É próprio de nosso pensamento ocidental moderno a ideia de que as coisas não possuem uma verdade única ou um justo meio. Entendemos que quase tudo é passível de inúmeros pontos de vista e interpretações, sem que haja qualquer superioridade entre as coisas em relação à sua proximidade da verdade, encarando-as todas como iguais. De fato, expressões como “gosto não se discute” ou “essa é a minha opinião” são evocadas e defendidas sem hesitação, pois são valores da democracia uma suposta liberdade quase paranóica e um temor à mínima expressão de autoridade.

Por isso, talvez à primeira vista pareça absurdo à nossa alma embriagada pelas ideologias do nosso tempo a sugestão de que possa haver uma hierarquia nos gostos e opiniões, como se um gosto ou opinião pudesse ser superior a outro em algum sentido.

Talvez esse padrão psicológico atual se estenda a outros domínios, mas gostaria me deter precisamente aos gostos e opiniões. Nessas últimas é mais fácil de perceber: não é verdade que, nos dias de hoje, se afigura necessário, através da pressão social, que tenhamos uma opinião para praticamente tudo? Dizer “eu não sei” para alguma coisa é encarado como ficar em cima do muro ou consentir, através do silêncio, com os atos de um suposto agressor, ao invés de ser visto como um gesto de humildade e sinceridade. Parece que somos forçados, seja pela pressão dos outros ou por nosso próprio narcisismo, a ter e a expressar uma opinião, mesmo que sejamos completos ignorantes no assunto.

Mister Catra e John Coltrane: gosto não se discute?
Mister Catra e John Coltrane: gosto não se discute?

Mas, parafaseando Platão, é evidente que opinião não é conhecimento. Essa é uma verdade simples, mas que foi amputada de nosso imaginário social. Estamos impregnados por formas psicológicas coletivas que cultuam relativismos e pluralismos, fazendo-nos rodar e estudar objetos e fenômenos em suas mais variadas manifestações, mas renegando por completo suas essências. Assim, por exemplo, o voto de alguém que entende de política, ou de qualquer outra questão em que se queira votar, tem o mesmo peso e valor de alguém que nada entenda do assunto. Isso tudo acontece devido aos próprios valores modernos, a traumas coletivos de sistemas totalitários que nos fazem temer qualquer relação vertical, ou a outra coisa? Tal resposta exige maiores estudos e reflexões, mas o que importa, por ora, é que esse fenômeno está aí e devemos lidar com ele.

Então, afinal, opinião não é conhecimento. E quanto aos gostos? Serão assim tão relativos? Vamos pegar o exemplo da arte, especificadamente da música. Poucos discordariam da superioridade técnica de uma sinfonia de Mozart quanto a um rap. Mas também poucos afirmariam que aquele que se deleita ouvido Mozart seja superior em algum sentido àquele que escuta rap, pois “gostos não se discutem”.

Se dissecarmos a psique humana, encontraremos instintos e pulsões primitivas juntamente com virtudes mais próximas do bom, do belo e do justo. É evidente que o rap, em geral, está mais relacionado com as primeiras e Mozart com as segundas. Se admitirmos, portanto, uma relação vertical, e não de igualdade, entre instintos e virtudes, sendo essas segundas as superiores, então aquele cuja alma que aprecia Mozart é superior nesse sentido.

Egon Schiele e Romero Brito: gosto não se discute?
Egon Schiele e Romero Brito: gosto não se discute?

Não quero com tudo isso indicar algum juízo de valor, no sentido de que seja vil escutar rap ou qualquer gênero musical popular vinculado mais a instintos do que a virtudes. Eu mesmo não sou tanto um apreciador de música clássica, por mais que tenha crescido ouvindo música e por ela seja apaixonado. Isso apenas quer dizer que minha alma não alcança profundamente as alturas vibracionais propostas por Mozart, e que às vezes é melhor, sim, envolver-me e emocionar-me com aquilo que consigo atingir. Mas também às vezes vale a pena apertar o play na música clássica para ver se algo desperta…

Tudo isso que foi colocado sobre Mozart e rap pode evidentemente ser aplicado em qualquer arte ou qualquer gosto pessoal. Talvez nossos gostos, portanto, não sejam tão relativos assim, e podemos sim discuti-los.

Em meio a tantos radicalismos, absolutismos e fanatismos que surgiram nos últimos séculos, é natural que desenvolvamos uma resistência a pensar que deve haver uma Verdade Absoluta e Única a qual aspiramos, chegando ao ponto de negarmos a realidade devido a esse temor, cultuando o devir, o relativismo e o pluralismo como únicos detentores da verdade. Acontece que as coisas possuem, sim, um justo meio, pois o que é a ciência senão a busca pela Verdade?

A posição que devemos tomar, e que nossa inconsciência não permite ver, é uma postura de humildade socrática, de admitir que nada sabemos, mas que desejamos saber. Sei que é evidente que a experiência histórica mostra que aqueles que dizem possuir a verdade em verdade nada possuem. Mas somos, sim, buscadores. Não tenhamos a audácia de negar nossa aspiração. Seja objeto de nossa busca a transcendência – ou, como bem colocou Galeano, aquilo que nos faz caminhar.

Rodolfo Dall'Agno
Psicologia de formação, mas música e filosofia de coração. Participante do programa Empresa Viva. Buscador de essências.
  • Por que considerar o rap como primitivo? O surgimento do rap, sua história… Pouco se pode esquadrinhar de uma história tão complexa quanto a da música ou do sentimento que ela causa. O exemplo do Catra é diferente, o apelo sexual o contexto socioeconômico claramente torna a busca pelo popular desesperada e capaz de pagar qualquer custo pelo sucesso. Relativizar entre ritmos me parece difícil, embora entre artistas, não.

    Podem ser encontrados expoentes em muitos gêneros musicais, verdadeiros gênios que marcam a história da sua maneira e, neste aspecto, poderíamos pensar em um zeitghest que propusesse a ascensão deste ou daquele gênero musical – ou qualquer outro tipo de arte.

    Diríamos ser possível comparar o surrealismo o cubismo? São momentos de surgimento completamente diferentes e o mesmo me parece ser válido pra música.

    É um ótimo artigo, pensar neste trauma que temos do totalitarismo de fato é um resultado inesperado, admito, até genial. Acho que sim, há algo de estranho em relativizar tudo, mas nã estou certo se que o caminho apontado pelo artigo seja correto.