A filosofia como educação espiritual

A filosofia como educação espiritual

Em Consciência, Filosofia por Sérgio SardiComentário

As ideias que efe­ti­va­mente nos movem são aque­las que se tor­nam mais que tão somente pala­vras ou enun­ci­a­dos. Elas impreg­nam os nos­sos sen­ti­men­tos. São viven­ci­a­das. Só por isso sus­ten­tam a pos­si­bi­li­dade da cons­tru­ção de um sen­tido maior às nos­sas exis­tên­cias. Um sen­tido para além do comum, cujo desejo nasce de um gesto radi­cal: amar a exis­tên­cia a tal ponto que não é mais pos­sí­vel pas­sar por ela sem aden­trar aquilo que a torna pro­fun­da­mente sig­ni­fi­ca­tiva. Dese­jar a vida no maior grau pos­sí­vel de nos­sas for­ças: eis o ponto de par­tida, a fonte que faz do amor o nas­ce­douro da cora­gem espi­ri­tual de pers­cru­tar os limi­tes da lin­gua­gem e do conhe­ci­mento. Para que faça sen­tido viver e par­ti­ci­par da Vida.

A filo­so­fia, no decor­rer da his­tó­ria, tor­nou-se uma forma de deno­mi­nar esse desejo. É a única área do saber que con­tém em sua deno­mi­na­ção um sen­ti­mento: o amor à sabe­do­ria. Mas não há amor efe­tivo, nem sequer sabe­do­ria, à parte de um pro­fundo com­pro­misso com a Vida. Tal ati­tude é inse­pa­rá­vel do aco­lhi­mento do mis­té­rio. Pois basta sen­tir radi­cal­mente a pró­pria exis­tên­cia para estar em con­tato com o mis­té­rio, com o indi­zí­vel, com a beleza trans­bor­dante do real, e com a Vida da vida. O mis­té­rio é simul­ta­ne­a­mente fonte e hori­zonte onde razão, sen­si­bi­li­dade e reli­gi­o­si­dade se con­ju­gam no tra­ba­lho a cada dia reno­vado de tor­nar bela e sig­ni­fi­ca­tiva a exis­tên­cia. Mas não há sen­tido em ser feliz sozi­nho. O desejo de feli­ci­dade nos move ao encon­tro do outro. E, com isso, o amor se torna ação.

Em seu pro­fundo silên­cio o viver anun­cia o mis­té­rio da exis­tên­cia. E esse silên­cio, em sua infin­dá­vel novi­dade, con­vida-nos a aden­trá-lo, a rei­nau­gurá-lo – sem­pre de for­mas ines­pe­ra­das –, o que pode exi­gir um longo per­curso pela pala­vra até alcan­çar­mos o ponto em os sig­ni­fi­ca­dos não se encon­tram mais nas pala­vras, embora sejam dis­po­ni­bi­li­za­dos por elas. A filo­so­fia é ato de amor que quer atin­gir, por via da lin­gua­gem, aquilo que se põe à base da sig­ni­fi­ca­ção de todo dizer, e é em si indi­zí­vel. O filo­so­far pode ser então con­ce­bido como o per­curso no qual a pala­vra dis­põe o ine­fá­vel e o ine­fá­vel repõe a pala­vra, agora como cri­a­ção. E a reli­gi­o­si­dade como o ato pelo qual o ine­fá­vel fala por si só. Eis um cami­nho para a edu­ca­ção da von­tade, da liber­dade, da razão, e da nossa huma­ni­dade. Um per­curso no qual a uni­dade entre fé e razão nos informa acerca da nossa con­di­ção humana, pois ape­nas assim se tor­nam huma­nas as ideias. Fé e razão estão em con­tí­nuo diá­logo. Con­tem­pla­ção e ação fazem con­tra­ponto na cons­tru­ção de sen­tido. Conhe­ci­mento e gra­ti­dão se con­ju­gam no amor e na con­duta ori­en­tada pela com­pai­xão.

Em busca da Vida da vida cabe a cada um a escuta da per­tença que o mis­té­rio das nos­sas exis­tên­cias anun­cia. Pois o mis­té­rio é uma res­posta. Uma res­posta infi­nita, e que ecoa do silên­cio, tecida de uma beleza tal que requer, que exige a par­ti­lha para ser efe­ti­va­mente vivida. E é pos­sí­vel sen­tir essa res­posta na pró­pria exis­tên­cia. É pos­sí­vel tam­bém refle­tir sobre ela. Para rei­nau­gu­rar o viver a cada dia, a cada momento, em cada gesto e pen­sa­mento.

Não há como sepa­rar o amor à Vida do amor a cada vida. E não há como sepa­rar o conhe­ci­mento do mundo da fina­li­dade humana desse conhe­ci­mento. Sendo assim, o conhe­ci­mento do conhe­ci­mento, enquanto refle­xão sobre a fina­li­dade humana do conhe­ci­mento, não pode­ria ter outra ori­gem que a nossa pró­pria con­di­ção. Mas essa con­di­ção é a de nos saber­mos imer­sos no mis­té­rio. Este é um saber pro­fun­da­mente humano. A fé que nos move e man­tém. E a razão que torna pos­sí­vel, ainda hoje e ama­nhã, reno­var o sen­tido.

Conhe­cer se torna então indis­so­ciá­vel do com­pro­misso a que cada um foi con­du­zido por amar a tal ponto a exis­tên­cia. Pois o desejo de conhe­cer se torna um com o desejo de aumen­tar-se em sua potên­cia de amar e agir. De amar para agir e de agir por amor. E encon­trar-se ao dar a sua pró­pria exis­tên­cia de pre­sente a mais alguém, à huma­ni­dade, fazendo jus ao pre­sente imenso de estar aqui, neste pla­neta, par­ti­ci­pando da Vida.


Nota do edi­tor: Na foto de capa deste artigo, parte da obra Phi­lo­sopher in Medi­ta­tion (“filó­sofo medi­tando”), de Rem­brandt, dis­posta no Museu do Lou­vre. Vale refle­tir­mos tam­bém sobre o dito acerca da obra, por Aldous Hux­ley, em seu livro The Doors of Per­cep­tion and Hea­ven and Hell”, per­ti­nente ao con­teúdo do artigo:

Paira no Lou­vre a medi­ta­ção de um filó­sofo, cuja sim­bo­lo­gia é nada mais nada menos do que a mente humana, com suas tre­vas api­nha­das, com seus momen­tos de ilu­mi­na­ções e visões inte­lec­tu­ais, com suas esca­da­rias mis­te­ri­o­sas e sinu­o­sas indo de baixo para cima em dire­ção ao des­co­nhe­cido.”


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Sérgio Sardi
Professor de Filosofia na PUCRS. Atua com Metodologia de Ensino Filosófico, Filosofia da Linguagem e Metafísica, bem como com Filosofia com Crianças. É idealizador das notáveis Olimpíada de Filosofia com Crianças e Olimpíada de Filosofia do Rio Grande do Sul, as quais já estão se espalhando pelo Brasil e o mundo.

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