O Gordo, o obeso e o mórbido

Este é o primeiro artigo de uma série em que pretendo analisar os mais importantes aspectos da gordofobia em nossa sociedade. Mas antes de iniciarmos o assunto, é preciso explicar os significados de algumas palavras e conceitos.

Gordo vem do latim gurdus, que tem por significado lento, pesado, pouco esperto, espesso ou desequilibrado em suas proporções. A palavra, em sua raiz latina, não possui um bom significado, concorda?

E obeso? Qual será seu significado etimológico? Obeso vem do latim do verbo obedere, cujos termos que compõem o verbo são: ob – sobre e edere – comer. Seria, ao pé da letra, sobre+comer, comer em excesso. A palavra obesitas significa gordura física, corpulência.

E temos outra palavra que já ouvimos várias vezes associadas a obeso: mórbido. Essa palavra vem do latim morbius e tem por significado: doente, assustador, fora do padrão de normalidade, triste, devasso ou pervertido.

Obesidade, por sua vez, é definida como doença crônica e não transmissível caracterizada pelo excesso de gordura corporal.

Preconceito e discriminação

O preconceito é uma postura que desperta um sentimento hostil, negativo, de rejeição e de não aceitação, com base em ideais, regras e culturas criadas pela sociedade, visando estabelecer o que seria “normal”, comum, correto e padrão. Quando o preconceito é manifesto, falado, representado ou praticado, aí surge a discriminação. A discriminação é a distinção, diferenciação, exclusão e tratamento desigual a pessoas ou grupos considerados diferentes ao padrão social, causando restrições sociais, politicas, culturais e econômicas.

Em nossa sociedade, o volume corporal de uma pessoa é alvo de preconceito e de discriminação. As ideias que estão associadas negativamente ao sobrepeso já estão embutidas em sua etimologia: lento, pesado, desequilibrado, doente, que come em excesso, assustador, fora do padrão. Mas posteriormente surgiram novas ideias que reforçam pejorativamente o preconceito: os obesos ocupam muito espaço, suam muito, são menos inteligentes, são desleixados, menos capazes, infelizes, feios, pouco produtivos, onerosos a planos de saúde, e por aí vai.

Bom, definidos os conceitos, vamos aprofundar o tema.

A Gênese da gordofobia

O preconceito e a discriminação contra os obesos surge a partir da década de 80 do século XX. A partir de então, a obesidade passa a ser considerada pela medicina como um mal a ser combatido. Associa-se uma referência visual estética à definição do que é ser saudável, considerando o corpo magro como padrão e referencial de saúde. Assim, tem-se hoje uma campanha constante contra a obesidade, divulgando-se amplamente na mídia o perfil magro não só como padrão de saúde, mas também como padrão estético.

Antes, o grande mal de saúde pública e do século era a desnutrição, relacionada à pobreza e à fome. A saúde pública tinha por meta superar as carências alimentares e a mortalidade infantil causada pela má alimentação. Associava-se à saúde a imagem de um corpo robusto e bebês gordinhos, enquanto que a magreza era tida como sinônimo de doença e fraqueza.

publicidade-magrofobia gordofobia
“Ninguém precisa mais ser magro”, que alívio não é mesmo?

Nesse período, para vencer a desnutrição, a medicina definiu que era necessário aumentar o consumo diário de calorias. O aumento de calorias seria obtido através da ingestão de açúcares e gorduras. A indústria alimentícia seguiu essa recomendação, produzindo alimentos extremamente calóricos e barateando o seu custo, tornando-os mais acessíveis, a fim de que as pessoas pudessem obter alimentos considerados “saudáveis”.

Mas a pergunta que se faz é: o que significa saúde hoje? A nossa medicina moderna é mecanicista, ou seja, são realizados exames para se determinar o diagnóstico de alguma doença. Se a saúde é medida através de exames, por que da necessidade de um padrão de corpo? Saúde não é medida pela existência ou não de “barriga”. Exames médicos não definem visualmente o que é um corpo saudável.

Como a publicidade hoje estabelece o padrão magro como desejável, caricaturizando a obesidade. gordofobia
Como a publicidade de hoje estabelece o padrão magro como desejável, caricaturizando a obesidade ao nível da pura discriminação odiosa.

Porém, ao contrário do que era de se esperar, a saúde é apresentada através de revistas e televisão como algo estético, onde determinado tipo de corpo é identificado como pleno de saúde. Mas se nossa medicina é mecanicista, não deveria haver a divulgação de percentuais, gráficos e laudos médicos, ao invés da imagem do antes e depois do corpo de uma pessoa?

A associação da saúde com a estética tem sido um dos grandes dilemas a ser vencido nos dias de hoje. A imagem corporal considerada padrão, pela intensa repetição midiática, é introjetada na mente das pessoas como uma verdade. O corpo magro hoje passou a ser um objeto não apenas idealizado, mas algo a ser buscado a todo custo, enquanto sinônimo de uma saúde perfeita e de beleza. Infelizmente, vinculou-se saúde à estética, e isso traz inúmeros danos emocionais e sociais às pessoas, tornando o preconceito latente e a discriminação real.

Qual o impacto disso?

Para quem anseia atingir o padrão magro, a mídia criou o slogan segundo o qual, para se ter um corpo perfeito, basta querer. Ou seja, o perfil corporal é associado apenas à força de vontade do indivíduo, já que o corpo gordo é inadmissível numa sociedade em que estão disponíveis todos os meios de se conseguir o corpo perfeito e belo: dietas, exercícios, remédios e intervenções cirúrgicas. O corpo é, agora, um produto a ser conquistado. As pessoas que não atingem o perfil magro são consideradas fracas, sem autoestima e indisciplinadas.

Diante dessa pressão, muitos sentem o medo constante de engordar, já que ninguém quer ser visto de forma socialmente negativa. Assim, tornam-se reféns do espelho, que é utilizado como instrumento de autopoliciamento. O ganho de peso ou o aumento medidas causa uma constante tensão psíquica. O olhar-se no espelho, agregado aos preconceitos e ao constante bombardeio midiático, faz com que as pessoas sejam induzidas a se acharem gordas. Como resultado, o mero gesto de observar seu reflexo torna-se uma espécie de confronto com o indesejado em si, o que na maioria das vezes resulta na insatisfação com seu corpo, considerado sempre fora do padrão.

Miss Sunshine gordofobia

A verdade é que a mídia está sempre buscando moldar e padronizar não apenas a nossa forma de pensar, mas também de ser. A padronização corporal ganha ainda mais força quando é associada à beleza e ao sucesso afetivo, profissional e financeiro. O corpo ganha o status de identidade, no qual ser magro é sinônimo de caráter, sucesso, autodisciplina, liberdade, classe, saúde e competência. O corpo, além de ser um produto, torna-se uma “síntese da cultura”, porque expressa elementos específicos da sociedade da qual faz parte. O ser humano, através do seu corpo, vai assimilando e se apropriando dos valores, normas e costumes sociais, num processo de “inCORPOração”.

Devemos nos perguntar se a saúde está relacionada a uma imagem visual construída artificialmente ou se essa é uma argumentação que atende à demanda de interesses econômicos. Essa é uma questão que pretendo abordar em um próximo artigo, no qual analisaremos a relação da gordofobia com a economia. A medicina, tal como nos é apresentada pela mídia, possui menos referenciais médicos e está sobrecarregada de valores estéticos e culturais. Saúde não é estética e nem estética é saúde. A separação de saúde e imagem do corpo seria mais benéfica, menos angustiante e mais humana, desassociando a saúde da cultura e, consequentemente, do preconceito.


Você pode querer ler também:

Os vegetarianos estão na mira
7 sinais de um indivíduo saudável em uma sociedade enferma

 

escrito por:

Franz Wasielewski

Servidor público federal, formado em nível superior em teologia. Também tem experiência com administração de empresas e conhecimentos quanto à pedagogia. É administrador de um grupo sobre inclusividade de pessoas obesas e contra o preconceito a estas pessoas, no Facebook. Clique aqui para participar.