Uma “fraude controlada” é um tipo de experimento psicológico/metodológico/social: trata-se da produção deliberada de eventos ou resultados falsos, com o objetivo de testar a resiliência e a confiabilidade de uma metodologia científica, de um processo cognitivo ou de comunicação.

Ela se distingue da fraude pura e simples porque, enquanto esta última é construída de modo a circum-navegar os mecanismos humanos (senso crítico, bom-senso) e institucionais (revisão, crítica dos pares, controles) de checagem e alerta, a fraude controlada é criada com uma série de características salientes para excitar os mesmos mecanismos – desde que, é claro, eles estejam funcionando adequadamente, ou haja uma intenção honesta de usá-los.

Nos últimos tempos, fraudes controladas passaram a ser um meio relativamente comum usado para revelar fragilidades no processo de comunicação científica – seja a comunicação entre pares, por meio de periódicos especializados, seja a comunicação com o público, por meio do jornalismo. Talvez o caso mais recente tenha sido o protagonizado pelo jornalista John Bohannon, em 2015, quando ele não só conseguiu empurrar para um periódico um artigo de péssima qualidade com uma conclusão absurda – a de que comer chocolate emagrece – como ainda viu o artigo ganhar repercussão na mídia de massa.

Esta não foi a primeira fraude do tipo perpetrada por Bohannon: em 2013, ele havia enviado um artigo de biologia, obviamente imprestável, a centenas de journals que, supostamente, faziam revisão pelos pares, e viu-o ser aceito, acriticamente, diversas vezes. Como o próprio jornalista escreveu na revista Science, “qualquer revisor com mais do que um conhecimento de ensino médio em química e a capacidade de interpretar um gráfico simples deveria ter notado as inadequações do artigo na hora. Os experimentos descritos são tão ruins que o resultado não faz sentido”.

Antes do trabalho de Bohannon neste século, a fraude controlada mais famosa provavelmente foi o Projeto Alfa, conduzido pelo mágico James Randi em 1979. Randi enviou dois jovens ilusionistas a um laboratório de pesquisa parapsicológica.

Durante quase cinco anos, os dois foram levados a sério e considerados paranormais legítimos pelos pesquisadores, que acreditavam estar utilizando controles adequados contra fraude. O projeto só terminou em 1983, com a confissão dos ilusionistas, mas desde 1981 o próprio Randi já vinha alertando publicamente para os controles inadequados e a possibilidade de fraude nos testes realizados.

Uma fraude controlada pouco conhecida, e que antecede o Projeto Alfa, é descrita numa monografia britânica publicada em 2005, Conclusions from Controlled UFO Hoaxes, de David Simpson, que descreve um experimento envolvendo uma série de falsos “discos voadores” – na verdade, balões de gás com lâmpadas e baterias penduradas – lançada no céu de um vilarejo inglês no fim dos anos 60.

Simpson, um dos responsáveis pelas fraudes, descreve alguns efeitos impressionantes, incluindo descrições exageradas e distorcidas dos objetos no céu por ufólogos – alguns acreditavam que as luzes dos “óvnis” (as lâmpadas ligadas a baterias) piscavam em resposta a sinais enviados do solo, ou a seus pensamentos – e a absoluta incapacidade dos mesmos ufólogos em aceitar a confissão, pelo grupo de fraudadores, de que os objetos não passavam de criações terrestres.

Há uma grande controvérsia ética em relação às fraudes controladas, já que elas envolvem mentira e, no limite, a humilhação pública dos envolvidos. Em entrevista para o livro How UFOs Conquered the World: The History of a Modern Myth, Simpson não manifesta nenhuma dúvida quanto à correção de suas ações: os ufólogos enganados por ele estavam fazendo declarações públicas, almejavam à credibilidade pública e eram tratados como fontes confiáveis pela imprensa da época, incluindo a BBC. Nada mais justo que essa presunção de credibilidade e seriedade fosse posta à prova. Confiança não se dá de graça.

O mesmo argumento pode ser aplicado ao Projeto Alfa e ao trabalho mais recente de Bohannon. Em ambos os casos, pistas suficientes foram dadas – o alerta de Randi em 1981, a qualidade sofrível dos falsos artigos – para que as fraudes fossem detectadas por suas próprias vítimas. Também é possível argumentar que esse tipo de “experimento” produz resultados científicos úteis, ao mostrar como a mante humana está pronta para o engano, sempre predisposta a construir narrativas que tornem plausíveis os maiores absurdos, desde que devidamente motivada – seja por vaidade, esperança ou (no caso dos periódicos engabelados) lucro.

Uma segunda questão às vezes levantada é a do impacto de longo prazo dessas fraudes, ainda mais num mundo hipermidiatizado, dado o alcance limitado das revelações e desmentidos. É possível, talvez até provável, que o resultado do “chocolate emagrecedor” de Bohannon ainda seja citado em revistas de dieta como verdadeiro, e que os avistamentos de óvnis provocados pela fraude de Simpson ainda apareçam em parte da literatura ufológica como eventos inexplicados ou, até mesmo, de origem extraterrestre.