Eu publiquei recentemente uma análise sobre o pensamento político islâmico, incluindo uma entrada de enciclopédia sobre o tema.

Entre outros textos, ao ler o Alcorão, a jurisprudência islâmica (fiqh), a filosofia (falsafa) e a história do mundo pré-moderno de Ibn Khaldun, o Muqaddimah (1377), acabei por enriquecer a minha vida e pensamento.

No entanto, não concordo com a chamada feita por Jay L. Garfield e Bryan W. Van Norden no The New York Times, que sugere que departamentos de filosofia devam diversificar e incorporar imediatamente cursos de filosofia africana, indiana, islâmica, judaica e latino americana em seus currículos.

Pode parecer uma visão muito inclusiva pedir que professores de filosofia ensinem poucos estudiosos asiáticos antigos, como Confúcio e Candrakīrti, junto a diversos homens brancos ocidentais e mortos, como David Hume, Sócrates, Spinoza, Giordano Bruno, Immanuel Kant e outros.

No entanto, essa abordagem mina o diferencial da filosofia enquanto tradição intelectual, e elogia outras tradições, dizendo que são a mesma coisa. Além disso, essa demanda enche de combustível a campanha política para difundir os departamentos de filosofia acadêmica.

A filosofia tem origem na República de Platão, e é uma busca incessante pela verdade através de um diálogo controverso.

O livro é destinado para os seres humanos comuns nas cidades, não para grandes pensadores e discípulos que vivem no topo de montanhas, e requer o uso sem medo da razão, mesmo num mundo repleto de tradições estabelecidas ou de compromissos religiosos.

O livro de Platão é o primeiro texto da filosofia e um ponto de referência para os textos tão diversos como a Política de Aristóteles, a Cidade de Deus de Agostinho, o regime político da Al-Farabi, e o livro do filósofo francês Alain Badiou, a República de Platão (2013).

O filósofo britânico Alfred North Whitehead disse uma vez que a história da filosofia é uma série de notas de rodapé a Platão. Mesmo filósofos que não mencionam Platão diretamente ainda usam suas palavras – incluindo “ideias” – e sua orientação geral para dar prioridade à verdade sobre a piedade.

A filosofia é o amor à sabedoria acima do amor ao seu sangue ou país. É, em princípio, aberta a todos, e as pessoas de todo o mundo atendem ao chamado de Platão para viver uma vida examinada.

Eu estou ciente do argumento, no entanto, de que toda reflexão séria sobre questões fundamentais deva ser chamada de filosofia. A filosofia é uma entre muitas maneiras de pensar sobre questões como a origem do universo, a natureza da justiça ou os limites do conhecimento.

Filosofia, no seu melhor, pretende ser um diálogo entre pessoas de diferentes pontos de vista, mas, mais uma vez, é um amor à sabedoria, ao invés de uma posse da sabedoria. Essa característica particular já tornou muitas vezes que a filosofia fosse o pior inimigo da religião e da tradição.

Considere as perspectivas de Abu Hamid al-Ghazali (1058-1111), uma figura de destaque no pensamento islâmico.

Em Libertação do Erro, al-Ghazali reconta seu tempo lendo Platão, Aristóteles e seus outros leitores ostensivamente muçulmanos. Ele afirma:

“Temos de reconhecer como descrentes tanto os próprios filósofos quanto seus seguidores islâmicos, como Ibn Sina, al-Farabi e outros. Por isso, recomendo que os muçulmanos mantenham o povo comum longe da leitura equivocada desses livros”.

Mesmo que ele tenha argumentos filosóficos, ele não deseja inserir a tradição de falsafa e é amplamente creditado com a tentativa de acabar com essa tradição com livros como A incoerência dos filósofos.

Se alguém quiser estudar o pensamento político islâmico nos séculos depois de al-Ghazali, estudiosos devem estudar principalmente a sua teologia (kalam) e a jurisprudência (fiqh), não a filosofia (falsafa).

Da mesma forma, Confúcio (551-479 aC) pode ser uma leitura válida, mas estaremos forçando demais ao chamá-lo de filósofo. Em Os Analectos,

‘Disse o mestre: “Quando o pai de alguém ainda está vivo, observe suas intenções; depois que seu pai faleceu, observe sua conduta. Se, por três anos, ele não alterar os caminhos instruídos pelo pai, ele pode ser chamado de um filho fiel.”‘

Confúcio apresenta uma doutrina abrangente de uma boa vida que inclui a piedade filial e respeito pelos mais velhos. Por outro lado, nas páginas de abertura da República, Sócrates ridiculariza o velho Confúcio por sua má compreensão do significado da justiça.

A mensagem de Platão é que a filosofia não tem paciência para idosos que gostam das coisas como são e não querem lutar no terreno das ideias. Para o confucionismo, a defesa do pensamento crítico de Platão pode parecer uma receita para conflitos familiares e desarmonia social.

Eu duvido que os departamentos de filosofia sejam o lar natural para os estudiosos da jurisprudência islâmica ou da ética confucionista.

Os departamentos de filosofia apoiam o ensino e pesquisa sobre lógica (as regras do pensamento), a metafísica (o estudo do ser), epistemologia (teoria do conhecimento), a estética (o estudo da arte), ética (a investigação de moralidade pessoal) e política (a busca da justiça).

A filosofia como disciplina acadêmica tem consistência na medida em que tem origem na tradição socrática-platônica.

Deveriam os filósofos conversar com estudiosos de diferentes tradições religiosas e morais? Claro. Mas faz pouco sentido que filósofos tornem-se juristas islâmicos amadores ou que estudiosos do Alcorão estudem filosofia como um pré-requisito para o doutorado.

Para entender por que os limites da filosofia importam, é preciso situar o debate dentro de debates em curso sobre o financiamento do ensino superior.

No ano passado, o senador republicano Marco Rubio disse: “Precisamos de mais soldadores que filósofos”, uma articulação sem corte de um ponto de vista amplamente compartilhado entre contribuintes e formuladores de políticas que procuram razões para eliminar, cortar ou difundir departamentos de filosofia.

Nesse caso o New York Times diz que os departamentos de filosofia são ‘templos de adoração de homens de ascendência europeia’. A implicação é que a filosofia acadêmica é racista, sexista e digna de um falecimento iminente.

Esta será uma boa notícia para os decisores políticos que querem proibir fundos federais de subsidiar o estudo da filosofia, digamos, em faculdades comunitárias e universidades estaduais.

Como alguém que gosta de ler, estudar e, na ocasião, filosofar, eu considero isso uma tragédia. Devemos deixar que departamentos de filosofia evoluam organicamente, permitindo estudiosos de convencerem os outros de que um novo autor, ideia ou tradição vale o envolvimento.

E incentivar as universidades a explorarem maneiras de ampliar seus escopos de pesquisa para aprender sobre outras tradições intelectuais.

Mas exigir que os filósofos tratem al-Ghazali ou Confúcio como um dos seus não é razoável, e fornece munição para as pessoas que estão prontas para banir os filósofos de seu meio.


Artigo traduzido por Rodrigo Zottis e originalmente publicado em Aeon.


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escrito por:

Nicholas Tampio

Professor associado de Ciência Política da Universidade Fordham.