O crítico Pablo Villaça escreveu que Fidel “não era um santo” e que não dá para louvar ele sem acrescentar “asteriscos”. Renato Janine Ribeiro, nosso ex-ministro da Educação e geralmente uma pessoa sensata, escreveu: “Fidel reprimiu e matou. É verdade. Mas teria feito tudo isso, não fosse a interminável ameaça ianque?”

Por todos os cantos, pessoas que se posicionam à esquerda homenageiam o falecido Fidel ou dizem que apesar dos defeitos ele fez x, y ou z.

Quero deixar algo bem claro para Villaça, Janine e todos os milhares que pensam parecido: não existe “mas” depois de “reprimiu e matou”. Matar, torturar, perseguir, censurar, banir livros, executar, prender e exilar pessoas por serem homossexuais, ter AIDS, ser deficiente ou pensar diferente não é um “asterisco” na biografia de alguém. É a parte principal.

“Hitler reprimiu e matou. É verdade. Mas teria feito tudo isso, não fosse a interminável ameaça ianque, européia e judia? Do momento em que assumiu o poder, com apoio do povo alemão, sofreu incontáveis tentativas de assassinato, enfrentou conspirações internacionais, embargos econômicos, países se uniram para combatê-lo.

Apesar disso, devolveu a auto-estima ao massacrado e oprimido povo alemão, combateu as relações unilaterais que a Europa impôs à Alemanha no pós-guerra, fez o PIB crescer 102% em apenas seis anos (um recorde), dobrou a renda per capita, aumentou o lucro das empresas alemãs de 75 milhões para 5 bilhões de marcos, acabou com a hiperinflação, praticamente acabou com a pobreza, forneceu saúde e educação para todo alemão”.

Tudo isso é verdade. Mas o que pensaria de alguém que escrevesse isso após a morte de Hitler? Sim, o mesmo que eu: um crápula. Não importa o que Hitler conseguiu para a Alemanha, ele não é um ídolo com asteriscos, ele não “matou e perseguiu, MAS”. É um ditador totalitário, uma figura desprezível, suas ações são injustificáveis, ele deve entrar para a história como exemplo a não ser seguido. Ponto.

Com isso não estou querendo dizer que a podridão moral seja exclusividade da esquerda. Jair Bolsonaro e sua homenagem ao Coronel Brilhante Ustra que o diga. Mas essa podridão parece ter se tornado lugar-comum na esquerda — tão comum que nem estão mais percebendo o que fazem — e se soma à hipocrisia nauseante dos paladinos da moral.

Saudar um general da ditadura é inadmissível, mas saudar um ditador com um currículo bem mais invejável de mortes, tudo bem — porque ele é de esquerda. Acusação de tráfico de influência que pesa sobre Temer é motivo de impeachment e prisão, mas acusações de tráfico de influência sobre Lula e Dilma são calúnia e golpe. Donald Trump ter falas machistas é inadmissível, mas Chávez, Fidel, Lula e tantos outros terem falas machistas e homofóbicas é pouco importante.

Isso beira a insanidade. Esta esquerda tem o cheiro dos cadáveres que ignora.


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Pedro Sampaio
Psicólogo, psicoterapeuta, professor universitário, hiperativo e insone. É casado com a Psicologia, mas tem dificuldades com a monogamia intelectual, dando frequentes puladas de cerca com a Música, Filosofia, Ciência, Literatura, Cinema e Política. Cético, acredita no debate baseado em evidências, na racionalidade e na honestidade intelectual para qualquer área, mas chora até em propaganda de margarina.
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  • etalan

    Os EUA são a maior democracia liberal que vocês respeitam MAS invade
    países e bombardeia civis, utiliza tortura como método sistemático para
    combater dissidentes políticos, mente que um país tem armas de
    destruição em massa para invadí-los. Todo mundo sabe o que já fizeram e
    fazem, mas por algum motivo esquecem sempre. Não fazem auto-crítica e
    apontam na esquerda os mesmos problemas que cometem. Tem várias coisas
    boas que eu curto nos EUA, MAS tem essas violações aos direitos humanos
    que eles mesmo pregam. No final é todo mundo cabo da própria fixação.

    • Tudo bom, Etalan? Não tenho procuração para defender a posição do Pedro (embora gostaria que você definisse o “vocêS” do seu comentário), mas fiquei realmente curioso. Onde, no texto dele, você concluiu que, ao criticar Fidel Castro (e por tabela Bolsonaro e Ulstra), ele afirmou que admira incondicionalmente os EUA a ponto de defender todas as ações militares dos norteamericanos? Abraço!

      • etalan

        Não falou, omitiu. Por vocês eu quis dizer liberais (englobando ser pró-mercado, não apenas a favor de liberdades individuais) – não defini um grupo de pessoas específicas.

        Ele acusa a esquerda de ignorar tantas atrocidades, e sim, isso ocorre mesmo. Mas, e o reverso?

        De fato, é indefensável em uma democracia a perseguição, assassinato, tortura, etc. Contudo, se pode-se desqualificar o comentário do professor Renato Janine Ribeiro dizendo que não se pode encontrar nada de bom no regime cubano por todas as violações cometidas, porque razões o igualmente invejável currículo de atrocidades militares norte-americanas (que não constam da lista), sendo que podemos concordar na defesa dos direitos humanos, um conceito de gênese ocidental?

        O que quero dizer: 1)Fidel foi um ditador. No contexto global, coisas boas podem ser tiradas da experiência cubana, sem ter que pra isso, concordar com os métodos de Fidel.
        2)Direitos humanos é um valor ocidental. Os EUA violam esses mesmos valores quando lhe é pertinente. Posso defender direitos humanos sem ter que concordar com as atrocidades norte-americanas.

        Se 1 não pode ser válido, porque 2 pode ser?

        Abs

        • Alexandre Junior

          Eu sou Pró-mercado e não gosto dos americanos justamente pelo que você criticou, sua influência externa de um modo geral, especialmente a militar. E agora vc, provavelmente, vai me xingar ou dizer que estou mentindo para lhe contradizer, como não posso provar, aconselho treinar a eliminação do pensamento binário, principalmente no que diz respeito às questões sociais, que inclusive é muito comum na esquerda e na direita conservadora, vide o texto que explica muito bem, através da idolatria pela convergência de sistemas.

  • Sábias palavras Pedro! a esquerda fede tanto quanto a esquerda. Mas tem uma intelligentsia que simplesmente tampa o nariz para não sentir o cheiro da podridão, Chico Buarque que o diga. Por muito tempo acreditei ser de “esquerda”, depois descobri que a ideologia se fragmentou de uma maneira onde tudo de mistura de modo promiscuo, especialmente no Brasil, o que hoje é esquerda, amanhã poderá ser direita. Estamos atentos!

  • Leandro de Barros

    Tenho de discordar. As pessoas são muito mais complexas e suas ações também.

    Fidel matou e reprimiu. Ao mesmo tempo, erradicou a desnutrição infantil. Perseguiu gays, mas voltou atrás e tem uma sobrinha militante LGBT.

    Obama propôs um sistema de saúde público enquanto ordenava mortes no Oriente Médio.

    Tratcher iniciou uma guerra para se manter no cargo – Bush também.

    Não acho podridão moral admirar algumas dessas pessoas ou usá-las de exemplo. O que revela podridão moral é O QUE é admirado em cada um.

    Podridão moral é ignorar ou louvar a tortura que Ustra fez porque “lutava contra comunistas”.

    Eu posso admirar Fidel por transformar Cuba no país com melhor IDH da América Latina ou por ter parte ativa na batalha contra o Apartheid e também repudiá-lo pelo relatado no texto.

    A podridão moral se revela na razão da admiração e não no objeto admirado.

    • Waltenydsam Câmara

      Teu comentario ta melhor argumentaso que o texto.

    • Yagami Raito TR

      Seu comentário é estranho. A realidade é mais firme e não permite fazer essa divisão que você incita aconteça (que em minha singela opinião é surreal quando tratamos ainda mais de figuras políticas). No mundo as pessoas são uma só e ou se apoia o pacote completo ou o renega. O modo como se portou dá brechas para uma relatividade moral que é o motivo da crítica do texto, sabemos que quanto mais relativo é sua moral, mais o hediondo vai se tornando tolerável. E na política, faz parte da sociopatia e do jogo de poder, onde todo fim justifica seus meios.

      • Leandro de Barros

        Minha intenção não é ser ofensivo, mas acho que você não entendeu minha logica.

        Eu não estou relativizando nada. Pelo contrário: seu comentário sobre aceitar o pacote todo ou não é que relativiza as coisas.

        Veja bem: se eu sou obrigado a aceitar Fidel por inteiro ou rejeitá-lo por inteiro, seus erros e acertos são relativizados.

        Se eu aceito Fidel por inteiro, eu tenho de relativizar seus erros para favorecer seus acertos. Se eu rejeito Fidel por inteiro, seus acertos perdem valor.

        É apenas ao aceitar a complexidade das pessoas, situações, contextos e idéias que eu posso valorizá-las de maneira justa.

        Na verdade, é a sua ideia de rejeitar tudo ou aceitar tudo que cria as pessoas criticadas no texto.

        Eu renego totalmente a postura burocrática, ditatorial e “soviética” do Fidel, mas admiro sua tenacidade, seus resultados com a qualidade de vida dos cubanos e seu apoio ao fim do apartheid.

        • Eduardo Rodrigues Vianna

          Pelo que entendo do seu comentário, Leandro, o que o desagradou no artigo de Pedro Sampaio foi o emprego daquela lógica bastante formal, segundo a qual Fidel conduziu uma ditadura, Hitler também, portanto, Fidel=Hitler. Isto também me desagrada. Eu vejo as pessoas se apoiarem nesse tipo de consideração sobre Vargas, por exemplo, ou sobre Perón, ou sobre Bolívar. São tópicos muito específicos, únicos em suas contradições e desdobramentos. Em minha opinião, é muito difícil ter uma posição definitiva sobre personagens dessa magnitude. Até mesmo sobre Stálin, que tem sido sempre objeto desse tipo de discussão.

          Creio que a boa postura consiste em levar a sério essas pessoas, se nos sentimos inclinados a fazê-lo, sem fanatismo de nenhum tipo, sem necessariamente uma filiação e com cabeça aberta, sabendo que o tempo delas passou, e que temos o nosso, mais duro, difícil e complexo sob muitos aspectos. A nossa época requer as suas respostas, e temos de ser tão bons quanto possamos ser.

          Ou ainda, essas grandes figuras, como Fidel, podem ser boas referências históricas, mas dificilmente serão MODELOS adequados para a atualidade. Ainda bem que é assim; temos isto a nosso favor.

          • Leandro de Barros

            “A nossa época requer as suas respostas, e temos de ser tão bons quanto possamos ser”.

            Exato.

            Meu problema com o texto é marcar uma figura histórica, seja ela qual for, repleta de nuances e complexidades como uma coisa só, simples e absoluta.

            O contexto do Fidel, em específico, é muito complexo. Além dos seus próprios erros e da sua própria personalidade complicada, o cara ainda lidou com um zibilhão de influências externas, como toda a campanha dos EUA para tentar assassiná-lo ou à sua reputação.

        • Yagami Raito TR

          Meu companheiro de debate, infelizmente não consigo apoiar sua visão na sua totalidade. Fato inegável é que devemos valorizar os bons frutos de um indivíduo, pois princípio de grande valor filosófico é. Mas novamente frisando meu ponto aqui, admiração incita apoio e apoiar uma figura política (humano como nós) que detém um poder soberano sobre uma nação é SIM aceitar o pacote completo deste, que será refletido em sua governança, independentemente dos “nossos” esforços bondosos de só enxergar o seu lado positivo. A analogia a isto é simples, somos seres humanos e acertamos e erramos, o que nos diferencia é o quanto estamos inclinados a acertar mais e errar menos, não existe “ticket erro” que se compra com acertos na vida.

          O cenário político com suas necessidades, circunstâncias e eventos complexa tudo, é de honra deixar isto mencionado. Mas o empírico da vida mesmo simples é o que é, e como mortais que somos estamos todos sujeitos a essas sabedorias comum.

          Perdão por reviver a discussão mas só agora vi a notificação dela.

    • Maôejin

      Vc é o exemplo perfeito do texto: “Fidel matou e reprimiu, MAS…”.

      Melhor IDH e sem liberdade? Leia esse texto de uma repórter de esquerda que foi pra lá e escreveu suas impressões. Cuba não é, nem de longe, o paraíso que vcs pensam.

      https://www.facebook.com/giubergamo/posts/10208154888730273

      Admirar Ustra e Fidel ao mesmo tempo é passível de ridicularização…

      Com “Não acho podridão moral admirar algumas dessas pessoas ou usá-las de exemplo. O que revela podridão moral é O QUE é admirado em cada um.” vc quer dizer que podemos idolatrar Hitler porque ele era um bom marido? Podemos admirar que ele foi um bom marido, apesar de ter matado milhões? Então, blz, espero que vc meus filhos não tenham professores como vc.

      • Leandro de Barros

        Você parece bem confuso sobre o meu comentário. Sugiro que releia com mais calma e sem ideias pré-concebidas para tentar me entender.

        A prova máxima disso é você dizer “podemos idolatrar Hitler porque ele era um bom marido? Podemos admirar que ele foi um bom marido, apesar de ter matado milhões?”.

        O uso do “apesar” mostra que você não entendeu o que eu falei. O que eu tenho tentado defender desde o primeiro comentário é que eu não concordo com a classificação binária de que uma pessoa é “boa” ou “má”.

        Porque pessoas são complexas. Suas atitudes são absolutamente complexas e dependentes de um contexto.

        Deixa eu fazer um simples exercício com você.

        Matar é errado? Eu considero que sim e acredito que você também. Mas e se a vítima for alguém que estava tentando me matar e eu agi em legítima defesa? Aí já não é tão errado, é compreensível. Mas e se ela tentou me matar porque eu sequestrei o filho dela?

        A vida real é complexa e reduzir as pessoas que vivem nelas em rótulos de “mal” ou “bom” é perigoso.

        Esse tipo de redução, que eu estava discordando do texto, faz com que a gente marque uma pessoa como “boa” ou “ruim” e aí, automaticamente, tudo que essa pessoa faz ganha o mesmo rótulo.

        O Hitler era “mal”. Mas ele também era vegetariano. Então vegetarianismo vira “mal”. O Fidel era “mal” e ele também era comunista, então logo o comunismo é “mal”.

        A gente precisa deixar esses atalhos da cabeça e analisar cada situação, cada decisão, cada aspecto.

        O Che era um homofóbico, mas homofobia não tem nada a ver com economia e, portanto, é 100% possível que um gay seja comunista sem sofrer com “você não pode ser comunista porque o Che era homofóbico”, como já vi muito por aí.

        O Fidel era um ditador que cerceava a liberdade do seu povo. Fato.

        Só a Argentina, Chile, Uruguai, EUA e Canadá possuem IDH melhor que o de Cuba no continente americano. Quando falamos da América Latina, só os três primeiros. Fato.

        Cuba conseguiu tudo isso com um embargo econômico CRIMINOSO imposto pelos EUA, condenado pela ONU e praticamente qualquer pessoa decente. Fato.

        Fidel foi essencial para a liberdade de Angola e para o fim do apartheid na África do Sul, enviando tropas para lutar ao lado daqueles que buscavam igualdade. Isso o próprio Nelson Mandela admitiu. Fato.

        Todas essas coisas “compensam” ele ter sido um ditador? Não. Porque não é assim que funciona, entende? Uma coisa não compensa a outra. Mas ambas existem.

        É complicado, é complexo. Então quando você diz que eu estou falando que eu posso “admirar o Hitler por se um bom marido apesar de ter matado milhões”, você não entendeu nada do que eu falei.

        Eu posso admirar as coisas boas que o Fidel fez e conquistou e então rejeitar as coisas ruins que ele fez. Dá pra fazer isso. É possível. Eu adoraria que o Brasil tivesse desnutrição 0, saúde pública de qualidade e preventiva para toda a sua população e um bom sistema educacional, coisas que o Fidel conquistou em Cuba. Eu odiaria que o Brasil tivesse a vigilância, a burocracia cubana e o culto à personalidade que existem em Cuba.

        Por fim, só para corrigir duas bobagens que você falou:

        “Admirar Ustra e Fidel ao mesmo tempo é passível de ridicularização…”

        De novo você está confundindo admirar a pessoa e o que ela conquistou. E eu, em nenhum momento, disse que admiro o Ustra.

        “Então, blz, espero que vc meus filhos não tenham professores como vc.”

        Eu não sou professor. Em todo o caso, se você acha que meu problema é moral, como deu a entender, você (e o resto do país) precisa entender que quem ensina moral são os pais, os professores ensinam fatos.

        • Alexandre Junior

          Você esquece do peso desse “bom” ou “mal”, mas principalmente está tapando os olhos para a verdadeira crítica do texto: “A idolatria à figura, pela composição de suas ideologias, justificando tudo o que vem com ela”. Seu comentário está certíssimo, mas não se aplica à Fidel, Hitler, Stálin, nem quaisquer políticos que tenham usados todos os meios a seu favor para cumprir seus objetivos. Mesmo com ações boas, o peso de suas más condutas e gestão pública, o torna mais sanguinário do que um político socialista. Isso vale para os Generais de ditaduras direitistas também (pra não dizer que a ofensa é sistemática).

          Só lembrando que na História, Fidel pediu apoio aos americanos, que sendo negado pelas influências de Che Guevara, encontrou na URSS o apoio potencial de que precisava. Olhando do centro, parece-me mais uma relação de homem-poder do que homem-ideologia. Como todas as revoluções, tudo brota das injustiças sociais e privilégios de classes. Uma vez lá, as coisas mudam e os liberais do século XX acabam tendo um pouquinho de razão em seus textos sobre poder totalmente anticientíficos e ridiculamente menos sofisticados do que os escritos Marxistas.

  • Snb

    Nenhum ser humano 100% bom ou 100% mau, temos de parar de tratá-los como heróis ou vilões e começar a trata-los como humanos.
    Quando você julga alguém apenas pelo que a pessoa fez de bom, ou de ruim, você esta escondendo de si mesmo a outra parte.
    E isso não se aplica apenas a pessoas, lembre-se que não existe mal absoluto, o conceito de bem e mal vem com o que foi nos ensinado.

  • Nick

    Esse site tá usando a tática “danilo gentilli ” pra angariar likes já à um tempo.

  • Leonardo Luchini Fortinho

    Primeiro, quem quer falar de direita e esquerda tem que entender melhor a complexidade HISTÓRICA disso. No caso recomendo ler Norberto Bobbio, Karl Marx, Karl Popper, Adam Smith, Istvan Meszaros, tem outros, mas estes dão uma boa introdução de base. Já digo, não precisa ler os longos livros desses caras, mas textos pontuais já vão dar um visão maior do que há sobre o poder político.

    Neste caso falo do poder político. Comparar Hitler com Fidel é um pouco de desonestidade intelectual, até mesmo relativizar moralmente as duas figuras.

    Quando se está no poder há uma série de coisas que se acomete, como por exemplo: como o presidente eleito (só exemplo) irá tirar o país do buraco onde se encontra? Lembrar aqui que Hitler foi eleito democraticamente e depois agiu pelos interesse da Alemanha de forma arbitrária (Noite das Facas Longas). Fidel teve que fazer o mesmo, mas aqui que mora os “poréns” ou o “mas”, ele teve que agir de forma efetiva. O EUA virou inimigo de Fidel por ele ter se colocado contra as principais ideias do mundo liberal, ele buscava nacionalizar toda a industria e agricultura. Com isso, os EUA, fechou as portas para Cuba e quem apareceu oferecendo uma industrialização? URSS. Que já vinha sondando os movimentos da Revolução Cubana. Lembrar que Cuba passava por uma ditadura nos moldes capitalistas de Fugencio Batista, onde existia uma grande latifúndio, no qual só aumentou a diferença entre ricos e pobre, mas tecnicamente falando, Cuba era um país (de certa forma) rico economicamente.Deter o poder nas mãos nos leva a lugares que não queremos, coisas que são moralmente duvidosas.

    Vargas foi o Pai dos Pobres e Mãe dos Ricos, mas se for fazer um raio x de sua gestão veremos certas escolhas duvidosas, ou pior, monstruosas. Poucos sabem, mas ele perseguiu imigrantes e descendentes alemães e italianos durante a Segunda Guerra, prendendo eles em campos de concentração em SC e PR, ou em prisões agrícolas. As vezes a pessoa era presa por simplesmente falar alemão. “Porém”, ele fortaleceu a industria brasileira, fez reformas importantes nas questões trabalhistas, transformou o Brasil numa potência competitiva (olha se for ver é quase a história do Lula).

    O que busco aqui é não só refletir sobre a “moral da esquerda”, no qual nela falta uma auto crítica afiada, mas sim no que “é estar no poder e o que fazer neste processo”. Para se fazer um omelete, tem que se quebrar alguns ovos. A questão é: quais ovos se deve quebrar? Neste caso “Fidel”, julgo que ele quebrou mais ovos certos (falo da educação e saúde, por causa de relatos de amigos que conheceram Cuba) do que ovos errados, já Hitler…

    Curiosidade: Por mais que o povo ou uma parcela (não sei) discorde do regime de Fidel Castro, é praticamente unanime a sua defesa na revolução, principalmente aqueles que viveram o período antes e depois da revolução. O povo não quer esse governo arbitrário, mas menos ainda voltar a ser o quintal dos EUA.