Morte de Fidel Castro: Não é só a direita que admira Bolsonaro e Ustra que é moralmente torpe. A esquerda também sabe admirar déspotas como Fidel.

A morte de Fidel e a podridão moral da esquerda

Em Consciência, Política por Pedro SampaioComentários

O crí­tico Pablo Vil­laça escre­veu que Fidel “não era um santo” e que não dá para lou­var ele sem acres­cen­tar “aste­ris­cos”. Renato Janine Ribeiro, nosso ex-minis­tro da Edu­ca­ção e geral­mente uma pes­soa sen­sata, escre­veu: “Fidel repri­miu e matou. É ver­dade. Mas teria feito tudo isso, não fosse a inter­mi­ná­vel ame­aça ian­que?”

Por todos os can­tos, pes­soas que se posi­ci­o­nam à esquerda home­na­geiam o fale­cido Fidel ou dizem que ape­sar dos defei­tos ele fez x, y ou z.

Quero dei­xar algo bem claro para Vil­laça, Janine e todos os milha­res que pen­sam pare­cido: não existe “mas” depois de “repri­miu e matou”. Matar, tor­tu­rar, per­se­guir, cen­su­rar, banir livros, exe­cu­tar, pren­der e exi­lar pes­soas por serem homos­se­xu­ais, ter AIDS, ser defi­ci­ente ou pen­sar dife­rente não é um “aste­risco” na bio­gra­fia de alguém. É a parte prin­ci­pal.

Hitler repri­miu e matou. É ver­dade. Mas teria feito tudo isso, não fosse a inter­mi­ná­vel ame­aça ian­que, euro­péia e judia? Do momento em que assu­miu o poder, com apoio do povo ale­mão, sofreu incon­tá­veis ten­ta­ti­vas de assas­si­nato, enfren­tou cons­pi­ra­ções inter­na­ci­o­nais, embar­gos econô­mi­cos, paí­ses se uni­ram para com­batê-lo.

Ape­sar disso, devol­veu a auto-estima ao mas­sa­crado e opri­mido povo ale­mão, com­ba­teu as rela­ções uni­la­te­rais que a Europa impôs à Ale­ma­nha no pós-guerra, fez o PIB cres­cer 102% em ape­nas seis anos (um recorde), dobrou a renda per capita, aumen­tou o lucro das empre­sas ale­mãs de 75 milhões para 5 bilhões de mar­cos, aca­bou com a hipe­rin­fla­ção, pra­ti­ca­mente aca­bou com a pobreza, for­ne­ceu saúde e edu­ca­ção para todo ale­mão”.

Tudo isso é ver­dade. Mas o que pen­sa­ria de alguém que escre­vesse isso após a morte de Hitler? Sim, o mesmo que eu: um crá­pula. Não importa o que Hitler con­se­guiu para a Ale­ma­nha, ele não é um ídolo com aste­ris­cos, ele não “matou e per­se­guiu, MAS”. É um dita­dor tota­li­tá­rio, uma figura des­pre­zí­vel, suas ações são injus­ti­fi­cá­veis, ele deve entrar para a his­tó­ria como exem­plo a não ser seguido. Ponto.

Com isso não estou que­rendo dizer que a podri­dão moral seja exclu­si­vi­dade da esquerda. Jair Bol­so­naro e sua home­na­gem ao Coro­nel Bri­lhante Ustra que o diga. Mas essa podri­dão parece ter se tor­nado lugar-comum na esquerda — tão comum que nem estão mais per­ce­bendo o que fazem — e se soma à hipo­cri­sia nau­se­ante dos pala­di­nos da moral.

Sau­dar um gene­ral da dita­dura é inad­mis­sí­vel, mas sau­dar um dita­dor com um cur­rí­culo bem mais inve­já­vel de mor­tes, tudo bem — por­que ele é de esquerda. Acu­sa­ção de trá­fico de influên­cia que pesa sobre Temer é motivo de impe­a­ch­ment e pri­são, mas acu­sa­ções de trá­fico de influên­cia sobre Lula e Dilma são calú­nia e golpe. Donald Trump ter falas machis­tas é inad­mis­sí­vel, mas Chá­vez, Fidel, Lula e tan­tos outros terem falas machis­tas e homo­fó­bi­cas é pouco impor­tante.

Isso beira a insa­ni­dade. Esta esquerda tem o cheiro dos cadá­ve­res que ignora.


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Pedro Sampaio
Psicólogo, psicoterapeuta, professor universitário, hiperativo e insone. É casado com a Psicologia, mas tem dificuldades com a monogamia intelectual, dando frequentes puladas de cerca com a Música, Filosofia, Ciência, Literatura, Cinema e Política. Cético, acredita no debate baseado em evidências, na racionalidade e na honestidade intelectual para qualquer área, mas chora até em propaganda de margarina.

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