Quando o Muro de Berlim caiu, muitos documentos foram perdidos (desclassificados), e muitas das “maracutaias” do bloco soviético foram descobertas. Com a morte de Fidel Castro e a abertura de Cuba ao mundo, talvez possamos ter esperança de que um dia o regime cubano abra seus arquivos (se existirem) e nos deixe saber a verdade sobre o caso Ochoa. Claro, primeiro teria que morrer Raul Castro, porque ele próprio foi um dos principais protagonistas desses eventos infames.

Dado o gosto que existe atualmente por séries de TV sobre narcotraficantes em toda a América Latina e nos EUA, fico surpreso que o caso Ochoa ainda não tenha sido levado à televisão. O caso tem de tudo: drogas, sexo, amor, guerra, violência e espionagem.

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Após a morte de Fidel, tenho visto alguns documentários e li alguns livros sobre o assunto. Obviamente, os fidelistas ficam aterrorizados com o assunto, e tentam evitá-lo a todo custo. Mas, pelo que eu saiba, não há livros ou documentários que contam a história de forma que seja simpática à figura de Fidel.

Além disso, infelizmente, a maioria dos livros sobre o assunto são adeptos de teorias conspiratórias e demasiado rápidos em demonizar Fidel.

A narrativa mais equilibrada e detalhada, penso eu, é a que Andrés Oppenheimer apresenta em seu livro “A hora final de Castro” de 1993. O título dá a impressão de que Oppenheimer estava muito errado, pois, em 1993, ainda estávamos muito longe do fim da história de Fidel. Mas o mesmo Oppenheimer advertiu no livro que ele não tinha a intenção de ser um profeta, mas simplesmente narrar a crise que começou a afetar Cuba. Assim, o primeiro terço do livro é uma narrativa bem documentada e equilibrada sobre como os eventos ocorreram em torno do caso Ochoa.

Vou tentar resumir quase duas centenas de páginas de intriga brilhantemente narradas por Oppenheimer.

Reinaldo Ruiz, um exilado cubano no Panamá, descobriu que tinha um primo distante na administração cubana, Miguel Ruiz Poo. Ruiz fez com que seu primo usasse Cuba como base para o transporte de cocaína da Colômbia para Miami. Ruiz Poo teve que consultar seus superiores na hierarquia do narcotráfico, mas depois de receber a aprovação, o plano foi implementado.

E assim realizaram as primeiras operações. Mesmo antes já havia operações em que o uso do espaço aéreo cubano era permitido aos narcotraficantes. Em troca, se pedia que os mesmos levassem armas para a guerrilha na Colômbia e América Central. Mas, aparentemente, o alto comando cubano sempre quis ser cauteloso de que a droga não passasse pelo próprio território cubano.

Cuba, no entanto, começara a deixar de receber subsídios soviéticos a partir da Perestroika. Então, teve que procurar desesperadamente por novas formas de financiamento. E assim surgiu o departamento de “Moeda Conversível”, o MC. A intenção era fazer negócios com os próprios exilados de Miami, de modo que eles transportassem equipamentos eletrônicos para Cuba utilizando suas lanchas, bem como realizar operações no exterior que também burlassem o embargo comercial imposto pelos EUA.

E foi assim por um tempo. Mas o alto comando do MC, com Tony de La Guardia como cabeça, percebeu que era um negócio mais rentável fazer os donos das lanchas transportarem drogas aos EUA.

La Guardia era aparentemente corruptível, apreciava a boa vida em Havana e ficou com boa fatia desse negócio sujo. Mas tanto ele quanto seu irmão gêmeo, Patrick, também queriam reformas em Cuba. E assim, tendo em conta que o regime não cedeu à Perestroika, pragmaticamente concluíram que o tráfico de drogas seria uma opção viável para lidar com tempos difíceis que estavam por vir.

O general cubano Arnaldo Ochoa, porém, não era um tipo corruptível. Ostentava o título de Herói da Revolução, e tinha uma ilustre carreira como combatente em Angola. Fidel pretendia comandar essa guerra permanecendo em Cuba, mas Ochoa, no campo de batalha, desobedeceu muitas ordens, o que se revelou, no fim, militarmente eficaz. Ochoa, que havia ganho o respeito de suas tropas, via com preocupação a precária condição de Cuba e o abandono dos veteranos de guerra, e assim se envolveu com o tráfico de diamantes e marfim na África, mas nunca com drogas. Seus lucros seriam destinados à revolução, e com efeito Ochoa levava em Cuba uma vida bastante austera.

O general Ochoa com Fidel Castro.
O general Ochoa com Fidel Castro.

Como os gêmeos De La Guardia, Ochoa queria reformas. Mas era muito mais ousado em vociferar críticas a Fidel Castro. Fidel, como sempre foi seu costume, montou vigilância e colocou microfones secretos no gabinete de Ochoa, e pôde escutar suas opiniões sobre a necessidade de reformas em Cuba. Sem disposição para tolerar a indisciplina de Ochoa, prendeu-o (junto com os gêmeos De La Guardia e outros), acusando-o de crimes relacionados ao narcotráfico (acusou Ochoa de enviar um emissário para estabelecer relações com Pablo Escobar).

Fidel matou, assim, dois coelhos com uma só paulada: se livrava de um possível dissidente e salvava sua reputação ante às ameaças da inteligência norte-americana de revelar fatos que vinculavam o regime castrista ao narcotráfico.

O julgamento dos acusados foi brutal. Foi transmitido pela televisão, mas em versões editadas, de tal forma que não sabemos a totalidade das coisas que foram ditas. Apesar da edição, houve algumas cenas estranhas.

Por exemplo, Ruiz Poo, tremendo e chorando, começou a dizer, em meio a incoerências, que as ordens a respeito das operações do narcotráfico vinham diretamente de Fidel. O fiscal Juan Escalona (um homem impiedoso e sempre zeloso em elogiar a revolução e levar ao paredão os acusados) interrompeu Ruiz Poo, e exigiu que os médicos o atendessem. No dia seguinte, Ruiz Poo, já recuperado, retomou seu testemunho, mas dessa vez disse que Fidel não tinha absolutamente nada a ver com as operações do narcotráfico.

Os advogados não fizeram o menor esforço para defender os acusados. Todos terminaram confessando seus crimes. Mas vale lembrar que, nos julgamentos stalinistas da década de 1930, os acusados também confessavam crimes que não haviam cometido.

Além disso, essas confissões em Cuba não foram todas claras. Os acusados afirmavam que haviam traído a revolução (Ochoa admitiu que merecia morrer), mas não entravam em detalhes sobre no que consistiam seus crimes. Fidel mesmo foi visitar Tony De La Guardia na prisão, prometendo-lhe que, caso confessasse, a pena não seria rigorosa. Presumivelmente, fez a mesma oferta a Ochoa. Claro que tal promessa não se cumpriu, e no fim tanto Tony De la Guardia como Ochoa foram fuzilados.

Os irmãos De La Guardia durante o julgamento televisionado.
Os irmãos De La Guardia durante o julgamento televisionado.

Na narrativa de Oppenheimer, também chama atenção a cumplicidade de Gabriel García Márquez, que tinha sua própria mansão em Havana. A filha de Tony De La Guardia, Ileana, desesperadamente foi suplicar a ele que interviesse com Fidel pedindo clemência. Os testemunhos se contradizem um pouco, mas há relatos que afirmam que Gabriel García Márquez não se esmerou muito em atender esse pedido.

Em toda essa história, há duas perguntas fundamentais: Ochoa era culpado (não há dúvida de que os irmãos De La Guardia eram)? O quanto Fidel era cúmplice? Oppenheimer não oferece respostas contundentes. Em seu relato, deixa entender que sim, Ochoa havia participado das operações, ainda que só inicialmente. Não se envolveu totalmente com o narcotráfico, mas só enviou emissários para estabelecer os primeiros contatos. Mas, em todo caso, não o fez para enriquecer a si mesmo, e em seu contexto, suas ações eram naturais, pois parecia que tudo aquilo era autorizado e inclusive estimulado pelo próprio regime.

E Fidel? O comandante sempre tomou a precaução de não sujar as mãos diretamente. Mas, segundo os informantes de Oppenheimer, Fidel estava a par das operações. José Abrantes, outro dos condenados (mas não a morte) e alguém muito próximo a Fidel, começou a explicar a outros prisioneiros a participação de Fidel no narcotráfico. Em pouco tempo, morreu misteriosamente no cárcere. Patricio De La Guardia foi mais comedido em suas vociferações na prisão (presumivelmente, intimidou-se ao saber da morte de Abrantes), mas segundo sua mulher Patricio sempre sustentou que Fidel estava a par de tudo.

Ao que parece, Fidel queria manter as operações dentro de certos limites, e quando elas começaram a perder o controle, decidiu intervir, aproveitando a oportunidade para livrar sua cara frente ao mundo e, ao mesmo tempo, eliminar Ochoa, um reformista cuja popularidade Fidel já começava a recear. A história talvez absolva Fidel por muitas de suas decisões políticas — mas, se o que conta Oppenheimer for verdade (e certamente é muito verossímil), não pela brutalidade do caso Ochoa.

Gabriel Andrade
Gabriel Andrade vive em Maracaibo, Venezuela. Ele leva a vida na Universidade de Zulia, e é anfitrião do programa “Ágora” na Rádio Luz 102,9 FM.
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