As ideias que efetivamente nos movem são aquelas que se tornam mais que tão somente palavras ou enunciados. Elas impregnam os nossos sentimentos. São vivenciadas. Só por isso sustentam a possibilidade da construção de um sentido maior às nossas existências. Um sentido para além do comum, cujo desejo nasce de um gesto radical: amar a existência a tal ponto que não é mais possível passar por ela sem adentrar aquilo que a torna profundamente significativa. Desejar a vida no maior grau possível de nossas forças: eis o ponto de partida, a fonte que faz do amor o nascedouro da coragem espiritual de perscrutar os limites da linguagem e do conhecimento. Para que faça sentido viver e participar da Vida.

A filosofia, no decorrer da história, tornou-se uma forma de denominar esse desejo. É a única área do saber que contém em sua denominação um sentimento: o amor à sabedoria. Mas não há amor efetivo, nem sequer sabedoria, à parte de um profundo compromisso com a Vida. Tal atitude é inseparável do acolhimento do mistério. Pois basta sentir radicalmente a própria existência para estar em contato com o mistério, com o indizível, com a beleza transbordante do real, e com a Vida da vida. O mistério é simultaneamente fonte e horizonte onde razão, sensibilidade e religiosidade se conjugam no trabalho a cada dia renovado de tornar bela e significativa a existência. Mas não há sentido em ser feliz sozinho. O desejo de felicidade nos move ao encontro do outro. E, com isso, o amor se torna ação.

Em seu profundo silêncio o viver anuncia o mistério da existência. E esse silêncio, em sua infindável novidade, convida-nos a adentrá-lo, a reinaugurá-lo – sempre de formas inesperadas –, o que pode exigir um longo percurso pela palavra até alcançarmos o ponto em os significados não se encontram mais nas palavras, embora sejam disponibilizados por elas. A filosofia é ato de amor que quer atingir, por via da linguagem, aquilo que se põe à base da significação de todo dizer, e é em si indizível. O filosofar pode ser então concebido como o percurso no qual a palavra dispõe o inefável e o inefável repõe a palavra, agora como criação. E a religiosidade como o ato pelo qual o inefável fala por si só. Eis um caminho para a educação da vontade, da liberdade, da razão, e da nossa humanidade. Um percurso no qual a unidade entre fé e razão nos informa acerca da nossa condição humana, pois apenas assim se tornam humanas as ideias. Fé e razão estão em contínuo diálogo. Contemplação e ação fazem contraponto na construção de sentido. Conhecimento e gratidão se conjugam no amor e na conduta orientada pela compaixão.

Em busca da Vida da vida cabe a cada um a escuta da pertença que o mistério das nossas existências anuncia. Pois o mistério é uma resposta. Uma resposta infinita, e que ecoa do silêncio, tecida de uma beleza tal que requer, que exige a partilha para ser efetivamente vivida. E é possível sentir essa resposta na própria existência. É possível também refletir sobre ela. Para reinaugurar o viver a cada dia, a cada momento, em cada gesto e pensamento.

Não há como separar o amor à Vida do amor a cada vida. E não há como separar o conhecimento do mundo da finalidade humana desse conhecimento. Sendo assim, o conhecimento do conhecimento, enquanto reflexão sobre a finalidade humana do conhecimento, não poderia ter outra origem que a nossa própria condição. Mas essa condição é a de nos sabermos imersos no mistério. Este é um saber profundamente humano. A fé que nos move e mantém. E a razão que torna possível, ainda hoje e amanhã, renovar o sentido.

Conhecer se torna então indissociável do compromisso a que cada um foi conduzido por amar a tal ponto a existência. Pois o desejo de conhecer se torna um com o desejo de aumentar-se em sua potência de amar e agir. De amar para agir e de agir por amor. E encontrar-se ao dar a sua própria existência de presente a mais alguém, à humanidade, fazendo jus ao presente imenso de estar aqui, neste planeta, participando da Vida.


Nota do editor: Na foto de capa deste artigo, parte da obra Philosopher in Meditation (“filósofo meditando”), de Rembrandt, disposta no Museu do Louvre. Vale refletirmos também sobre o dito acerca da obra, por Aldous Huxley, em seu livro The Doors of Perception and Heaven and Hell”, pertinente ao conteúdo do artigo:

“Paira no Louvre a meditação de um filósofo, cuja simbologia é nada mais nada menos do que a mente humana, com suas trevas apinhadas, com seus momentos de iluminações e visões intelectuais, com suas escadarias misteriosas e sinuosas indo de baixo para cima em direção ao desconhecido.”


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Sérgio Sardi
Professor de Filosofia na PUCRS. Atua com Metodologia de Ensino Filosófico, Filosofia da Linguagem e Metafísica, bem como com Filosofia com Crianças. É idealizador das notáveis Olimpíada de Filosofia com Crianças e Olimpíada de Filosofia do Rio Grande do Sul, as quais já estão se espalhando pelo Brasil e o mundo.