Desde a formação dos Estados Modernos, em meados do século XV, as fronteiras geopolíticas e culturais se fortaleceram: os territórios se tornaram cada vez mais delimitados, a língua foi se consolidando e os costumes foram se cristalizando de modo a circunscrever um determinado povo.

Não é por acaso que as concepções de sujeito e, portanto, de subjetividade nascem de mãos dadas com a modernidade. No entanto, nos finais do século XX, com a emergência dos novos meios de comunicação, sobretudo da internet, tínhamos a impressão de que essas fronteiras tão rígidas fossem transpostas pela famigerada globalização. Ledo engano!

Apesar das inúmeras possibilidades de se estabelecer contato com o diferente, com pessoas das mais diversas regiões do planeta e de conhecer a riqueza cultural que o mundo nos oferece, ainda assim as ondas de xenofobia e de intolerância parecem ter aumentado.

Na Rússia a onda de xenofobia em 2008 e 2009 alcançou índices preocupantes – segundo a SOVA, uma Organização de Direitos Humanos com sede em Moscou – e em 2014 o presidente russo, Vladimir Putin, disse que “combater o racismo, a xenofobia e o nacionalismo agressivo” era um dever, indicando que após cinco anos os casos de intolerância ainda eram comuns em seu país.

Já na Espanha são quatro mil casos de agressões por intolerâncias étnico-raciais a cada ano, segundo o Observatório Europeu do Racismo e da Xenofobia.

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Um fato interessante é que se fizermos uma pesquisa rápida sobre países com maior número de casos xenofóbicos, seremos direcionados à Europa.

Em 2011, de acordo com um relatório da ONU (Organização das Nações Unidas) os países mais racistas situavam-se no Velho Continente. E em 2013, uma pesquisa do Washington Post aponta inúmeros países europeus considerados como intolerantes.

Alguns teóricos diziam e ainda dizem que a intolerância é a expressão da ignorância, ou seja, da falta de conhecimento. Esse argumento parece um pouco falacioso, na medida em que abre a possibilidade de justificarmos a nossa aversão ao diferente pelo simples fato de não o conhecermos.

Se não conhecemos uma determinada cultura ou povos e nos deparamos com estes temos a oportunidade de ampliar os nossos horizontes e não de nos afirmarmos e de nos fecharmos à diversidade, repelindo o que é diferente.

Em outros termos, o novo deveria nos provocar curiosidade e a curiosidade é amiga da aprendizagem, consequentemente, até poderíamos não gostar de algumas coisas, mas certamente as conheceríamos e respeitaríamos.

No entanto, há um discurso, veiculado pelos grupos conservadores radicais, que forma nos sujeitos um bloqueio à interação com o outro e desse modo a predisposição que se deveria ter ao tentar conhecer qualquer coisa que seja inibida e, por mais que venha a conhecer, não se simpatiza com o outro.

Logo, a intolerância parece ser a expressão de outra coisa que não seja apenas ignorância e parece estar associada à construção de um ethos de superioridade e de desconstrução, quando não de exclusão, do diferente.

Não basta ter informação, ter o conhecimento, é preciso dialogar com ele, se permitir ao novo, ao outro. Neste sentido, a intolerância seria entendida como uma construção histórico-social: não se nasce intolerante, torna-se!

Filmes como A Vila (2004) dirigido por M. Night Shyamalan; Histórias Cruzadas (2011) baseado no livro de Kathryn Stockett e dirigido por Tate Taylor; A Onda (2009) cujo diretor é Dennis Gansel; Mentes Perigosas (1995) dirigido por John N. Smith e inúmeras outras obras cinematográficas nos levam a uma reflexão sobre a criação de “mitos” e, por meio deles, a construção de uma aversão ao diferente.

O próprio discurso cristão de “igualdade” no qual o lema é de que “todos são iguais” – que é diferente do discurso de isonomia defendido pela legislação, onde todas e todos sãos iguais num sentido legal, sem a perda das individualidades subjetivas – tem como pano de fundo uma homogeneização e, portanto, uma ampla defesa da exclusão das diferenças.

John Locke, em seu texto Carta acerca da Tolerância, chama a atenção para essa questão acentuando as diferenças entre a comunidade cristã e a “sociedade dos homens”. Naquela se tem as funções da religião e nesta as do governo civil.

São os princípios de laicidade, onde os direitos civis, aqui entendidos como Direitos Humanos, devem ter primazia com relação às crenças, etnias e ideologias.

A compreensão do termo simpatia nos ajuda a melhor entender essa problemática e parece uma saída plausível, por mais utópica que venha a ser.

Segundo Abbagnano (2007), os antigos filósofos interpretavam essa palavra como uma “concordância natural entre coisas semelhantes e discordância natural entre as coisas diferentes”, mas essas discordâncias concorriam para uma “unidade universal”, ou seja, uma harmonia dos contrários.

Isso, de certo modo, nos leva a entender que há uma clara defesa dos “diferentes”, em outros termos, da diversidade, sem que necessariamente se tenha a perda de uma unidade: não se entendia a diversidade, o outro como uma anulação de si mesmo, mas como uma a presentificação de um ser diferente.

David Hume, em seu livro Tratado da Natureza Humana (1738), desenvolve a ideia de que a simpatia é um sentimento por meio do qual nos vinculamos a outras pessoas:

“Nenhuma qualidade da natureza humana é mais importante em si mesma ou em suas consequências do que a propensão que temos a simpatizarmos uns com os outros, a recebermos a comunicação das inclinações e dos sentimentos dos outros, por mais diferentes que sejam dos nossos.”

 

Isso indica uma preocupação com a condição humana e não simplesmente com a condição singular, em outros termos indica um “espírito público”, onde os “interesses da humanidade” estão em primeiro plano, em detrimento dos interesses locais.

Não se trata de uma defesa do fim dos direitos subjetivos e individuais, mas estes não deveriam se constituir em desacordo com os direitos humanos, num sentido forte do termo – diferente do que corriqueiramente estamos acostumados a ouvir sobre Direitos Humanos como se isso fosse uma frase de efeito.

Contudo, vimos no curso da história diversos momentos em que os interesses “nacionais”, e mesmo pessoais, irracionalmente se sobrepuseram ao “espírito público”.

Para sermos sucintos podemos destacar os casos de intolerância

• na formação dos Estados Modernos;

• nas barbáries contra os povos do “Novo Mundo” que ironicamente – e Montaigne acentua essa ironia no Capítulo “Dos Canibais” no Livro I dos Ensaios – eram considerados bárbaros;

• no final da Primeira Guerra Mundial, com a ascensão das ideologias fascistas;

• com as Ditaduras Militares da segunda metade do século XX; e

• quando pensamos que estávamos caminhando para uma “globalização”, para uma preocupação com a humanidade num sentido amplo, para um empenho geral com a erradicação da pobreza e das desigualdades étnico-socais em todo o planeta, e nos deparamos com uma onda conservadora que parece ter se estendido por boa parte do ocidente.

Os acontecimentos sócio-políticos dos últimos três anos trazem consigo um odor de ultranacionalismo e de individualidades radicais, portanto de fascismo, que deve nos preocupar demasiadamente.

• A ascensão da Frente Nacional francesa, na pessoa da advogada Marine Le Pen que defende uma política de austeridade com relação aos imigrantes e à população mais pobre da França;

• A posição da Alemanha e da Suécia frente à onda de imigração na Europa;

• Os inúmeros casos de xenofobia e discriminação no Reino Unido após a sua saída da União Europeia; e, sobretudo,

• A candidatura emblemática de Donald Trump para a presidência da maior potência econômica do mundo, aliada à delicada situação brasileira, com um congresso mais conservador dos últimos quarenta anos que defende pautas conservadoras radicais e cortes nos setores sociais.

Tudo isso são exemplos que nos levam a refletir sobre a nossa posição frente ao outro e sobre a nossa responsabilidade – não enquanto mulher e homem, brasileiro, latino-americano, mas enquanto ser que faz parte de uma Humanidade que não pode ser desconsiderada em razão de particularidades.

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A frase “não sou nem ateniense nem grego, mas sim um cidadão do mundo” – que é atribuída a Sócrates equivocadamente e que outros estudiosos atribuem a Plutarco, filósofo que viveu cerca de 450 anos depois de Sócrates – curiosamente parece expressar a esperança que tínhamos com a “globalização”:

a de que as fronteiras se diluíssem e a noção de humanidade se fortalecesse com o passar do tempo.

Quais seriam as implicações mais positivas dessa dissolução?

A primeira delas seria a constituição de uma ética Humana, ou seja, para o Homem e para a Mulher num sentido universal e não mais num sentido particular.

A segunda seria consequência da primeira: a atribuição de responsabilidades num plano global e não apenas circunscrito a uma nacionalidade.

Não podemos nos eximir – com base em uma ética humana -, por exemplo, das nossas responsabilidades diante das transformações climáticas; das epidemias; da fome e do aumento de casos de Aids; das mortes nos países árabes e das mortes ocasionadas pela crescente imigração na Europa, entre tantas outras questões que precisam ser vistas e analisadas a partir de uma perspectiva mais global.

São problemas que afetam não apenas a uma determinada população ou região, mas que afetam à humanidade no geral. Reconhecer-se parte de um todo é um passo para cuidarmos do quebra-cabeça que se constitui de partes e não só das partes isoladamente.

Este quebra-cabeça é o mundo no qual vivemos, interagimos e, por isso, não podemos cuidar de uma parte sem pensar no todo, pois sozinha ela não serve para nada: está fadada à incompletude.

Com isso, queremos refletir sobre o nosso papel na construção e manutenção desse quebra-cabeça e a implicação mais óbvia que parece haver é a de que temos uma responsabilidade diante do outro, do mundo e de nós mesmos.

Então, se não podemos mudar as situações mais amplas, podemos mudar a nós mesmos e àquilo que está ao nosso redor. Um bom começo é, por exemplo, buscar a desconstrução das fronteiras que nos barram o contato com o estranho, o diverso, o plural.

Neste sentido, não há por que fortalecermos as fronteiras dos “Estados Modernos” que tendem a permanecer por meio de nossas individualidades, como se o mundo fosse o nosso quintal.

É preciso transpor a fronteira do próprio sujeito e ampliar os horizontes para uma ética que coloque em primeiro plano a Humanidade e não simplesmente o homem.

Só assim os discursos de ódio, a construção das intolerâncias e das fronteiras modernas se esvaziariam de sentido e só assim a palavra simpatia deixaria de ser um conceito distante para se tornar em nós “a faculdade de participar das emoções de outrem, sejam elas quais forem”, como entendia – em consonância com Hume – Adam Smith (1759).


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escrito por:

Natan Morador

Formado em Filosofia pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e Mestrando em Educação na linha de pesquisa “História, Filosofia e Sociologia da Educação” do PPGE da UFSCar, com estudos na área de filosofia moderna, com ênfase em Michel de Montaigne. Tem experiências nas áreas de educação, educação popular, filosofia, música e literatura.