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Gosto se discute?

Em Comportamento, Consciência por Rodolfo Dall'AgnoComentário

É pró­prio de nosso pen­sa­mento oci­den­tal moderno a ideia de que as coi­sas não pos­suem uma ver­dade única ou um justo meio. Enten­de­mos que quase tudo é pas­sí­vel de inú­me­ros pon­tos de vista e inter­pre­ta­ções, sem que haja qual­quer supe­ri­o­ri­dade entre as coi­sas em rela­ção à sua pro­xi­mi­dade da ver­dade, enca­rando-as todas como iguais. De fato, expres­sões como “gosto não se dis­cute” ou “essa é a minha opi­nião” são evo­ca­das e defen­di­das sem hesi­ta­ção, pois são valo­res da demo­cra­cia uma suposta liber­dade quase para­nóica e um temor à mínima expres­são de auto­ri­dade.

Por isso, tal­vez à pri­meira vista pareça absurdo à nossa alma embri­a­gada pelas ide­o­lo­gias do nosso tempo a suges­tão de que possa haver uma hie­rar­quia nos gos­tos e opi­niões, como se um gosto ou opi­nião pudesse ser supe­rior a outro em algum sen­tido.

Tal­vez esse padrão psi­co­ló­gico atual se estenda a outros domí­nios, mas gos­ta­ria me deter pre­ci­sa­mente aos gos­tos e opi­niões. Nes­sas últi­mas é mais fácil de per­ce­ber: não é ver­dade que, nos dias de hoje, se afi­gura neces­sá­rio, atra­vés da pres­são social, que tenha­mos uma opi­nião para pra­ti­ca­mente tudo? Dizer “eu não sei” para alguma coisa é enca­rado como ficar em cima do muro ou con­sen­tir, atra­vés do silên­cio, com os atos de um suposto agres­sor, ao invés de ser visto como um gesto de humil­dade e sin­ce­ri­dade. Parece que somos for­ça­dos, seja pela pres­são dos outros ou por nosso pró­prio nar­ci­sismo, a ter e a expres­sar uma opi­nião, mesmo que seja­mos com­ple­tos igno­ran­tes no assunto.

Mister Catra e John Coltrane: gosto não se discute?

Mis­ter Catra e John Col­trane: gosto não se dis­cute?

Mas, para­fa­se­ando Pla­tão, é evi­dente que opi­nião não é conhe­ci­mento. Essa é uma ver­dade sim­ples, mas que foi ampu­tada de nosso ima­gi­ná­rio social. Esta­mos impreg­na­dos por for­mas psi­co­ló­gi­cas cole­ti­vas que cul­tuam rela­ti­vis­mos e plu­ra­lis­mos, fazendo-nos rodar e estu­dar obje­tos e fenô­me­nos em suas mais vari­a­das mani­fes­ta­ções, mas rene­gando por com­pleto suas essên­cias. Assim, por exem­plo, o voto de alguém que entende de polí­tica, ou de qual­quer outra ques­tão em que se queira votar, tem o mesmo peso e valor de alguém que nada entenda do assunto. Isso tudo acon­tece devido aos pró­prios valo­res moder­nos, a trau­mas cole­ti­vos de sis­te­mas tota­li­tá­rios que nos fazem temer qual­quer rela­ção ver­ti­cal, ou a outra coisa? Tal res­posta exige mai­o­res estu­dos e refle­xões, mas o que importa, por ora, é que esse fenô­meno está aí e deve­mos lidar com ele.

Então, afi­nal, opi­nião não é conhe­ci­mento. E quanto aos gos­tos? Serão assim tão rela­ti­vos? Vamos pegar o exem­plo da arte, espe­ci­fi­ca­da­mente da música. Pou­cos dis­cor­da­riam da supe­ri­o­ri­dade téc­nica de uma sin­fo­nia de Mozart quanto a um rap. Mas tam­bém pou­cos afir­ma­riam que aquele que se deleita ouvido Mozart seja supe­rior em algum sen­tido àquele que escuta rap, pois “gos­tos não se dis­cu­tem”.

Se dis­se­car­mos a psi­que humana, encon­tra­re­mos ins­tin­tos e pul­sões pri­mi­ti­vas jun­ta­mente com vir­tu­des mais pró­xi­mas do bom, do belo e do justo. É evi­dente que o rap, em geral, está mais rela­ci­o­nado com as pri­mei­ras e Mozart com as segun­das. Se admi­tir­mos, por­tanto, uma rela­ção ver­ti­cal, e não de igual­dade, entre ins­tin­tos e vir­tu­des, sendo essas segun­das as supe­ri­o­res, então aquele cuja alma que apre­cia Mozart é supe­rior nesse sen­tido.

Egon Schiele e Romero Brito: gosto não se discute?

Egon Schi­ele e Romero Brito: gosto não se dis­cute?

Não quero com tudo isso indi­car algum juízo de valor, no sen­tido de que seja vil escu­tar rap ou qual­quer gênero musi­cal popu­lar vin­cu­lado mais a ins­tin­tos do que a vir­tu­des. Eu mesmo não sou tanto um apre­ci­a­dor de música clás­sica, por mais que tenha cres­cido ouvindo música e por ela seja apai­xo­nado. Isso ape­nas quer dizer que minha alma não alcança pro­fun­da­mente as altu­ras vibra­ci­o­nais pro­pos­tas por Mozart, e que às vezes é melhor, sim, envol­ver-me e emo­ci­o­nar-me com aquilo que con­sigo atin­gir. Mas tam­bém às vezes vale a pena aper­tar o play na música clás­sica para ver se algo des­perta…

Tudo isso que foi colo­cado sobre Mozart e rap pode evi­den­te­mente ser apli­cado em qual­quer arte ou qual­quer gosto pes­soal. Tal­vez nos­sos gos­tos, por­tanto, não sejam tão rela­ti­vos assim, e pode­mos sim dis­cuti-los.

Em meio a tan­tos radi­ca­lis­mos, abso­lu­tis­mos e fana­tis­mos que sur­gi­ram nos últi­mos sécu­los, é natu­ral que desen­vol­va­mos uma resis­tên­cia a pen­sar que deve haver uma Ver­dade Abso­luta e Única a qual aspi­ra­mos, che­gando ao ponto de negar­mos a rea­li­dade devido a esse temor, cul­tu­ando o devir, o rela­ti­vismo e o plu­ra­lismo como úni­cos deten­to­res da ver­dade. Acon­tece que as coi­sas pos­suem, sim, um justo meio, pois o que é a ciên­cia senão a busca pela Ver­dade?

A posi­ção que deve­mos tomar, e que nossa incons­ci­ên­cia não per­mite ver, é uma pos­tura de humil­dade socrá­tica, de admi­tir que nada sabe­mos, mas que dese­ja­mos saber. Sei que é evi­dente que a expe­ri­ên­cia his­tó­rica mos­tra que aque­les que dizem pos­suir a ver­dade em ver­dade nada pos­suem. Mas somos, sim, bus­ca­do­res. Não tenha­mos a audá­cia de negar nossa aspi­ra­ção. Seja objeto de nossa busca a trans­cen­dên­cia — ou, como bem colo­cou Gale­ano, aquilo que nos faz cami­nhar.

Rodolfo Dall'Agno
Psicologia de formação, mas música e filosofia de coração. Participante do programa Empresa Viva. Buscador de essências.

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