Em fevereiro de 2014, o chefe das forças armadas, general Enzo Peri, determinou, em ofício encaminhado aos quartéis de toda a nação, que nenhum militar deveria colaborar com as investigações da Comissão Nacional da Verdade acerca de ‘supostos’ crimes praticados durante a ditadura. Estamos em setembro do mesmo ano, e a Comissão deve apresentar relatório final até dezembro. A ordem do general continua valendo.

Qualquer cidadão brasileiro medianamente instruído é capaz de perceber o dilema em que se encontra o governo brasileiro. Em especial, a presidenta (que, até onde se sabe, inclusive sofreu nas mãos dos militares). É tão, mas tão óbvia a necessidade de uma tomada de posição que até a revista Veja, famosa por sua indigência jornalística declarou-se, via editorial, ‘perplexa’.

Como as coisas chegaram a esse ponto? Observemos alguns dados que, em conjunto, proporcionam mais de um motivo para preocupação.

Há pouco mais de um ano, parte substancial da população saiu às ruas para protestar contra ‘tudo que está aí’. Os protestos adentraram o mês de julho e ainda ecoavam em agosto, quando praticamente deixaram de acontecer. Tudo indica que a polarização dos discursos foi essencial para o enfraquecimento de demandas populares, que começaram a ser atribuídas a interesses de direita ou de esquerda.

É claro que as manifestações, por seu ineditismo e espontaneidade, trouxeram insegurança àqueles que temem o ‘novo’, por produtivo que pareça. Entre a incerteza e a zona de conforto do ‘deixar tudo como está’, a história do país, com raras e honrosas exceções, registra que quase sempre optamos pela segunda. Problemas de autoestima à parte, o que fica claro é que somos um povo ordeiro, pacífico, temente às leis e a Deus.

Então, as manifestações não tiveram o alcance nem a sobrevida que poderiam – e deveriam – ter. Foram sufocadas a golpes de infiltração, contra-informação, cassetetes, balas de borracha e buquê de gás lacrimogêneo. A tal polarização entre esquerda e direita (termos que, aliás, andavam sumidos desde os tempos da guerra fria) se manteve e floresceu – mais uma vez – em meio à cordialidade brasileira. Militaristas, reacionários, fascistas, stalinistas, marxistas, anarquistas mostraram a cara, sem pudor, usufruindo de seu inegável direito à expressão.

generalenzoperi
General Enzo Peri determinou que nenhum militar deve colaborar com as investigações da Comissão Nacional da Verdade.

Pois é justamente a liberdade de expressão que torna viável um general emitir uma ordem de silenciamento aos quartéis que coexiste com uma Comissão cuja função é exclusivamente fazê-los falar. Se não houvesse uma parcela significativa da população disposta a apoiar tal atitude, ou seja, sem o recrudescimento e o fortalecimento do pólo conservador, certamente não haveria general se dando ao luxo de dar ordens arbitrárias a seus subordinados. Também não haveria alguém como o Tenente José Conegundes, que, convocado para depor perante a Comissão, rabiscou um ‘se virem’ sem qualquer cerimônia. O recado de Conegundes, na íntegra, diz o seguinte:

“Não vou comparecer. Se virem. Não colaboro com o inimigo”.

Perguntas: de que inimigo, afinal, o tenente está falando? Quem são os inimigos do tenente? O que o general Enzo quer tanto esconder? Será que tudo que já se sabe sobre as atrocidades cometidas durante o regime militar são só uma preliminar? Ou a ordem do general seria apenas uma manobra para chamar a atenção pública e, ao mesmo tempo, demonstrar o poder das forças armadas?

Uma paranoia modesta

A presidenta está num posto superior ao do general. Pode demiti-lo. Há uma grande possibilidade de que os generais tenham adotado a estratégia da ruptura, negando a autoridade legalmente atribuída a quem ocupa o cargo mais alto da hierarquia civil e militar. Se for esse o caso, o quadro geral é o seguinte: eles acham que podem mais que os Poderes Legislativo, Judiciário e Executivo; esse achismo está legitimado por parte da opinião pública, uma boa parcela dos ‘cidadãos de bem’; e o sfumato desse quadro é o fato de que generais e tenentes têm muitas armas. Daquelas que atiram e matam.

No dia 7 de setembro de 2014, uma foto tirada na cidade onde moro e compartilhada no Facebook chamou minha atenção. Tudo nela lembra uma manifestação pró-ditadura, lá nos anos 60. A cor, o tom, a luminosidade, a estética dos registros da época. E não foi tirada nos anos 60. A foto é do mesmo dia 7 de setembro de 2014, domingo, século XXI, Porto Alegre, Brasil.

Essa foto não foi tirada em 1964, mas em 2014, em Porto Alegre, na para da militar do Dia da Independência.
Essa foto não foi tirada em 1964, mas em 2014, em Porto Alegre, na para da militar do Dia da Independência.

O que a foto registra é um grupo de pessoas em uma arquibancada construída para que se possa assistir ao desfile das Forças Armadas, onde são exibidos tanques, caminhões, jipes, bazucas, fuzis e adjacências. Na mesma arquibancada também é possível exercer o direito à liberdade de expressão, como em qualquer espaço ‘público’. O tal grupo, usufruindo desse direito, desfralda grande faixa onde se destaca a frase “Intervenção Militar, Já!”. Há também um cartaz onde se lê “Não ao decreto comunista” e o número de registro do decreto, “8.243”.

Sugiro que o leitor procure saber mais sobre o decreto e tire suas próprias conclusões. Enfim, foi a foto que me levou a escrever estas linhas, pois me lembrou da declaração de um outro general, Ibérico Saint Jean, feita no tempo em que a Argentina era esfolada por um regime militar particularmente violento: “Primeiro mataremos os subversivos, depois seus colaboradores e então os que continuam indiferentes, até, finalmente, matarmos os tímidos”.

Continuo preocupado. Ainda não fiz a mala (sequer decidi o que devo colocar lá). Talvez esteja ficando paranoico. Talvez o motivo seja não saber em que categoria estou, se na de subversivo, de colaborador, de indiferente ou de tímido. De acordo com o ponto de vista, posso estar em todas. Mas pensando nos ‘inimigos’ do tenente e na heterogeneidade dos escolhidos pelo general argentino, não consigo chegar à conclusão sobre quem, afinal, faz parte da ‘pátria’ que os militares defendem.

“Braço forte, mão amiga. Pode confiar”, diz o lema do exército brasileiro. Amiga de quem?

escrito por:

Fabio Pinto

Fabio Pinto gosta de comprar livros usados, de dormir assistindo filmes antigos e de tomar um expresso duplo pra começar a tarde. Além disso, também é professor de literatura e, principalmente, o pai do António.


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