Capa do artigo "A falência múltipla da cultural musical". De capa, MC Bin Laden, tá tranquilo tá favorável.

A falência múltipla da cultura musical

Em Consciência, Filosofia por Danilo ŠvágeraComentários

Álvaro Vieira Pinto, exí­mio filó­sofo bra­si­leiro, dizia que sua maneira de escrita pode­ria ser deno­mi­nada medi­ta­ção livre: uma suces­são de pen­sa­men­tos, de insights. Longe de equi­pa­rar-me ao meu grande mes­tre, pro­po­nho este texto – tam­bém escrito nesse estilo. Uma suces­são de pen­sa­men­tos, que me aco­me­tem pela per­tur­ba­ção que a música do vizi­nho me causa. Caso con­te­nha erros, per­doem-me: difi­cil­mente um ser humano pen­sa­ria vee­men­te­mente lúcido com as con­di­ções musi­cais impos­tas pelo apar­ta­mento ao lado.

Movimento I: Prelúdio do Caos

Hoje é domingo, missa e praia… céu de anil”. Den­tre todos os ele­men­tos con­ti­dos na famosa música de Raul Sei­xas, fica­rei somente com o domingo. Não fre­quento mis­sas, o Estado onde moro não pos­sui praias e o céu… bem, hoje está nublado e frio. Um domingo tipi­ca­mente pre­gui­çoso per­passa pela janela.

Ape­sar de não me con­si­de­rar onto­lo­gi­ca­mente cris­tão, cul­tu­ral­mente todos pos­suí­mos uma par­cela desse seg­mento. Ainda res­peito os feri­a­dos, tendo a uma com­pai­xão cristã (Nietzs­che faria refe­rên­cia à moral do escravo, mas ainda creio na bene­vo­lên­cia como forma de trans­cen­der o mal) e domin­gos são epis­te­mo­lo­gi­ca­mente len­tos… e pre­gui­ço­sos. Jurei-me não escre­ver hoje, dei­xando uma hora de ama­nhã reser­vada para tal ato. Mas não deu. Abso­lu­ta­mente não. Mas por qual motivo?

Uma música pene­tra pro­gres­si­va­mente pela minha janela, até alcan­çar um volume altís­simo. O vizi­nho, sobre quem não tenho nenhum conhe­ci­mento (Lyo­tard pode­ria dis­cur­sar nesse momento sobre a con­di­ção pós-moderna da soci­e­dade), escuta algo que pos­sui como tônica mulhe­res, coito, órgãos geni­tais e uma batida inces­sante. Pela clas­si­fi­ca­ção, pre­vejo que tal música seja um funk, sem uma tona­li­dade pré-defi­nida, pro­va­vel­mente pela peri­pé­cia do can­tor em atin­gir micro­tons. Ou esta­ria somente desa­fi­nado mesmo.

Bem, esse é o con­texto. E pego-me a pen­sar filo­so­fi­ca­mente. Como um verme (a filo­so­fia é um verme que, quando menos se espera, ini­cia sua ação), sou ten­tado a soli­ci­tar Nietzs­che, Lyo­tard, Adorno, Mar­cuse, Pla­tão… mas me con­trolo, por ser domingo, e pen­sa­rei como Danilo. E uma gama de reta­lhos.

Movimento II: Temos a arte que merecemos?

Certa vez li que a soci­e­dade pos­sui a arte que merece. Se caso a frase pos­sua um grau de vera­ci­dade, esta­mos numa falên­cia múl­ti­pla de órgãos (não somente os geni­tais da música). Penso, nesse momento, em todos os com­po­si­to­res que dei­xa­ram sua marca na nossa herança cul­tu­ral do oci­dente – tais como Bach, Mozart, Beetho­ven. Com­po­si­to­res que pas­sa­vam sema­nas a com­por obras para a alma (e tam­bém para o corpo, visto que são capa­zes de gerar sen­sa­ções). Como numa dia­lé­tica hege­li­ana, cada está­gio per­pas­sava novas ideias, novos momen­tos, englo­bando o ante­rior e tra­zendo em si a marca do novo. Foi assim quando o canto gre­go­ri­ano vai pro­gres­si­va­mente uti­li­zando-se da poli­fo­nia; o con­tra­ponto vai se tor­nando recor­rente e des­co­brindo novas fór­mu­las; ou pas­sa­mos a pen­sar em for­mas dode­cafô­ni­cas.

Mas… (como tudo na His­tó­ria, a par­tí­cula lin­guís­tica “mas” é evo­cada. Em alguns casos, infe­liz­mente evo­cada. Tenho falado tanto de Herá­clito e seu fluxo. Pos­si­vel­mente, além do mundo ser tudo o que ocorre, como dizia Witt­gens­tein, pode­mos pen­sar que somos uma suces­são de “mas”…). Con­ti­nu­ando. No século XX, empre­sas per­ce­be­ram que a arte era pos­si­vel­mente ren­tá­vel. Os mece­nas já exis­tiam desde sécu­los ante­ri­o­res, mas não ainda seguiam uma lógica indus­trial.

A par­tir do século supra­ci­tado, gran­des cor­po­ra­ções ini­ciam a via cru­cis de ren­ta­bi­li­zar a arte, res­pei­tando algu­mas pre­mis­sas bási­cas que impo­riam lucro à mer­ca­do­ria: a música teria de ser sim­ples, para não sur­pre­en­der os ouvi­dos menos trei­na­dos; teria de ser repe­ti­tiva, tanto em letras quanto em ritmo: pois pos­si­bi­li­ta­ria mar­car o ouvinte; teria de ser curta, para não pro­du­zir um efeito enfa­do­nho; teria de pos­suir temas coti­di­a­nos, para afe­tar a alma de quem ouve; o artista seria ele­vado à cate­go­ria de tam­bém mer­ca­do­ria, comer­ci­a­li­zando sua ima­gem (ima­gem essa que, mui­tas vezes, trans­cen­de­ria sua pró­pria cri­a­ção). Como veí­culo, uti­li­za­riam das mídias que esta­vam sur­gindo, para impul­si­o­nar a venda do pro­duto. Pri­mei­ra­mente o rádio, depois a mídia física (o vinil, depois os cd´s…). Mais tarde a tele­vi­são, hoje a inter­net.

Inde­pen­dente do veí­culo, o obje­tivo era bem sim­ples: quanto mais lucro, melhor o artista – nos mol­des da indús­tria cul­tu­ral. Essa “empresa da cul­tura” faria o falso pare­cer ver­da­deiro ocul­tando a pos­si­bi­li­dade de uti­li­zar a arte como forma de pen­sa­mento, o que levou Adorno a excla­mar: “Cada expres­são, cada notí­cia e cada pen­sa­mento estão pre­for­ma­dos pelos cen­tros da indús­tria cul­tu­ral. O que não traz o ves­tí­gio fami­liar de tal pre­for­ma­ção é, de ante­mão, indigno de cré­dito, e tanto mais quanto as ins­ti­tui­ções da opi­nião pública acom­pa­nham o que delas sai com mil dados fac­tu­ais e com todas as pro­vas de que a mani­pu­la­ção total pode dis­por. A ver­dade que intenta opor-se não tem ape­nas o carác­ter de inve­ro­sí­mil, mas é, além disso, dema­si­ado pobre para entrar em con­cor­rên­cia com o alta­mente con­cen­trado apa­re­lho da difu­são”.

Vol­vendo à per­gunta desse movi­mento, real­mente não sei a res­posta. Se temos a arte que mere­ce­mos, como ante­ri­or­mente disse, esta­mos no pro­cesso de falên­cia inte­lec­tual. Tal­vez (e estou quase certo disso), temos a polí­tica que mere­ce­mos, a ética que mere­ce­mos, a cul­tura que mere­ce­mos. Uma per­gunta básica: a arte influ­en­cia a soci­e­dade ou a soci­e­dade influ­en­cia a arte? Pas­se­mos adi­ante.

Movimento final: (In)conclusões… ou: o futuro, a quem pertence?

Trans­cen­dendo o pre­lú­dio e um pouco de infor­ma­ção acerca da indús­tria cul­tu­ral, me pego em mil refle­xões. Com­par­ti­lha­rei algu­mas, visando somente pro­pi­ciar a pro­vo­ca­ção – ou, em outras pala­vras, per­fa­zer o ato filo­só­fico.

1) Esta­mos diante do fim da arte? Lem­bre­mos que, nos mea­dos do século XX, noti­ci­a­ram que a arte estava em seu fim. Quem não se lem­bra do pote de excre­men­tos colo­cado no museu, ou mesmo dos rabis­cos inin­te­li­gí­veis de cer­tos artis­tas?

2) E a música, como expres­são de sen­ti­men­tos, cada vez menos exi­gente… esta­ría­mos cami­nhando para uma música somente para entre­te­ni­mento, sem se pre­o­cu­par mais com o ato de ouvir? Quando a música passa a ter uma fun­ção prag­má­tica, como pas­sos core­o­gra­fa­dos, repro­du­zi­dos inces­san­te­mente, ou o “pas­sar-tempo”, ainda have­ria música? Não esta­mos sendo bom­bar­de­a­dos com o mesmo (o eterno retorno… do cd)? Quem nunca per­ce­beu que, medi­ante o enorme número de can­to­res ser­ta­ne­jos, estes foram enco­ra­ja­dos a gri­tar o nome no meio das músi­cas (para que pos­sa­mos lem­brar o autor que esta­mos a ouvir)? Sim, Gust­tavo Lima e você.

3) Tudo seria arte? O que é expres­são deve ser res­pei­tado e/ou não cri­ti­cado? O poli­ti­ca­mente cor­reto (e sua car­ti­lha de bons cos­tu­mes) que me per­doe, mas na filo­so­fia ainda há a pos­si­bi­li­dade de ques­ti­o­na­mento. Durma bem com essa.

4) Aquilo que depre­cia o ser humano, que o coloca como um sim­ples ani­mal pre­da­dor sexual, que des­va­lo­riza o pen­sa­mento e a von­tade de trans­cen­der… ainda assim isso seria arte?

Mr. Catra soltando uma gargalhada. | falência cultural

Bem, outros ques­ti­o­na­men­tos são pos­sí­veis. Tan­tos outros. Prin­ci­pal­mente, se pen­sar­mos que temos a inter­net hoje, que nos per­mite sair do cír­culo midiá­tico e revi­si­tar coi­sas novas. Mas esta­ria a inter­net real­mente nos pro­pi­ci­ando novi­da­des?

Eu, mero ques­ti­o­na­dor do caos, fico com as pala­vras de Pla­tão – que, em seu diá­logo Gór­gias, exclama:

Quanto a mim, recuso o nome de arte a uma atividade irracional.

Ps.: vale lem­brar que nada pos­sui foro pri­vi­le­gi­ado quando tra­ta­mos desse tema. O rock, funk, axé, ser­ta­nejo… todos esses rit­mos foram englo­ba­dos pela indús­tria, repe­tindo as fór­mu­las mági­cas cita­das acima. Haverá saída? Mais uma per­gunta, que abre a pos­si­bi­li­dade do debate. Não há filo­so­fia sem debate.


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Danilo Švágera
Mestre em Educação, professor de Filosofia, ensaísta e palestrante. Depois de vários anos trabalhando em escolas tradicionais, resolveu que era hora de transformar a Educação - ou, ao menos, uma parte dela. Acredita firmemente nos dizeres: "ser e não estar professor".

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