Em janeiro de 1957, Jack Kerouac escreveu uma carta à sua primeira esposa, Edie Parker – uma década depois de seu casamento ter sido anulado. É uma mensagem inspiradora, em que ele transmite alguns ensinamentos e descobertas sobre o significado da vida humana. A carta reflete o interesse que Kerouac possuía pela filosofia Zen. E nisso ele não era nada original, seguia a maré, pois era um interesse compartilhado pela contracultura no período, influenciada por gente como John Cage e Alan Watts.

Mais de cinquenta anos depois, o diretor espanhol Sergi Castella transformou as palavras de Kerouac em um curta, patrocinado pela fabricante de bicicletas catalã Dosnoventa Bikes. Com músicas de Johnny Cash (Gonna Cut You Down) e Pink (Time), o resultado está aí neste vídeo.

Esse é o tipo de iniciativa que mostra caminhos possíveis na economia de mercado. A sacada é simples mas eficiente: em determinado momento, os personagens estão de motocicletas, mas uma delas dá pau, e eles prosseguem a viagem de bike.

Mas o vídeo apresenta uma versão resumida da carta de Kerouac, inclusive com alterações. Abaixo, rola uma tradução integral do trecho utilizado no vídeo, onde Kerouac viaja longe:

“Tenho um bocado de coisas para te ensinar agora, no caso de nunca mais nos vermos, relativas à mensagem que me foi transmitida embaixo de um pinheiro na Carolina do Norte em uma noite fria e enluarada de inverno. Diz-se que nada nunca acontece, então não se preocupe. É tudo como um sonho. Tudo é êxtase, no interior. Nós só não sabemos disso por causa de nossas mentes pensantes. Mas em nossa verdadeira essência da mente sabemos que tudo está certo lá dentro.

Feche seus olhos, deixe suas mãos e terminações nervosas relaxarem, pare de respirar por 3 segundos, escute o silêncio que está por trás da ilusão do mundo, e você se lembrará da lição que esqueceu, e que foi ensinada na imensa e suave nuvem da Via Láctea inumeráveis mundos atrás e nunca mais depois disso. Tudo e uma só coisa desperta. Eu a chamo de Eternidade Dourada. É perfeito.

Nós nunca realmente nascemos, nós nunca iremos realmente morrer. Isso não tem nada a ver com a ideia imaginária de um “eu” pessoal, outros “eus”, muitos “eus” em todos os lugares: “Eu” é apenas uma ideia, uma ideia de mortais, que ocorre a todas as coisas que são uma coisa. É um sonho que já acabou. Não há nada a temer e nada a agradecer. Eu sei disso por olhar as montanhas por meses a fio. Elas nunca mostram nenhuma expressão, são como a vacuidade do espaço. Você acha que a vacuidade do espaço irá algum dia desmoronar? As montanhas irão desmoronar, mas a vacuidade do espaço, que é a essência universal da mente, o vasto despertar, vazio e consciente, jamais desmoronará porque jamais nasceu.”

A carta termina com uma versos livres de Kerouac:

“O mundo que você vê é só um filme em sua mente.
Pedras não o veem.
Abençoe e sente-se,
Pratique a gentileza o dia inteiro e com todos
e você perceberá que já está
no Paraíso agora.
Essa é a história,
Essa é a mensagem.
Ninguém a compreende,
Ninguém a escuta, Eles estão
Todos correndo por aí como galinhas com cabeças
cortadas. Eu tentarei ensinar, mas será
em vão, e então irei
acabar em um barraco,
orando e sendo
legal e cantando
na frente do meu fogão a lenha
fazendo panquecas.”

A impressão é que Kerouac estava em contato com uma verdade poderosa, e que ele sentia dificuldades em verbaliza-la pois não correspondia à nossa experiência ordinária. Mas sua mensagem, principalmente pela carga de urgência emocional, parece importante: todos os dias podemos testemunhar o sublime, aquilo que ele chamou de “eternidade dourada”, mas por alguma razão estamos condicionados a fechar os olhos para essa experiência – só faltou Kerouac nos explicar porque.

escrito por:

Victor Lisboa

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