A história contada por boa parte de quem se contrapõe ao impeachment é constante: estamos sendo alvo de um “golpe midiático“, engendrado por um conluio imprensa-oposição. A ideia básica é simples: o estado atual de insatisfação e de crise política é, em boa medida, estimulado por um ataque implacável da “mídia hegemônica”, que teria sido capaz de gerar por si só os movimentos pró-impeachment, em busca de sabe-se lá quais interesses e objetivos nefastos.

Considero essa narrativa simplista e fraca por diversos motivos.

Antes de tudo, toda análise que se propõe a explicar atitudes coletivas/movimentos de massa como simples fruto de “manipulação” me cheira a autoritarismo. É proveniente de uma visão de mundo fechada, que nega a subjetividade: ninguém no mundo tem autonomia (só eu, o “interpretador”), tudo é fruto de alguma conspiração. Quando serve ao “nosso lado”, chamamos de crítica severa à mídia burguesa — mas o “lado de lá” pensa de maneira idêntica, e chama isso de “marxismo cultural”.

Fora isso, essa tentativa de pintar um conluio midiático contra o governo ignora convenientemente o fato de que essa mesma “grande mídia” já viveu uma “lua-de-mel” com Dilma. O Leonardo Tavares resumiu bem isso aqui, mas vejam algumas capas que a gente esqueceu com o tempo:

 

golpe midiático
A mídia “golpista”.

A derrocada de Dilma no congresso, também pintada como fruto de uma conspiração (neoliberal, fascista, evangélica, conservadora — os adjetivos são múltiplos), deu-se por uma trajetória um pouco mais complexa do que isso. A presidenta e seu escudeiro, Aloizio Mercadante, tentaram “desidratar” o PMDB, estimulando a criação de partidos de aluguel como o PROS e o PSD, na esperança de reduzirem a dependência em relação ao principal aliado. Fracassaram, e a eleição de Eduardo Cunha para a presidência da câmara dos deputados é uma consequência direta desse fracasso.

O maior problema na narrativa do golpe midiático, porém, é que ela simplesmente inverte a ordem dos fatores. Seguindo a cronologia do impeachment, percebemos que não foi a mídia (e nem a “oposição” — um saco de gatos que é jogado e uniformizado nessa coalizão narrativa) quem fomentou desde o início o discurso de impeachment. Ele surgiu à parte, defendido por outsiders, e a sua crescente popularidade fez com que fosse encampado pela imprensa e oposição.

O contexto para que a insatisfação surgisse todos conhecem: escândalo de corrupção assombroso, recessão inédita, governo imóvel e sem ação, falta de perspectiva de mudança, “traição” explícita do prometido em campanha. Frente a esse quadro, acreditar que é necessário que a mídia “manipule” alguém para se revoltar é um pouco ingênuo.

Insinuar que o impeachment é uma pauta “gestada” pela mídia e imposta aos manifestantes é simplesmente faltar com a verdade. O MBL — Movimento Brasil Livre -, se não o mais influente, o mais midiático dos grupos opostos à Dilma, protesta pelo impedimento no mínimo desde março de 2015, quando a pauta estava longe de ser encampada pela maior parte da mídia. Mesmo hoje, com mais da metade da população aprovando o impeachment, a Folha de São Paulo, frequentemente apontada como “golpista”, se coloca contra, defendendo novas eleições.

A oposição também demorou para entrar no bonde. Cunha, pintado como grande “conspirador” contra o governo, “sentou” no processo de impedimento por um longo tempo — depois de meses de espera e pressão, só em dezembro de 2015 o presidente da câmara autorizou a abertura do processo. Até então, o governo tentava apaziguá-lo, e a sua atuação proteladora indicava a simbiose entre as situações de Dilma e Cunha — ele não a derrubava, para evitar a própria queda.

O outro suposto insuflador do “golpe”, o PSDB, titubeou igualmenteDiversas lideranças se colocaram contra o impedimento, e as posições nunca foram constantes. Mesmo os ataques ao ex-presidente Lula não vieram com igual intensidade.

A narrativa do golpe “manipulado” pressupõe uma massa obtusa e facilmente controlável de manifestantes vazios. Mais uma vez, a realidade se impõe: os opositores visitantes foram rechaçados nas manifestações. Além disso, a despeito das pautas “liberais” de diversos financiadores do movimento (MBL, Fiesp), a grande maioria dos manifestantes defende serviços públicos gratuitos e é extremamente crítica a todo tipo de liderança política. Se a ideia era ter um exército defendendo cegamente os seus interesses, a “manipulação” foi um grande fracasso.

Mais: as pesquisas realizadas pelo Prof. Pablo Ortellado revelam um dado interessante: os manifestantes favoráveis ao impedimento desconfiam intensamente da grande mídia (já um testemunho de que não são guiados por ela) e, mais importante, confiam menos nos próprios “ícones” informativos do que os manifestantes contrários ao impeachment.

 

golpe midiático
A esquerda tem mais cabrestos.

Repetindo: os manifestantes “de esquerda” (marcha do dia 18/03, “contra o golpe), que criticam os “de direita” (marcha do dia 13/03, “fora Dilma”) por serem manipulados, controlados pela mídia, guiados por senhores e pela desinformação são MAIS propícios a confiar em ícones (como “Tico Santa Cruz” e “Socialista Morena”). O ceticismo e ausência de ídolos é uma característica mais forte entre a turma do impeachment — um indício de que a frase “Quando João fala de Pedro, aprendo mais sobre João do que sobre Pedro” contém certa sabedoria. A palavra “projeção” talvez seja adequada.

A tese de que o impeachment foi uma pauta “artificial” gerada pela mídia não se sustenta. Não só os dados e as notícias cronológicas a contradizem — é uma narrativa autoritária, anti-vida e niilista que foge ao entendimento básico do ser humano.

É evidente que o “clima” ideológico e midiático pode influenciar pessoas — negar isso seria loucura. Mas ele não é tudo. Caso o fosse, o PT simplesmente nunca teria sido eleito — a mídia hegemônica e infalível teria colocado toda a população contra o partido desde sempre, e Lula seria um ninguém. Mais do que isso: se fosse possível controlar tão perfeitamente assim a mentalidade das pessoas, eventos “inesperados” de rebeldia nunca teriam acontecido em países autoritários e fechados. O muro de Berlim nunca teria caído. Ninguém teria se imposto aos tanques na praça da Paz Celestial.

Ainda que a influência midiática exista, outros fatores se impõem. Fatores individuais, fatores sociais, culturais, econômicos. E foi essa tempestade perfeita de condições — crise terrível, descrença no sistema, corrupção arraigada — somada à agência (ou seja, a humanidade — a capacidade de decidir, de existir, que é removida das pessoas pela narrativa de manipulação) de milhares (milhões) de pessoas — individuais, mas unidas — que gerou o panorama atual.


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Guilherme Assis
Tem 25 anos, trabalha com audiovisual e sempre se disse de esquerda. A definição mudou, mas ele continua o mesmo - sempre na oposição.
  • Brendo

    Artigo excelente, estão de parabéns a equipe do Ano Zero, mais um texto impecável, só o primeiro exemplo que se encontra errado, já que se pretende mostrar um conteúdo onde a revista estaria elogiando a Dilma, mas o exemplo mostra a revista exame justamente criticando nossa atual presidenta.

  • tryedge

    Olha, mesmo depois de ler o artigo não entendi ainda o porque real do impeachment.

    Não sou contra o impeachment, mas acho que não é a toa toda essa comoção pela mídia e pela oposição estarem dando pela aceitação. Se não for para alguma coisa maior ” benefiamento” para tal!

    O impeachment se realizando ou não, não acho que é uma solucao para eventuais problemas.

    • Anderson Campos

      pelo menos é melhor do q não fazer nada e ficar esperando algo cair do ceu.

      Eu entendo que o ato do impeachment é um ato jurídico (houve crime sim) e político com pressão popular.

      Dilma esta caindo porque mentiu no primeiro mandado com aquela cortina “estamos ótimos”, para ganhar o segundo mandado sustentou isso (e a economia já começava balançar), ainda fez promessas, que dias após a eleição ela começou quebrar.

      Impeachment precisa de um ato criminoso, mas o crime de responsabilidade fiscal foi simplesmente uma ferramenta para abrir e prosseguir o processo, enfim política, tudo que um político precisa é de uma pauta para trabalhar com a vontade dos eleitores e com a leis do Estado.

      Enfim, ela esta caindo porque foi improba, porém isso por si só não basta para destituir o representante da nação, ela foi burra em quebrar a lei. Sem os 2 fatores, não haveria impeachment.

      obs: Collor não caiu por causa da Elba, ele caiu por conta do dinheiro da poupança que ele congelou/confiscou dos Brasileiros.

  • Nelson

    Fiquei decepcionado com o texto. Ele é reducionista ao extremo. Desconsidera uma série de fatores. O fato de as pessoas não confiarem na grande imprensa não significa que procurem outros meios de informação. As vezes a vida corrida, a falta do hábito da leitura, a dificuldade de interpretar textos e fatos complexos faz com que as pessoas acabam por repetir o que leem nas manchetes, ainda que não confiem nas fontes. Basta ver os compartilhamentos de notícias no Facebook. As pessoas sequer clicam no link para verificar se a fonte da informação, quanto mais o conteúdo.

    Então as “convicções” seguem sendo construídas a partir de fragmentos de informação. E nessa enxurrada de opiniões curtas, de posts e likes, o que fixa são os pequenos slogans; as ideias simples. E nisso a grande imprensa fez seu papel desde o início. Veja o destaque dado a grupos como o MBL, Revoltados Online e assemelhados. Quem são essas pessoas? Que representatividade tem? Quem são os financiadores e quais os seus interesses? Com tanta gente qualificada (de todas as linhas ideológicas) para emitir e formar opiniões, como é que a grande mídia foi dar voz a esses sujeitos?

    Grande parte das pessoas que quer o impedimento da Presidente não sabe sequer explicar o por quê. Uns dizem que é por causa da corrupção; como se na fila para sentar na cadeira não estivessem pessoas mais implicadas do que ela em fatos questionáveis, para dizer o mínimo.

    Muitos amigos com quem converso dizem que são a favor do impedimento porque “do jeito que está não dá”. Como se a saída da Presidente fosse, por si só, uma forma de resolução de um problema extremamente complexo. Não conseguem, todavia, explicar como um outro Governo – não eleito – resolveria o impasse em que se encontra o País.

    Nesse sentido, a imprensa consolidou na população o entendimento de que existem duas situações: ficar como está ou executar o impeachment da Presidente. Nos deram um problema e uma solução. Então é fácil entende porque as pessoas repetem a solução, mas não sabem explicar qual seria exatamente o problema.

    Enfim, achei que o texto incorreu em uma série de distorções.

    • herick

      “Fiquei decepcionado com o texto. Ele é reducionista ao extremo. Desconsidera uma série de fatores. O fato de as pessoas não confiarem na grande imprensa não significa que procurem outros meios de informação. As vezes a vida corrida, a falta do hábito da leitura, a dificuldade de interpretar textos e fatos complexos faz com que as pessoas acabam por repetir o que leem nas manchetes, ainda que não confiem nas fontes. Basta ver os compartilhamentos de notícias no Facebook. As pessoas sequer clicam no link para verificar se a fonte da informação, quanto mais o conteúdo”.
      Concordo, mas isso não é uma qualidade de um espectro político e nem tampouco é um fenômeno recente.
      “Então as “convicções” seguem sendo construídas a partir de fragmentos de informação. E nessa enxurrada de opiniões curtas, de posts e likes, o que fixa são os pequenos slogans; as ideias simples. E nisso a grande imprensa fez seu papel desde o início. Veja o destaque dado a grupos como o MBL, Revoltados Online e assemelhados”.
      Desculpe, mas o destaque recebido pelo MBL foi dado depois que eles já estavam com uma grande adesão popular nos primeiros protestos pedindo o impedimento da Dilma. Isso é comum em alguns jornais e blogs, que já possuem muitos comentaristas que fazem parte de Ongues e movimentos sociais. A mesma folha de São paulo que tem entre seus comentaristas o Kim kataguitri, é a mesma que tem Leonardo Sakamoto como colunista do Uol.
      Outra coisa que é fundamental ressaltar: As pessoas não tem como fonte de informação somente as redes sociais, mas sim blogs. Eu tenho certeza que você deve acessar algum blog para se informar, e considerando suas orientações ideológicas, deve ser algum desses blogs: DCM, Quebrando Tabu, Carta capital, PHA, Carta maior, Portal vermelho, Brasil247, zero hora, pragmatismo político, etc…
      Não faz bem botar todos esses blogs no mesmo balaio, mas uma coisa a se considerar é que alguns deles, como o PHA e o Brasil247, são conhecidos por espalhar desinformação. Você já deve ter ouvido alguma das seguintes histórias sobre o Sérgio Moro: O pai dele era um reacionário que apoiava a ditadura (noticia essa que é falsa, uma vez que não somente sua família diz que isso é falso, mas também tem um manifesto dos seus colegas de trabalho dizendo que isso era falso.), A esposa dele trabalhava na Shell e era advogada do PSDB (notícia que também é falsa), que o pai dele foi um dos fundadores do PSDB no paraná (falso), e que ele foi leniente com os senadores PSDBistas no caso Benestado (Eu posso te indicar as fontes se você quiser saber mais, mas eu aviso já que basicamente a história é que não cabia ao Sérgio Moro condenar os deputados do PSDB, e sim ao STF, e como o caso acabou no colo do Gilmar Mendes…).
      Isso acontece e não é por acaso. PHA e Leonardo Attuch são conhecidas prostitutas ideológicas. Sempre foram governistas, no governo Dilma, no governo Lula e também no governo FHC. Sim, antes eles já defenderam FHC (dê uma pesquisada na vida de Leonardo Attuch). Aliás, há uma grande máquina midiática trabalhando para o governo e que só sobrevivem com os recursos de publicidade de estatais. É provável que caso a Dilma seja Impichada, parte dessa máquina midiática vá defender o governo de Michel Temer.
      “Quem são essas pessoas? Que representatividade tem? Quem são os financiadores e quais os seus interesses?”.
      Eles são ligados à grupos com vieses liberais, possuem alguns colaboradores e uma loja virtual, mas grande parte do financiamento deles vem de doações e grande parte da renda deles vem de doações, Inclusive, se você quiser ajudar eles: https://doe.mbl.org.br/
      Isso não é uma exclusividade dos seus amigos:
      https://www.youtube.com/watch?v=58yys1cACYg

  • William Gouveia

    Golpe midiático? O MPF e os canais de imprensa (nacionais e internacionais) que simplesmente divulgam toda a corrupção impetrada pelo governo petista agora recebe o nome de “golpe midiático?” Crime de responsabilidade foi cometido. Dar desculpas que cometeu o crime de responsabilidade dando a desculpa que outros governos fizeram também, é como dizer que o bandido que foi pego pela polícia argumentar que não pode ser preso porque o vizinho que também comete crimes não foi preso. Todas as economias mundiais estão crescendo exponencialmente. Exceto Brasil, Venezuela e toda aquela patotinha de governos ditatoriais latino americanos que, coincidência ou não, são os únicos que estão do lado do governo fascista camuflado pelo populismo impetrado pelo PT. Até mesmo Kátia Abreu em recente entrevista para Jô Soares, concorda que a palavra “golpe” foi um infeliz erro do governo para mostrar a frustração da presidente da república. Não existe “clima ideológico midiático”. Existe bom senso de uma maioria da população que tem um mínimo de inteligência em perceber que a nomeação do ex-presidente para ministro foi uma manobra para interromper investigações do MPF. A história do Bessias nem precisava ter ido a público para percebermos isso. Tudo bem que já é comum ouvir de Globo, Veja e demais imprensa nacional… mas talvez seja melhor prestar mais atenção no “clima ideológico midiático” criado por veículos de notícias internacionais sérios como CNN, BBC,… Você perceberá que esses veículos de notícias são mais confiáveis que algumas fontes de informações como blogdadilma, amigosdopresidentelula e brasil247. Mas também é bem possível que eu esteja perdendo tempo comentando sobre realidade e notícias por aqui, pois depois de ver que o governo é capaz de financiar com 120 mil reais com dinheiro de corrupção um jornalista, como por exemplo Leonardo Attuch do site brasil247, simplesmente para enaltecer os feitos do governo.