guardiões da galáxia e o cristianismo primitivo

Guardiões da Galáxia e o Cristianismo Primitivo

Em Comportamento por Victor LisboaComentário

Este artigo pos­sui spoi­lers, reve­lando deta­lhes da trama do filme Guar­diões da Galá­xia.


Guar­diões da Galá­xia é uma fan­ta­sia tão mira­bo­lante e colo­rida que as chan­ces de ter sido um retum­bante fra­casso eram enor­mes. Afi­nal, se alguém con­tar a você que o filme conta a his­tó­ria de um grupo de mer­ce­ná­rios inter­ga­lác­ti­cos com­posto por espé­cies ali­e­ní­ge­nas dis­tin­tas, no que se inclui um gua­xi­nim falante e uma árvore ambu­lante, pro­va­vel­mente você esti­ma­ria que um roteiro desse tipo seria mais cheio de furos que um queijo suíço, e que o aglo­me­rado de boba­gens ao longo da nar­ra­tiva rapi­da­mente con­ver­te­ria o riso debo­chado do espec­ta­dor num grande bocejo de sono.

No entanto, essa aven­tura foi acla­mada pela crí­tica, é um sucesso de bilhe­te­ria em todo o pla­neta e rece­beu apro­va­ção dos meus ami­gos mais céti­cos. Como um deles comen­tou após ver o filme: QUE TRETA FODA!

Mas não é por acaso que acei­ta­mos toda aquela mira­bo­lante fan­ta­sia e enge­nhosa sem ficar­mos afi­ve­la­dos a qual­quer jul­ga­mento crí­tico. Nisso, os pro­du­to­res e rotei­ris­tas de Guar­diões da Galá­xia foram habi­li­do­sos. Nas pri­mei­ras ima­gens, eles nos mani­pu­la­ram direi­ti­nho — e, admito, achei um barato ser mani­pu­lado com tanta com­pe­tên­cia.

As pri­mei­ras cenas do filme mos­tram a vida real tal como é. Mais do que isso, exi­bem um dos aspec­tos mais difí­ceis do mundo real. O menino somos nós, e pelos olhos dele somos gui­a­dos para um quarto de hos­pi­tal no qual tes­te­mu­nha­mos, na figura de sua mãe, uma ver­dade amarga: veja essa mulher, veja seu cân­cer, veja como sofre, nós somos isso tam­bém, somos essa carne, e tam­bém vamos mor­rer. O menino recusa segu­rar mão de sua pró­pria mãe, e isso é natu­ral embora seja desa­gra­dá­vel de reco­nhe­cer: ins­tin­ti­va­mente, a morte causa repulsa.

O garoto, cha­mado Peter Quill, corre do quarto logo após o último sus­piro de sua mãe, fugindo de sua pró­pria covar­dia e da rea­li­dade da morte. Ele escapa para fora do hos­pi­tal, entra na noite escura, fica pros­trado em meio às tre­vas, pequeno em sua fra­gi­li­dade, puro ani­mal em seu medo e ver­go­nha, impo­tente diante da rea­li­dade que diz res­peito a todos nós. Isso tudo o espec­ta­dor, queira ou não, já per­ce­beu, embora não tenha assi­mi­lado cons­ci­en­te­mente: a lem­brança de nossa mor­ta­li­dade, nossa impo­tên­cia no mundo real.

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E então, depois disso, o que acon­tece?

Surge uma super nave inter­ga­lá­tica repleta de luzes mul­ti­co­lo­ri­das flu­tu­ando inex­pli­ca­vel­mente sobre o gra­mado, relu­zindo na noite escura com sua forma arro­jada, fan­tás­tica, hip­nó­tica.

É como se os pro­du­to­res de Guar­diões da Galá­xia, nesse momento, dis­ses­sem:  a rea­li­dade é uma merda, espec­ta­dor, e você foi lem­brado disso mesmo que finja para si mesmo não per­ce­ber. Agora, você está pronto para acei­tar o remé­dio que que­re­mos ofe­re­cer, sem jul­ga­men­tos irô­ni­cos, sem cri­té­rios rea­lis­tas des­ne­ces­sá­rios. E o remé­dio que esta­mos lhe ofe­re­cendo é o esque­ci­mento atra­vés da pura e mara­vi­lhosa fan­ta­sia. Agora, é só rela­xar.

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Claro, Guar­diões da Galá­xia não é só isso. Essa etapa ini­cial do filme serve ape­nas para depu­rar nosso senso crí­tico de qual­quer jul­ga­mento pre­ten­sa­mente “adulto” sobre aquilo que vere­mos em seguida. Não ser­vi­ria de nada se o que viesse a seguir não cum­prisse a pro­messa de cura, de esque­ci­mento. E Guar­diões cum­pre ple­na­mente que é pro­me­tido, gra­ças a um enredo que não é só diver­tido, cri­a­tivo e bem humo­rado — é tam­bém repleto de peque­nos sím­bo­los asso­ci­a­ti­vos que nos fazem gos­tar do filme por moti­vos que sequer sus­pei­ta­mos.

A come­çar pelo grupo de anti-heróis que com­põem os tais “guar­diões”. O psi­có­logo Carl Gus­tav Jung obser­vou nos sonhos de seus paci­en­tes que temos a ten­dên­cia de repre­sen­tar figu­ra­ti­va­mente nossa psi­que em algum tipo de estru­tura quar­te­ná­ria — ou seja, num arranjo de qua­tro seg­men­tos ou par­tes, orga­ni­za­dos ao redor de uma figura cen­tral. Assim é não só com a cruz do cris­ti­a­nismo, mas com outros sím­bo­los do “sagrado” tal como os man­da­las de medi­ta­ção tibe­tana.

Nes­ses man­da­las de medi­ta­ção tibe­tana, mui­tas vezes Buda é colo­cado ao cen­tro. No seu equi­va­lente cris­tão, Jesus é retra­tado ao cen­tro, com os qua­tro evan­ge­lis­tas dis­pos­tos nos qua­tro can­tos da ima­gem, mas retra­ta­dos como seres não-huma­nos: anjo (Mateus), leão (Mar­cos), touro (Lucas) e águia (João).


E isso tam­bém não pas­sou desa­per­ce­bido de C. G. Jung. Para ele, as qua­tro figu­ras dos evan­ge­lis­tas repre­sen­ta­vam qua­tro aspec­tos da psi­que humana que não per­ten­cem à nossa cons­ci­ên­cia — daí serem retra­ta­das como seres “não-huma­nos”, como figu­ras ale­gó­ri­cas, “míti­cas”. São con­teú­dos incons­ci­en­tes, que não foram assi­mi­la­dos cons­ci­en­te­mente. Algo seme­lhante à pri­mi­tiva dis­tin­ção dos ele­men­tos do mundo em qua­tro ele­men­tos (fogo, terra, água e ar), os qua­tro filhos de Hórus da mito­lo­gia egíp­cia e os qua­tro aspec­tos de Buda pre­sen­tes na com­po­si­ção dos cinco Dhya­nis. O fato de que dife­ren­tes mitos, situ­a­dos em dis­tan­tes regiões e perío­dos, ado­ta­ram a mesma orga­ni­za­ção de qua­tro ele­men­tos ao redor de uma figura cen­tral sugere uma ten­ta­tiva de repre­sen­tar algo ine­rente à psi­que humana.

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Em Guar­diões das Galá­xias, o pro­ta­go­nista par­ti­cipa de uma equipe da qual ele é o único de ori­gem humana. Os demais são ali­e­ní­ge­nas, figu­ras fan­tás­ti­cas que, no ima­gi­ná­rio moderno, cum­prem o mesmo papel que anti­ga­mente as potên­cias divi­nas, os fau­nos, as nin­fas e as sereias, cum­priam: a de repre­sen­ta­rem poten­cias da psi­que humana que fogem ao con­trole da cons­ci­ên­cia.

Mas o pró­prio pro­ta­go­nista, numa ver­são moderna do mito cris­tão, não é com­ple­ta­mente humano. Ape­sar de sua mãe ser humana, seu pai pos­suem uma outra ori­gem, ainda mis­te­ri­osa, mas sem dúvida extra­ter­rena. Como na repre­sen­ta­ção cristã, a per­so­na­gem no cen­tro do qua­drante for­mado pelas qua­tro figu­ras não-huma­nas tam­bém tem uma natu­reza divi­dida, metade humana e metade outra coisa, sendo que essa “metade outra coisa” decorre de sua fili­a­ção paterna. Aliás, é curi­oso que Peter se autoin­ti­tule “Senhor das Estre­las”, indi­cando uma pre­ten­são de domí­nio de regiões supe­ri­o­res a nossa rea­li­dade.

O pro­ta­go­nista tem uma mis­são na his­tó­ria, uma tarefa sobre a qual ele não pos­sui a menor cons­ci­ên­cia enquanto a desem­pe­nha, e sequer é pla­ne­jada por alguém — ela sim­ples­mente ocorre. E essa mis­são é unir aque­les 4 ele­men­tos que estão dis­per­sos, e que são até  mesmo incom­pa­tí­veis, orga­ni­zando-os num con­junto har­mo­ni­oso o sufi­ci­ente para que con­si­gam, uni­dos, ser­vir de depo­si­tá­rios de uma ener­gia pri­mi­tiva, que remonta à ori­gem do pró­prio uni­verso.


Durante toda a trama, Peter Quill tem a sua “Pai­xão”, sem­pre repre­sen­tada com cores sua­ves e mas­ca­rada pelo humor cons­tante. Ele é per­se­guido pelas auto­ri­da­des, é jul­gado, devolve a vida a alguém que jazia mori­bundo (Gamora), redime ladrões incor­ri­gí­veis e salva um pla­neta da con­de­na­ção arqui­te­tada por um ser maligno. E ele des­co­bre indí­cios de sua natu­reza em parte divina (digo, ali­e­ní­gena) jus­ta­mente no momento em que decide sacri­fi­car-se pelo bene­fí­cio de toda a popu­la­ção do mundo no qual está. Isso ocorre quando cons­tata sua curi­osa resis­tên­cia ao efeito devas­ta­dor de uma ener­gia que aju­dou a for­jar o pró­prio uni­verso e que se mos­trou capaz de matar seres supos­ta­mente mais pode­ro­sos que ele, acon­tece quando ele decide mar­ti­ri­zar-se con­forme des­crito no Evan­ge­lho de João, capí­tulo 15, ver­sí­culo 13: “Nin­guém tem maior amor do que aquele que dá sua vida por seus ami­gos”.

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É assim que uma his­tó­ria bem arqui­te­tada, que nos livra já nos pri­mei­ros minu­tos de toda “culpa moderna” por embar­car­mos em uma fan­ta­sia sem auto­crí­tica, traz ainda um con­junto de ele­men­tos que não per­ce­be­mos, mas com o qual sim­pa­ti­za­mos ainda que a sua per­cep­ção fique ape­nas no limiar de nossa cons­ci­ên­cia.

Em seu roteiro apa­ren­te­mente ingê­nuo, o filme res­gata a visão do cris­ti­a­nismo pri­mi­tivo, dis­tor­cida por sete con­cí­lios ecu­mê­ni­cos que eli­mi­na­ram da his­tó­ria de Cristo tudo aquilo que ela tinha de mais impor­tante.

Pois como é demons­trado em nar­ra­ti­vas como A Última Ten­ta­ção (tanto o filme e o livro), o romance O Evan­ge­lho Segundo Jesus Cristo e o ensaio The Mur­der of Christ, o ponto cen­tral da ale­go­ria cristã não é a divin­dade de Cristo, mas a dua­li­dade insu­pe­rá­vel, inso­lú­vel, pre­sente em um indi­ví­duo em parte corpo físico e em parte divino, eter­na­mente cru­ci­fi­cado entre a carne e as aspi­ra­ções do espí­rito — uma sim­bo­lo­gia que repre­senta com exa­ti­dão a situ­a­ção de qual­quer ser humano: preso em um corpo finito e des­ti­nado à dege­ne­ra­ção física, mas capaz de aspi­rar a eter­ni­dade e sonhar com mun­dos des­vin­cu­la­dos da rea­li­dade física. Carne e psi­que, rea­li­dade e sonho, ani­mal e anjo, bem e mal encon­trando-se em uma encru­zi­lhada cha­mada ser humano. É exa­ta­mente essa dua­li­dade que o pro­ta­go­nista de Guar­diões da Galá­xia expressa no diá­logo com sua faceta femi­nina, Gamora, no final do filme:

Peter: — O que deve­mos fazer em seguida? Alguma coisa boa? Alguma coisa má? Um pouco de cada?

Gamora: — Nós segui­re­mos sua lide­rança, Senhor das Estre­las.

Peter: — Um pouco de cada, então!

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Victor Lisboa
Editor do site Ano Zero.

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