa primeira, a um instinto de auto-preservação.

Da mesma forma, coisas que em si podem parecer ser imorais, como mentir, podem sim estar a serviço do eu humano. Há um exemplo que cai muito bem que Platão dá na sua obra A República. Ele coloca que, se por acaso um amigo nos empresta algumas armas, mas então a força do destino o faz endoidecer e é neste momento que ele as pede de volta, parece prudente que se minta dizendo que as não têm ou que as perdeu, de modo a preservar a paz sem magoar o amigo lhe dizendo a dura verdade. Assim, agiu-se por um bem maior que a si mesmo, pelo simples fato de ser uma decisão inteligente e sensata e não por algum interesse egoísta, mesmo que sua manifestação externa tenha sido a mentira. O eu humano, portanto, é quando nossas intenções estão (pelo menos até onde chega nossa consciência) despidas de intenções estritamente egoístas, seja isto vindo de uma sublimação dos instintos ou de um essência humana natural. É uma ação pelo dever, que visa o bem da vida em geral e não apenas do bem daquele que a pratica.

Pode-se notar claramente que há uma relativização na manifestação de nossos atos quanto às suas intenções. As intenções são absolutas: ou se pensa e se age unicamente em/para si mesmo, ou se pensa e se age visando o melhor para o todo; mas o jeito pelo qual ela há de se manifestar está totalmente atrelado às circunstâncias. Há de se ter, portanto, um profundo discernimento para saber julgar claramente as intenções por trás dos atos, tanto os dos outros quanto os nossos. Já diria Antoine de Saint-Exupéry no seu O Pequeno Príncipe, a famosa frase: “o essencial é invisível aos olhos”.

Aquarelas em O Pequeno Príncipe feitas pelo próprio Antoine de Saint-Exupéry
Aquarelas em O Pequeno Príncipe feitas pelo próprio Antoine de Saint-Exupéry

 

A Guerra Santa

 

Há uma grande batalha em nós entre o eu animal e o eu humano.

Apesar de algumas correntes de pensamento modernas, como os libertinos à la Marquês de Sade, considerarem que o eu animal é fonte de felicidade, é fácil imaginar que os mais virtuosos seres humanos discordam disso veementemente – e dessa proposição também discorda, é claro, a tradição da filosofia clássica. Aristóteles, por exemplo, atrela a felicidade fundamentalmente ao desenvolvimento do que ele chama de “virtude”, que não é igual ao sentido cristão de algo como “bem comportado” que temos dessa palavra atualmente. “Virtude” diz respeito, essencialmente, aos potenciais humanos, ou seja, do eu humano. Isto estaria de acordo com a concepção colocada no primeiro parágrafo deste artigo defendendo a existência de uma essência humana natural, pois se assim for, é evidente que o que age mais de acordo com tal essência mais feliz será, uma vez que é impossível que algo seja feliz sendo o que não é.

Da mesma forma, é importante para os pensadores que discordam da existência de uma essência humana diferenciada dos animais, como Freud e Thomas Hobbes, que se desenvolva esse eu humano que eles dizem provir da necessidade de adaptação social. Afinal, é esse eu humano que garante a ordem, coesão e a paz na sociedade.

Para as duas correntes de pensamento, portanto, é interessante que se desenvolva e prevaleça o eu humano sobre o eu animal, seja pela felicidade, pela ordem social ou por ambos. Assim, nesta guerra entre os eu’s, tudo leva a crer que devemos estar ao lado do eu humano.

Mas atenção: não se deve se jogar no campo de batalha com seu eu humano se utilizando das armas do eu animal. Em outras palavras: estratégias como opressão ou culpabilização, parecidas, de certa forma, com a luta e fuga, são amadas pelos generais animaisinhos dentro de nós, pois nos fazem desestabilizar e provavelmente perpetuar ainda mais nossos vícios. Há de se encontrar estratégias mais sofisticadas, próprias do eu humano, inspiradas no discernimento ou a inteligência, que nos fazem escapar de maneira mais criativa de nossas adversidades, algo que seja talvez comparável às modernas técnicas da terapia cognitivo-comportamental. Um pequeno exemplo: podemos combater um defeito utilizando um outro defeito. Se temos vaidade e preguiça, e esta última está nos vencendo e nos impedindo de ir à academia, podemos utilizar a vaidade como motivação para ir à academia, vencendo a preguiça. Desta forma, confundimos o exército inimigo, pois nossas estratégias vão além da mera brutalidade animalesca, elas estão inspiradas na harmonia que propõe o eu humano, uma espécie de paz guerreira.

As chamadas religiões monoteístas modernas (que, como diz Joseph Campbell, de monoteístas não têm nada, levando em conta todos os santos, anjos, demônios, etc) deturparam essa ideia de guerra interior ao desconsiderarem essa grande diferença da natureza animal da humana. Jung coloca que isto provocou uma cisão na psique humana que desencadeou séculos e décadas de sofrimento que ainda hoje são muito presentes. Sem querer (ou talvez não), ao confundirem as armas próprias de cada eu, as autoridades religiosas militaram muito mais pelo eu animal do que pelo eu humano, fazendo com as guerras interiores (e, consequentemente, as exteriores) do mundo se assemelhassem mais a um caçador e uma presa, do que a um domador e a um leão. Que fique claro: o eu humano tem muito mais a ver com auto-conhecimento, controle, harmonização e sabedoria do que com qualquer outra coisa.

Os mitos do passado, em seus significados mais profundos, contém elementos muito belos quando tratam da guerra interior de maneira diferente do jeito que hoje as religiões possam nos fazer entender. O Bhagavad Gita, uma parte do monumental épico indiano Mahabharata, nos pode ser muito útil ainda nos dias de hoje. Trata-se da história de uma guerra entre os Pandavas, representantes simbólicos do eu humano, contra os Kauravas, do eu animal. Exercite sua capacidade simbólica: os Pandavas são apenas cinco, porém muito mais fortes e inteligentes que os Kauravas, que são centenas, superiores apenas no número; ambos os clãs, porém, são parentes, descendentes da linhagem de Kuru.

Os Pandavas contam ainda com uma ajuda especial: Krishna, o deus supremo. O Bhagavad Gita inteiro se trata de um diálogo entre Arjuna, um dos Pandavas, e Krishna, no meio do campo de batalha, minutos antes do início do conflito. Arjuna compartilha com o deus as suas dúvidas e o deus o ensina os segredos da Vida Una. Até que chega um momento em que Arjuna diz não querer combater, pois não quer derramar o sangue daqueles que outrora foram tão queridos e estimados. Krishna o diz que em verdade a batalha já está ganha, porque há um deus imortal ao lado deles que fará com que seja impossível com que percam, porém, é imprescindível que ele lute, doa o quanto doer e sangre o quanto sangrar, mesmo estando a guerra já ganha.

Manuscrito mostrando a batalha dos Pandavas e Kurus, com Arjuna e Krishna no meio.
Manuscrito mostrando a batalha dos Pandavas e Kurus, com Arjuna e Krishna no meio.

 

Esta hesitação de Arjuna representa muito bem nosso apego às questões do eu animal, afinal, todos possuímos uma evidente herança animal que em algum tempo era tudo o que tínhamos. Mas as coisas devem evoluir, e sentimos que é assim que deve ser, e é isto o que pode representar Krishna. Se Deus está do lado dos Pandavas, sugere-se que a natureza conspira para que seja deles a vitória, pois este é o plano do Universo, este é o destino ao qual os hindus denominavam Dharma, que se manifestara sutilmente nessa guerra, com truques semelhantes ao que propõe o moderno conceito de sincronicidade de Jung.

Outra questão interessante sobre Krishna, que também pode ser uma chave interpretativa, é que nas adversidades que surgem durante todo o Mahabharata, ele sempre consegue fazer seus amigos vencerem os problemas de maneira esperta, porém nunca injusta; jamais cedendo ao desespero. Associa-se o seu simbolismo, portanto, ao que há de melhor em nosso eu humano, que vence as provas inspirados por sua inteligência, com estratégias sofisticadas, como comentado anteriormente.

Outra faceta simbólica é a quantidade maior de Kauravas; ou seja, temos muito mais representantes do eu animal dentro de nós, apesar de serem menos poderosos.

Tudo isso descrito são chaves que não eliminam outras interpretações alternativas; tal é a riqueza do símbolo e do mito: não existe a limitação de uma única resposta exata, podendo trazer no indivíduo que sobre eles medita a elucidação de inúmeras questões profundas sobre si e sobre o mundo, simplesmente se apoiando nas relações que encontra ao buscar significados.

Outro mito interessante que podemos associar à essa questão, desta vez, grego, é a famosa história de Teseu e o Minotauro. Sem muitas delongas, lembramos que Teseu fora convocado a se perder em um grande labirinto onde se escondia o monstro com cabeça de touro e corpo de homem chamado Minoutauro, que deveria ser e foi morto pelo herói. Havia, entretanto, a grande ameaça de Teseu jamais conseguir sair do monumental labirinto, ficando lá perdido para sempre. Entretanto, a bela Ariadne o presenteou com um novelo de lã, que ele utilizou para voltar ao local por onde entrou.

Teseu lutando contra o Minotauro, de Ètienne-Jules Ramey, 1826. Hoje no Jardin des Tuileries, em Paris.
Teseu lutando contra o Minotauro, de Ètienne-Jules Ramey, 1826. Hoje no Jardin des Tuileries, em Paris.

Isidoro de Sevilha, um arcebispo de Sevilha do século VI que foi, nas palavras do historiador Montalembert, “o último acadêmico do mundo antigo”, a partir de suas pesquisas, atribuiu a etimologia da palavra “labirinto” ao latim labor (trabalho, tarefa) e intus (interior). Assim, o herói deve matar o Minotauro, que é um homem com cabeça de animal, ou seja, um homem dominado pelo seu eu animal, (ao contrário dos chamados Centauros, que era quando o eu humano dominava o eu animal, em uma interpretação simbólica seus membros inferiores de touro e tronco e cabeça de homem) a partir do seu labirinto, ou seja, de um trabalho interior (já a questão do novelo de lã e do perder-se nesse labirinto deixarei para a imaginação simbólica do leitor ou sua própria inquietação investigativa).

Podemos encontrar alguns labirintos no Egito, Grécia e outros locais da Europa que estão carregados com esse simbolismo, a exemplo dos das ilhas gregas de Lemnos e Creta e da catedral gótica da cidade de Chartres, na França.

chartres
Labirinto da Catedral de Chartres, França.

 

 

A guerra interior na atualidade religiosa

 

Houveram tempos e lugares em que essa Guerra Santa dentro de cada ser humano era a preocupação central da sociedade. Na arcaicidade da Grécia, Pérsia, Egito, Índia, América Pré-colombiana e até mesmo nos primórdios da cultura judaico-cristã, a preponderância do eu humano sobre o eu animal era o objetivo final de todo e qualquer indivíduo e também de qualquer política. O que há de mais humano em alguém é o que deveria governá-lo, e os que eram mais humanos e virtuosos eram os que deveriam governar a sociedade. Podemos encontrar elementos que sustentam essa afirmação em fontes modernas como Viktor D. Salis e Helena Blavatsky, e fontes muito antigas como as obras de Platão ou o Papiro de Turim.

Com o vai-e-vem da história, entretanto, essa ideia de luta interior foi sendo substituída na cultura Ocidental por uma espécie de sistema de punição e recompensa, representado principalmente por diferentes momentos históricos em cada uma das chamadas religiões abraâmicas (cristianismo, islamismo e judaísmo). Ao invés do incentivo à consciência da guerra interna humana e da importância que sucumbe a preponderância do eu humano, criou-se a ideia do pecado, que mesmo que segundo o psicólogo Jean-Yves Leloup em sua origem significava algo como “o desvio do caminho do desvendar da essência de um ser”, hoje se prende ao significado que todos conhecemos do erro pela tentação atrelado à culpa.

Nessa nova perspectiva, o que ocorre é que se erramos, se somos atacados pelos Kaurvas ou pelo Minotauro, o esforço não deve ser o de nos voltarmos a nós mesmos para descobrir as debilidades de nosso exército de Pandavas e o reforçar, mas sim o de cumprir rituais como o de orar o número necessário de vezes para “apagar” o pecado que conduzirá ao eterno inferno, algo muito semelhante a lógica obsessiva-compulsiva, como Freud observou muito bem.

A salvação passou a ser atrelada a um mero ritual exterior e perdeu-se com o tempo o significado interno que representavam os ritos religiosos, que, em sua essência, funcionavam como catalisadores para a compreensão de algum simbolismo profundo.

Um bom exemplo que podemos dar para ilustrar bem esta última questão é um episódio descrito pelo antropólogo romeno Mircea Eliade. Estando ele residindo em uma tribo indigna, que, para os padrões ocidentais, seria primitiva, eis que ele presenciou um eclipse solar. Neste momento, todos os habitantes da tribo saíram às ruas fazendo um grande estardalhaço, com o pressuposto de espantar as forças negras que ameaçavam o Sol. O antropólogo não resistiu, e decidiu consultar o xamã da tribo, lhe perguntando se eles realmente acreditavam que se não fizessem todo a barulheira o Sol iria ser derrotado. O xamã deu uma boa gargalhada, achando graça na petulância do pesquisador, e o disse que o Sol que viam no céu já tinha triunfado sobre as trevas há muito tempo, mas que todos nós temos um pequeno sol que ainda não venceu.

Não se tratava, portanto, do sol visível que reina como um deus e que evidentemente triunfará sobre as trevas, mas sim do pequeno sol invisível que jaz ainda em uma guerra sangrenta.

O rito servia para fazer com que os índios lembrassem e inferissem de maneira mais profunda esta questão, assim como na Antiguidade de nossa civilização Ocidental, quando se entendia que para a compreensão de questões tão internas e até misteriosas, se necessitam recursos que vão para além da razão; se precisa da linguagem simbólica, diziam os antigos, seja pela alma trabalhando em um mito, ou o corpo em um rito.

eclipse

Quando se perdem os símbolos e essências, ficam apenas as aparências exteriores, que em si mesmas não significam nada. Assim surgem as chamadas “superstições”, palavra que, segundo Eliphas Lévi, vem do latim superstes, que significa “o que sobrevive”; são os restos mortais das ciências que tinham vida no passado, e que hoje não passam de cadáveres que sobrevivem mecanicamente graças à dogmas irracionais.

É bem possível, portanto, que os índios descritos por Mircea Eliade percam as essências de seus ritos com o tempo, assim como é possível que nós as recuperemos. De fato, os rituais das religiões modernas já foram repletos de símbolos profundos e belos que diziam respeito a temáticas semelhantes ao da história dos índios.

Que não deixemos este lindo legado ser apagado da história por causa de “religiosos” fanáticos e cegos ou de aberrações materialistas.

 

Consequencias políticas

 

Com a perda da noção clara da guerra entre o eu animal e o eu humano no passar do tempo, os seres humanos deixaram de ter essa presunção de que o que há de mais humano dentro de cada um deve governar o indivíduo, assim ocorrendo da mesma forma no conjunto social. Ou seja, perdeu-se a noção de que os líderes devem ser os melhores no sentido de terem o mais desenvolvido eu humano. As “consequencias políticas” aqui referidas, portanto, não dizem respeito apenas ao social, mas também ao individual.

Essa ideia de correspondência entre a forma de governo de uma nação ou cidade com o habitante que nela vive é uma hipótese do magnífico tratado de Platão sobre política e justiça, A República. O governo ideal em que o eu humano prepondera sobre o eu animal é na obra chamado (vejam só que ironia) Aristocracia, que vem do grego arethé, ou seja, “virtude” ou “excelência”. Quando se perde a ideia de que é a virtude, de que o que há de mais belo e bom em nós, que deve governar tanto individualmente quanto socialmente, o discernimento dos cidadãos enfraquece e os desejos e governantes são eleitos simplesmente pelo critério de maioria, ou seja, caímos na tão modernamente louvada e “beijada-nos-pés” Democracia (de novo: que grande ironia).

Note que os Kauravas são muito mais numerosos que os Pandavas! Quando se elege algo, seja um desejo ou um governante, simplesmente pelo critério de que tem mais elementos que a isto militam, perdemos e desconsideramos a avaliação de se o elemento é bom ou ruim, em outras palavras, se satisfaz o eu humano ou o eu animal.

Se segundo Platão o cidadão é análogo em seu interior ao governo da sociedade em que vive, então indivíduo democrático alterna seus investimentos psíquicos em Pandavas e Kauravas. Afinal, elege-os simplesmente pela maior quantidade de energia que cada um emite em determinado momento, deixando de avaliar a qualidade da energia que quer se manifestar (qualquer semelhança com nossa sociedade não é mera coincidência). O agir pelo dever, portanto, começa a viver em concomitância com o agir influenciado pelos instintos (de novo, para juntarmos os pontos: auto-preservação, reprodução e poder).

O passo seguinte no esquema de Platão é a Tirania, quando o eu animal é preponderante ao eu humano e a barbárie é instaurada.


Se tudo isso assim for, o que se deve mudar na sociedade atual para garantir a vitória do eu humano?

peixe

Eis alguns dos meus pontos aos leitores que se interessam em refletir sobre esta questão (e que me julgarem digno de “oferecer pontos”):

  1. Com todos os argumentos humanísticos, religiosos e políticos colocados, se torna cada vez mais clara a urgência de desenvolver uma educação baseada em valores que preze pelo desenvolvimento das potencialidades do eu humano ou das “virtudes”, e, principalmente, de fomentar o ideal de uma fraternidade universal, ao invés do atual arremesso de informações às crianças.
  1. A consciência da luta interior deve ser restaurada nas pessoas, para que não caiamos na tirania de nossa herança animal. Assim como as estratégias para lutar nesta guerra.
  1. As formas religiosas devem estar imbuídas de símbolos que representem ideias profundas em seus mitos e ritos, que devem ser despidos de qualquer excesso de rigidez formal, prezando pelo intuito de fazer refletir no que os pratica um contato meditativo profundo com as ideias simbolizadas. Para isso, precisamos desenvolver uma interdisciplinaridade e um estudo comparado entre as ciências, religiões e filosofias, buscando o que há em comum entre elas e não só o que as diferencia, para que as essências que inspiraram os povos antigos sejam regatadas.

E finalmente, não esqueça: a natureza a isto conspira. Pois já fomos animais e agora está na hora de sermos humanos: esta e mais nenhuma é a vontade cósmica nesta questão.

Krishna luta ao lado dos Pandavas.

escrito por:

Rodolfo Dall'Agno

Músico, mas graduando para ser psicólogo nas horas vagas. Tenta ao máximo ser escravo dos deuses, ou seja, livre.