Giordano Bruno | Para todos aqueles que hoje ousam expressar ideias perigosas com risco de serem punidos, Giordano Bruno continua a ser um herói.

Giordano Bruno: O Grande Herói da Liberdade Humana

Em Consciência, História, História, Religião, Tempo de Saber por Equipe Ano ZeroComentário

Em 2014, Gior­dano Bruno encon­trou novos fãs após a exi­bi­ção da série Cos­mos: Uma odis­seia no espaço (cri­ado como con­ti­nu­a­ção da série de 1980, Cos­mos, de Carl Sagan).

No pri­meiro epi­só­dio, trans­mi­tido simul­ta­ne­a­mente nos canais Fox em todo o mundo com uma intro­du­ção pelo pre­si­dente Barack Obama, o astro­fí­sico Neil deGrasse Tyson apre­sen­tou uma ver­são ani­mada (e bas­tante sim­pli­fi­cada) da vida de Bruno, que repete uma afir­ma­ção mui­tas vezes fei­tas por ele nos seus últi­mos anos: de que ele foi o pri­meiro már­tir da ciên­cia moderna.

Mas vá para Campo dei Fiori, em Roma, no dia 17 de feve­reiro de qual­quer ano e você vai se encon­trar rode­ado por uma mul­ti­dão hete­ro­gê­nea de ateus, pan­teís­tas, anar­quis­tas, maçons, mís­ti­cos, refor­ma­do­res cris­tãos e mem­bros da Asso­ci­a­ção Ita­li­ana de Pen­sa­do­res gra­tui­tos, todos reu­ni­dos junto a uma comis­são ofi­cial da Pre­fei­tura.

Todos os anos, essa insó­lita con­gre­ga­ção se reúne para colo­car coroas de flo­res ao pé da está­tua do século 19, cujo olhar per­ma­nen­te­mente observa a praça sob o capuz de monge.

Flo­res, velas, poe­mas e tri­bu­tos se acu­mu­lam sobre a base da está­tua cuja ins­cri­ção diz:

Para Gior­dano Bruno, da gera­ção que ele pre­viu, aqui, onde sua pira fune­rá­ria quei­mou.”

Nos qua­tro sécu­los desde que ele foi exe­cu­tado por here­sia pela Inqui­si­ção romana, esse ico­no­clasta dimi­nuto foi uti­li­zado como um sím­bolo por todos os tipos de cau­sas, e que reflete a com­ple­xi­dade e con­tra­di­ções ine­ren­tes a suas ideias, escri­tos e cará­ter.

 

Giordano Bruno, queda e ascensão

Gior­dano Bruno nas­ceu em Nola, na encosta do Monte Vesú­vio, em 1548, filho de um sol­dado, e entrou para o pres­ti­gi­oso con­vento domi­ni­cano de San Dome­nico Mag­gi­ore, nas pro­xi­mi­da­des de Nápo­les, com 17 anos de idade.

Ele se des­ta­cou em filo­so­fia e teo­lo­gia, mas seu inte­lecto pre­coce se reve­lou tanto uma razão para pro­ble­mas como uma van­ta­gem: ele estava cons­tan­te­mente envol­vido em encren­cas com seus supe­ri­o­res por ques­ti­o­nar suas orto­do­xias e bus­car mate­rial de lei­tura proi­bido.

Em 1576, ele se viu obri­gado a fugir do con­vento durante a madru­gada para evi­tar um inter­ro­ga­tó­rio pelo Inqui­si­dor local, após ser des­co­berto lendo Eras­mus na pri­vada (ele jogou o livro para den­tro do buraco para escon­der as pro­vas, mas alguém foi deter­mi­nado o sufi­ci­ente para o pes­car para fora).

Assim come­çou uma vida iti­ne­rante, que fez Gior­dano Bruno atra­ves­sar a Itá­lia até França, trans­for­mando-se ao longo do cami­nho de um frade exco­mun­gado (ele foi exco­mun­gado à reve­lia por sua car­reira não auto­ri­zada), à pro­fes­sor uni­ver­si­tá­rio e pro­fes­sor par­ti­cu­lar do Rei Hen­ri­que III da França, todos em pouco mais de cinco anos.

Essa ascen­são notá­vel ilus­tra a audá­cia e o carisma de Bruno. Mas embora ele come­çasse a se envol­ver com cír­cu­los influ­en­tes, ganhando uma repu­ta­ção por sua pro­di­gi­osa memó­ria e pelo sis­tema de memo­ri­za­ção que desen­vol­veu, sua posi­ção sem­pre per­ma­ne­ceu incerta.

Gior­dano Bruno fez ini­mi­gos com tanta espon­ta­nei­dade como atraiu admi­ra­do­res, e foi para a pri­são em mais de uma cidade por ofen­der algo ou alguém com suas pales­tras públi­cas. E no meio disso tudo ele publi­cou livros que con­so­li­da­ram ainda mais a sua noto­ri­e­dade como um pen­sa­dor peri­goso.

Bruno mudou-se de Paris para Lon­dres, e de volta a Paris, e em seguida para Wit­ten­burg, Praga, Zuri­que, Frank­furt, Pádua e Veneza, sem­pre a ser­viço de embai­xa­do­res, arqui­du­ques, reis e impe­ra­do­res, bus­cando algum patrono sim­pá­tico que lhe per­mi­ti­ria desen­vol­ver sua filo­so­fia sem medo de repre­sá­lias por parte das auto­ri­da­des.

Mas, infe­liz­mente, sua sorte aca­bou. Em Veneza, ele foi traído e preso pela Inqui­si­ção.

Depois de oito anos de pri­são e dois lon­gos jul­ga­men­tos, foi levado para Campo dei Fiori, na manhã de 17 de Feve­reiro de 1600, onde foi quei­mado vivo, supos­ta­mente virando o rosto para o cru­ci­fixo ofe­re­cido em seus momen­tos finais.

O cató­lico ale­mão Gas­par Schoppe, que tes­te­mu­nhou o último jul­ga­mento de Bruno e sua exe­cu­ção, rela­tou a um amigo que, após a sen­tença de morte ter sido pro­nun­ci­ada, “ele não disse mais nada, exceto que ‘vocês deve­riam sen­tir mais medo de impor essa sen­tença a mim do que eu em aceitá-la’”.

Os regis­tros da pri­são e dos jul­ga­men­tos de Gior­dano Bruno suge­rem uma inqui­e­ta­ção por parte do Santo Ofí­cio, um reco­nhe­ci­mento de que o pro­cesso con­tra ele estava longe de ser claro.

O orgu­lho e a inte­gri­dade de Bruno ao recu­sar-se con­fes­sar seus supos­tos cri­mes e esca­par da pena con­fe­riu a ele uma aura de már­tir — algo que ele pode ter sen­tido à época, a jul­gar pela sua res­posta. Mas a natu­reza desse seu sacri­fí­cio de már­tir (se é que ele o era) é muito mais difí­cil de defi­nir.

Mui­tas vezes, se pre­sume que a sua sen­tença por here­sia foi devido prin­ci­pal­mente à sua recusa em se retra­tar de sua crença na infi­ni­dade do uni­verso, na pos­si­bi­li­dade de múl­ti­plos mun­dos ina­bi­ta­dos, e no modelo heli­o­cên­trico de cos­mos de Copér­nico.

De fato, a Igreja não tinha nenhuma posi­ção ofi­cial sobre o sis­tema de Copér­nico em 1600, quando foi con­cluído último jul­ga­mento de Bruno; e ainda não tinha 16 anos depois que a Inqui­si­ção con­si­de­rou ‘for­mal­mente heré­ti­cos” os escri­tos de Gali­leu sobre o assunto.

Gali­leu foi con­de­nado a aban­do­nar suas teo­rias heli­o­cên­tri­cas e de se abs­ter de ensino, dis­cu­tir ou escre­ver sobre elas, pelo car­deal Roberto Belar­mino, o Inqui­si­dor jesuíta que tam­bém tinha inter­ro­gado e con­de­nado Bruno. Fica claro que Belar­mino ainda temia as impli­ca­ções e con­sequên­cias da nova cos­mo­lo­gia que Bruno tinha pro­cla­mado.

Não sabe­mos pre­ci­sa­mente quais as razões de Gior­dano Bruno ter sido con­de­nado à morte.

O decreto sobre­vi­vente de sua sen­tença men­ci­ona oito acu­sa­ções sepa­ra­das de here­sia, as quais ele se recu­sou a renun­ciar, mas os regis­tros deta­lha­dos de seus jul­ga­men­tos roma­nos foram per­di­dos quando Napo­leão Bona­parte saqueou o arquivo do Vati­cano e mudou parte dele para Paris, de modo que as espe­ci­fi­ci­da­des devem ser infe­ri­das a par­tir des­ses docu­men­tos que per­ma­ne­ce­ram.

Des­tes, parece que a sua cos­mo­lo­gia era ape­nas uma pequena parte do seu catá­logo de cri­mes con­tra a Igreja Cató­lica.

Na ver­dade, Gior­dano Bruno estava tão inte­res­sado em magia antiga quanto na astro­no­mia obser­va­ci­o­nal (um fato silen­ci­o­sa­mente reto­cado de sua bio­gra­fia resu­mida em Cos­mos).

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Lei­tu­ras de Bruno Yates sobre Gior­dano Bruno enfa­ti­zam seu lugar na his­tó­ria do ocul­tismo no pen­sa­mento renas­cen­tista, e sua influên­cia con­tri­buiu para a visão pre­do­mi­nante dele, no final do século 20, como um sábio mago e her­me­tista.

Estu­dos mais recen­tes têm incli­nado a balança para o papel de Bruno no desen­vol­vi­mento do pen­sa­mento cien­tí­fico, embora Brian Cox, que tam­bém reconta a morte cine­ma­to­grá­fica de Bruno no pri­meiro capí­tulo de seu best-sel­ler Uni­verso Humano (2014), seja obri­gado a admi­tir que “suas con­tri­bui­ções à ciên­cia são ques­ti­o­ná­veis. Ele era mais um livre-pen­sa­dor hos­til do que proto-cien­tista”.

Sepa­rar a his­tó­ria de Gior­dano Bruno a par­tir das espe­cu­la­ções pos­te­ri­o­res de sua vida e obra é com­pli­cado, por­tanto — embora tal­vez não tão com­pli­cado como ten­tar res­pon­der à per­gunta do que ele real­mente acre­di­tava.

Era um fér­til escri­tor, que pro­du­ziu peças em qua­dri­nhos, diá­lo­gos filo­só­fi­cos no idi­oma local ita­li­ano e poe­mas épi­cos e tra­ta­dos mate­má­ti­cos em latim. Mas se os escri­tos dís­pa­res de Bruno não são muito coe­ren­tes em um todo, ainda pode­mos vis­lum­brar neles semen­tes de ideias que foram desen­vol­vi­das a par­tir de pen­sa­do­res pos­te­ri­o­res.

Por outro lado, mesmo de den­tro de sua cela na pri­são defi­ni­tiva, Gior­dano Bruno ainda estava ten­tando deses­pe­ra­da­mente colo­car seus escri­tos nas mãos do Papa.

Em vários momen­tos, atra­vés de dedi­ca­tó­rias de livros e elo­gios em suas obras, Bruno ten­tou baju­lar Hen­ri­que III da França, Eli­za­beth I da Ingla­terra e do Sacro Impe­ra­dor Romano Rodolfo II. E embora tivesse rece­bido um patro­cí­nio limi­tado, nenhum deles lhe deu expec­ta­ti­vas ani­ma­do­ras.

Even­tu­al­mente, pela sua auto­con­fi­ança, pare­cia que ele pre­ten­dia levar suas ideias ao topo.

Quando Bruno retor­nou à Itá­lia em 1591, mesmo indo con­tra todos os con­se­lhos de seus ami­gos, ele con­ta­tou um domi­ni­cano de seu conhe­ci­mento em Veneza e disse ao frade que estava pre­pa­rando um livro para ser apre­sen­tado ao novo Papa, Cle­mente VIII.

Para um exco­mun­gado exi­lado que já era de inte­resse da Inqui­si­ção, acre­di­tar que pode­ria con­ven­cer o chefe supremo da Igreja Cató­lica a rever toda a sua teo­lo­gia pode pare­cer pre­sun­ção bei­rando a lou­cura.

Con­tudo, Bruno parece ter pos­suído uma con­fi­ança de tirar o fôlego em suas pró­prias ideias que fre­quen­te­mente foi inter­pre­tada como arro­gân­cia por aque­les ao seu redor.

Mas Gior­dano Bruno tinha alguns moti­vos para ter espe­rança de que ele pode­ria cha­mar o inte­resse do Papa.

O Papa Cle­mente é con­si­de­rado mais libe­ral do que seus ante­ces­so­res, e no mesmo ano, um outro ita­li­ano, o her­me­tista Fran­cesco Patrizi, dedi­cou um livro sobre filo­so­fia reli­gi­osa her­mé­tica ao Papa e foi recom­pen­sado com uma cadeira na Uni­ver­si­dade de Roma.

Mesmo de den­tro de sua cela na pri­são defi­ni­tiva, Bruno ainda estava ten­tando deses­pe­ra­da­mente colo­car seus escri­tos nas mãos do Papa.

A trans­cri­ção de sua sen­tença relata que, ao invés de con­cor­dar em se retra­tar de suas here­sias perante os inqui­si­do­res, Bruno “apre­sen­tou um docu­mento diri­gido a Sua San­ti­dade em defesa a sua causa”.

Mesmo que Cle­mente tivesse o lido, o que parece impro­vá­vel, já era tarde demais para fazer algo bom a Bruno.

Bruno pode­ria ter se tor­nado a figura de esco­lha para os alu­nos de uma Roma recém-inde­pen­dente da auto­ri­dade papal após o Res­sur­gi­mento (“a gera­ção que ele pre­viu”).

Hoje em dia pode­riam haver pra­ças, ruas e colé­gios em home­na­gem a ele em toda a Itá­lia, mas a sua rela­ção com a auto­ri­dade per­ma­nece inde­ci­frá­vel.

Seu suces­sor Gali­leo, que foi rene­gado quando con­de­nado pela Inqui­si­ção, foi ofi­ci­al­mente per­do­ado pelo Papa João Paulo II em 1992, mas como recen­te­mente, em 2000, no 400º ani­ver­sá­rio da morte de Bruno, a mesma auto­ri­dade papal decla­rou que suas teo­rias tinham se des­vi­ado longe demais da dou­trina cristã para que Bruno fosse mere­ce­dor do per­dão cris­tão.

Mesmo agora, ele con­ti­nua a ser um estra­nho, e tal­vez isso é o que dá à sua his­tó­ria seu poder dura­douro.

Tal­vez a Inqui­si­ção ainda esteja conosco, em dife­ren­tes for­mas, e nenhuma gera­ção que per­ceba seus ves­tí­gios ainda pre­sen­tes deve con­si­derá-la irre­le­vante.

Por enquanto, há aque­les que se atre­vem a expres­sar suas ideias em voz alta e estão pre­sos ou exi­la­dos — e para eles, Bruno per­siste como um sím­bolo de cora­gem inte­lec­tual. Sua chama per­siste quei­mando.


(texto ori­gi­nal­mente escrito por Stepha­nie Mer­ritt para Aeon e tra­du­zido pela Equipe AZ)


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