As redes sociais adicionaram uma nova dimensão às nossas vidas. Alguns as amam a ponto de serem a primeira coisa do dia a merecer sua atenção tão logo se percebam acordadas. Outros se apressam em taxá-las como uma completa perda de tempo. Independentemente da opinião que se tem ou do uso que se faz das redes sociais, uma coisa é certa, sua relevância é tanta que não é recomendado ignorá-las.

À medida em que a adesão às redes sociais se massificou na última década e passaram a literalmente fazer parte da nossa rotina diária, as fronteiras entre o que acontece na vida off-line e nas redes sociais perderam a nitidez. Gerações mais novas sequer enxergam uma divisão. Graças a essa simbiose, o nosso “eu digital” tem refletido cada vez mais as vivências de nosso “eu analógico” – e essa não é uma via de mão única. Experiências são experiências, sejam elas digitais ou analógicas, não importa a sua origem. Logo, o que experimentamos no ambiente digital das redes sociais tem impacto na vida “aqui fora”. Tanto para o bem, quanto para o mal.

No topo da lista das experiências que nos fazem mal, vividas em redes sociais, encontramos o hábito de nos comparar com outras pessoas. Uma das coisas mais cruéis que podemos fazer conosco é nos comparar com os outros. E graças a abundância de informações existentes nas redes sociais, elas têm se mostrado o lugar perfeito para essa prática tão nociva.

Mas por que isso é tão cruel?

Porque nós nos conhecemos muito melhor do que conhecemos as pessoas com as quais nos comparamos.

Conhecemos muitos dos nossos defeitos, lembramos quantas vezes falhamos e o quanto de esforço precisamos empregar para alcançar algo. Logo, sabendo tanto sobre nós mesmos, sempre que nos comparamos, inevitavelmente comparamos os nossos bastidores com o palco de outra pessoa.

O resultado é que ficamos com a sensação de que os outros são mais inteligentes, mais sábios, mais felizes, mais bonitos, mais confiantes, entre outras tantas qualidades. Ficamos com a percepção de que as outras pessoas são quase perfeitas, quando de fato não são. Todos têm defeitos. Todos tem bastidores – e tudo bem com isso.

Na verdade, o que todos fazem, inclusive nós, é tentar mostrar o que têm de melhor – ou seja, mostrar o seu palco. Ou vocês já viram alguém fazer um check in numa clínica de cirurgia plástica? Graças a esse comportamento, a impressão que se tem é de que as redes sociais estão repletas de “pessoas perfeitas” vivendo “vidas perfeitas”.

COMO SENTIR-SE MISERÁVEL

No livro How to Make Yourself Miserable (publicado no Brasil com o título Como Enlouquecer Você Mesmo), escrito muitos anos antes do Mark Zuckerberg sequer ter imaginado o Facebook, Dan Greenburg tenta mostrar através do humor o quão destrutivo é nos comparamos com outras pessoas. Nesse livro, ele ensina exercícios eficazes para pessoas que queiram se tornar infelizes.

O primeiro exercício mostra as fotos de um homem e de uma mulher que personificam o “padrão de beleza ideal” da nossa época. Em seguida, ele instrui os leitores a tirarem as próprias medidas, compará-las com as das fotos e pensar um pouco a respeito. Acreditem, o exercício funciona mesmo.

Mas como a aparência física pode ser considerada algo superficial, o autor propõe outro exercício, dessa vez ligado a algo mais profundo: realizações pessoais. Nesse exercício, ele escolhe algumas pessoas para nos compararmos e enumera seus feitos. O primeiro da lista é Wolfgang Amadeus Mozart. Na resumida biografia de Mozart, existem os idiomas que o compositor falava, obras importantes criadas por ele ainda na adolescência e outras façanhas. O exercício é simples e consiste em nos lembrar das nossas realizações até o presente momento da nossa vida, compará-las com o que Mozart já havia realizado até os 12 anos e focar nas prováveis diferenças. Nem é preciso ter a genialidade de Mozart para adivinhar como nos sentimos ao fazer esse exercício.

Apesar da aparente inocência desses exercícios, eles servem para demonstrar a importância de se ter uma boa autoestima. A autoestima faz parte do alicerce de uma boa vida, o que deixa um importante alerta: se em 30 minutos de exercícios conscientes já podemos experimentar um desconforto que uma investida contra nossa autoestima pode trazer, qual não seria o dano do hábito de inconscientemente nos compararmos a outras pessoas continuamente?

Diante dessa “armadilha”, a pergunta que fica é “As redes sociais são ruins?”.

Depende.

Redes sociais também podem ser sinônimo de coisas boas. Como bons exemplos disso, podemos citar o fato de terem se mostrado uma ferramenta imbatível para o networking e novas oportunidades de negócio e de carreira. Além disso, são uma fonte poderosa de informação e instrumento eficaz para o fortalecimento da cidadania e o exercício da democracia. No fim, assim como grande parte do que está presente em nossas vidas, se nos fará bem ou mal, depende muito mais do uso que fazemos do que da natureza da coisa em si.

Maus hábitos são difíceis de serem quebrados, mas algumas coisas podem ajudar a acabar com eles e o diagnóstico é sempre o primeiro passo. Porém, enquanto não matamos de vez esse hábito destrutivo, deixo uma dica. Da próxima vez que você se pegar comparando seus bastidores com o palco de alguém, lembre-se de uma frase do Millôr Fernandes: “Como são admiráveis as pessoas que nós não conhecemos bem”.

Alan Oliveira
Um interessado no comportamento humano, liderança, educação e em aprender. E alguém que gostaria que compreendêssemos o que realmente importa na vida.
  • Hugo Balmiza

    Excelente! Continue, meu amigo.

    • AlanVertente

      Muito obrigado Hugo! Continuarei, meu amigo.

  • Flávio Almeida

    Parabéns pelo texto meu Amigo! Sabes que o admiro muito e suas crônicas são ricas em elementos cerebrais que desafiam quem as lê. Mas como você também me conhece, deixo duas questões.
    Será que a maioria das pessoas que caem nas diversas armadilhas das redes sociais, realmente conhecem a si mesmo? Será que elas não buscam se conhecer ainda que inconscientemente?
    Grande abraço meu velho e saudoso Amigo

    • AlanVertente

      Muito obrigado Flávio! Você sempre com perguntas intrigantes. Vou tentar respondê-las.

      Creio que, infelizmente, uma parcela considerável das pessoas não se conhece de fato e, justamente por isso, repetem padrões de comportamento destrutivos. Mas é compreensível que as pessoas hajam assim e não invistam em autoconhecimento, afinal, em nenhum momento da vida escolar somos instruídos a lidar com isso. Aprendemos fórmula de Bhaskara, mas ninguém ensina um jovem a lidar com sua ansiedade, por exemplo. O foco é sempre a vida profissional, como se o profissional não estivesse apoiado sobre uma vida pessoal. Na educação que recebemos em casa esses ensinamentos tendem a estar mais presentes, mais por instinto do que por um planejamento estruturado.

      Respondendo sua última pergunta, temo que não. As pessoas não buscam autoconhecimento de forma inconsciente, pois o diagnóstico é sempre o primeiro passo. Seria como procurar um remédio para uma doença que não sabemos ter. O que fazemos é instintivamente procurar atender às nossas necessidades. E quando isso não é feito de forma consciente, a chance de haver sofrimento no processo, é considerável.

      E novamente, muito obrigado, meu saudoso amigo! Vamos fazer acontecer essa visita.

  • Helisa Kahanni

    texto inteligente em sua simplicidade. Adorei!

    • AlanVertente

      Muito obrigado, Helisa!