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Filosofar: em busca dos mistérios e do sentido da vida

Em Consciência por Sérgio SardiComentário

A per­ple­xi­dade e a admi­ra­ção são um con­vite ao diá­logo. O diá­logo, fun­da­men­tal para o filo­so­far, tece a forma com que cada um se rela­ci­ona com sua exis­tên­cia e cres­ci­mento. Desta forma, esta­mos nos con­fron­tando sem­pre com nossa vida e com nos­sos mis­té­rios.

Exis­tir, por si só, é algo mis­te­ri­oso…  Afi­nal, quem somos nós? Qual o sen­tido das nos­sas vidas? O que sig­ni­fica dizer que somos livres? E até que ponto pode­mos conhe­cer a rea­li­dade? Eis, aqui, a nossa pró­pria exis­tên­cia em ques­tão. Pois tais inter­ro­ga­ções, den­tre tan­tas outras, inci­dem sobre a com­pre­en­são que pos­sa­mos ter das nos­sas vidas, como das nos­sas rela­ções com os outros, e afe­tam a nossa visão do mundo, se para­mos para pen­sar…

Faz per­gun­tas quem ques­ti­ona a pre­tensa obvi­e­dade das coi­sas. Para tanto, pre­ci­sa­mos saber que não sabe­mos algo. E isso nos põe em con­di­ções de apren­der. Pois o “óbvio” não será ape­nas aquilo em que para­mos de pen­sar, ou repe­ti­mos sem pen­sar?

Afinal, quem somos nós?
Qual o sentido das nossas vidas?
O que significa dizer que somos livres?

Por isso, den­tre outras razões, o filó­sofo é amigo da sabe­do­ria. E aquele que é amigo, que ama a sabe­do­ria, sabe que a cada encon­tro de uma ideia surge um novo ponto de par­tida, e que ela não está nunca aca­bada. A filo­so­fia, desde as suas ori­gens, na Gré­cia Antiga, requer uma muta­ção do olhar e de nos­sas rela­ções com a vida e com o conhe­ci­mento. Nesse caso, será pre­ciso exer­ci­tar um certo estra­nha­mento frente à rea­li­dade, desde as coi­sas mais sim­ples ou apa­ren­te­mente já sabi­das. Há, aqui, uma ati­tude, onde o pen­sar é desa­fi­ado a ir além de si mesmo. Ante essa ati­tude, que assume a pró­pria per­ple­xi­dade e admi­ra­ção como ponto de par­tida, a filo­so­fia é um con­vite ao diá­logo.

Dia­lo­gar envolve um apren­di­zado de escuta do outro e, dada essa con­di­ção, a coo­pe­ra­ção em uma cons­tru­ção con­junta do conhe­ci­mento. Em um diá­logo não dis­pu­ta­mos ideias, mas, em soli­da­ri­e­dade inves­ti­ga­tiva, acom­pa­nha­mos o raci­o­cí­nio do nosso inter­lo­cu­tor, tes­tando hipó­te­ses, obser­vando con­tra­di­ções, cons­truindo novas for­mas de ver e de abor­dar um tema, conhe­cendo o nosso pró­prio pro­cesso de conhe­cer. Mais que isso, dia­lo­gar é ouvir tam­bém o silên­cio das vivên­cias que impreg­nam as ideias e as inter­ro­ga­ções do outro, para que pos­sa­mos par­ti­lhar um cami­nho.

O filosofar tece a forma como cada um de nós se relaciona com a sua existência e com o seu crescimento.

O filo­so­far tece, assim, a forma como cada um de nós se rela­ci­ona com a sua exis­tên­cia e com o seu cres­ci­mento. Surge assim um con­vite a pen­sar naquilo que é, ainda, não-pen­sado, a ir ao encon­tro dos nos­sos pró­prios limi­tes, con­di­ção de sua supe­ra­ção. Esse con­vite em dire­ção ao alar­ga­mento de nos­sos hori­zon­tes de sen­tido põe em jogo as nos­sas rela­ções com os outros, com nós mes­mos, com o meio ambi­ente e com o conhe­ci­mento. O cami­nho, porém, é duplo e um tra­ba­lho inte­rior inte­rage com as rela­ções edu­ca­ti­vas que man­te­mos com os demais. Pois na jor­nada de nos­sas vidas, faze­mos simul­ta­ne­a­mente sós e acom­pa­nha­dos, quando con­ju­ga­mos a aven­tura de ser eu com essa outra, a de ser­mos tam­bém nós, na gra­da­tiva des­co­berta e inven­ção do sen­tido de nossa con­di­ção humana.

Se nos dis­po­mos a bus­car o sen­tido de nos­sas vidas, não deve­re­mos tocar, de algum modo, em seus mis­té­rios? E isso não poderá tor­nar a vida ainda mais inte­res­sante?


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Sérgio Sardi
Professor de Filosofia na PUCRS. Atua com Metodologia de Ensino Filosófico, Filosofia da Linguagem e Metafísica, bem como com Filosofia com Crianças. É idealizador das notáveis Olimpíada de Filosofia com Crianças e Olimpíada de Filosofia do Rio Grande do Sul, as quais já estão se espalhando pelo Brasil e o mundo.

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