Quem assistiu às séries televisivas Os Sopranos, Dexter, Breaking Bad e House of Cards não teve dificuldades em constatar que mafiosos, psicopatas, traficantes e políticos corruptos são os novos modelos de heróis que a indústria de entretenimento tem a nos oferecer. Mas quando foi que passamos a admirar criminosos e ridicularizar quem se orienta por princípios éticos?

Neste momento de relativismo moral da televisão americana, em que nos oferecem uma versão grosseira e enlatada para consumo em massa da doutrina de Nietzsche sobre a transvaloração de todos os valores, talvez possamos aprender algumas lições sobre a verdadeira natureza do mal com dois mestres da sétima arte e sua bem-sucedida tentativa de reproduzir para a TV um de seus maiores sucessos no cinema: estou falando de Fargo, produzido pelos irmãos Coen e inspirado no longa metragem de mesmo nome.

1. A natureza do mal

Para começar, não me interpretem mal: sou fã de Dexter, Breaking Bad, House of Cards e Os Sopranos. Graças a essas produções, as séries de TV passaram por uma renovação integral. Hoje, há poucas chances de sucesso para uma série nos moldes antigos, daquelas que contam praticamente a mesma história em todos os episódios: um problema, uma complicação, uma solução – e aqui se incluem todas as tradicionais séries policiais, em que um crime era resolvido em um único episódio, mas também produções como House, em que o crime era substituído por uma enfermidade e o criminoso por alguma bactéria ou vírus.

Contudo, não deixa de ser curioso o fato de que essas novas séries têm protagonistas que figurariam, décadas atrás, entre os mal feitores, os vilões a serem derrotados. Mais intrigante ainda é que, muitas vezes, os principais adversários desses personagens são aqueles que tradicionalmente assumiriam o papel de heróis da história.

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No universo dos seriados tradicionais de outrora, o protagonista seria quem persegue e tenta deter mafiosos que matam sem remorso, psicopatas que esquartejam por vocação, traficantes que envenenam inocentes e políticos que corrompem todos ao seu redor. Porém, em Os Sopranos, os agentes do FBI atuam como patetas, incapazes que são de prender o carismático mafioso. Em Breaking Bad e Dexter, investigadores honestos e comprometidos com seu dever são retratados como mero estorvo para o projeto de vida pessoal do protagonista. E, em House of Cards, jornalistas íntegros figuram como coadjuvantes descartáveis, afastados como moscas pelo personagem principal.

Curiosamente, neste exato momento, várias matérias apontam que o cinema americano está perdendo espaço para os seriados de TV, muito mais criativos e ousados. Também neste momento, os personagens que fazem mais sucesso no cinema são os super-heróis da editora Marvel, como Vingadores, Capitão América e X-Men, representantes quase estereotipados (por mais que os fãs se recusem a aceitar) dos melhores ideais da humanidade: justiça, bondade, honestidade, compaixão, igualdade e sacrifício – tudo com uma boa temperada do american way of life.

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Quando é preciso representar determinados valores ou ideias de maneira estereotipada, demasiadamente fantasiosa, como no caso do super-heróis, é porque não encontramos lugar no mundo real para inserir tais princípios de forma verossímil e empolgante. É uma forma de confissão de que não só desconfiamos da existência de pessoas tão decentes e honestas como aquelas que protagonizam os filmes de Frank Capra, mas também de que não achamos tais indivíduos interessantes o suficiente para merecerem os holofotes.

Presumindo que esse um fenômeno não é propriamente americano, mas sim algo representativo de um quadro mais amplo na cultura ocidental, vale perguntar: esse entusiasmo midiático com protagonistas criminosos é indicativo da degeneração moral de nossos tempos ou, ao contrário, sinal de que estamos amadurecidos o suficiente para olhar de frente os aspectos mais sombrios da natureza humana?

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Se a resposta for a última alternativa, então será que os aspectos mais sombrio da natureza humana estão sendo retratados com fidedignidade nesses seriados ou, ao contrário, há uma glamourização excessiva, uma romantização do mal que falseia o que há de sórdido e mesquinho em mafiosos, psicopatas, traficantes e políticos corruptos?

É nesse cenário de dúvidas que estreia Fargo, série baseada no filme homônimo dos irmãos Coen.

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2. Fargo e o mal encarnado

Fargo é roteirizado por Noah Hawley e produzido pelos irmãos Coen, o que garante fidelidade ao espírito do trabalho original. Na história, e sem entregar o roteiro ao leitor, três homicídios ocorrem misteriosamente em curto espaço de tempo numa minúscula cidade no interior de Minnesota/EUA.

Esses eventos servem de pano de fundo para uma análise daquilo que nossa sociedade moderna tenta negar ou, pior ainda, mensurar e racionalizar através de teorias supostamente científicas: a existência do mal. Porém, como é dito por um personagem na cena a seguir, os dragões da alma humana não deixam de existir tão somente porque nos recusamos a reconhecer sua existência.

Dificilmente Fargo será um sucesso de público – não por ser ruim, mas por estar um pouco além do nível de compreensibilidade e humor que o público mediano consegue apreciar. Nada é óbvio em Fargo. Como na vida real, os eventos se desenlaçam sem qualquer previsibilidade e os personagens não conseguem dar uma forma ao acaso que rege seus destinos.

O interessante é que não se trata de uma série policial com trama detetivesca, na qual o espectador permanece inicialmente na escuridão, junto com as autoridades, e vai acompanhando a solução dos principais mistérios ao longo dos episódios: quem matou, como matou e qual o motivo. Em Fargo, desde o início, nossos olhos testemunham claramente tudo o que acontece, e a verdade é que não há nenhum grande motivo para os três homicídios – as vítimas foram mortas simplesmente porque alguém quis, seja guiado por mero capricho, seja orientado por fúria reprimida.


O aspecto cômico de Fargo consiste em acompanhar um casal de policiais tentando encontrar uma ordem nesses eventos caóticos, uma razão para eles terem acontecido, quando já sabemos de antemão que não há ordem alguma, razão particular alguma. A trama de Fargo é um microcosmo da vida real, em que todos nós tentamos lidar com o caos diário de fatos que aleatoriamente nos acontecem mediante a criação de teorias, de explicações, de fábulas ou de doutrinas políticas ou religiosas sobre a natureza das coisas, o sentido da vida e a condição humana quando, no fundo, nada acontece por alguma razão em particular.

O problema é que, quando essas teorias e fábulas falham (e elas sempre falham em algum momento), percebemos que grande parte de nossa energia e tempo foi desperdiçada nessa vã tentativa de negar a desordem. Nesse estado de confusão e falência de nossas crenças pessoais, sobra-nos apenas o lado animal, que, até então reprimido e negligenciado, ameaça tomar as rédeas de nossa consciência. Observe o diálogo nessa cena de Fargo:

É verdade que, em Fargo, assim como em outras séries de TV, um criminoso está no centro da trama, protagonizando os eventos. Mas, diferente das demais produções, na obra produzida pelos irmãos Coen esse personagem é desprovido de qualquer qualidade: não tem o estilo bonachão de Tony Soprano, não ganha nossa simpatia como Walter White e nem possui o carisma freak de um Dexter. O personagem Lorne Malvo, magistralmente interpretado por Billy Thornton (ator que protagonizou O homem que não estava lá), é tão carismático, simpático e charmoso como uma besta que mata porque é o que sabe fazer de melhor.

Lorne Malvo é, assim, a representação do mal não apenas no sentido metafísico, mas também na perspectiva de uma lógica natural que conduz os homens à perda e à dor simplesmente porque é desse jeito que as coisas são. Enquanto representação do mal, ele não é atraente, mas tampouco repulsivo, não tem qualquer objetivo específico com suas condutas senão existir e, existindo, engendrar o inferno para todos aqueles que acreditam que há algum sentido para suas vidas – tal como faz com o proprietário de uma rede de supermercados, um sujeito que acredita haver uma razão especial, um propósito divino, em todos os principais fatos de sua história pessoal.

Em resumo, Lorne Malvo, assim como um acidente de carro que desgraça nossas vidas, uma doença fatal ou um criminoso que nos escolhe aleatoriamente em uma rua escura, cruza o destino de suas vítimas porque é da sua natureza portar-se assim.

3. A lógica do predador

Na série Fargo, podemos perceber a influência de outro filme dos irmãos Coen: Lorne Malvo é, em muitos aspectos, uma encarnação de Anton Chigurh, o “vilão” da obra Onde os fracos não têm vez (No Country for Old Men). Ambos os criminosos não têm em comum apenas nomes esquisitos e cortes de cabelo extravagantes. Sem passado conhecido e sem raízes com a comunidade em que estão inseridos durante a história, eles são igualmente violentos, matam por capricho e não demonstram qualquer ódio particular por suas vítimas.


Em No Country for Old Men, Anton Chigurh delega o poder de decidir se alguém deve ou não morrer a uma moeda. Não é a ganância ou a raiva que o move, mas simplesmente a vontade de se divertir com a ideia de que o terror pode ser instaurado no destino de qualquer um por um aleatório cara ou coroa, como observamos na tensa cena a seguir.

A barbárie perpetrada por ambos os personagens é tão gratuita e indiscriminada e eles atuam com tanta segurança ao disseminar a violência que uma aura de sobrenaturalidade os envolve. Eles não parecem estar interessados no dinheiro que podem obter, mas em serem os representantes do caos e do medo. E assim é com todo grande mal que nos aflige. Sentimos a força que nos atinge como se fosse algo semelhante à fúria divina, pois carrega o traço terrível da experiência do sublime, e tentamos emocionalmente explicar ou personalizar o que nos causa horror.

Mas julgar que Lorne e Anton são emissários de uma entidade maligna é perder totalmente o ponto, pois a essência da participação desses personagens nos roteiros é justamente esta: o mal não tem identidade, ocorre sem motivo, ao acaso.

4. O vilão que há em nós

Com frequência, a mente humana tenta enxergar sentido onde não há nenhum. A princípio, pode parecer que esse é um comportamento proveitoso, pois constitui uma estratégia para lidarmos com o caos da existência. Porém, aquilo que não aceitamos e não compreendemos com objetividade exerce sobre nós uma força ainda maior, na medida em que não estamos preparados para enfrentá-la tal como é.

Há um trecho do livro homônimo que inspirou No Country for Old Men, escrito por Cormac McCarthy, que retrata bem essa situação. Nessa passagem do romance, uma das vítimas implora que Anton Chigurh poupe sua vida. Ao que ele responde:

“Você pede que eu me torne vulnerável, e isso nunca poderei fazer. Tenho apenas esse modo de viver, e ele não admite misericórdia. No máximo, uma moeda é jogada, e nesse caso para um simples propósito. A maior parte das pessoas não admite que possa existir alguém como eu. E veja que problema isso deve ser para elas. Afinal, como dominar aquilo em cuja existência você não acredita?”

Da mesma forma, tentamos enxergar em atos criminosos uma razão quando não há razão alguma, senão a natural propensão humana para a agressão, muitas vezes gratuita – algo que não seria interessante o suficiente para, nos seriados americanos, compor um carismático protagonista, e que tampouco serviria para retratar um vilão estereotipado. A banalidade do mal, reconhecida por Hannah Arendt, está justo aí. Na realidade, o mal não faz grandes histórias, não produz grandes heróis ou terríveis vilões. O mal faz vítimas e produz sofrimento, só isso.

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“E se você estiver certo e eles errados?” Cartaz que vemos com frequência em Fargo.

Talvez essa tendência das séries americanas de retratarem protagonistas moralmente dúbios seja, no imaginário coletivo, um passo em direção a uma postura mais franca e saudável em relação à natureza humana. Em um movimento pendular, após décadas relegando nossos piores instintos a um papel coadjuvante (vilão destinado a ser derrotado por um idealizado herói), a indústria de entretenimento passa a glorificar alguns de nossos piores pesadelos, humanizando-os e revelando que nenhum indivíduo, seja lá qual for sua parcela de culpa no pecado original, não é essencialmente diferente de nós.

Se isso for verdade, é possível que o público esteja enamorado do mal pela simples razão de que essa seja uma forma eficaz de, socialmente, reconhecermos nossos aspectos mais sombrios, ao invés de atribuí-los a um povo estrangeiro ou a qualquer outro tipo de inimigo que convenientemente possamos inventar, sejam os comunistas da Guerra Fria ou as bruxas da Idade Média. Para os americanos, após os ataques de 11 de setembro e a histeria coletiva que os conduziu à Guerra ao Terror, esgotou-se a fórmula segundo a qual todo o mal vem de povos inimigos. As torturas e violações de direitos humanos constatadas em Guantánamo e Abu Ghraib esfregaram na sua cara que também são capazes de produzir horrores.

Não há, portanto, alternativa à indústria de entretenimento senão ajudar aquela sociedade em seu processo de assimilação do próprio mal. Se isso conduzirá ao cinismo descarado ou a adoção de uma ética menos hipócrita e mais efetiva, só o tempo poderá responder.

escrito por:

Victor Lisboa

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