gordofobia

Gordofobia existe, parte I

Em Consciência, Sociedade por Franz WasielewskiComentário

O Gordo, o obeso e o mórbido

Este é o pri­meiro artigo de uma série em que pre­tendo ana­li­sar os mais impor­tan­tes aspec­tos da gor­do­fo­bia em nossa soci­e­dade. Mas antes de ini­ci­ar­mos o assunto, é pre­ciso expli­car os sig­ni­fi­ca­dos de algu­mas pala­vras e con­cei­tos.

Gordo vem do latim gur­dus, que tem por sig­ni­fi­cado lento, pesado, pouco esperto, espesso ou dese­qui­li­brado em suas pro­por­ções. A pala­vra, em sua raiz latina, não pos­sui um bom sig­ni­fi­cado, con­corda?

E obeso? Qual será seu sig­ni­fi­cado eti­mo­ló­gico? Obeso vem do latim do verbo obe­dere, cujos ter­mos que com­põem o verbo são: ob – sobre e edere – comer. Seria, ao pé da letra, sobre+comer, comer em excesso. A pala­vra obe­si­tas sig­ni­fica gor­dura física, cor­pu­lên­cia.

E temos outra pala­vra que já ouvi­mos várias vezes asso­ci­a­das a obeso: mór­bido. Essa pala­vra vem do latim mor­bius e tem por sig­ni­fi­cado: doente, assus­ta­dor, fora do padrão de nor­ma­li­dade, triste, devasso ou per­ver­tido.

Obe­si­dade, por sua vez, é defi­nida como doença crô­nica e não trans­mis­sí­vel carac­te­ri­zada pelo excesso de gor­dura cor­po­ral.

Preconceito e discriminação

O pre­con­ceito é uma pos­tura que des­perta um sen­ti­mento hos­til, nega­tivo, de rejei­ção e de não acei­ta­ção, com base em ide­ais, regras e cul­tu­ras cri­a­das pela soci­e­dade, visando esta­be­le­cer o que seria “nor­mal”, comum, cor­reto e padrão. Quando o pre­con­ceito é mani­festo, falado, repre­sen­tado ou pra­ti­cado, aí surge a dis­cri­mi­na­ção. A dis­cri­mi­na­ção é a dis­tin­ção, dife­ren­ci­a­ção, exclu­são e tra­ta­mento desi­gual a pes­soas ou gru­pos con­si­de­ra­dos dife­ren­tes ao padrão social, cau­sando res­tri­ções soci­ais, poli­ti­cas, cul­tu­rais e econô­mi­cas.

Em nossa soci­e­dade, o volume cor­po­ral de uma pes­soa é alvo de pre­con­ceito e de dis­cri­mi­na­ção. As ideias que estão asso­ci­a­das nega­ti­va­mente ao sobre­peso já estão embu­ti­das em sua eti­mo­lo­gia: lento, pesado, dese­qui­li­brado, doente, que come em excesso, assus­ta­dor, fora do padrão. Mas pos­te­ri­or­mente sur­gi­ram novas ideias que refor­çam pejo­ra­ti­va­mente o pre­con­ceito: os obe­sos ocu­pam muito espaço, suam muito, são menos inte­li­gen­tes, são des­lei­xa­dos, menos capa­zes, infe­li­zes, feios, pouco pro­du­ti­vos, one­ro­sos a pla­nos de saúde, e por aí vai.

Bom, defi­ni­dos os con­cei­tos, vamos apro­fun­dar o tema.

A Gênese da gordofobia

O pre­con­ceito e a dis­cri­mi­na­ção con­tra os obe­sos surge a par­tir da década de 80 do século XX. A par­tir de então, a obe­si­dade passa a ser con­si­de­rada pela medi­cina como um mal a ser com­ba­tido. Asso­cia-se uma refe­rên­cia visual esté­tica à defi­ni­ção do que é ser sau­dá­vel, con­si­de­rando o corpo magro como padrão e refe­ren­cial de saúde. Assim, tem-se hoje uma cam­pa­nha cons­tante con­tra a obe­si­dade, divul­gando-se ampla­mente na mídia o per­fil magro não só como padrão de saúde, mas tam­bém como padrão esté­tico.

Antes, o grande mal de saúde pública e do século era a des­nu­tri­ção, rela­ci­o­nada à pobreza e à fome. A saúde pública tinha por meta supe­rar as carên­cias ali­men­ta­res e a mor­ta­li­dade infan­til cau­sada pela má ali­men­ta­ção. Asso­ci­ava-se à saúde a ima­gem de um corpo robusto e bebês gor­di­nhos, enquanto que a magreza era tida como sinô­nimo de doença e fra­queza.

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Nin­guém pre­cisa mais ser magro”, que alí­vio não é mesmo?

Nesse período, para ven­cer a des­nu­tri­ção, a medi­cina defi­niu que era neces­sá­rio aumen­tar o con­sumo diá­rio de calo­rias. O aumento de calo­rias seria obtido atra­vés da inges­tão de açú­ca­res e gor­du­ras. A indús­tria ali­men­tí­cia seguiu essa reco­men­da­ção, pro­du­zindo ali­men­tos extre­ma­mente caló­ri­cos e bara­te­ando o seu custo, tor­nando-os mais aces­sí­veis, a fim de que as pes­soas pudes­sem obter ali­men­tos con­si­de­ra­dos “sau­dá­veis”.

Mas a per­gunta que se faz é: o que sig­ni­fica saúde hoje? A nossa medi­cina moderna é meca­ni­cista, ou seja, são rea­li­za­dos exa­mes para se deter­mi­nar o diag­nós­tico de alguma doença. Se a saúde é medida atra­vés de exa­mes, por que da neces­si­dade de um padrão de corpo? Saúde não é medida pela exis­tên­cia ou não de “bar­riga”. Exa­mes médi­cos não defi­nem visu­al­mente o que é um corpo sau­dá­vel.

Como a publicidade hoje estabelece o padrão magro como desejável, caricaturizando a obesidade. gordofobia

Como a publi­ci­dade de hoje esta­be­lece o padrão magro como dese­já­vel, cari­ca­tu­ri­zando a obe­si­dade ao nível da pura dis­cri­mi­na­ção odi­osa.

Porém, ao con­trá­rio do que era de se espe­rar, a saúde é apre­sen­tada atra­vés de revis­tas e tele­vi­são como algo esté­tico, onde deter­mi­nado tipo de corpo é iden­ti­fi­cado como pleno de saúde. Mas se nossa medi­cina é meca­ni­cista, não deve­ria haver a divul­ga­ção de per­cen­tu­ais, grá­fi­cos e lau­dos médi­cos, ao invés da ima­gem do antes e depois do corpo de uma pes­soa?

A asso­ci­a­ção da saúde com a esté­tica tem sido um dos gran­des dile­mas a ser ven­cido nos dias de hoje. A ima­gem cor­po­ral con­si­de­rada padrão, pela intensa repe­ti­ção midiá­tica, é intro­je­tada na mente das pes­soas como uma ver­dade. O corpo magro hoje pas­sou a ser um objeto não ape­nas ide­a­li­zado, mas algo a ser bus­cado a todo custo, enquanto sinô­nimo de uma saúde per­feita e de beleza. Infe­liz­mente, vin­cu­lou-se saúde à esté­tica, e isso traz inú­me­ros danos emo­ci­o­nais e soci­ais às pes­soas, tor­nando o pre­con­ceito latente e a dis­cri­mi­na­ção real.

Qual o impacto disso?

Para quem anseia atin­gir o padrão magro, a mídia criou o slo­gan segundo o qual, para se ter um corpo per­feito, basta que­rer. Ou seja, o per­fil cor­po­ral é asso­ci­ado ape­nas à força de von­tade do indi­ví­duo, já que o corpo gordo é inad­mis­sí­vel numa soci­e­dade em que estão dis­po­ní­veis todos os meios de se con­se­guir o corpo per­feito e belo: die­tas, exer­cí­cios, remé­dios e inter­ven­ções cirúr­gi­cas. O corpo é, agora, um pro­duto a ser con­quis­tado. As pes­soas que não atin­gem o per­fil magro são con­si­de­ra­das fra­cas, sem auto­es­tima e indis­ci­pli­na­das.

Diante dessa pres­são, mui­tos sen­tem o medo cons­tante de engor­dar, já que nin­guém quer ser visto de forma soci­al­mente nega­tiva. Assim, tor­nam-se reféns do espe­lho, que é uti­li­zado como ins­tru­mento de auto­po­li­ci­a­mento. O ganho de peso ou o aumento medi­das causa uma cons­tante ten­são psí­quica. O olhar-se no espe­lho, agre­gado aos pre­con­cei­tos e ao cons­tante bom­bar­deio midiá­tico, faz com que as pes­soas sejam indu­zi­das a se acha­rem gor­das. Como resul­tado, o mero gesto de obser­var seu reflexo torna-se uma espé­cie de con­fronto com o inde­se­jado em si, o que na mai­o­ria das vezes resulta na insa­tis­fa­ção com seu corpo, con­si­de­rado sem­pre fora do padrão.

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A ver­dade é que a mídia está sem­pre bus­cando mol­dar e padro­ni­zar não ape­nas a nossa forma de pen­sar, mas tam­bém de ser. A padro­ni­za­ção cor­po­ral ganha ainda mais força quando é asso­ci­ada à beleza e ao sucesso afe­tivo, pro­fis­si­o­nal e finan­ceiro. O corpo ganha o sta­tus de iden­ti­dade, no qual ser magro é sinô­nimo de cará­ter, sucesso, auto­dis­ci­plina, liber­dade, classe, saúde e com­pe­tên­cia. O corpo, além de ser um pro­duto, torna-se uma “sín­tese da cul­tura”, por­que expressa ele­men­tos espe­cí­fi­cos da soci­e­dade da qual faz parte. O ser humano, atra­vés do seu corpo, vai assi­mi­lando e se apro­pri­ando dos valo­res, nor­mas e cos­tu­mes soci­ais, num pro­cesso de “inCOR­PO­ra­ção”.

Deve­mos nos per­gun­tar se a saúde está rela­ci­o­nada a uma ima­gem visual cons­truída arti­fi­ci­al­mente ou se essa é uma argu­men­ta­ção que atende à demanda de inte­res­ses econô­mi­cos. Essa é uma ques­tão que pre­tendo abor­dar em um pró­ximo artigo, no qual ana­li­sa­re­mos a rela­ção da gor­do­fo­bia com a eco­no­mia. A medi­cina, tal como nos é apre­sen­tada pela mídia, pos­sui menos refe­ren­ci­ais médi­cos e está sobre­car­re­gada de valo­res esté­ti­cos e cul­tu­rais. Saúde não é esté­tica e nem esté­tica é saúde. A sepa­ra­ção de saúde e ima­gem do corpo seria mais bené­fica, menos angus­ti­ante e mais humana, desas­so­ci­ando a saúde da cul­tura e, con­se­quen­te­mente, do pre­con­ceito.


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Franz Wasielewski
Servidor público federal, formado em nível superior em teologia. Também tem experiência com administração de empresas e conhecimentos quanto à pedagogia. É administrador de um grupo sobre inclusividade de pessoas obesas e contra o preconceito a estas pessoas, no Facebook. Clique aqui para participar.

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