Hoje, tive um súbito aumento de pressão arterial após uma discussão no Facebook. Comentei um post e levei uma enxurrada hatter logo em seguida. Fugi. Aquilo me deixou mal e comecei a pensar no simplificação exagerada das frases desferidas, seu potencial ofensivo e vazio ao mesmo tempo.

Essa invasão do diálogo, nem sempre produtivo, no meu cotidiano ativou uma leitura que, casualmente, estou retomando: “A construção social do cotidiano”, de Henry Lefebvre. No livro,  através de sua lógica dialética, o autor defende que o capitalismo só é possível, em sua expansão irrefreável de consumo, devido à urbanização e ao surgimento das metrópoles do século XX. Só toleramos viver nesse subsistema porque nossa experiência é baseada na cotidianidade. Existir desavisadamente, com a impressão de fluência é o que confere sentido à vida. No entanto, o cotidiano é socialmente produzido e governado pela tecnocracia (que está sempre a serviço de se realizar em acumulação).

O interessante é que, nesse torniquete, quanto mais complexo se torna o aparato burocrático e a tecnocracia na administração da vida, mais simplificado se torna nossa cotidiano. É como se a sociedade andasse por si, sem intervenções.

Esse projeto, finalizado nos anos 1960, nunca esteve tão atual. No reino do algoritmo e da conectividade total (ultra-especialização tecnocrática), o imperativo do simples instalou-se para ficar. Do homebanking aos emojis, parece que não há mais tempo para intervir na máquina de acumular dias. Por mais que se dissemine o slow food, o slow life, o nadismo, o ócio criativo, estamos presos na armadilha do simples, como patinhos.

Basta a reforma tributária, basta a reforma política, basta a reforma da previdência, basta um bom gestor, basta não intervir no capital, basta regular o capital, basta acabar com o politicamente correto, que a vida volta à normalidade. O cotidiano volta a fluir. Se esse é corrupto, tira ele, bota aquele, se aquele também é, chama o outro. O problema é o político, o problema é o empresário, o problema é o caixa dois, o problema é a burocracia, o problema é a liberdade.

Problemas difíceis de abordar como a sustentabilidade ambiental, a orientação de gênero, as crises do capitalismo global, o aumento do ódio e da xenofobia no mundo, resolvem-se com um ou dois comentários de timeline. Ou com o canetaço da democracia, das promessas de campanha, com o termômetro da aprovação popular.

A pergunta é: o que está por trás do termômetro? o que significa “aprovação popular”? quais são as bases presentes no projeto em questão? quais são as justificativas para essa ou aquela medida? decisão baseada em quê?

Na maioria das discussões, usaremos as velhas armas retóricas (como eu estou usando agora, talvez) para embasar nossa opinião e convicção íntima, micropolítica, quase afetiva (um pai que carregava a bandeira numa campanha política, um tio ativista, um jingle bacaníssimo que nos pegou quase no berço). É isso mesmo?

Voltando ao Lefebvre, para sair desse sistema de álibis, o cotidiano como duplo dialético da modernidade, seria necessária uma filosofia prática, uma filosofia capaz de desconstruir a falência dos argumentos prontos, capaz de mostrar o quanto da cotidianidade se perfaz na realização pura da tecnocracia; a reprodução de uma sociedade de autômatos.

Para ele, não há filosofia fora da vida real, e se a realidade é o cotidiano, a ciência e a filosofia precisam desvendá-lo, misturar-se nele, reinventarem-se a partir dele.

Crítico das experiências socialistas do pós-guerra, essa aposta baseava-se no rompimento com a lógica formal binária, na qual o fim (ou objetivo de um projeto) é um vislumbre anterior, onde fabricam-se meios abstratos para alcançá-lo. Não há como uma racionalidade maior, superior, fora do campo polêmico do cotidiano, indicar caminhos, pois seria uma ideologia a mais, desvinculada e formal.

Se há algum caminho, é uma chama bruxuleante que nascerá desses microcosmos da interface, entre um emoji e um textão. Teremos que dar um jeito. Talvez, seja por isso que entrei naquela briga, talvez esse texto seja somente para justificar tal atitude, talvez Lefebvre estivesse errado em ser tão otimista a respeito de sua própria aposta na humanidade. Talvez o cotidiano não seja tão onipresente, nem a sociedade de consumo tão poderosa assim. Talvez.

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