golpe midiático

O golpe midiático contra Dilma é real?

Em Consciência, Política por Guilherme AssisComentários

A his­tó­ria con­tada por boa parte de quem se con­tra­põe ao impe­a­ch­ment é cons­tante: esta­mos sendo alvo de um “golpe midiá­tico”, engen­drado por um con­luio imprensa-opo­si­ção. A ideia básica é sim­ples: o estado atual de insa­tis­fa­ção e de crise polí­tica é, em boa medida, esti­mu­lado por um ata­que impla­cá­vel da “mídia hegemô­nica”, que teria sido capaz de gerar por si só os movi­men­tos pró-impe­a­ch­ment, em busca de sabe-se lá quais inte­res­ses e obje­ti­vos nefas­tos.

Con­si­dero essa nar­ra­tiva sim­plista e fraca por diver­sos moti­vos.

Antes de tudo, toda aná­lise que se pro­põe a expli­car ati­tu­des coletivas/movimentos de massa como sim­ples fruto de “mani­pu­la­ção” me cheira a auto­ri­ta­rismo. É pro­ve­ni­ente de uma visão de mundo fechada, que nega a sub­je­ti­vi­dade: nin­guém no mundo tem auto­no­mia (só eu, o “inter­pre­ta­dor”), tudo é fruto de alguma cons­pi­ra­ção. Quando serve ao “nosso lado”, cha­ma­mos de crí­tica severa à mídia bur­guesa — mas o “lado de lá” pensa de maneira idên­tica, e chama isso de “mar­xismo cul­tu­ral”.

Fora isso, essa ten­ta­tiva de pin­tar um con­luio midiá­tico con­tra o governo ignora con­ve­ni­en­te­mente o fato de que essa mesma “grande mídia” já viveu uma “lua-de-mel” com Dilma. O Leo­nardo Tava­res resu­miu bem isso aqui, mas vejam algu­mas capas que a gente esque­ceu com o tempo:

 

golpe midiático

A mídia “gol­pista”.

A der­ro­cada de Dilma no con­gresso, tam­bém pin­tada como fruto de uma cons­pi­ra­ção (neo­li­be­ral, fas­cista, evan­gé­lica, con­ser­va­dora — os adje­ti­vos são múl­ti­plos), deu-se por uma tra­je­tó­ria um pouco mais com­plexa do que isso. A pre­si­denta e seu escu­deiro, Aloi­zio Mer­ca­dante, ten­ta­ram “desi­dra­tar” o PMDB, esti­mu­lando a cri­a­ção de par­ti­dos de alu­guel como o PROS e o PSD, na espe­rança de redu­zi­rem a depen­dên­cia em rela­ção ao prin­ci­pal ali­ado. Fra­cas­sa­ram, e a elei­ção de Edu­ardo Cunha para a pre­si­dên­cia da câmara dos depu­ta­dos é uma con­sequên­cia direta desse fra­casso.

O maior pro­blema na nar­ra­tiva do golpe midiá­tico, porém, é que ela sim­ples­mente inverte a ordem dos fato­res. Seguindo a cro­no­lo­gia do impe­a­ch­ment, per­ce­be­mos que não foi a mídia (e nem a “opo­si­ção” — um saco de gatos que é jogado e uni­for­mi­zado nessa coa­li­zão nar­ra­tiva) quem fomen­tou desde o iní­cio o dis­curso de impe­a­ch­ment. Ele sur­giu à parte, defen­dido por out­si­ders, e a sua cres­cente popu­la­ri­dade fez com que fosse encam­pado pela imprensa e opo­si­ção.

O con­texto para que a insa­tis­fa­ção sur­gisse todos conhe­cem: escân­dalo de cor­rup­ção assom­broso, reces­são iné­dita, governo imó­vel e sem ação, falta de pers­pec­tiva de mudança, “trai­ção” explí­cita do pro­me­tido em cam­pa­nha. Frente a esse qua­dro, acre­di­tar que é neces­sá­rio que a mídia “mani­pule” alguém para se revol­tar é um pouco ingê­nuo.

Insi­nuar que o impe­a­ch­ment é uma pauta “ges­tada” pela mídia e imposta aos mani­fes­tan­tes é sim­ples­mente fal­tar com a ver­dade. O MBL — Movi­mento Bra­sil Livre -, se não o mais influ­ente, o mais midiá­tico dos gru­pos opos­tos à Dilma, pro­testa pelo impe­di­mento no mínimo desde março de 2015, quando a pauta estava longe de ser encam­pada pela maior parte da mídia. Mesmo hoje, com mais da metade da popu­la­ção apro­vando o impe­a­ch­ment, a Folha de São Paulo, fre­quen­te­mente apon­tada como “gol­pista”, se coloca con­tra, defen­dendo novas elei­ções.

A opo­si­ção tam­bém demo­rou para entrar no bonde. Cunha, pin­tado como grande “cons­pi­ra­dor” con­tra o governo, “sen­tou” no pro­cesso de impe­di­mento por um longo tempo — depois de meses de espera e pres­são, só em dezem­bro de 2015 o pre­si­dente da câmara auto­ri­zou a aber­tura do pro­cesso. Até então, o governo ten­tava apa­zi­guá-lo, e a sua atu­a­ção pro­te­la­dora indi­cava a sim­bi­ose entre as situ­a­ções de Dilma e Cunha — ele não a der­ru­bava, para evi­tar a pró­pria queda.

O outro suposto insu­fla­dor do “golpe”, o PSDB, titu­beou igual­menteDiver­sas lide­ran­ças se colo­ca­ram con­tra o impe­di­mento, e as posi­ções nunca foram cons­tan­tes. Mesmo os ata­ques ao ex-pre­si­dente Lula não vie­ram com igual inten­si­dade.

A nar­ra­tiva do golpe “mani­pu­lado” pres­su­põe uma massa obtusa e facil­mente con­tro­lá­vel de mani­fes­tan­tes vazios. Mais uma vez, a rea­li­dade se impõe: os opo­si­to­res visi­tan­tes foram recha­ça­dos nas mani­fes­ta­ções. Além disso, a des­peito das pau­tas “libe­rais” de diver­sos finan­ci­a­do­res do movi­mento (MBL, Fiesp), a grande mai­o­ria dos mani­fes­tan­tes defende ser­vi­ços públi­cos gra­tui­tos e é extre­ma­mente crí­tica a todo tipo de lide­rança polí­tica. Se a ideia era ter um exér­cito defen­dendo cega­mente os seus inte­res­ses, a “mani­pu­la­ção” foi um grande fra­casso.

Mais: as pes­qui­sas rea­li­za­das pelo Prof. Pablo Ortel­lado reve­lam um dado inte­res­sante: os mani­fes­tan­tes favo­rá­veis ao impe­di­mento des­con­fiam inten­sa­mente da grande mídia (já um tes­te­mu­nho de que não são gui­a­dos por ela) e, mais impor­tante, con­fiam menos nos pró­prios “íco­nes” infor­ma­ti­vos do que os mani­fes­tan­tes con­trá­rios ao impe­a­ch­ment.

 

golpe midiático

A esquerda tem mais cabres­tos.

Repe­tindo: os mani­fes­tan­tes “de esquerda” (mar­cha do dia 18/03, “con­tra o golpe), que cri­ti­cam os “de direita” (mar­cha do dia 13/03, “fora Dilma”) por serem mani­pu­la­dos, con­tro­la­dos pela mídia, gui­a­dos por senho­res e pela desin­for­ma­ção são MAIS pro­pí­cios a con­fiar em íco­nes (como “Tico Santa Cruz” e “Soci­a­lista Morena”). O ceti­cismo e ausên­cia de ído­los é uma carac­te­rís­tica mais forte entre a turma do impe­a­ch­ment — um indí­cio de que a frase “Quando João fala de Pedro, aprendo mais sobre João do que sobre Pedro” con­tém certa sabe­do­ria. A pala­vra “pro­je­ção” tal­vez seja ade­quada.

A tese de que o impe­a­ch­ment foi uma pauta “arti­fi­cial” gerada pela mídia não se sus­tenta. Não só os dados e as notí­cias cro­no­ló­gi­cas a con­tra­di­zem — é uma nar­ra­tiva auto­ri­tá­ria, anti-vida e nii­lista que foge ao enten­di­mento básico do ser humano.

É evi­dente que o “clima” ide­o­ló­gico e midiá­tico pode influ­en­ciar pes­soas — negar isso seria lou­cura. Mas ele não é tudo. Caso o fosse, o PT sim­ples­mente nunca teria sido eleito — a mídia hegemô­nica e infa­lí­vel teria colo­cado toda a popu­la­ção con­tra o par­tido desde sem­pre, e Lula seria um nin­guém. Mais do que isso: se fosse pos­sí­vel con­tro­lar tão per­fei­ta­mente assim a men­ta­li­dade das pes­soas, even­tos “ines­pe­ra­dos” de rebel­dia nunca teriam acon­te­cido em paí­ses auto­ri­tá­rios e fecha­dos. O muro de Ber­lim nunca teria caído. Nin­guém teria se imposto aos tan­ques na praça da Paz Celes­tial.

Ainda que a influên­cia midiá­tica exista, outros fato­res se impõem. Fato­res indi­vi­du­ais, fato­res soci­ais, cul­tu­rais, econô­mi­cos. E foi essa tem­pes­tade per­feita de con­di­ções — crise ter­rí­vel, des­crença no sis­tema, cor­rup­ção arrai­gada — somada à agên­cia (ou seja, a huma­ni­dade — a capa­ci­dade de deci­dir, de exis­tir, que é remo­vida das pes­soas pela nar­ra­tiva de mani­pu­la­ção) de milha­res (milhões) de pes­soas — indi­vi­du­ais, mas uni­das — que gerou o pano­rama atual.


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Guilherme Assis
Tem 25 anos, trabalha com audiovisual e sempre se disse de esquerda. A definição mudou, mas ele continua o mesmo - sempre na oposição.

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