Por que os fundamentalistas costumam ser tão incorrigivelmente intolerantes? A resposta pode estar em seus cérebros.

De uns tempos pra cá tenho visto muita gente fazendo limpa no Facebook. E eu não culpo essas pessoas. Poucos “ambientes” nos oferecem tanto controle a respeito das pessoas com quem vamos interagir como as nossas redes sociais. Nelas, se algo irritou, emputeceu ou contrariou, basta bloquear ou desfazer a amizade silenciosamente e pronto. Problema resolvido.

Manifestou apoio a atos de linchamento? BAM – bloqueado! Comentou no status de alguém que a culpa pela chuva no fim de semana é do PT? SHUSHHH – varrido rumo ao esquecimento! Vem postando uma ou mais selfies por dia há mais de duas semanas? KAPOW – amizade desfeita sem dó nem piedade! O fato de a pessoa nem ficar sabendo dessas maravilhosas punições passivo-agressivas é a cereja no bolo; o que faz com que o ato de bloquear ou desfazer uma amizade adquira contornos quase catárticos.

Quem precisa de yoga quando dá para mandar uma pessoa virtualmente à merda sem as consequências chatas de ela ficar sabendo?
Quem precisa de yoga quando dá para mandar uma pessoa virtualmente à merda sem as consequências chatas de ela ficar sabendo?

Mesmo assim, por mais maravilhoso que seja se livrar de pessoas malas online, eu não consigo deixar de ver uma vantagem em mantê-las na minha linha do tempo. Uma, porque a suposta proteção que a internet confere a cretinos faz com que eles se sintam muito mais livres para bradar suas ignorâncias e preconceitos, o que me ajuda a saber exatamente quem são as pessoas da minha convivência. Outra, porque observar as postagens dessas pessoas faz com que eu me sinta quase uma antropóloga (bem de meia tigela, claro), buscando motivações e padrões de comportamentos de seres que nunca aprenderam a ler um artigo além do título e mesmo assim se sentem no direito de expressar suas opiniões.

E um dos padrões que eu percebi observando comportamentos diversos nas minhas redes sociais é a relação entre religiosidade extrema e intolerância extrema. Parece que quanto mais investida uma pessoa é na sua religião, mais cheia de ódio ela se torna contra tudo o que desafia a visão daquela religião.

Bem, sou a primeira a admitir que não tem nada de surpreendente nisso. É bem óbvio que se uma pessoa é fanática religiosa, ela também vai ser fanática em relação a tudo o que aquela religião prega. Não é nenhuma surpresa descobrir que aquela pessoa que fala que o capeta está vindo te buscar porque você transou antes do casamento também defende terapia de eletrochoque para “curar” homossexuais. Também não surpreende ninguém o fato de muitas dessas pessoas manifestarem apoio a pena de morte, expressarem seu ódio a nordestinos, desejarem a morte de mulheres grávidas que querem abortar, e rirem com gosto de piadas racistas.

Er...Peraí, volta.
Er…Peraí, volta.

Opa, parece que eu me expressei errado. A verdade é que parece que quanto mais fundamentalista a pessoa, mais cheia de ódio ela é – e ponto final. O negócio nem precisa ser contra a religião do indivíduo para ele começar a vomitar preconceitos e intolerâncias. E não fui só eu que notei isso, não. Virou prática comum as pessoas não-religiosas ou moderadamente religiosas se descabelarem com as incoerências dos fanáticos.

Como você pode dizer que segue os ensinamentos de Jesus, quando nas horas vagas taca pedra em crianças inocentes? – nós dizemos, inconformados. Como é possível você seguir os ensinamentos de um homem que disse que o mais importante era perdoar e amar o próximo, quando na primeira oportunidade defende o linchamento em praça pública de um batedor de carteira? Essa incoerência acomete muita gente, é verdade, e nem todas elas são fundamentalistas.

Também longe de mim afirmar que todas as pessoas religiosas são incoerentes e odiosas. Estou falando especificamente dos fanáticos. Mas é impressionante como cada vez mais – principalmente com a internet, firme em revelar o verdadeiro caráter das pessoas – ser ultra-religioso está deixando rapidamente de ser atestado de bondade, compaixão e paz interior para, ao invés disso, ser sinônimo de ignorância, intolerância e ódio.

Será que a religião incita o ódio? Ou será que o fanatismo religioso e a intolerância são causados por um terceiro elemento, como sintomas desconectados de uma mesma doença?

Parece estranho, mas levando em consideração estudos neurológicos recentes relacionados ao que está por trás do preconceito e da religiosidade, até que essa suposição faz sentido. Em 2012, por exemplo, um estudo quis investigar por que algumas pessoas simplesmente não acreditam em deus, mesmo tendo sido criadas em famílias religiosas. Para testar o nível de ceticismo dos participantes, os pesquisadores perguntavam a eles o que passaria por suas cabeças se estivessem em uma determinada situação. Por exemplo, uma das perguntas era: e se você tivesse acabado de fazer uma entrevista de emprego para uma firma de advocacia e logo em seguida desse de cara com um outdoor anunciando ternos e gravatas? O que passaria pela sua cabeça? As pessoas com tendência a acreditar no sobrenatural responderam que achariam que aquilo era um sinal de que conseguiriam a vaga de emprego, enquanto os céticos responderam que não achariam nada.

Ou, dependendo do terno, que a indústria da moda realmente precisa tirar a cabeça de dentro do fiofó.
Ou, dependendo do terno, que a indústria da moda realmente precisa tirar a cabeça de dentro do fiofó.

O interessante foi o que os pesquisadores descobriram ao analisar o cérebro dos participantes. Basicamente, quanto mais cética a pessoa, mais ativa era uma determinada região do seu cérebro (o giro frontal inferior direito). Quando menos ativa essa região, mais crentes os participantes. E é aí que a coisa fica realmente intrigante, porque, coincidentemente (ou não), essa mesma região do cérebro é associada com a nossa capacidade de inibição cognitiva. Ora, por que isso é intrigante? Porque inibição cognitiva é a habilidade que a nossa mente tem de frear e questionar certos processos mentais. Sabe, processos mentais como pensamentos indesejados, informações irrelevantes e estereótipos negativos a respeito de um determinado grupo de pessoas.

Exatamente. Quanto maior a capacidade de inibição cognitiva de uma pessoa, maior facilidade essa pessoa vai ter de suprimir estereótipos negativos que poderiam levá-la a discriminar um determinado grupo de pessoas. Da mesma forma, quanto menor essa capacidade, maior as chances de uma pessoa ser incapaz de superar seus preconceitos. E de acreditar no sobrenatural. Sim, porque a mesma dificuldade que ela tem de suprimir narrativas e estereótipos negativos sobre algo, ela também tem para suprimir pensamentos como “isso é um sinal de deus!”.

Para os pesquisadores, o desenvolvimento da inibição cognitiva ao longo da vida pode explicar por que algumas pessoas deixam de acreditar em deus, mesmo quando cresceram em ambientes ultra-religiosos. Para muita gente, experiências positivas com coisas que a religião condena pode ser o suficiente para desencadear processos de questionamento sem volta.

Quem nunca conheceu ou ouviu falar do homofóbico que mudou de ideia depois que conheceu homossexuais e viu que eles eram pessoas e não monstros das profundezas que querem nos levar direto para o inferno? Impossível não lembrar, também, do filme A Outra História Americana, que conta a história de um supremacista branco violentíssimo que abandona suas crenças racistas depois de fazer amizade com um homem negro na prisão. Nessas pessoas, o sucesso em suprimir um ensinamento ou um estereótipo é capaz de desencadear um processo de questionamento muito maior que acaba por desconstruir qualquer identificação que elas tenham com uma determinada crença. 

Pensando nisso, o conselho do Boechat para o Malafaia de ir procurar uma rola talvez tenha sido mais estratégico do que imaginávamos.
Pensando nisso, o conselho do Boechat para o Malafaia de ir procurar uma rola talvez tenha sido mais estratégico do que imaginávamos.

Mas nem tudo são flores. Nosso cérebro também é bom em tentar manter as coisas exatamente do jeito que ele conhece. Muitos outros estudos comprovaram que as nossas crenças preexistentes, por mais ilógicas que sejam, são tão poderosas que são capazes de influenciar as nossas opiniões, mesmo quando novos fatos e descobertas são apresentados.

Basicamente, nós tendemos a acreditar em informações que confirmam as nossas crenças e a ignorar, fazer pouco caso, ou até vociferar contra informações que as desafiam. O problema, chamado de raciocínio motivado, pode ser explicado pela descoberta neurocientífica de que as nossas emoções são ativadas antes do nosso raciocínio, quando somos confrontados com novas pessoas, situações e ideias. A repulsa natural que sentimos contra informações que desafiam a nossa visão de mundo, por sua vez, contamina o nosso raciocínio, fazendo com que ao invés de raciocinar sobre um determinado assunto, nós o racionalizemos, buscando pensamentos e memórias falsos que reforcem as nossas crenças preexistentes.

Mesmo assim, há esperança. Quer dizer, isso se houver realmente algum fundo de verdade nesse componente neurológico que supostamente influencia religiosidade e preconceito. A ciência ainda está longe de falar com convicção sobre o que eu estou conjeturando nesse texto (lembrando que eu não sou cientista, por isso, não leve minhas palavras à ferro e fogo).

Mas falando sério, vai. Não é muito mais reconfortante pensar que certas pessoas tem um pequeno mal-funcionamento neurológico ao invés de ter que engolir o fato de que a sua cretinice violenta e intolerante vem do “simples” fato de elas serem…cretinas?

escrito por:

Lara Vascouto