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Os extremistas estão fadados a perecer

Em Consciência, Filosofia por Rodolfo Dall'AgnoComentário

É um afo­rismo comum, para os melho­res juí­zos, que a ver­dade e a exce­lên­cia das coi­sas não estão nos extre­mos. O “equi­lí­brio”, o “justo”, o “meio-termo”, são cons­tan­te­mente elo­gi­a­dos. Entre­tanto, mui­tas vezes nos encon­tra­mos à mercê de duas opções, dois polos opos­tos que, quando esta­mos menos dota­dos de razão, pare­cem impor a esco­lha por um deles jun­ta­mente com a rejei­ção do outro.

Mas deve haver uma ter­ceira opção, uma no meio do oito e do oitenta, capaz de trans­cen­der as duas outras e atin­gir um grau mais pró­ximo da ver­dade. Em mui­tos povos anti­gos, de dife­ren­tes épo­cas e luga­res, reco­nhe­cia-se esses três prin­cí­pios (os dois extre­mos da dua­li­dade e um ter­ceiro ponto) de maneira mais pro­funda, enten­dendo-os como parte fun­da­men­tal no “soft­ware” cós­mico.

Temos como exem­plo alguns tex­tos da tra­di­ção hindu (tomo aqui como base o Bha­ga­vad-Gîtâ), que dis­cor­rem sobre as três gunas (qua­li­da­des fun­da­men­tais) da Pra­kriti (maté­ria). São elas: Tamas (a inér­cia, a obs­cu­ri­dade, a igno­rân­cia); Rajas (a ati­vi­dade exces­siva, o desejo que gera sofri­mento); e Sattwa (o ter­ceiro ponto entre ambos, a har­mo­nia, o equi­lí­brio).

Da mesma forma, os egíp­cios anti­gos vin­cu­la­vam o movi­mento exces­sivo ao gato Mau, a inér­cia à Tifon, e a Esfinge, acima dos outros dois, como o ter­ceiro prin­cí­pio harmô­nico, tal como mos­tra a carta 10 do cha­mado Tarot Egíp­cio.

Extremistas: Carta 10 do Tarot egípcio: a "Roda da Fortuna"

Carta 10 do Tarot egíp­cio: a “Roda da For­tuna”

A pro­fun­di­dade des­ses con­cei­tos, entre­tanto, vai bem mais além do que foi exposto, ser­vindo por ora sim­ples­mente para evi­den­ciar a ideia do tema pro­posto por este artigo, e que no pas­sado tomou pro­por­ções meta­fí­si­cas.

Para ade­quar melhor à nossa com­pre­en­são, recorro a Aris­tó­te­les, que define em Ética a Nicô­maco que o con­ceito de “vir­tude” não é exa­ta­mente um meio-termo entre dois extre­mos, mas sim um ter­ceiro ponto que os trans­cende, repro­du­zindo a exce­lên­cia. Como filó­sofo deta­lhista que era, Aris­tó­te­les dá inú­me­ros exem­plos e apli­ca­ções prá­ti­cas de seu pres­su­posto, a exem­plo da vir­tude do homem libe­ral, que está entre os extre­mos do pró­digo e do avaro, e do homem espi­ri­tu­oso, que é o vir­tu­oso entre o bufão vul­gar e o rús­tico gros­seiro.

Ousei asso­ciar os conhe­ci­men­tos em um grá­fico tri­an­gu­lar, pois essa forma, ao con­trá­rio da linha reta, repro­duz a ideia de que há um ter­ceiro ponto dis­tinto e dife­ren­ci­ado, ao invés de ser um mero equi­lí­brio entre os extre­mos. Além disso, esse ponto está hie­rar­qui­ca­mente acima dos outros dois, no que­sito da vir­tude.

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Se acei­tar­mos isso tudo e con­cluí­mos que real­mente a ver­dade e a exce­lên­cia não estão nos extre­mos, a lógica nos leva a crer que tudo o que é movi­mento extremo (seja físico, psi­co­ló­gico, social, ide­o­ló­gico, etc.) está, con­se­quen­te­mente, ins­pi­rado por outras ques­tões que não a busca por esse justo meio. Ou será que esta­mos sem­pre bus­cando a exce­lên­cia e a vir­tude, porém mui­tas vezes de maneira errada, fazendo-nos não per­ce­ber que na ver­dade esta­mos con­tem­plando um extremo? Eis o que vamos inves­ti­gar.

O apego aos extremos

O que mais pode ser a causa de um movi­mento extremo senão a nega­ção do seu polo oposto? Pois se existe a mili­tân­cia radi­cal em defesa de um lado da moeda e a vir­tude está na har­mo­nia da moeda inteira, tal­vez mais forte do que essa mili­tân­cia seja o medo de entrar em con­tato com o lado oposto/complementar, evi­den­ci­ando a desar­mo­nia carac­te­rís­tica do que está longe da vir­tude.

Vamos atrás de exem­plos. Na dimen­são ide­o­ló­gica e social: existe mais uma defesa do capitalismo/socialismo ou mais um antissocialismo/anticapitalismo? Da mesma forma, na atu­a­li­dade, mui­tos reli­gi­o­sos são mais anti­ci­ên­cia do que estri­ta­mente reli­gi­o­sos, e mui­tos defen­so­res da ciên­cia são mais antir­re­li­gião do que sim­ples­mente pró-ciên­cia. Na dimen­são psi­co­ló­gica e moral: o que é um pró­digo senão um anti-avaro? Ou um exces­si­va­mente modesto senão um anti-jac­tan­ci­oso? (esses exem­plos são de Aris­tó­te­les em Ética a Nicô­maco)

O famoso psi­qui­a­tra suíço Carl Jung muito falava do que ele cha­mava de fun­ção com­pen­sa­tó­ria da psi­que. Tal fun­ção se carac­te­riza por uma con­tra­po­si­ção do incons­ci­ente ao cons­ci­ente, de forma a con­tem­plar os aspec­tos que foram nega­dos por esse último. Assim, um ser humano sau­dá­vel seria aquele que pos­sui uma maior har­mo­ni­za­ção entre o cons­ci­ente e o incons­ci­ente, pos­suindo mais, nas pala­vras do psi­qui­a­tra, “intei­reza”. Mas quanto mais agar­ra­dos esta­mos a um dos polos de um aspecto da vida, mais o incons­ci­ente se mani­fes­tará ten­tando com­pen­sar com o outro polo, resul­tando mui­tas vezes em sofri­mento.

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A busca de inte­gra­ção da psi­que apro­xima os opos­tos.

Por exem­plo: se por algum motivo esta­mos em um momento da vida em que achamo-nos exces­si­va­mente espe­ci­ais e melho­res do que os outros, algum fenô­meno do incons­ci­ente, como um sonho, poderá retra­tar-nos menor e infe­rior, no intuito de com­pen­sar nossa ati­tude e nos fazer mais harmô­ni­cos e rea­lis­tas. Ou seja, a psi­que de certa forma empurra-nos ao ter­ceiro ponto, à vir­tude aris­to­té­lica.

Se assim for, parece que esta­mos con­de­na­dos a encon­trar a vir­tude e a exce­lên­cia, pelo menos psi­qui­ca­mente, pois aspi­ra­mos à intei­reza. Afi­nal, quem não quer dei­xar de sofrer? Entre­tanto, ao cons­ta­tar­mos que esta­mos de alguma forma pre­sos nos opos­tos, evi­den­ci­a­mos a dimen­são cir­cu­lar em que eles se encon­tram. Expli­que­mos isso melhor.

Os extremos se tocam

Um pên­dulo que che­gou a uma altura máxima deverá subir a late­ral con­trá­ria em velo­ci­dade e altura seme­lhante; um nave­ga­dor que ancora no extremo oeste está na ver­dade no leste.

Em algu­mas inter­pre­ta­ções do sím­bolo taoísta Yin-Yang, diz-se que os pon­tos branco e preto no âmago de cada lado repre­sen­tam jus­ta­mente a lei natu­ral da infi­ni­tude cir­cu­lar da maté­ria, pois aonde se finda um lado, o outro começa.

Dessa forma, esbar­ra­mos na ilu­são que a mili­tân­cia por um dos extremo é. Afi­nal, o que sig­ni­fica o encon­tro com o seu oposto senão um evi­dente empur­rão para o outro lado, um claro aviso de que não che­ga­mos aonde aspi­rá­va­mos che­gar, mas sim jus­ta­mente aonde não que­ría­mos ir.

extremista: O Yin-yang.

O Yin-yang.

Por con­se­guinte, quando uma pola­ri­dade alcança a outra, não che­gou senão nela mesma, no mesmo lugar aonde come­çou. Trata-se de uma inter­pre­ta­ção que sugere a ideia de infi­ni­tude, mas tam­bém de deriva, de caos sub­je­tivo, de escra­vi­dão às cir­cuns­tân­cias, de um esforço que não leva a lugar nenhum.

É evi­dente, por­tanto, que o ter­ceiro ponto, o que está acima das duas pola­ri­da­des em nosso grá­fico tri­an­gu­lar, deve ser alcan­çado com a força de um agente externo. O pên­dulo só poderá che­gar a um ter­ceiro ponto se algo lhe para­li­sar ou tirar do rumo. O nave­ga­dor só che­gará a um lugar que possa cha­mar de leste quando esta­be­le­cer um ponto espe­cí­fico como parâ­me­tro.

A vir­tude aris­to­té­lica, por­tanto, neces­sita de força de von­tade para ser alcan­çada, algo externo aos movi­men­tos pen­du­la­res que nossa incons­ci­ên­cia e igno­rân­cia estão sujei­tas. Para encon­trar a ver­dade, há de haver saber. Saber é poder.

Os gre­gos arcai­cos sim­bo­li­za­ram essa ques­tão com a der­rota de Cro­nos, o deus do tempo, por Zeus. Segundo Vik­tor D. Salis, que se apóia na Teo­go­nia de Hesíodo, Cro­nos e sua foice estão asso­ci­a­dos ao “curvo pen­sar”, à cicli­ci­dade carac­te­rís­tica do tempo e da maté­ria. Os filhos de Cro­nos e sua esposa-irmã Réa (que sig­ni­fica “dura­ção”) são devo­ra­dos pelo pai à medida em que nas­cem. Seu filho caçula, Zeus, o vence e salva seus irmãos da bar­riga do pai, inau­gu­rando a nova era cós­mica na mito­lo­gia grega, que con­tem­pla a evo­lu­ção, a busca por um obje­tivo, por algo que possa ser con­cre­ti­zado no mundo e que não seja devo­rado por nós mes­mos.

Cair em um extremo é, pois, cair no vício, ser cen­tri­fu­gado de nos­sas aspi­ra­ções e satis­fa­zermo-nos com “cro­ni­ci­da­des”. Não é a toa que asso­ci­a­mos os vícios a cír­cu­los, os cha­ma­dos “cír­cu­los vici­o­sos”. Afi­nal, é jus­ta­mente isso o que é o vício: algo que se repete de maneira mecâ­nica e que não leva a lugar algum senão a ele mesmo. Em outras pala­vras, é um extremo que leva ao outro e depois de volta ao pri­meiro. Infi­ni­ta­mente. É a lei de Cro­nos e Réa impe­rando sobre a lei de Zeus e Hera, é a foice recurva nos fazendo gas­tar o pre­ci­oso tempo de nossa vida que deve­ria ser usado para a cons­tru­ção de algo.

Esse algo para algu­mas pes­soas tal­vez seja sta­tus e dinheiro, tal­vez para uma mãe seja o desen­vol­vi­mento dos filhos, para o Ano Zero é a cons­tru­ção de um mundo melhor. Porém, se assu­mir­mos a posi­ção teó­rica de Jung, alguns sabem melhor o que é esse algo e o per­se­guem de maneira mais clara e inte­li­gente, enquanto que outros estão com­ple­ta­mente ilu­di­dos e indo na dire­ção con­trá­ria, cegos ao ter­ceiro ponto entre os extre­mos, à vir­tude aris­to­té­lica que seu incons­ci­ente tenta apre­sen­tar.

A esses últi­mos, a dor os empur­rará ao ter­ceiro ponto, pois, ao que parece, tal é a lei na era cós­mica de Zeus e Hera: pelo amor ou pela dor, esta­mos fada­dos a ser vir­tu­o­sos e exce­len­tes.


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Rodolfo Dall'Agno
Psicologia de formação, mas música e filosofia de coração. Participante do programa Empresa Viva. Buscador de essências.

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