Fotografia em que Michel Temer está presente de seu gabinete.

A Escolha do Gabinete de Temer foi Machista?

Em Consciência, Política por Fernando de GonçalvesComentários

A esco­lha, pelo pre­si­dente inte­rino Michel Temer, de um minis­té­rio com­posto ape­nas por homens sus­ci­tou uma série de ques­ti­o­na­men­tos sobre um pos­sí­vel cará­ter “machista” ou “patri­ar­cal” de seu governo. Levando em conta que mulhe­res são 50,6% da popu­la­ção bra­si­leira (e tam­bém são mai­o­ria dos gra­du­a­dos no ensino supe­rior, antes que se levan­tem argu­men­tos sobre uma menor capa­ci­ta­ção), fica real­mente estra­nho um gabi­nete com­posto por 100% de homens.

Ocorre que o gabi­nete de Dilma tam­bém ficava devendo na quan­ti­dade de mulhe­res. Seu pri­meiro gabi­nete no segundo man­dato, de 2015, tinha ape­nas 4 mulhe­res entre 39 minis­tros, o que cor­res­ponde a pouco mais de 10% do total. Quando com­pa­ra­mos ambos os gabi­ne­tes com a com­po­si­ção da popu­la­ção bra­si­leira, nota­mos que mulhe­res sem­pre esti­ve­ram sub-repre­sen­ta­das, embora, obvi­a­mente, ter algu­mas mulhe­res sem­pre pode ser visto como melhor do que não ter nenhuma.

Tal­vez o pro­blema não esteja na esco­lha dos gabi­ne­tes em si, mas na baixa repre­sen­ta­ção de mulhe­res na polí­tica bra­si­leira. Na Câmara dos Depu­ta­dos, há ape­nas 45 mulhe­res, o que cor­res­ponde a menos de 9% do total.  Quando con­si­de­ra­mos Câmara e Senado, a pro­por­ção é leve­mente maior, mas não passa de 10% do total. Esse valor é real­mente tão baixo? Qual é a pro­por­ção em outros paí­ses? Bem, veja­mos o seguinte grá­fico ela­bo­rado com dados do Banco Mun­dial:

probabilidade população | gabinete de Michel Temer

Pro­por­ção de Mulhe­res nos Par­la­men­tos – Bra­sil e Regiões Sele­ci­o­na­das (Banco Mun­dial)

Na ima­gem acima é pos­sí­vel veri­fi­car que a pro­por­ção de mulhe­res no Par­la­mento Bra­si­leiro se man­teve pra­ti­ca­mente estag­nada nos últi­mos anos e muito abaixo da média mun­dial (atu­al­mente em 22,9%). Tam­bém esta­mos bem abaixo da média de nos­sos vizi­nhos latino-ame­ri­ca­nos (27,9%) e da União Euro­peia (28,4%). O que é incrí­vel, porém, é que per­der­mos de lavada para os paí­ses do Mundo Árabe (18,8%, um número que tem cres­cido desde a eclo­são dos movi­men­tos que fica­ram con­den­sa­dos sob o rótulo de Pri­ma­vera Árabe), ampla­mente conhe­ci­dos pela pri­va­ção de direi­tos a que são sub­me­ti­das as mulhe­res que lá vivem.

Levando em conta que os mem­bros dos minis­té­rios, nor­mal­mente, vêm do Par­la­mento, ou são indi­ca­dos pelos par­ti­dos que domi­nam o Par­la­mento, é de se ima­gi­nar que a falta de mulhe­res no gabi­nete seja um reflexo da sua baixa repre­sen­ta­ção na polí­tica de modo geral. Agora, mesmo levando em conta esta baixa repre­sen­ta­ti­vi­dade, há mulhe­res no par­la­mento, enquanto no gabi­nete de Temer não há nenhuma. Qual é a pro­ba­bi­li­dade dessa dife­rença se dever ao machismo ou ser, de fato, ale­a­tó­ria, como defen­dem os apoi­a­do­res do governo?

Para res­pon­der a esta ques­tão, vamos ten­tar nos valer da Esta­tís­tica Infe­ren­cial. Existe um cál­culo esta­tís­tico bas­tante sim­ples cha­mado de teste do qui-qua­drado. Este teste é repre­sen­tado pela seguinte fór­mula:

x² = ∑ [(o –e)²/e]

 

Não é neces­sá­rio decorá-la, mas o teste basi­ca­mente com­para os valo­res que são obser­va­dos na rea­li­dade com os valo­res espe­ra­dos, que apa­re­ce­riam, em um mundo ideal, caso não hou­vesse rela­ção entre as variá­veis – no caso, gênero e pre­sença no minis­té­rio, e nos entrega uma pro­ba­bi­li­dade de a rela­ção entre as variá­veis ser ale­a­tó­ria ou não. Como che­ga­mos a este número ideal? Bem, aqui temos a dis­tri­bui­ção por gênero no minis­té­rio de Temer e na Câmara dos Depu­ta­dos con­forme foram obser­va­das no pri­meiro dia de seu governo inte­rino:

observado - temer | gabinete de Michel Temer

Para che­gar ao valor espe­rado, basta divi­dir o total de cada cate­go­ria na coluna pelo total geral e, depois, em cada célula, usar o valor resul­tante e mul­ti­pli­car pelo res­pec­tivo total de cada linha. Após este cál­culo che­ga­mos ao seguinte qua­dro:

esperado - temer | gabinete de Michel Temer

Se nossa hipó­tese de que o número de mulhe­res nos minis­té­rios tem alguma rela­ção com o número de mulhe­res no Par­la­mento, era de se espe­rar que hou­vesse ao menos duas mulhe­res na com­po­si­ção do gabi­nete de Temer, mas não é isso que ocorre. Bem, mas pro­ba­bi­li­da­des são sem­pre gerais. Se você jogar uma moeda para cima 10 vezes, é de se espe­rar que haja várias vezes em que o resul­tado não seja meio a meio – às vezes vamos ter 6 caras e 4 coroas, outras 3 caras e 7 coroas. Essas vari­a­ções são per­fei­ta­mente nor­mais. Agora, se em 50 ten­ta­ti­vas, uma moeda der coroa 45 vezes, temos um forte indí­cio de que se trata de uma moeda vici­ada. Assim, apli­cando a fór­mula do qui-qua­drado pode­mos iden­ti­fi­car a pro­ba­bi­li­dade de essa dife­rença entre nenhuma mulher obser­vada e duas mulhe­res espe­ra­das é ale­a­tó­ria ou não.

Depois de feito o cál­culo che­ga­mos a um valor do qui­qua­drado de 2,251. Ele, por si só, não quer dizer nada, mas os esta­tís­ti­cos, há déca­das, cal­cu­la­ram as pro­ba­bi­li­da­des asso­ci­a­das a cada valor de qui­qua­dra­dos para dife­ren­tes tama­nhos de tabe­las (no nosso caso uma tabela 2 x 2, ou com 1 grau de liber­dade, na lin­gua­gem esta­tís­tica). Esses cál­cu­los estão ampla­mente dis­po­ní­veis e exis­tem mesmo sites que cal­cu­lam a pro­ba­bi­li­dade (tam­bém cha­mada de valor p) asso­ci­ada a cada valor de qui­qua­drado. Bem, a par­tir do nosso valor, che­ga­mos a uma pro­ba­bi­li­dade de ape­nas 13% de que a falta de mulhe­res no minis­té­rio de Temer seja ale­a­tó­ria. Ou seja, pode­mos afir­mar que há uma pro­ba­bi­li­dade de 87% que o tenha havido, de fato, uma dis­cri­mi­na­ção por gênero na esco­lha do Gabi­nete. Cabe lem­brar que, em esta­tís­tica, se cos­tuma dizer que um resul­tado é sig­ni­fi­ca­tivo ape­nas quando temos mais de 95% de pro­ba­bi­li­dade em uma rela­ção, mas levando em conta que houve a pre­sença de mulhe­res em todos os gabi­ne­tes minis­te­ri­ais desde o final da Dita­dura Mili­tar, um valor de tal ordem pode ser intri­gante.

Quando apli­ca­mos a for­mula à Dilma, che­ga­mos ao seguinte resul­tado: há uma pro­ba­bi­li­dade de 23% de favo­re­ci­mento de Dilma às mulhe­res na com­po­si­ção de seu gabi­nete (levando, obvi­a­mente, em conta a com­po­si­ção do Par­la­mento), visto que a pro­por­ção de mulhe­res no pri­meiro gabi­nete do segundo man­dato de Dilma era leve­mente supe­rior àquela encon­trada no par­la­mento:

probabilidade parlamento | gabinete de Michel Temer

Um resul­tado inte­res­sante e ilus­tra­tivo é quando faze­mos o mesmo cál­culo para Dilma e Temer levando em conta a pro­por­ção de homens e mulhe­res na popu­la­ção em geral. O resul­tado é o seguinte:

probabilidade população | gabinete de Michel Temer

Ou seja, ape­sar de que, quando leva­mos em conta a repre­sen­ta­ti­vi­dade de gênero no Par­la­mento, Dilma se sai muito melhor do que Temer, quando leva­mos em conta a divi­são mais equâ­nime de gênero que ocorre na popu­la­ção em geral, o resul­tado é o mesmo para ambos os gover­nos. As 4 mulhe­res entre 39 minis­tros de Dilma não a colo­ca­ram em melhor posi­ção neste que­sito.

Assim, cabe colo­car­mos maior evi­dên­cia na baixa repre­sen­ta­ti­vi­dade de mulhe­res na polí­tica bra­si­leira, uma das mai­o­res ver­go­nhas naci­o­nais. Quando pas­sar­mos de nos­sos ver­go­nho­sos 9% para uma pro­por­ção mais pró­xima daque­las das demo­cra­cias avan­ça­das, um gabi­nete minis­te­rial com­posto ape­nas por homens nos soará como um ana­cro­nismo tão grande quanto a res­tri­ção ao direito de voto femi­nino — abo­lida, em nosso país, em 1932.


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Fernando de Gonçalves
Fernando de Gonçalves é sociólogo e doutorando pela UFRGS. Acredita em um mundo baseado em fatos e, como Carl Sagan, que a Ciência é uma vela no escuro.

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