Este artigo possui spoilers, revelando detalhes da trama do filme Guardiões da Galáxia.


Guardiões da Galáxia é uma fantasia tão mirabolante e colorida que as chances de ter sido um retumbante fracasso eram enormes. Afinal, se alguém contar a você que o filme conta a história de um grupo de mercenários intergalácticos composto por espécies alienígenas distintas, no que se inclui um guaxinim falante e uma árvore ambulante, provavelmente você estimaria que um roteiro desse tipo seria mais cheio de furos que um queijo suíço, e que o aglomerado de bobagens ao longo da narrativa rapidamente converteria o riso debochado do espectador num grande bocejo de sono.

No entanto, essa aventura foi aclamada pela crítica, é um sucesso de bilheteria em todo o planeta e recebeu aprovação dos meus amigos mais céticos. Como um deles comentou após ver o filme: QUE TRETA FODA!

Mas não é por acaso que aceitamos toda aquela mirabolante fantasia e engenhosa sem ficarmos afivelados a qualquer julgamento crítico. Nisso, os produtores e roteiristas de Guardiões da Galáxia foram habilidosos. Nas primeiras imagens, eles nos manipularam direitinho – e, admito, achei um barato ser manipulado com tanta competência.

As primeiras cenas do filme mostram a vida real tal como é. Mais do que isso, exibem um dos aspectos mais difíceis do mundo real. O menino somos nós, e pelos olhos dele somos guiados para um quarto de hospital no qual testemunhamos, na figura de sua mãe, uma verdade amarga: veja essa mulher, veja seu câncer, veja como sofre, nós somos isso também, somos essa carne, e também vamos morrer. O menino recusa segurar mão de sua própria mãe, e isso é natural embora seja desagradável de reconhecer: instintivamente, a morte causa repulsa.

O garoto, chamado Peter Quill, corre do quarto logo após o último suspiro de sua mãe, fugindo de sua própria covardia e da realidade da morte. Ele escapa para fora do hospital, entra na noite escura, fica prostrado em meio às trevas, pequeno em sua fragilidade, puro animal em seu medo e vergonha, impotente diante da realidade que diz respeito a todos nós. Isso tudo o espectador, queira ou não, já percebeu, embora não tenha assimilado conscientemente: a lembrança de nossa mortalidade, nossa impotência no mundo real.

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E então, depois disso, o que acontece?

Surge uma super nave intergalática repleta de luzes multicoloridas flutuando inexplicavelmente sobre o gramado, reluzindo na noite escura com sua forma arrojada, fantástica, hipnótica.

É como se os produtores de Guardiões da Galáxia, nesse momento, dissessem:  a realidade é uma merda, espectador, e você foi lembrado disso mesmo que finja para si mesmo não perceber. Agora, você está pronto para aceitar o remédio que queremos oferecer, sem julgamentos irônicos, sem critérios realistas desnecessários. E o remédio que estamos lhe oferecendo é o esquecimento através da pura e maravilhosa fantasia. Agora, é só relaxar.

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Claro, Guardiões da Galáxia não é só isso. Essa etapa inicial do filme serve apenas para depurar nosso senso crítico de qualquer julgamento pretensamente “adulto” sobre aquilo que veremos em seguida. Não serviria de nada se o que viesse a seguir não cumprisse a promessa de cura, de esquecimento. E Guardiões cumpre plenamente que é prometido, graças a um enredo que não é só divertido, criativo e bem humorado – é também repleto de pequenos símbolos associativos que nos fazem gostar do filme por motivos que sequer suspeitamos.

A começar pelo grupo de anti-heróis que compõem os tais “guardiões”. O psicólogo Carl Gustav Jung observou nos sonhos de seus pacientes que temos a tendência de representar figurativamente nossa psique em algum tipo de estrutura quartenária – ou seja, num arranjo de quatro segmentos ou partes, organizados ao redor de uma figura central. Assim é não só com a cruz do cristianismo, mas com outros símbolos do “sagrado” tal como os mandalas de meditação tibetana.

Nesses mandalas de meditação tibetana, muitas vezes Buda é colocado ao centro. No seu equivalente cristão, Jesus é retratado ao centro, com os quatro evangelistas dispostos nos quatro cantos da imagem, mas retratados como seres não-humanos: anjo (Mateus), leão (Marcos), touro (Lucas) e águia (João).


E isso também não passou desapercebido de C. G. Jung. Para ele, as quatro figuras dos evangelistas representavam quatro aspectos da psique humana que não pertencem à nossa consciência – daí serem retratadas como seres “não-humanos”, como figuras alegóricas, “míticas”. São conteúdos inconscientes, que não foram assimilados conscientemente. Algo semelhante à primitiva distinção dos elementos do mundo em quatro elementos (fogo, terra, água e ar), os quatro filhos de Hórus da mitologia egípcia e os quatro aspectos de Buda presentes na composição dos cinco Dhyanis. O fato de que diferentes mitos, situados em distantes regiões e períodos, adotaram a mesma organização de quatro elementos ao redor de uma figura central sugere uma tentativa de representar algo inerente à psique humana.

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Em Guardiões das Galáxias, o protagonista participa de uma equipe da qual ele é o único de origem humana. Os demais são alienígenas, figuras fantásticas que, no imaginário moderno, cumprem o mesmo papel que antigamente as potências divinas, os faunos, as ninfas e as sereias, cumpriam: a de representarem potencias da psique humana que fogem ao controle da consciência.

Mas o próprio protagonista, numa versão moderna do mito cristão, não é completamente humano. Apesar de sua mãe ser humana, seu pai possuem uma outra origem, ainda misteriosa, mas sem dúvida extraterrena. Como na representação cristã, a personagem no centro do quadrante formado pelas quatro figuras não-humanas também tem uma natureza dividida, metade humana e metade outra coisa, sendo que essa “metade outra coisa” decorre de sua filiação paterna. Aliás, é curioso que Peter se autointitule “Senhor das Estrelas”, indicando uma pretensão de domínio de regiões superiores a nossa realidade.

O protagonista tem uma missão na história, uma tarefa sobre a qual ele não possui a menor consciência enquanto a desempenha, e sequer é planejada por alguém – ela simplesmente ocorre. E essa missão é unir aqueles 4 elementos que estão dispersos, e que são até  mesmo incompatíveis, organizando-os num conjunto harmonioso o suficiente para que consigam, unidos, servir de depositários de uma energia primitiva, que remonta à origem do próprio universo.


Durante toda a trama, Peter Quill tem a sua “Paixão“, sempre representada com cores suaves e mascarada pelo humor constante. Ele é perseguido pelas autoridades, é julgado, devolve a vida a alguém que jazia moribundo (Gamora), redime ladrões incorrigíveis e salva um planeta da condenação arquitetada por um ser maligno. E ele descobre indícios de sua natureza em parte divina (digo, alienígena) justamente no momento em que decide sacrificar-se pelo benefício de toda a população do mundo no qual está. Isso ocorre quando constata sua curiosa resistência ao efeito devastador de uma energia que ajudou a forjar o próprio universo e que se mostrou capaz de matar seres supostamente mais poderosos que ele, acontece quando ele decide martirizar-se conforme descrito no Evangelho de João, capítulo 15, versículo 13: “Ninguém tem maior amor do que aquele que dá sua vida por seus amigos”.

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É assim que uma história bem arquitetada, que nos livra já nos primeiros minutos de toda “culpa moderna” por embarcarmos em uma fantasia sem autocrítica, traz ainda um conjunto de elementos que não percebemos, mas com o qual simpatizamos ainda que a sua percepção fique apenas no limiar de nossa consciência.

Em seu roteiro aparentemente ingênuo, o filme resgata a visão do cristianismo primitivo, distorcida por sete concílios ecumênicos que eliminaram da história de Cristo tudo aquilo que ela tinha de mais importante.

Pois como é demonstrado em narrativas como A Última Tentação (tanto o filme e o livro), o romance O Evangelho Segundo Jesus Cristo e o ensaio The Murder of Christ, o ponto central da alegoria cristã não é a divindade de Cristo, mas a dualidade insuperável, insolúvel, presente em um indivíduo em parte corpo físico e em parte divino, eternamente crucificado entre a carne e as aspirações do espírito – uma simbologia que representa com exatidão a situação de qualquer ser humano: preso em um corpo finito e destinado à degeneração física, mas capaz de aspirar a eternidade e sonhar com mundos desvinculados da realidade física. Carne e psique, realidade e sonho, animal e anjo, bem e mal encontrando-se em uma encruzilhada chamada ser humano. É exatamente essa dualidade que o protagonista de Guardiões da Galáxia expressa no diálogo com sua faceta feminina, Gamora, no final do filme:

Peter: – O que devemos fazer em seguida? Alguma coisa boa? Alguma coisa má? Um pouco de cada?

Gamora: – Nós seguiremos sua liderança, Senhor das Estrelas.

Peter: – Um pouco de cada, então!

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escrito por:

Victor Lisboa

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