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Terá a ciência descoberto a relação entre fanatismo religioso e intolerância?

Em Comportamento, Consciência, Sociedade por Lara VascoutoComentário

Por que os fun­da­men­ta­lis­tas cos­tu­mam ser tão incor­ri­gi­vel­mente into­le­ran­tes? A res­posta pode estar em seus cére­bros.

De uns tem­pos pra cá tenho visto muita gente fazendo limpa no Face­book. E eu não culpo essas pes­soas. Pou­cos “ambi­en­tes” nos ofe­re­cem tanto con­trole a res­peito das pes­soas com quem vamos inte­ra­gir como as nos­sas redes soci­ais. Nelas, se algo irri­tou, empu­te­ceu ou con­tra­riou, basta blo­quear ou des­fa­zer a ami­zade silen­ci­o­sa­mente e pronto. Pro­blema resol­vido.

Mani­fes­tou apoio a atos de lin­cha­mento? BAM — blo­que­ado! Comen­tou no sta­tus de alguém que a culpa pela chuva no fim de semana é do PT? SHUSHHH — var­rido rumo ao esque­ci­mento! Vem pos­tando uma ou mais sel­fies por dia há mais de duas sema­nas? KAPOW — ami­zade des­feita sem dó nem pie­dade! O fato de a pes­soa nem ficar sabendo des­sas mara­vi­lho­sas puni­ções pas­sivo-agres­si­vas é a cereja no bolo; o que faz com que o ato de blo­quear ou des­fa­zer uma ami­zade adquira con­tor­nos quase catár­ti­cos.

Quem precisa de yoga quando dá para mandar uma pessoa virtualmente à merda sem as consequências chatas de ela ficar sabendo?

Quem pre­cisa de yoga quando dá para man­dar uma pes­soa vir­tu­al­mente à merda sem as con­sequên­cias cha­tas de ela ficar sabendo?

Mesmo assim, por mais mara­vi­lhoso que seja se livrar de pes­soas malas online, eu não con­sigo dei­xar de ver uma van­ta­gem em mantê-las na minha linha do tempo. Uma, por­que a suposta pro­te­ção que a inter­net con­fere a cre­ti­nos faz com que eles se sin­tam muito mais livres para bra­dar suas igno­rân­cias e pre­con­cei­tos, o que me ajuda a saber exa­ta­mente quem são as pes­soas da minha con­vi­vên­cia. Outra, por­que obser­var as pos­ta­gens des­sas pes­soas faz com que eu me sinta quase uma antro­pó­loga (bem de meia tigela, claro), bus­cando moti­va­ções e padrões de com­por­ta­men­tos de seres que nunca apren­de­ram a ler um artigo além do título e mesmo assim se sen­tem no direito de expres­sar suas opi­niões.

E um dos padrões que eu per­cebi obser­vando com­por­ta­men­tos diver­sos nas minhas redes soci­ais é a rela­ção entre reli­gi­o­si­dade extrema e into­le­rân­cia extrema. Parece que quanto mais inves­tida uma pes­soa é na sua reli­gião, mais cheia de ódio ela se torna con­tra tudo o que desa­fia a visão daquela reli­gião.

Bem, sou a pri­meira a admi­tir que não tem nada de sur­pre­en­dente nisso. É bem óbvio que se uma pes­soa é faná­tica reli­gi­osa, ela tam­bém vai ser faná­tica em rela­ção a tudo o que aquela reli­gião prega. Não é nenhuma sur­presa des­co­brir que aquela pes­soa que fala que o capeta está vindo te bus­car por­que você tran­sou antes do casa­mento tam­bém defende tera­pia de ele­tro­cho­que para “curar” homos­se­xu­ais. Tam­bém não sur­pre­ende nin­guém o fato de mui­tas des­sas pes­soas mani­fes­ta­rem apoio a pena de morte, expres­sa­rem seu ódio a nor­des­ti­nos, dese­ja­rem a morte de mulhe­res grá­vi­das que que­rem abor­tar, e rirem com gosto de pia­das racis­tas.

Er...Peraí, volta.

Er…Peraí, volta.

Opa, parece que eu me expres­sei errado. A ver­dade é que parece que quanto mais fun­da­men­ta­lista a pes­soa, mais cheia de ódio ela é — e ponto final. O negó­cio nem pre­cisa ser con­tra a reli­gião do indi­ví­duo para ele come­çar a vomi­tar pre­con­cei­tos e into­le­rân­cias. E não fui só eu que notei isso, não. Virou prá­tica comum as pes­soas não-reli­gi­o­sas ou mode­ra­da­mente reli­gi­o­sas se des­ca­be­la­rem com as inco­e­rên­cias dos faná­ti­cos.

Como você pode dizer que segue os ensi­na­men­tos de Jesus, quando nas horas vagas taca pedra em cri­an­ças ino­cen­tes? — nós dize­mos, incon­for­ma­dos. Como é pos­sí­vel você seguir os ensi­na­men­tos de um homem que disse que o mais impor­tante era per­doar e amar o pró­ximo, quando na pri­meira opor­tu­ni­dade defende o lin­cha­mento em praça pública de um bate­dor de car­teira? Essa inco­e­rên­cia aco­mete muita gente, é ver­dade, e nem todas elas são fun­da­men­ta­lis­tas.

Tam­bém longe de mim afir­mar que todas as pes­soas reli­gi­o­sas são inco­e­ren­tes e odi­o­sas. Estou falando espe­ci­fi­ca­mente dos faná­ti­cos. Mas é impres­si­o­nante como cada vez mais — prin­ci­pal­mente com a inter­net, firme em reve­lar o ver­da­deiro cará­ter das pes­soas — ser ultra-reli­gi­oso está dei­xando rapi­da­mente de ser ates­tado de bon­dade, com­pai­xão e paz inte­rior para, ao invés disso, ser sinô­nimo de igno­rân­cia, into­le­rân­cia e ódio. 

Será que a reli­gião incita o ódio? Ou será que o fana­tismo reli­gi­oso e a into­le­rân­cia são cau­sa­dos por um ter­ceiro ele­mento, como sin­to­mas des­co­nec­ta­dos de uma mesma doença?

Parece estra­nho, mas levando em con­si­de­ra­ção estu­dos neu­ro­ló­gi­cos recen­tes rela­ci­o­na­dos ao que está por trás do pre­con­ceito e da reli­gi­o­si­dade, até que essa supo­si­ção faz sen­tido. Em 2012, por exem­plo, um estudo quis inves­ti­gar por que algu­mas pes­soas sim­ples­mente não acre­di­tam em deus, mesmo tendo sido cri­a­das em famí­lias reli­gi­o­sas. Para tes­tar o nível de ceti­cismo dos par­ti­ci­pan­tes, os pes­qui­sa­do­res per­gun­ta­vam a eles o que pas­sa­ria por suas cabe­ças se esti­ves­sem em uma deter­mi­nada situ­a­ção. Por exem­plo, uma das per­gun­tas era: e se você tivesse aca­bado de fazer uma entre­vista de emprego para uma firma de advo­ca­cia e logo em seguida desse de cara com um out­door anun­ci­ando ter­nos e gra­va­tas? O que pas­sa­ria pela sua cabeça? As pes­soas com ten­dên­cia a acre­di­tar no sobre­na­tu­ral res­pon­de­ram que acha­riam que aquilo era um sinal de que con­se­gui­riam a vaga de emprego, enquanto os céti­cos res­pon­de­ram que não acha­riam nada.

Ou, dependendo do terno, que a indústria da moda realmente precisa tirar a cabeça de dentro do fiofó.

Ou, depen­dendo do terno, que a indús­tria da moda real­mente pre­cisa tirar a cabeça de den­tro do fiofó.

O inte­res­sante foi o que os pes­qui­sa­do­res des­co­bri­ram ao ana­li­sar o cére­bro dos par­ti­ci­pan­tes. Basi­ca­mente, quanto mais cética a pes­soa, mais ativa era uma deter­mi­nada região do seu cére­bro (o giro fron­tal infe­rior direito). Quando menos ativa essa região, mais cren­tes os par­ti­ci­pan­tes. E é aí que a coisa fica real­mente intri­gante, por­que, coin­ci­den­te­mente (ou não), essa mesma região do cére­bro é asso­ci­ada com a nossa capa­ci­dade de ini­bi­ção cog­ni­tiva. Ora, por que isso é intri­gante? Por­que ini­bi­ção cog­ni­tiva é a habi­li­dade que a nossa mente tem de frear e ques­ti­o­nar cer­tos pro­ces­sos men­tais. Sabe, pro­ces­sos men­tais como pen­sa­men­tos inde­se­ja­dos, infor­ma­ções irre­le­van­tes e este­reó­ti­pos nega­ti­vos a res­peito de um deter­mi­nado grupo de pes­soas.

Exa­ta­mente. Quanto maior a capa­ci­dade de ini­bi­ção cog­ni­tiva de uma pes­soa, maior faci­li­dade essa pes­soa vai ter de supri­mir este­reó­ti­pos nega­ti­vos que pode­riam levá-la a dis­cri­mi­nar um deter­mi­nado grupo de pes­soas. Da mesma forma, quanto menor essa capa­ci­dade, maior as chan­ces de uma pes­soa ser inca­paz de supe­rar seus pre­con­cei­tos. E de acre­di­tar no sobre­na­tu­ral. Sim, por­que a mesma difi­cul­dade que ela tem de supri­mir nar­ra­ti­vas e este­reó­ti­pos nega­ti­vos sobre algo, ela tam­bém tem para supri­mir pen­sa­men­tos como “isso é um sinal de deus!”.

Para os pes­qui­sa­do­res, o desen­vol­vi­mento da ini­bi­ção cog­ni­tiva ao longo da vida pode expli­car por que algu­mas pes­soas dei­xam de acre­di­tar em deus, mesmo quando cres­ce­ram em ambi­en­tes ultra-reli­gi­o­sos. Para muita gente, expe­ri­ên­cias posi­ti­vas com coi­sas que a reli­gião con­dena pode ser o sufi­ci­ente para desen­ca­dear pro­ces­sos de ques­ti­o­na­mento sem volta. 

Quem nunca conhe­ceu ou ouviu falar do homo­fó­bico que mudou de ideia depois que conhe­ceu homos­se­xu­ais e viu que eles eram pes­soas e não mons­tros das pro­fun­de­zas que que­rem nos levar direto para o inferno? Impos­sí­vel não lem­brar, tam­bém, do filme A Outra His­tó­ria Ame­ri­cana, que conta a his­tó­ria de um supre­ma­cista branco vio­len­tís­simo que aban­dona suas cren­ças racis­tas depois de fazer ami­zade com um homem negro na pri­são. Nes­sas pes­soas, o sucesso em supri­mir um ensi­na­mento ou um este­reó­tipo é capaz de desen­ca­dear um pro­cesso de ques­ti­o­na­mento muito maior que acaba por des­cons­truir qual­quer iden­ti­fi­ca­ção que elas tenham com uma deter­mi­nada crença. 

Pensando nisso, o conselho do Boechat para o Malafaia de ir procurar uma rola talvez tenha sido mais estratégico do que imaginávamos.

Pen­sando nisso, o con­se­lho do Boe­chat para o Mala­faia de ir pro­cu­rar uma rola tal­vez tenha sido mais estra­té­gico do que ima­gi­ná­va­mos.

Mas nem tudo são flo­res. Nosso cére­bro tam­bém é bom em ten­tar man­ter as coi­sas exa­ta­mente do jeito que ele conhece. Mui­tos outros estu­dos com­pro­va­ram que as nos­sas cren­ças pre­e­xis­ten­tes, por mais iló­gi­cas que sejam, são tão pode­ro­sas que são capa­zes de influ­en­ciar as nos­sas opi­niões, mesmo quando novos fatos e des­co­ber­tas são apre­sen­ta­dos.

Basi­ca­mente, nós ten­de­mos a acre­di­tar em infor­ma­ções que con­fir­mam as nos­sas cren­ças e a igno­rar, fazer pouco caso, ou até voci­fe­rar con­tra infor­ma­ções que as desa­fiam. O pro­blema, cha­mado de raci­o­cí­nio moti­vado, pode ser expli­cado pela des­co­berta neu­ro­ci­en­tí­fica de que as nos­sas emo­ções são ati­va­das antes do nosso raci­o­cí­nio, quando somos con­fron­ta­dos com novas pes­soas, situ­a­ções e ideias. A repulsa natu­ral que sen­ti­mos con­tra infor­ma­ções que desa­fiam a nossa visão de mundo, por sua vez, con­ta­mina o nosso raci­o­cí­nio, fazendo com que ao invés de raci­o­ci­nar sobre um deter­mi­nado assunto, nós o raci­o­na­li­ze­mos, bus­cando pen­sa­men­tos e memó­rias fal­sos que refor­cem as nos­sas cren­ças pre­e­xis­ten­tes.

Mesmo assim, há espe­rança. Quer dizer, isso se hou­ver real­mente algum fundo de ver­dade nesse com­po­nente neu­ro­ló­gico que supos­ta­mente influ­en­cia reli­gi­o­si­dade e pre­con­ceito. A ciên­cia ainda está longe de falar com con­vic­ção sobre o que eu estou con­je­tu­rando nesse texto (lem­brando que eu não sou cien­tista, por isso, não leve minhas pala­vras à ferro e fogo). 

Mas falando sério, vai. Não é muito mais recon­for­tante pen­sar que cer­tas pes­soas tem um pequeno mal-fun­ci­o­na­mento neu­ro­ló­gico ao invés de ter que engo­lir o fato de que a sua cre­ti­nice vio­lenta e into­le­rante vem do “sim­ples” fato de elas serem…cretinas?

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