[Nota do editor: o site Ano Zero não se responsabiliza pelas opiniões deste autor, suas ideias e crenças não correspondem necessariamente às de seus editores.]

A FILOSOFIA DA VIAGEM NO TEMPO

PARTE UM: O INIMIGO QUE NOS TEM ATACADO

Isto não é um tratado acadêmico. Não é escrito por amor ao conhecimento. Isto é um alerta e um guia prático para fuga. Mas o alerta só vai ser entendido, e a rota de fuga só será percebida se mostrarmos a prisão, as correntes e os cadeados até agora não percebidos pelo prisioneiro.

Estamos sendo atacados. E todos nos encontramos num momento decisivo de nossas vidas e da história humana. Quem nos ataca se esconde por trás de nossa ignorância, pois está confiante de que ela é como uma tranca segura, invencível, da prisão em que nos mantém.

E nisso os nossos adversários têm razão. A ignorância que aprisiona é quase invencível pois é parte de quem somos. Para destrancar tal fechadura, precisamos fazer algo quase impossível: abrir os olhos para verdades pouco convenientes sobre nossa identidade a fim de vencer a ignorância. Não devemos subestimar o desafio, não devemos menosprezar a capacidade que a verdade tem de nos perturbar.

Para entender a natureza da ameaça e da situação de alerta em que estamos, precisamos antes compreender a natureza da própria realidade e da condição humana.

Esta não é uma história religiosa, nada há aqui de místico ou mítico, o que significa que muitas das verdades apresentadas não correspondem às expectativas e nobres aspirações que temos a nosso respeito. Ao contrário, a percepção distorcida que temos sobre nós compõe a ignorância que torna segura uma prisão composta de ilusões.

Por exemplo, somos primatas, animais que andavam em seu caminho evolutivo mergulhados em um sonho conveniente, até tropeçarmos em algo inominável. A partir desse encontro, começamos a despertar e compreender a natureza da ameaça que nos ronda.

O tropeço ocorreu em 1801, e o responsável é um médico britânico de nome Thomas Young. Portanto, o ano de 1801 pode ser considerado o marco inicial da etapa em que nos encontramos hoje. Foi  naquele momento em que a ciência, pela primeira vez, levantou o véu e olhou para dentro da realidade, abriu as persianas da janela para observarmos finalmente quão desconcertante é o mundo em que vivemos.

O que Thomas Young fez foi simples. Ele acendeu uma luz atrás de duas fendas e observou a projeção na parede do outro lado. E isso foi o que viu:

Não deixa de ser irônico que tenha sido o exame da luz o evento que nos fez despertar.

O universo enquanto tempo

Thomas Young foi um prodígio do século dezenove. Ele propôs inovações em áreas diversas do conhecimento humano, como medicina, linguística, egiptologia, física e música. Apesar de sua inteligência, jamais desconfiou das implicações do experimento que realizou em seu laboratório. Na verdade, pouca gente as admite até hoje.

O experimento tornou-se célebre e perturbou mesmo Einstein, que tentou em 1935 refutar suas conclusões, tidas por muitos físicos como inatacáveis. Conhecido como Experiência das duas fendas, em sua versão moderna trata-se de jogar um fóton ou elétron entre duas fendas e, ao invés de descobrir do outro lado qual caminho ele escolheu seguir, observar que ele escolheu os dois caminhos ao mesmo tempo – ele comportou-se como uma onda.

Thomas Young

Um objeto fundamental é duas coisas incompatíveis ao mesmo tempo, partícula e onda. Mais ainda, quando se comporta como onda, diferente das ondas do mar ou do som, ele não se propaga em um meio tangível – ele é uma onda de probabilidade. Mas probabilidade de que? De a partícula estar em um específico lugar.

Mais ainda, o elétron parece “prever” com muita antecedência como se comportará o pesquisador no laboratório. O físico John Wheller demonstrou e posteriormente nova experiência confirmou que mesmo se um fóton tiver vindo de uma estrela a dezenas de anos-luz da Terra, ele se antecipará desde o início aos pesquisadores e se comportará de antemão conforme o aparato que eles tiverem montado em seus laboratórios: se será uma partícula ou uma onda de probabilidade.

O mesmo experimento que confirmou a teoria de Wheller demonstrou que isso é verdade mesmo para um átomo. Na verdade, o modelo matemático descritivo da experiência, desenvolvido pelo físico Erwin Schrödinger, determina que isso é válido não só para átomos e moléculas, mas também para estruturas maiores como o corpo humano e os corpos celestes. E foi pensando nesse mundo composto por partículas de probabilidade que surgiu o famoso gato de Schrödinger, vivo e morto realmente ao mesmo tempo, assim como a matéria parece estar e não estar em determinado lugar até que o pesquisador abra a caixa e o gato, desde o início prevendo a ação do pesquisador, defina inclusive o seu passado de vida ou de morte a partir da ação presente de quem lhe observa.

Aquilo que é chamado Princípio da Incerteza revelou-se inerente à natureza da realidade, a posição de uma partícula e seu momentum não podem ser simultaneamente aferidos pois parece que o observador influencia o comportamento da partícula: o caminho que ela irá seguir. Essa definição da probabilidade concretizando-se em uma só posição é chamada de “colapso”.

Isso parece ser contraintuitivo e anticientífico, pois sugere que a mente humana influencia o mundo ao nosso redor. Essa interpretação sugerida nos deixa lisonjeados, pois corresponde a elevada opinião que temos a nosso respeito. Ela nos seduz e induz ao erro pois corresponde a mais insidiosa espécie de ignorância que precisamos eliminar para nos libertar, a ignorância que advém da vaidade humana.

Na verdade, a resposta é muito mais simples que supor um sofisticado poder mental dos seres humanos em moldar conscientemente a realidade com a mera e ridícula vontade de nossos egos. Porém, ela é pouco elogiosa. Na verdade, a resposta pode ser considerada perturbadora.

Na próxima parte iremos abordar a explicação simples e elegante de como as partículas que compõem nosso corpo e tudo o que nos cerca podem estar aqui e ali ao mesmo tempo, como a matéria se dilui em uma nuvem de probabilidades sem que o chão não se abra sob nossos pés. É uma resposta estritamente científica e matematicamente rigorosa.

Por hora, administrando desde já o susto, basta dizer que no final da próxima parte você compreenderá que cada um de nós é como uma só corrente de suaves e numerosas (na verdade, um continuum) transições de versões de nós mesmos, como se fôssemos uma onda de probabilidade que segue adiante em todas as direções do mar que é o tempo. E esse mar também é povoado por corais, colônias de inteligências indiferenciadas e coletivas, que podem romper o caminho suave das ondas com violência, pois nos percebem a partir de um contexto maior, mais amplo, em que todas as nossas versões coexistentes são reveladas.

É tudo uma questão de perspectiva.

  • Neder Diogo Junior

    Cara… Acho que tem uma mensagem interessante nesse texto. Mas eu não entendi nada.