Sei que a internet já está cheia de comentários e textos sobre o caso do estupro que ocorreu no Rio de Janeiro há poucos dias, mas mesmo assim sinto vontade de sair um pouco do óbvio e falar sobre a persona estuprador. Não que as pessoas não tenham o direito de se indignar por essa monstruosidade que aconteceu, porque elas têm, mas sim porque a maioria das manifestações não se propõe muito a analisar o que aconteceu, mas só de reafirmar o que todos parecem concordar — que houve estupro e que isso é uma violência.

Sobre isso, acho que não tenho mais nada a acrescentar. Não quero nem mesmo me meter em tretas com aqueles que querem justificar o estupro pela suposta ideia de que a menina quis participar de uma orgia, já tinha sei lá quantos filhos ou que idolatrava a vida bandida. Nada disso importa, estupro é estupro.

O que ainda está me fazendo refletir bastante é a alegação de que todo homem é um estuprador em potencial.

Sinceramente, não tenho certeza sobre se isso é verdade, mas tenho algumas pistas. De qualquer modo, o que tenho certeza é que a maioria das pessoas está sustentando isso pelos motivos errados.

Abaixo tentei compilar algumas das reflexões que fiz sobre essa frase polêmica. Talvez o primeiro item assuste, mas aos poucos você vai perceber que ele não é o que parece.

1- Acredito que o homem seja sim um estuprador em potencial, mas isso não é tão diferente de dizer que os humanos são assassinos em potencial, ou santos em potencial, ou gênios em potencial. São afirmações bem triviais até.

2- Existem dois tipos de potencialidade: a estatística, que se refere à população; e a individual, que pode estar ligada a possíveis contextos capazes de disparar comportamentos que qualquer pessoa dentro daquele grupo possui. Esses termos não são oficiais, mas achei que dividir assim fosse útil pra demonstrar meu ponto aqui sobre essa questão da potencialidade de algo.

Por exemplo, a genialidade é uma potencialidade humana. Isso não significa que todos os seres humanos podem ser gênios, dada qualquer condição contextual. Algumas pessoas simplesmente não vão ser gênios. No entanto, dentro da população humana encontramos sujeitos fora da curva normal que são gênios. Dentro dessa divisão que postulei, essa seria uma potencialidade meramente estatística, mas não contextual, porque até onde se sabe, gênios (os gifted, como você pode encontrar em artigos científicos sobre superdotação) não são criados.

Veja este outro caso. Seres humanos são potencialmente violentos. TODO mundo vai protagonizar algum episódio de violência pelo menos uma vez na vida. Isso faz parte do repertório de comportamentos da espécie, digamos assim — não quero dizer que devemos ser violentos, aí já é uma questão de outra natureza.

Um cara pode se tornar um monge budista, mas isso não significa que por isso ele NUNCA possa ser violento a partir desse momento. No entanto, a violência não ocorre de maneira gratuita, do nada. Existem contextos que disparam esse comportamento, de forma que temos ecologias correlacionadas com uma população humana mais violenta ou não (contextos com escassez de alimento, insegurança e mais homens que mulheres têm forte correlação com maior violência, especialmente entre os homens — violência intrassexual).

3- Homens podem ser considerados estupradores em potencial por um motivo anatômico muito simples: homens têm pênis e mulheres têm vaginas — como diria o garotinho sagaz de Um Tira no Jardim de Infância. Também não estou dizendo que “Ah, se homens têm pênis, eles podem sair penetrando qualquer um, mesmo à força”. Isso seria um delírio pra qualquer psicanalista interessado em provar a superioridade do falo.

Em termos meramente mecânicos, o homem precisa estar excitado para se engajar no ato sexual; a mulher, não necessariamente — se o cara for violento o suficiente, ele vai forçar o sexo, por mais que a mulher não esteja com vontade, o que caracterizaria o estupro nesse sentido mais cru (se o cara passa a mão numa mulher na rua sem sua autorização, isso também pode ser caracterizado como estupro).

Esse é um dos motivos — nem de longe uma justificativa ou uma explicação suficiente — pelos quais MUITO RARAMENTE, e digo isso categoricamente, vemos/vimos mulheres estuprando homens. Isso hoje até seria possível amarrando e dando viagra pro sujeito, mas em ambientes que remontam nosso passado evolutivo seria impossível acontecer algo assim.

4- Não tenho certeza disso mas, assim como o comportamento violento, o estupro pode ser uma potencialidade masculina — mas mais fraca que a violência, afinal, são raros os homens que estupram mulheres, mas não são raras as pessoas que são violentas em algum momento.

Em algumas ecologias, o estupro pode ser populacionalmente mais comum, de fato. Na nossa cultura ele é raríssimo, se compararmos com épocas mais violentas, como a Idade Média ou a Antiguidade, ou mesmo com países hostis, constantemente em Guerra, como a Síria. O estupro era algo até rotineiro. Era comum na guerra e era comum entre esposas e maridos. Hoje abolimos esse costume enquanto instituição cultural, pelo menos no sentido de estupro enquanto ato sexual não consentido. Mas outros comportamentos “mais leves” também considerados como estupro ainda são encarados com certa naturalidade, principalmente porque temos uma socialização cultural assimétrica que não raramente ensina que o homem deve ser invasivo em suas aproximações ao sexo oposto.

Certamente seria incoerente dizer que todos os homens do passado eram doentes mentais estupradores, assim como seria incoerente dizer que todos os alemães dos anos 30/40 eram psicopatas nazistas.

Tudo depende da ecologia, repito.

Mas é simplesmente cruel culpar todos os alemães pelo nazismo, assim como é cruel culpabilizar todos os homens por alguns estupradores, ou culpar toda a humanidade por alguns assassinos.


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Felipe Novaes
Já quis ser paleontólogo, biólogo, astrônomo, filósofo e neurocientista, mas parece ter se encontrado na psicologia evolucionista. Nas horas vagas lê compulsivamente, escreve textos sobre a vida, o universo e tudo mais, e arruma um tempinho para o Positrônico Podcast. Contudo, durante todo o tempo procura se aprimorar na sabedoria e nas artes jedis do aikido.
  • Gabriel Toshio

    Felipe, sempre lúcido e contundente!! Abração

    • Ufa! Um comentário positivo!
      Tava com muito medo de que as pessoas não entendessem o que eu quis dizer. haha

  • Grande Felipe,

    Parabéns pelo texto bem escrito com exposição clara de ideias.

    Se me permite, gostaria de discordar de você, como tenho discordado dessa teoria de que “todo homem é estuprador em potencial”.

    Na minha ótima, creio que você se enganou em muitos pontos do texto já que você peca em não se atentar para as definições que usa.

    Pois bem, para começarmos, vejo que na sua concepção, estupro implica necessariamente haver penetração, o que não é verdade, bastando consultar a jurisprudência do assunto, bem como os mais renomados dicionários e mesmo a Wikipedia. “Estupro, coito forçado ou violação é a prática não consensual do sexo, imposto por meio de violência ou grave ameaça de qualquer natureza por ambos os sexos. Ele consiste em qualquer forma de prática sexual sem consentimento de uma das partes, envolvendo ou não penetração. Ainda que o estupro vitime ambos os sexos, as mulheres são as vítimas historicamente mais atingidas. A maior parte do corpus jurídico mundial caracteriza o estupro como um crime sexual no qual há penetração.” O nosso corpus jurídico não se inclui nesses citados nesta definição que extraí da Wikipedia. Então, para a concretização de estupro não precisa haver pênis, portanto não é exclusividade de homens. E ainda que fosse unânime o entendimento de que para haver estupro necessariamente tem que haver a penetração, ainda assim, não é uma exclusividade masculina, porque a penetração pode ser praticada por outras partes corporais ou objetos. Sinceramente, ainda não entendi qual a dificuldade que as pessoas apresentam quanto a isso.

    Segundo conceito em que há confusão por sua parte, creio eu, está na sua ideia de violência como repertório nato da espécie humana. O que faz parte do repertório nato, portanto biológico da maioria das espécies animais, dentre elas a espécie humana, é a agressividade, que é bem diferente de violência. Violência é aprendida; e em nossa cultura patriarcal e machista, ela é inclusive estimulada, inclusive pelas próprias mulheres que ensinam seus filhos homens a serem violentos. Portanto a violência pode ser ensinada e então aprendida por qualquer pessoa de ambos os sexos; mais um ponto que não é exclusivo de homens.

    Terceiro, potencialidade é uma característica individual. Mesmo em grupos, as potencialidades individuais é que são agrupadas. Potencialidade é uma probabilidade, uma disposição, portanto pode ser ou não, que no futuro, alguém desenvolva uma ou mais qualidades, características. Quando se fala em estatística de estupro, se fala naqueles que já ocorreram e que efetivamente foram devidamente registrados. Portanto as estatísticas apontam comportamentos que ocorreram e não de probabilidades de eclosão de potencialidades. Sinceramente, não consegui entender o que você quis dizer com potencialidade estatística.

    Como eu expus em outro comentário (https://disqus.com/home/discussion/anozero/a_cultura_do_estupro_existe_mas_nao_como_voce_imagina/#comment-2709050325), creio piamente que a defesa de que todo homem é um estuprador em potencial tem mais que ver com o próprio desejo do defensor da tese de praticar tal ato que com um fato concreto em si.

    Para finalizar, creio que você também esteja confundindo entender o que você diz com concordar com o que você diz. O fato de alguém não concordar com você não significa que esse alguém não o entendeu. Só para citar um exemplo, na história da filosofia, para que um filósofo pudesse criticar a filosofia de outro, fazia-se necessário que o crítico entendesse o que o criticado estava dizendo. Então, compreensão e concordância são duas entidades totalmente díspares.

    Esteja certo que lhe rendo todo o respeito e consideração que você merece e acolho sua opinião exposta com sinceridade, mas realmente não concordo com ela.

    Mas continuamos amigos! 🙂

    Um grande abraço!!!

    • E ae, Leonardo!

      Então, sobre seu primeiro ponto.

      Antes de postar esse texto, eu e o pessoal do AZ conversamos justamente porque meu texto tinha esse tom de estupro envolver somente penetração. Mas eu estava mais preocupado em discutir esse aspecto mesmo, apesar de não ignorar que outras coisas são abarcadas pelo conceito. Então, de qualquer modo, o que eu falo aqui vale para o estupro que envolve penetração, que foi o tipo mais falado de umas semanas pra cá graças ao fatídico caso que todos conhecem.

      Isso serve também para o estupro praticado envolvendo a penetração de objetos. Bom, eu realmente desconheço estatísticas sobre isso especificamente, então esse é o segundo motivo pelo qual me foquei na penetração não consentida. É o tipo de estupro mais falado, mais inequivocamente fácil de apurar e foi o que estava na pauta quente da época.

      Ah, e mesmo assim, o estupro feminino é extremamente incomum, então nem vi necessidade de me preocupar com isso na argumentação.

      Eu sei que violência e agressividade são conceitos diferentes. Até falei isso num texto anterior sobre psicologia evolucionista. Bom, mas você também não definiu. rs

      Eu só discordo de um ponto: estou assumindo aqui que violência [pode ser definido como o ato da pessoa agressiva?] e agressividade [o traço latente daquele que é violento] estão intimamente ligados, então faz sentido dizer que ambas envolve aprendizado e predisposições — uma coisa não exclui a outra de jeito nenhum.

      Ou seja, não estou excluindo a cultura machista da equação, mas to dizendo que só é possível ter uma dominação masculina por conta de certos elementos anteriores ao aprendizado cultural em si. Meio que uma coisa vai sendo construída por cima da outra. Espero que não confunda isso com uma defesa do machismo, pois não é o que to fazendo.

      Na verdade a estatística pode predizer coisas sim. Tem testes específicos que fazem isso, como a regressão. Claro, continua sendo uma questão de probabilidade.

      Eu chamei informalmente de “potencialidade estatística” a maior probabilidade que um homem (como grupo, não como indivíduo, como você apontou bem) tem de cometer o estupro, em relação às mulheres (também como grupo).

      O mesmo é feito quando se diz que, estatisticamente, homens, especialmente entre a puberdade e os 25 anos, são mais violentos do que qualquer outro grupo estatístico que se pegue pra comparar (também falei isso no texto sobre violência que comentei antes). Não estamos dizendo que temos que prender todo homem nessa faixa etária aí pela rua…estamos só dizendo que como grupo eles tem mais chances de serem violentos.

      Leonardo, valeu pelo comentário maduro e respeitoso!
      E é isso mesmo! Não precisamos discordar, basta que você esteja disposto a entender meu argumento e depois dizer por que não concorda — como vc fez. Até porque eu posso estar errado em algo mesmo, nada impede isso.

      Grande abraço!

  • Maíra Valadares

    Só penso que você precisa rever o que você considera pra dizer que são raros os homens estupradores. Um homem estupra uma mulher a cada 11 minutos no Brasil e este dado é subnotificado. Outro ponto, você diz que uma mulher não precisa estar excitada pra investir no ato sexual. Como não? Transar sem querer é estupro e aqui vou exemplificar com as mulheres que são estupradas pelos maridos, que mesmo sabendo que elas não estão com vontade continuam com o estupro.

    • Olá, Maíra.

      Olha, as estatísticas dizem que uma mulher é estuprada a cada 11 minutos no Brasil. Isso é bem diferente de dizer que todo homem estupra uma mulher a cada 11 minutos, entende?

      Eu não estou rebaixando e menosprezando os dados sobre estupro, estou dizendo que estatisticamente a minoria dos homens de fato estupra. Eu não lembro muito bem — se você souber me relembre — mas acho que nem 10% dos homens já cometeu ou cometerá um estupro (aliás, dependendo da população em questão, 10% seria MUITA coisa).

      Ou seja, esse é o ponto do meu texto: a gente pode dizer que, num sentido geral, o homem é naturalmente estuprador numa série de sentidos, mas não no que andam espalhando por aí. Isso seria o mesmo que espalhar que todo negro é assaltante baseado no fato de que a maioria dos assaltantes urbanos são negros. Isso seria menosprezar outra série de fatores que explicam essa correlação que não a cor das pessoas em si (variáveis como desigualdade social, história de segregação especialmente dos negros após a abolição da escravidão).

      Sobre as mulheres não estarem excitadas pra transar…eu quis me referir apenas ao sentido mecânico da coisa. Mecanicamente, o estupro é possível justamente porque temos um cara agressivo querendo sexo à força, daí ele força a penetração. Mas, por uma imposição mecânica, uma mulher não conseguiria fazer a mesma coisa com um homem.

      E esse foi um dos motivos e sentidos nos quais é possível afirmar que o homem é naturalmente um estuprador. Mas isso só no sentido mecânico. Não é por isso que todo homem individualmente vai virar estuprador algum dia.

  • Emerson Luís

    Muito bom o texto.

    Apreciei a analogia com a “superdotação” (prefiro o termo “altas habilidades”): dizer que a espécie humana ou um subgrupo possui certo potencial é diferente de dizer que todo e qualquer indivíduo tem esse potencial – ou tem em grande medida.

    Conforme outros já comentaram, existe um debate sobre a definição de “estupro”. Os militantes alargaram tanto o significado que pode incluir quase tudo, o que gera um clima de caça aos bruxos e causa o efeito colateral de banalizar os casos reais.

    Mais duas observações. Muitas acusações de estupro são falsas. E os abusos sexuais cometidos por mulheres são mais numerosos do que se divulga, mas são subnotificados por diversos motivos e/ou encobertos porque não se encaixam na narrativa.

    * * *