É um aforismo comum, para os melhores juízos, que a verdade e a excelência das coisas não estão nos extremos. O “equilíbrio”, o “justo”, o “meio-termo”, são constantemente elogiados. Entretanto, muitas vezes nos encontramos à mercê de duas opções, dois polos opostos que, quando estamos menos dotados de razão, parecem impor a escolha por um deles juntamente com a rejeição do outro.

Mas deve haver uma terceira opção, uma no meio do oito e do oitenta, capaz de transcender as duas outras e atingir um grau mais próximo da verdade. Em muitos povos antigos, de diferentes épocas e lugares, reconhecia-se esses três princípios (os dois extremos da dualidade e um terceiro ponto) de maneira mais profunda, entendendo-os como parte fundamental no “software” cósmico.

Temos como exemplo alguns textos da tradição hindu (tomo aqui como base o Bhagavad-Gîtâ), que discorrem sobre as três gunas (qualidades fundamentais) da Prakriti (matéria). São elas: Tamas (a inércia, a obscuridade, a ignorância); Rajas (a atividade excessiva, o desejo que gera sofrimento); e Sattwa (o terceiro ponto entre ambos, a harmonia, o equilíbrio).

Da mesma forma, os egípcios antigos vinculavam o movimento excessivo ao gato Mau, a inércia à Tifon, e a Esfinge, acima dos outros dois, como o terceiro princípio harmônico, tal como mostra a carta 10 do chamado Tarot Egípcio.

Extremistas: Carta 10 do Tarot egípcio: a "Roda da Fortuna"
Carta 10 do Tarot egípcio: a “Roda da Fortuna”

A profundidade desses conceitos, entretanto, vai bem mais além do que foi exposto, servindo por ora simplesmente para evidenciar a ideia do tema proposto por este artigo, e que no passado tomou proporções metafísicas.

Para adequar melhor à nossa compreensão, recorro a Aristóteles, que define em Ética a Nicômaco que o conceito de “virtude” não é exatamente um meio-termo entre dois extremos, mas sim um terceiro ponto que os transcende, reproduzindo a excelência. Como filósofo detalhista que era, Aristóteles dá inúmeros exemplos e aplicações práticas de seu pressuposto, a exemplo da virtude do homem liberal, que está entre os extremos do pródigo e do avaro, e do homem espirituoso, que é o virtuoso entre o bufão vulgar e o rústico grosseiro.

Ousei associar os conhecimentos em um gráfico triangular, pois essa forma, ao contrário da linha reta, reproduz a ideia de que há um terceiro ponto distinto e diferenciado, ao invés de ser um mero equilíbrio entre os extremos. Além disso, esse ponto está hierarquicamente acima dos outros dois, no quesito da virtude.

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Se aceitarmos isso tudo e concluímos que realmente a verdade e a excelência não estão nos extremos, a lógica nos leva a crer que tudo o que é movimento extremo (seja físico, psicológico, social, ideológico, etc.) está, consequentemente, inspirado por outras questões que não a busca por esse justo meio. Ou será que estamos sempre buscando a excelência e a virtude, porém muitas vezes de maneira errada, fazendo-nos não perceber que na verdade estamos contemplando um extremo? Eis o que vamos investigar.

O apego aos extremos

O que mais pode ser a causa de um movimento extremo senão a negação do seu polo oposto? Pois se existe a militância radical em defesa de um lado da moeda e a virtude está na harmonia da moeda inteira, talvez mais forte do que essa militância seja o medo de entrar em contato com o lado oposto/complementar, evidenciando a desarmonia característica do que está longe da virtude.

Vamos atrás de exemplos. Na dimensão ideológica e social: existe mais uma defesa do capitalismo/socialismo ou mais um antissocialismo/anticapitalismo? Da mesma forma, na atualidade, muitos religiosos são mais anticiência do que estritamente religiosos, e muitos defensores da ciência são mais antirreligião do que simplesmente pró-ciência. Na dimensão psicológica e moral: o que é um pródigo senão um anti-avaro? Ou um excessivamente modesto senão um anti-jactancioso? (esses exemplos são de Aristóteles em Ética a Nicômaco)

O famoso psiquiatra suíço Carl Jung muito falava do que ele chamava de função compensatória da psique. Tal função se caracteriza por uma contraposição do inconsciente ao consciente, de forma a contemplar os aspectos que foram negados por esse último. Assim, um ser humano saudável seria aquele que possui uma maior harmonização entre o consciente e o inconsciente, possuindo mais, nas palavras do psiquiatra, “inteireza”. Mas quanto mais agarrados estamos a um dos polos de um aspecto da vida, mais o inconsciente se manifestará tentando compensar com o outro polo, resultando muitas vezes em sofrimento.

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A busca de integração da psique aproxima os opostos.

Por exemplo: se por algum motivo estamos em um momento da vida em que achamo-nos excessivamente especiais e melhores do que os outros, algum fenômeno do inconsciente, como um sonho, poderá retratar-nos menor e inferior, no intuito de compensar nossa atitude e nos fazer mais harmônicos e realistas. Ou seja, a psique de certa forma empurra-nos ao terceiro ponto, à virtude aristotélica.

Se assim for, parece que estamos condenados a encontrar a virtude e a excelência, pelo menos psiquicamente, pois aspiramos à inteireza. Afinal, quem não quer deixar de sofrer? Entretanto, ao constatarmos que estamos de alguma forma presos nos opostos, evidenciamos a dimensão circular em que eles se encontram. Expliquemos isso melhor.

Os extremos se tocam

Um pêndulo que chegou a uma altura máxima deverá subir a lateral contrária em velocidade e altura semelhante; um navegador que ancora no extremo oeste está na verdade no leste.

Em algumas interpretações do símbolo taoísta Yin-Yang, diz-se que os pontos branco e preto no âmago de cada lado representam justamente a lei natural da infinitude circular da matéria, pois aonde se finda um lado, o outro começa.

Dessa forma, esbarramos na ilusão que a militância por um dos extremo é. Afinal, o que significa o encontro com o seu oposto senão um evidente empurrão para o outro lado, um claro aviso de que não chegamos aonde aspirávamos chegar, mas sim justamente aonde não queríamos ir.

extremista: O Yin-yang.
O Yin-yang.

Por conseguinte, quando uma polaridade alcança a outra, não chegou senão nela mesma, no mesmo lugar aonde começou. Trata-se de uma interpretação que sugere a ideia de infinitude, mas também de deriva, de caos subjetivo, de escravidão às circunstâncias, de um esforço que não leva a lugar nenhum.

É evidente, portanto, que o terceiro ponto, o que está acima das duas polaridades em nosso gráfico triangular, deve ser alcançado com a força de um agente externo. O pêndulo só poderá chegar a um terceiro ponto se algo lhe paralisar ou tirar do rumo. O navegador só chegará a um lugar que possa chamar de leste quando estabelecer um ponto específico como parâmetro.

A virtude aristotélica, portanto, necessita de força de vontade para ser alcançada, algo externo aos movimentos pendulares que nossa inconsciência e ignorância estão sujeitas. Para encontrar a verdade, há de haver saber. Saber é poder.

Os gregos arcaicos simbolizaram essa questão com a derrota de Cronos, o deus do tempo, por Zeus. Segundo Viktor D. Salis, que se apóia na Teogonia de Hesíodo, Cronos e sua foice estão associados ao “curvo pensar”, à ciclicidade característica do tempo e da matéria. Os filhos de Cronos e sua esposa-irmã Réa (que significa “duração”) são devorados pelo pai à medida em que nascem. Seu filho caçula, Zeus, o vence e salva seus irmãos da barriga do pai, inaugurando a nova era cósmica na mitologia grega, que contempla a evolução, a busca por um objetivo, por algo que possa ser concretizado no mundo e que não seja devorado por nós mesmos.

Cair em um extremo é, pois, cair no vício, ser centrifugado de nossas aspirações e satisfazermo-nos com “cronicidades”. Não é a toa que associamos os vícios a círculos, os chamados “círculos viciosos”. Afinal, é justamente isso o que é o vício: algo que se repete de maneira mecânica e que não leva a lugar algum senão a ele mesmo. Em outras palavras, é um extremo que leva ao outro e depois de volta ao primeiro. Infinitamente. É a lei de Cronos e Réa imperando sobre a lei de Zeus e Hera, é a foice recurva nos fazendo gastar o precioso tempo de nossa vida que deveria ser usado para a construção de algo.

Esse algo para algumas pessoas talvez seja status e dinheiro, talvez para uma mãe seja o desenvolvimento dos filhos, para o Ano Zero é a construção de um mundo melhor. Porém, se assumirmos a posição teórica de Jung, alguns sabem melhor o que é esse algo e o perseguem de maneira mais clara e inteligente, enquanto que outros estão completamente iludidos e indo na direção contrária, cegos ao terceiro ponto entre os extremos, à virtude aristotélica que seu inconsciente tenta apresentar.

A esses últimos, a dor os empurrará ao terceiro ponto, pois, ao que parece, tal é a lei na era cósmica de Zeus e Hera: pelo amor ou pela dor, estamos fadados a ser virtuosos e excelentes.


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escrito por:

Rodolfo Dall'Agno

Músico, mas graduando para ser psicólogo nas horas vagas. Tenta ao máximo ser escravo dos deuses, ou seja, livre.