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Fraudes controladas: nascemos para ser enganados?

Em Ciência por Carlos OrsiComentário

Uma “fraude con­tro­lada” é um tipo de expe­ri­mento psicológico/metodológico/social: trata-se da pro­du­ção deli­be­rada de even­tos ou resul­ta­dos fal­sos, com o obje­tivo de tes­tar a resi­li­ên­cia e a con­fi­a­bi­li­dade de uma meto­do­lo­gia cien­tí­fica, de um pro­cesso cog­ni­tivo ou de comu­ni­ca­ção.

Ela se dis­tin­gue da fraude pura e sim­ples por­que, enquanto esta última é cons­truída de modo a cir­cum-nave­gar os meca­nis­mos huma­nos (senso crí­tico, bom-senso) e ins­ti­tu­ci­o­nais (revi­são, crí­tica dos pares, con­tro­les) de che­ca­gem e alerta, a fraude con­tro­lada é cri­ada com uma série de carac­te­rís­ti­cas sali­en­tes para exci­tar os mes­mos meca­nis­mos — desde que, é claro, eles este­jam fun­ci­o­nando ade­qua­da­mente, ou haja uma inten­ção honesta de usá-los.

Nos últi­mos tem­pos, frau­des con­tro­la­das pas­sa­ram a ser um meio rela­ti­va­mente comum usado para reve­lar fra­gi­li­da­des no pro­cesso de comu­ni­ca­ção cien­tí­fica — seja a comu­ni­ca­ção entre pares, por meio de perió­di­cos espe­ci­a­li­za­dos, seja a comu­ni­ca­ção com o público, por meio do jor­na­lismo. Tal­vez o caso mais recente tenha sido o pro­ta­go­ni­zado pelo jor­na­lista John Bohan­non, em 2015, quando ele não só con­se­guiu empur­rar para um perió­dico um artigo de pés­sima qua­li­dade com uma con­clu­são absurda — a de que comer cho­co­late ema­grece — como ainda viu o artigo ganhar reper­cus­são na mídia de massa.

Esta não foi a pri­meira fraude do tipo per­pe­trada por Bohan­non: em 2013, ele havia envi­ado um artigo de bio­lo­gia, obvi­a­mente impres­tá­vel, a cen­te­nas de jour­nals que, supos­ta­mente, faziam revi­são pelos pares, e viu-o ser aceito, acri­ti­ca­mente, diver­sas vezes. Como o pró­prio jor­na­lista escre­veu na revista Sci­ence, “qual­quer revi­sor com mais do que um conhe­ci­mento de ensino médio em quí­mica e a capa­ci­dade de inter­pre­tar um grá­fico sim­ples deve­ria ter notado as ina­de­qua­ções do artigo na hora. Os expe­ri­men­tos des­cri­tos são tão ruins que o resul­tado não faz sen­tido”.

Antes do tra­ba­lho de Bohan­non neste século, a fraude con­tro­lada mais famosa pro­va­vel­mente foi o Pro­jeto Alfa, con­du­zido pelo mágico James Randi em 1979. Randi enviou dois jovens ilu­si­o­nis­tas a um labo­ra­tó­rio de pes­quisa parap­si­co­ló­gica.

Durante quase cinco anos, os dois foram leva­dos a sério e con­si­de­ra­dos para­nor­mais legí­ti­mos pelos pes­qui­sa­do­res, que acre­di­ta­vam estar uti­li­zando con­tro­les ade­qua­dos con­tra fraude. O pro­jeto só ter­mi­nou em 1983, com a con­fis­são dos ilu­si­o­nis­tas, mas desde 1981 o pró­prio Randi já vinha aler­tando publi­ca­mente para os con­tro­les ina­de­qua­dos e a pos­si­bi­li­dade de fraude nos tes­tes rea­li­za­dos.

Uma fraude con­tro­lada pouco conhe­cida, e que ante­cede o Pro­jeto Alfa, é des­crita numa mono­gra­fia bri­tâ­nica publi­cada em 2005, Con­clu­si­ons from Con­trol­led UFO Hoa­xes, de David Simp­son, que des­creve um expe­ri­mento envol­vendo uma série de fal­sos “dis­cos voa­do­res” — na ver­dade, balões de gás com lâm­pa­das e bate­rias pen­du­ra­das — lan­çada no céu de um vila­rejo inglês no fim dos anos 60.

Simp­son, um dos res­pon­sá­veis pelas frau­des, des­creve alguns efei­tos impres­si­o­nan­tes, incluindo des­cri­ções exa­ge­ra­das e dis­tor­ci­das dos obje­tos no céu por ufó­lo­gos — alguns acre­di­ta­vam que as luzes dos “óvnis” (as lâm­pa­das liga­das a bate­rias) pis­ca­vam em res­posta a sinais envi­a­dos do solo, ou a seus pen­sa­men­tos — e a abso­luta inca­pa­ci­dade dos mes­mos ufó­lo­gos em acei­tar a con­fis­são, pelo grupo de frau­da­do­res, de que os obje­tos não pas­sa­vam de cri­a­ções ter­res­tres.

Há uma grande con­tro­vér­sia ética em rela­ção às frau­des con­tro­la­das, já que elas envol­vem men­tira e, no limite, a humi­lha­ção pública dos envol­vi­dos. Em entre­vista para o livro How UFOs Con­que­red the World: The His­tory of a Modern Myth, Simp­son não mani­festa nenhuma dúvida quanto à cor­re­ção de suas ações: os ufó­lo­gos enga­na­dos por ele esta­vam fazendo decla­ra­ções públi­cas, alme­ja­vam à cre­di­bi­li­dade pública e eram tra­ta­dos como fon­tes con­fiá­veis pela imprensa da época, incluindo a BBC. Nada mais justo que essa pre­sun­ção de cre­di­bi­li­dade e seri­e­dade fosse posta à prova. Con­fi­ança não se dá de graça.

O mesmo argu­mento pode ser apli­cado ao Pro­jeto Alfa e ao tra­ba­lho mais recente de Bohan­non. Em ambos os casos, pis­tas sufi­ci­en­tes foram dadas — o alerta de Randi em 1981, a qua­li­dade sofrí­vel dos fal­sos arti­gos — para que as frau­des fos­sem detec­ta­das por suas pró­prias víti­mas. Tam­bém é pos­sí­vel argu­men­tar que esse tipo de “expe­ri­mento” pro­duz resul­ta­dos cien­tí­fi­cos úteis, ao mos­trar como a mante humana está pronta para o engano, sem­pre pre­dis­posta a cons­truir nar­ra­ti­vas que tor­nem plau­sí­veis os mai­o­res absur­dos, desde que devi­da­mente moti­vada — seja por vai­dade, espe­rança ou (no caso dos perió­di­cos enga­be­la­dos) lucro.

Uma segunda ques­tão às vezes levan­tada é a do impacto de longo prazo des­sas frau­des, ainda mais num mundo hiper­mi­di­a­ti­zado, dado o alcance limi­tado das reve­la­ções e des­men­ti­dos. É pos­sí­vel, tal­vez até pro­vá­vel, que o resul­tado do “cho­co­late ema­gre­ce­dor” de Bohan­non ainda seja citado em revis­tas de dieta como ver­da­deiro, e que os avis­ta­men­tos de óvnis pro­vo­ca­dos pela fraude de Simp­son ainda apa­re­çam em parte da lite­ra­tura ufo­ló­gica como even­tos inex­pli­ca­dos ou, até mesmo, de ori­gem extra­ter­res­tre.

Carlos Orsi
Carlos Orsi é jornalista, divulgador de ciência e escritor. É autor das obras de não-ficção “O Livro dos Milagres”, “O Livro da Astrologia” e, em parceria com o físico Daniel Bezerra, “Pura Picaretagem”. Foi por duas vezes agraciado com o Prêmio Argos de melhor conto brasileiro de ficção científica, em 2013 e 2015. Seus contos já foram publicados em antologias e revistas nos EUA e no Reino Unido. Atualmente, mantém o blog carlosorsi.blogspot.com e edita a coluna “Telescópio” do Jornal da Unicamp.

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