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A Eternidade Dourada

Em Arte, Tempo de Curtir, Tempo de Saber por Victor LisboaComentário

Em janeiro de 1957, Jack Kerouac escre­veu uma carta à sua pri­meira esposa, Edie Par­ker — uma década depois de seu casa­mento ter sido anu­lado. É uma men­sa­gem ins­pi­ra­dora, em que ele trans­mite alguns ensi­na­men­tos e des­co­ber­tas sobre o sig­ni­fi­cado da vida humana. A carta reflete o inte­resse que Kerouac pos­suía pela filo­so­fia Zen. E nisso ele não era nada ori­gi­nal, seguia a maré, pois era um inte­resse com­par­ti­lhado pela con­tra­cul­tura no período, influ­en­ci­ada por gente como John Cage e Alan Watts.

Mais de cin­quenta anos depois, o dire­tor espa­nhol Sergi Cas­tella trans­for­mou as pala­vras de Kerouac em um curta, patro­ci­nado pela fabri­cante de bici­cle­tas catalã Dos­no­venta Bikes. Com músi­cas de Johnny Cash (Gonna Cut You Down) e Pink (Time), o resul­tado está aí neste vídeo.

Esse é o tipo de ini­ci­a­tiva que mos­tra cami­nhos pos­sí­veis na eco­no­mia de mer­cado. A sacada é sim­ples mas efi­ci­ente: em deter­mi­nado momento, os per­so­na­gens estão de moto­ci­cle­tas, mas uma delas dá pau, e eles pros­se­guem a via­gem de bike.

Mas o vídeo apre­senta uma ver­são resu­mida da carta de Kerouac, inclu­sive com alte­ra­ções. Abaixo, rola uma tra­du­ção inte­gral do tre­cho uti­li­zado no vídeo, onde Kerouac viaja longe:

Tenho um bocado de coi­sas para te ensi­nar agora, no caso de nunca mais nos ver­mos, rela­ti­vas à men­sa­gem que me foi trans­mi­tida embaixo de um pinheiro na Caro­lina do Norte em uma noite fria e enlu­a­rada de inverno. Diz-se que nada nunca acon­tece, então não se pre­o­cupe. É tudo como um sonho. Tudo é êxtase, no inte­rior. Nós só não sabe­mos disso por causa de nos­sas men­tes pen­san­tes. Mas em nossa ver­da­deira essên­cia da mente sabe­mos que tudo está certo lá den­tro.

Feche seus olhos, deixe suas mãos e ter­mi­na­ções ner­vo­sas rela­xa­rem, pare de res­pi­rar por 3 segun­dos, escute o silên­cio que está por trás da ilu­são do mundo, e você se lem­brará da lição que esque­ceu, e que foi ensi­nada na imensa e suave nuvem da Via Lác­tea inu­me­rá­veis mun­dos atrás e nunca mais depois disso. Tudo e uma só coisa des­perta. Eu a chamo de Eter­ni­dade Dou­rada. É per­feito.

Nós nunca real­mente nas­ce­mos, nós nunca ire­mos real­mente mor­rer. Isso não tem nada a ver com a ideia ima­gi­ná­ria de um “eu” pes­soal, outros “eus”, mui­tos “eus” em todos os luga­res: “Eu” é ape­nas uma ideia, uma ideia de mor­tais, que ocorre a todas as coi­sas que são uma coisa. É um sonho que já aca­bou. Não há nada a temer e nada a agra­de­cer. Eu sei disso por olhar as mon­ta­nhas por meses a fio. Elas nunca mos­tram nenhuma expres­são, são como a vacui­dade do espaço. Você acha que a vacui­dade do espaço irá algum dia des­mo­ro­nar? As mon­ta­nhas irão des­mo­ro­nar, mas a vacui­dade do espaço, que é a essên­cia uni­ver­sal da mente, o vasto des­per­tar, vazio e cons­ci­ente, jamais des­mo­ro­nará por­que jamais nas­ceu.”

A carta ter­mina com uma ver­sos livres de Kerouac:

O mundo que você vê é só um filme em sua mente.
Pedras não o veem.
Aben­çoe e sente-se,
Pra­ti­que a gen­ti­leza o dia inteiro e com todos
e você per­ce­berá que já está
no Paraíso agora.
Essa é a his­tó­ria,
Essa é a men­sa­gem.
Nin­guém a com­pre­ende,
Nin­guém a escuta, Eles estão
Todos cor­rendo por aí como gali­nhas com cabe­ças
cor­ta­das. Eu ten­ta­rei ensi­nar, mas será
em vão, e então irei
aca­bar em um bar­raco,
orando e sendo
legal e can­tando
na frente do meu fogão a lenha
fazendo pan­que­cas.”

A impres­são é que Kerouac estava em con­tato com uma ver­dade pode­rosa, e que ele sen­tia difi­cul­da­des em ver­ba­liza-la pois não cor­res­pon­dia à nossa expe­ri­ên­cia ordi­ná­ria. Mas sua men­sa­gem, prin­ci­pal­mente pela carga de urgên­cia emo­ci­o­nal, parece impor­tante: todos os dias pode­mos tes­te­mu­nhar o sublime, aquilo que ele cha­mou de “eter­ni­dade dou­rada”, mas por alguma razão esta­mos con­di­ci­o­na­dos a fechar os olhos para essa expe­ri­ên­cia — só fal­tou Kerouac nos expli­car por­que.

Victor Lisboa
Editor do site Ano Zero.

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