Álvaro Vieira Pinto, exímio filósofo brasileiro, dizia que sua maneira de escrita poderia ser denominada meditação livre: uma sucessão de pensamentos, de insights. Longe de equiparar-me ao meu grande mestre, proponho este texto – também escrito nesse estilo. Uma sucessão de pensamentos, que me acometem pela perturbação que a música do vizinho me causa. Caso contenha erros, perdoem-me: dificilmente um ser humano pensaria veementemente lúcido com as condições musicais impostas pelo apartamento ao lado.

Movimento I: Prelúdio do Caos

“Hoje é domingo, missa e praia… céu de anil”. Dentre todos os elementos contidos na famosa música de Raul Seixas, ficarei somente com o domingo. Não frequento missas, o Estado onde moro não possui praias e o céu… bem, hoje está nublado e frio. Um domingo tipicamente preguiçoso perpassa pela janela.

Apesar de não me considerar ontologicamente cristão, culturalmente todos possuímos uma parcela desse segmento. Ainda respeito os feriados, tendo a uma compaixão cristã (Nietzsche faria referência à moral do escravo, mas ainda creio na benevolência como forma de transcender o mal) e domingos são epistemologicamente lentos… e preguiçosos. Jurei-me não escrever hoje, deixando uma hora de amanhã reservada para tal ato. Mas não deu. Absolutamente não. Mas por qual motivo?

Uma música penetra progressivamente pela minha janela, até alcançar um volume altíssimo. O vizinho, sobre quem não tenho nenhum conhecimento (Lyotard poderia discursar nesse momento sobre a condição pós-moderna da sociedade), escuta algo que possui como tônica mulheres, coito, órgãos genitais e uma batida incessante. Pela classificação, prevejo que tal música seja um funk, sem uma tonalidade pré-definida, provavelmente pela peripécia do cantor em atingir microtons. Ou estaria somente desafinado mesmo.

Bem, esse é o contexto. E pego-me a pensar filosoficamente. Como um verme (a filosofia é um verme que, quando menos se espera, inicia sua ação), sou tentado a solicitar Nietzsche, Lyotard, Adorno, Marcuse, Platão… mas me controlo, por ser domingo, e pensarei como Danilo. E uma gama de retalhos.

Movimento II: Temos a arte que merecemos?

Certa vez li que a sociedade possui a arte que merece. Se caso a frase possua um grau de veracidade, estamos numa falência múltipla de órgãos (não somente os genitais da música). Penso, nesse momento, em todos os compositores que deixaram sua marca na nossa herança cultural do ocidente – tais como Bach, Mozart, Beethoven. Compositores que passavam semanas a compor obras para a alma (e também para o corpo, visto que são capazes de gerar sensações). Como numa dialética hegeliana, cada estágio perpassava novas ideias, novos momentos, englobando o anterior e trazendo em si a marca do novo. Foi assim quando o canto gregoriano vai progressivamente utilizando-se da polifonia; o contraponto vai se tornando recorrente e descobrindo novas fórmulas; ou passamos a pensar em formas dodecafônicas.

Mas… (como tudo na História, a partícula linguística “mas” é evocada. Em alguns casos, infelizmente evocada. Tenho falado tanto de Heráclito e seu fluxo. Possivelmente, além do mundo ser tudo o que ocorre, como dizia Wittgenstein, podemos pensar que somos uma sucessão de “mas”…). Continuando. No século XX, empresas perceberam que a arte era possivelmente rentável. Os mecenas já existiam desde séculos anteriores, mas não ainda seguiam uma lógica industrial.

A partir do século supracitado, grandes corporações iniciam a via crucis de rentabilizar a arte, respeitando algumas premissas básicas que imporiam lucro à mercadoria: a música teria de ser simples, para não surpreender os ouvidos menos treinados; teria de ser repetitiva, tanto em letras quanto em ritmo: pois possibilitaria marcar o ouvinte; teria de ser curta, para não produzir um efeito enfadonho; teria de possuir temas cotidianos, para afetar a alma de quem ouve; o artista seria elevado à categoria de também mercadoria, comercializando sua imagem (imagem essa que, muitas vezes, transcenderia sua própria criação). Como veículo, utilizariam das mídias que estavam surgindo, para impulsionar a venda do produto. Primeiramente o rádio, depois a mídia física (o vinil, depois os cd´s…). Mais tarde a televisão, hoje a internet.

Independente do veículo, o objetivo era bem simples: quanto mais lucro, melhor o artista – nos moldes da indústria cultural. Essa “empresa da cultura” faria o falso parecer verdadeiro ocultando a possibilidade de utilizar a arte como forma de pensamento, o que levou Adorno a exclamar: “Cada expressão, cada notícia e cada pensamento estão preformados pelos centros da indústria cultural. O que não traz o vestígio familiar de tal preformação é, de antemão, indigno de crédito, e tanto mais quanto as instituições da opinião pública acompanham o que delas sai com mil dados factuais e com todas as provas de que a manipulação total pode dispor. A verdade que intenta opor-se não tem apenas o carácter de inverosímil, mas é, além disso, demasiado pobre para entrar em concorrência com o altamente concentrado aparelho da difusão”.

Volvendo à pergunta desse movimento, realmente não sei a resposta. Se temos a arte que merecemos, como anteriormente disse, estamos no processo de falência intelectual. Talvez (e estou quase certo disso), temos a política que merecemos, a ética que merecemos, a cultura que merecemos. Uma pergunta básica: a arte influencia a sociedade ou a sociedade influencia a arte? Passemos adiante.

Movimento final: (In)conclusões… ou: o futuro, a quem pertence?

Transcendendo o prelúdio e um pouco de informação acerca da indústria cultural, me pego em mil reflexões. Compartilharei algumas, visando somente propiciar a provocação – ou, em outras palavras, perfazer o ato filosófico.

1) Estamos diante do fim da arte? Lembremos que, nos meados do século XX, noticiaram que a arte estava em seu fim. Quem não se lembra do pote de excrementos colocado no museu, ou mesmo dos rabiscos ininteligíveis de certos artistas?

2) E a música, como expressão de sentimentos, cada vez menos exigente… estaríamos caminhando para uma música somente para entretenimento, sem se preocupar mais com o ato de ouvir? Quando a música passa a ter uma função pragmática, como passos coreografados, reproduzidos incessantemente, ou o “passar-tempo”, ainda haveria música? Não estamos sendo bombardeados com o mesmo (o eterno retorno… do cd)? Quem nunca percebeu que, mediante o enorme número de cantores sertanejos, estes foram encorajados a gritar o nome no meio das músicas (para que possamos lembrar o autor que estamos a ouvir)? Sim, Gusttavo Lima e você.

3) Tudo seria arte? O que é expressão deve ser respeitado e/ou não criticado? O politicamente correto (e sua cartilha de bons costumes) que me perdoe, mas na filosofia ainda há a possibilidade de questionamento. Durma bem com essa.

4) Aquilo que deprecia o ser humano, que o coloca como um simples animal predador sexual, que desvaloriza o pensamento e a vontade de transcender… ainda assim isso seria arte?

Mr. Catra soltando uma gargalhada. | falência cultural

Bem, outros questionamentos são possíveis. Tantos outros. Principalmente, se pensarmos que temos a internet hoje, que nos permite sair do círculo midiático e revisitar coisas novas. Mas estaria a internet realmente nos propiciando novidades?

Eu, mero questionador do caos, fico com as palavras de Platão – que, em seu diálogo Górgias, exclama:

Quanto a mim, recuso o nome de arte a uma atividade irracional.

Ps.: vale lembrar que nada possui foro privilegiado quando tratamos desse tema. O rock, funk, axé, sertanejo… todos esses ritmos foram englobados pela indústria, repetindo as fórmulas mágicas citadas acima. Haverá saída? Mais uma pergunta, que abre a possibilidade do debate. Não há filosofia sem debate.


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Gosto se discute?
Sua música favorita é algo muito mais sério do que você imagina

Danilo Švágera
Mestre em Educação, professor de Filosofia, ensaísta e palestrante. Depois de vários anos trabalhando em escolas tradicionais, resolveu que era hora de transformar a Educação - ou, ao menos, uma parte dela. Acredita firmemente nos dizeres: "ser e não estar professor".
  • D. de A.

    Muito bom o artigo, mas não vejo mal nenhum na simplicidade de uma música rítmica.
    Apesar de concordar com a carência em conteúdo lírico aprofundado, o conteúdo lírico raso desempenha um papel fundamental biologicamente: o prazer do corpo, que se estende à dança. A atitude invasiva de quem escuta isso não deve ser compactuada, mas não ignoremos a inteligência sexual explícita, uma vez que na poesia isso é muito comum.
    Não é o fim, é a redução primária.

  • Caio

    Pior são os zé humanas com argumentos mastigados de sociologia tentando explicar o lixo que é muita música popular

  • joao edson

    funk é uma desgrassa, é um lixo,é bom o brasil nao ter ministerio da cultura nao bando inuteis fazem nada mesmo.

  • Thays Helena Jorge Silvestri

    Eu sou mais simplista. A cultura musical não irá falir, existe produção artística de qualidade no Brasil e no mundo.
    Não me incomoda que as pessoas gostem de ritmos e músicas bem diferentes dos estilos que eu gosto, escuto e compro. Afinal, gosto não se discute, lamenta-se!
    Mas muito me incomoda ter que escutar algo que não gosto ou que não quero, forçada pela altura do som do carro ao lado ou do som do vizinho.
    Se a pessoa gosta, que escute, ela tem este direito, mas não tem o direito de me forçar a escutar o mesmo som que ela, seja funk, sertanejo, rock ou ópera.
    Mas por favor, abaixa o som! Respeite o meu direito de não escutar!

  • Talvez a falência parta de quem não sabe respeitar a cultura do vizinho. Não digo que ouvir a música alta deveria ser aceito, pois nessa parte entram outro pontos de direitos e deveres.
    As pessoas que gostam de encher o papo e se intitularem cultas, escrachando a cultura funk, pra mim, perde todo o respeito. Falar sobre órgãos genitais, coito e afins faz parte da arte desde seus primórdios, no entanto é um movimento mais atual falar de forma mais aberta, sem palavras pomposas. A vulgaridade é uma coisa má vista e isso impulsiona a difamação desse movimento. O funk é um movimento cultural de uma parcela da sociedade que utiliza menos da influências históricas em suas composições, mais um ponto negativo ao olhar de quem valoriza um herança cultural.
    Todo movimento artístico tem sua influência cultural e seu valor do ponto de vista de seus admiradores. O movimento pode não ser intelectual e/ou formal, mas é arte! Quem sabe pode ser uma versão adaptada do Dadaísmo?
    Há quem diga que um urinol não seja arte. Eu prefiro me questionar: por que não?
    Mas o questionamento que me faço sempre quando vejo algo como esse texto é: arte é tudo aquilo que passa por um processo de criação e atinge um público causando nele um sentimento, ou somente aquilo que é valorizado pela sociedade intitulada como culta?
    Tendo a arte como uma expressão cultural, não fica difícil de chegar a uma resposta menos discriminatória e mais respeitosa com o gosto do vizinho.
    Não é politicamente correto, é questão de empatia. Esse artigo propaga sim a ideia de que pessoas no mundo do funk propagam o retrocesso cultural, enquanto eles estão gerando o próprio movimento.
    O rockeiro radical diz que qualquer outro tipo de música é lixo e que não presta, o corintiano roxo diz que qualquer outro time não presta, não vejo nesse texto um extremismo diferente dos anteriores citados.

  • Tiago Barros

    Que artigo chato da porra, cadê a coesão e a coerência ? E pra que tantos parênteses? Pra que tantas citações de filósofos, sem explicar os conceitos dos caras? Sem isso, parece que o autor do texto só quer se exibir como o carinha cult que manja de filosofia. Se tu manja mesmo, escreva mais detalhes! Ou todo mundo que lê seu texto é obrigado a versar sobre filosofia? Acho que não.

    • Danilo Švágera

      Agradeço-lhe o comentário. Infelizmente, não compactuo com a afirmação dos problemas de coesão e coerência – e, caso haja algum, o início do texto já adverte sobre a sucessão de pensamentos que abriria espaço a tal. Ademais, como o texto possui uma limitação de espaço, muitos filósofos não poderiam ser dissecados – não seria a deixa para que os leitores aprofundassem no tema e almejassem ir além do texto? Sobre os parênteses, é um traço estilístico que separa os pensamentos do momento com a escrita crua. Bem, a internet é uma zona aberta para opiniões e fico grato com a sua. Mesmo sendo infundada, temos de respeitá-la.

  • Rafael Prazeres

    Brother, você escreve muito bem, parabéns!

    Já parou para fazer um análise de redes sociais que não estão disponíveis no Brasil? A diferença é absurda.

    Quora é um dos grandes exemplos. Conteúdo de alta qualidade criado por usuários como você e eu. Seria pedir demais, um artigo analisando tais redes? Gostaria de saber a sua opinião sobre o assunto.

    Grande abraço!

    • Danilo Švágera

      Obrigado pelo carinho e pela sugestão temática. Será um prazer escrever sobre tão estimado assunto por este que vos fala. Caso acompanhe o site, verás a abordagem do tema em breve. Grande abraço!

  • Emerson Lopes

    Confesso que possivelmente posso estar errado, afinal não sou dono da razão (e nem pretendo ser), mas aproveitando a reflexão proposta, penso que devemos “Promover o que nos encanta ao invés de atacar o que nos desagrada.

    Para Sócrates, “O segredo da mudança é focar toda a sua energia, não em brigar, mas em construir o novo.”

    Seguindo esta linha de pensamento, acredito que quanto mais divulgarmos aquilo que nos encata, haverá menos espaço para tudo aquilo que nos desgrada, evoluindo e transformando nossa cultura, cada vez mais, naquilo que nos enche de orgulho.

    Sendo assim, deixo abaixo link de apenas um exemplo da nossa cultura:
    https://www.youtube.com/watch?v=Lkcv331VGFY

    Tenho certeza que cada um de nós, é capaz de expor muito mais daquilo que nós faz vibrar, pois a diversidade cultural brasileira é incrível!!!!

    Pense sempre:
    “Cada um só vê do universo aquilo que a sua sensibilidade ou a sua maneira de ser lhe permite. O universo pode ser muito mais vasto e muito mais diferente do que aquilo que é apenas o nosso mundo.”
    _Agostinho da Silva

    Abraços e sucesso sempre!