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Uma ética para além das fronteiras

Em Consciência, Filosofia, Política, Sociedade por Natan MoradorComentário

Desde a for­ma­ção dos Esta­dos Moder­nos, em mea­dos do século XV, as fron­tei­ras geo­po­lí­ti­cas e cul­tu­rais se for­ta­le­ce­ram: os ter­ri­tó­rios se tor­na­ram cada vez mais deli­mi­ta­dos, a lín­gua foi se con­so­li­dando e os cos­tu­mes foram se cris­ta­li­zando de modo a cir­cuns­cre­ver um deter­mi­nado povo.

Não é por acaso que as con­cep­ções de sujeito e, por­tanto, de sub­je­ti­vi­dade nas­cem de mãos dadas com a moder­ni­dade. No entanto, nos finais do século XX, com a emer­gên­cia dos novos meios de comu­ni­ca­ção, sobre­tudo da inter­net, tínha­mos a impres­são de que essas fron­tei­ras tão rígi­das fos­sem trans­pos­tas pela fami­ge­rada glo­ba­li­za­ção. Ledo engano!

Ape­sar das inú­me­ras pos­si­bi­li­da­des de se esta­be­le­cer con­tato com o dife­rente, com pes­soas das mais diver­sas regiões do pla­neta e de conhe­cer a riqueza cul­tu­ral que o mundo nos ofe­rece, ainda assim as ondas de xeno­fo­bia e de into­le­rân­cia pare­cem ter aumen­tado.

Na Rús­sia a onda de xeno­fo­bia em 2008 e 2009 alcan­çou índi­ces pre­o­cu­pan­tes – segundo a SOVA, uma Orga­ni­za­ção de Direi­tos Huma­nos com sede em Mos­cou – e em 2014 o pre­si­dente russo, Vla­di­mir Putin, disse que “com­ba­ter o racismo, a xeno­fo­bia e o naci­o­na­lismo agres­sivo” era um dever, indi­cando que após cinco anos os casos de into­le­rân­cia ainda eram comuns em seu país.

Já na Espa­nha são qua­tro mil casos de agres­sões por into­le­rân­cias étnico-raci­ais a cada ano, segundo o Obser­va­tó­rio Euro­peu do Racismo e da Xeno­fo­bia.

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Um fato inte­res­sante é que se fizer­mos uma pes­quisa rápida sobre paí­ses com maior número de casos xeno­fó­bi­cos, sere­mos dire­ci­o­na­dos à Europa.

Em 2011, de acordo com um rela­tó­rio da ONU (Orga­ni­za­ção das Nações Uni­das) os paí­ses mais racis­tas situ­a­vam-se no Velho Con­ti­nente. E em 2013, uma pes­quisa do Washing­ton Post aponta inú­me­ros paí­ses euro­peus con­si­de­ra­dos como into­le­ran­tes.

Alguns teó­ri­cos diziam e ainda dizem que a into­le­rân­cia é a expres­são da igno­rân­cia, ou seja, da falta de conhe­ci­mento. Esse argu­mento parece um pouco fala­ci­oso, na medida em que abre a pos­si­bi­li­dade de jus­ti­fi­car­mos a nossa aver­são ao dife­rente pelo sim­ples fato de não o conhe­cer­mos.

Se não conhe­ce­mos uma deter­mi­nada cul­tura ou povos e nos depa­ra­mos com estes temos a opor­tu­ni­dade de ampliar os nos­sos hori­zon­tes e não de nos afir­mar­mos e de nos fechar­mos à diver­si­dade, repe­lindo o que é dife­rente.

Em outros ter­mos, o novo deve­ria nos pro­vo­car curi­o­si­dade e a curi­o­si­dade é amiga da apren­di­za­gem, con­se­quen­te­mente, até pode­ría­mos não gos­tar de algu­mas coi­sas, mas cer­ta­mente as conhe­ce­ría­mos e res­pei­ta­ría­mos.

No entanto, há um dis­curso, vei­cu­lado pelos gru­pos con­ser­va­do­res radi­cais, que forma nos sujei­tos um blo­queio à inte­ra­ção com o outro e desse modo a pre­dis­po­si­ção que se deve­ria ter ao ten­tar conhe­cer qual­quer coisa que seja ini­bida e, por mais que venha a conhe­cer, não se sim­pa­tiza com o outro.

Logo, a into­le­rân­cia parece ser a expres­são de outra coisa que não seja ape­nas igno­rân­cia e parece estar asso­ci­ada à cons­tru­ção de um ethos de supe­ri­o­ri­dade e de des­cons­tru­ção, quando não de exclu­são, do dife­rente.

Não basta ter infor­ma­ção, ter o conhe­ci­mento, é pre­ciso dia­lo­gar com ele, se per­mi­tir ao novo, ao outro. Neste sen­tido, a into­le­rân­cia seria enten­dida como uma cons­tru­ção his­tó­rico-social: não se nasce into­le­rante, torna-se!

Fil­mes como A Vila (2004) diri­gido por M. Night Shya­ma­lan; His­tó­rias Cru­za­das (2011) base­ado no livro de Kathryn Stoc­kett e diri­gido por Tate Tay­lor; A Onda (2009) cujo dire­tor é Den­nis Gan­sel; Men­tes Peri­go­sas (1995) diri­gido por John N. Smith e inú­me­ras outras obras cine­ma­to­grá­fi­cas nos levam a uma refle­xão sobre a cri­a­ção de “mitos” e, por meio deles, a cons­tru­ção de uma aver­são ao dife­rente.

O pró­prio dis­curso cris­tão de “igual­dade” no qual o lema é de que “todos são iguais” – que é dife­rente do dis­curso de iso­no­mia defen­dido pela legis­la­ção, onde todas e todos sãos iguais num sen­tido legal, sem a perda das indi­vi­du­a­li­da­des sub­je­ti­vas – tem como pano de fundo uma homo­ge­nei­za­ção e, por­tanto, uma ampla defesa da exclu­são das dife­ren­ças.

John Locke, em seu texto Carta acerca da Tole­rân­cia, chama a aten­ção para essa ques­tão acen­tu­ando as dife­ren­ças entre a comu­ni­dade cristã e a “soci­e­dade dos homens”. Naquela se tem as fun­ções da reli­gião e nesta as do governo civil.

São os prin­cí­pios de lai­ci­dade, onde os direi­tos civis, aqui enten­di­dos como Direi­tos Huma­nos, devem ter pri­ma­zia com rela­ção às cren­ças, etnias e ide­o­lo­gias.

A com­pre­en­são do termo sim­pa­tia nos ajuda a melhor enten­der essa pro­ble­má­tica e parece uma saída plau­sí­vel, por mais utó­pica que venha a ser.

Segundo Abbag­nano (2007), os anti­gos filó­so­fos inter­pre­ta­vam essa pala­vra como uma “con­cor­dân­cia natu­ral entre coi­sas seme­lhan­tes e dis­cor­dân­cia natu­ral entre as coi­sas dife­ren­tes”, mas essas dis­cor­dân­cias con­cor­riam para uma “uni­dade uni­ver­sal”, ou seja, uma har­mo­nia dos con­trá­rios.

Isso, de certo modo, nos leva a enten­der que há uma clara defesa dos “dife­ren­tes”, em outros ter­mos, da diver­si­dade, sem que neces­sa­ri­a­mente se tenha a perda de uma uni­dade: não se enten­dia a diver­si­dade, o outro como uma anu­la­ção de si mesmo, mas como uma a pre­sen­ti­fi­ca­ção de um ser dife­rente.

David Hume, em seu livro Tra­tado da Natu­reza Humana (1738), desen­volve a ideia de que a sim­pa­tia é um sen­ti­mento por meio do qual nos vin­cu­la­mos a outras pes­soas:

Nenhuma qua­li­dade da natu­reza humana é mais impor­tante em si mesma ou em suas con­sequên­cias do que a pro­pen­são que temos a sim­pa­ti­zar­mos uns com os outros, a rece­ber­mos a comu­ni­ca­ção das incli­na­ções e dos sen­ti­men­tos dos outros, por mais dife­ren­tes que sejam dos nos­sos.”

 

Isso indica uma pre­o­cu­pa­ção com a con­di­ção humana e não sim­ples­mente com a con­di­ção sin­gu­lar, em outros ter­mos indica um “espí­rito público”, onde os “inte­res­ses da huma­ni­dade” estão em pri­meiro plano, em detri­mento dos inte­res­ses locais.

Não se trata de uma defesa do fim dos direi­tos sub­je­ti­vos e indi­vi­du­ais, mas estes não deve­riam se cons­ti­tuir em desa­cordo com os direi­tos huma­nos, num sen­tido forte do termo – dife­rente do que cor­ri­quei­ra­mente esta­mos acos­tu­ma­dos a ouvir sobre Direi­tos Huma­nos como se isso fosse uma frase de efeito.

Con­tudo, vimos no curso da his­tó­ria diver­sos momen­tos em que os inte­res­ses “naci­o­nais”, e mesmo pes­so­ais, irra­ci­o­nal­mente se sobre­pu­se­ram ao “espí­rito público”.

Para ser­mos sucin­tos pode­mos des­ta­car os casos de into­le­rân­cia

• na for­ma­ção dos Esta­dos Moder­nos;

• nas bar­bá­ries con­tra os povos do “Novo Mundo” que iro­ni­ca­mente – e Mon­taigne acen­tua essa iro­nia no Capí­tulo “Dos Cani­bais” no Livro I dos Ensaios – eram con­si­de­ra­dos bár­ba­ros;

• no final da Pri­meira Guerra Mun­dial, com a ascen­são das ide­o­lo­gias fas­cis­tas;

• com as Dita­du­ras Mili­ta­res da segunda metade do século XX; e

• quando pen­sa­mos que está­va­mos cami­nhando para uma “glo­ba­li­za­ção”, para uma pre­o­cu­pa­ção com a huma­ni­dade num sen­tido amplo, para um empe­nho geral com a erra­di­ca­ção da pobreza e das desi­gual­da­des étnico-socais em todo o pla­neta, e nos depa­ra­mos com uma onda con­ser­va­dora que parece ter se esten­dido por boa parte do oci­dente.

Os acon­te­ci­men­tos sócio-polí­ti­cos dos últi­mos três anos tra­zem con­sigo um odor de ultra­na­ci­o­na­lismo e de indi­vi­du­a­li­da­des radi­cais, por­tanto de fas­cismo, que deve nos pre­o­cu­par dema­si­a­da­mente.

• A ascen­são da Frente Naci­o­nal fran­cesa, na pes­soa da advo­gada Marine Le Pen que defende uma polí­tica de aus­te­ri­dade com rela­ção aos imi­gran­tes e à popu­la­ção mais pobre da França;

• A posi­ção da Ale­ma­nha e da Sué­cia frente à onda de imi­gra­ção na Europa;

• Os inú­me­ros casos de xeno­fo­bia e dis­cri­mi­na­ção no Reino Unido após a sua saída da União Euro­peia; e, sobre­tudo,

• A can­di­da­tura emble­má­tica de Donald Trump para a pre­si­dên­cia da maior potên­cia econô­mica do mundo, ali­ada à deli­cada situ­a­ção bra­si­leira, com um con­gresso mais con­ser­va­dor dos últi­mos qua­renta anos que defende pau­tas con­ser­va­do­ras radi­cais e cor­tes nos seto­res soci­ais.

Tudo isso são exem­plos que nos levam a refle­tir sobre a nossa posi­ção frente ao outro e sobre a nossa res­pon­sa­bi­li­dade – não enquanto mulher e homem, bra­si­leiro, latino-ame­ri­cano, mas enquanto ser que faz parte de uma Huma­ni­dade que não pode ser des­con­si­de­rada em razão de par­ti­cu­la­ri­da­des.

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A frase “não sou nem ate­ni­ense nem grego, mas sim um cida­dão do mundo” — que é atri­buída a Sócra­tes equi­vo­ca­da­mente e que outros estu­di­o­sos atri­buem a Plu­tarco, filó­sofo que viveu cerca de 450 anos depois de Sócra­tes – curi­o­sa­mente parece expres­sar a espe­rança que tínha­mos com a “glo­ba­li­za­ção”:

a de que as fron­tei­ras se diluís­sem e a noção de huma­ni­dade se for­ta­le­cesse com o pas­sar do tempo.

Quais seriam as impli­ca­ções mais posi­ti­vas dessa dis­so­lu­ção?

A pri­meira delas seria a cons­ti­tui­ção de uma ética Humana, ou seja, para o Homem e para a Mulher num sen­tido uni­ver­sal e não mais num sen­tido par­ti­cu­lar.

A segunda seria con­sequên­cia da pri­meira: a atri­bui­ção de res­pon­sa­bi­li­da­des num plano glo­bal e não ape­nas cir­cuns­crito a uma naci­o­na­li­dade.

Não pode­mos nos exi­mir — com base em uma ética humana -, por exem­plo, das nos­sas res­pon­sa­bi­li­da­des diante das trans­for­ma­ções cli­má­ti­cas; das epi­de­mias; da fome e do aumento de casos de Aids; das mor­tes nos paí­ses ára­bes e das mor­tes oca­si­o­na­das pela cres­cente imi­gra­ção na Europa, entre tan­tas outras ques­tões que pre­ci­sam ser vis­tas e ana­li­sa­das a par­tir de uma pers­pec­tiva mais glo­bal.

São pro­ble­mas que afe­tam não ape­nas a uma deter­mi­nada popu­la­ção ou região, mas que afe­tam à huma­ni­dade no geral. Reco­nhe­cer-se parte de um todo é um passo para cui­dar­mos do que­bra-cabeça que se cons­ti­tui de par­tes e não só das par­tes iso­la­da­mente.

Este que­bra-cabeça é o mundo no qual vive­mos, inte­ra­gi­mos e, por isso, não pode­mos cui­dar de uma parte sem pen­sar no todo, pois sozi­nha ela não serve para nada: está fadada à incom­ple­tude.

Com isso, que­re­mos refle­tir sobre o nosso papel na cons­tru­ção e manu­ten­ção desse que­bra-cabeça e a impli­ca­ção mais óbvia que parece haver é a de que temos uma res­pon­sa­bi­li­dade diante do outro, do mundo e de nós mes­mos.

Então, se não pode­mos mudar as situ­a­ções mais amplas, pode­mos mudar a nós mes­mos e àquilo que está ao nosso redor. Um bom começo é, por exem­plo, bus­car a des­cons­tru­ção das fron­tei­ras que nos bar­ram o con­tato com o estra­nho, o diverso, o plu­ral.

Neste sen­tido, não há por que for­ta­le­cer­mos as fron­tei­ras dos “Esta­dos Moder­nos” que ten­dem a per­ma­ne­cer por meio de nos­sas indi­vi­du­a­li­da­des, como se o mundo fosse o nosso quin­tal.

É pre­ciso trans­por a fron­teira do pró­prio sujeito e ampliar os hori­zon­tes para uma ética que colo­que em pri­meiro plano a Huma­ni­dade e não sim­ples­mente o homem.

Só assim os dis­cur­sos de ódio, a cons­tru­ção das into­le­rân­cias e das fron­tei­ras moder­nas se esva­zi­a­riam de sen­tido e só assim a pala­vra sim­pa­tia dei­xa­ria de ser um con­ceito dis­tante para se tor­nar em nós “a facul­dade de par­ti­ci­par das emo­ções de outrem, sejam elas quais forem”, como enten­dia – em con­so­nân­cia com Hume – Adam Smith (1759).


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Natan Morador
Formado em Filosofia pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e Mestrando em Educação na linha de pesquisa “História, Filosofia e Sociologia da Educação” do PPGE da UFSCar, com estudos na área de filosofia moderna, com ênfase em Michel de Montaigne. Tem experiências nas áreas de educação, educação popular, filosofia, música e literatura.

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