Capa do artigo "O homem é naturalmente estuprador?", de Felipe Novaes.

O homem é naturalmente estuprador?

Em Comportamento, Consciência, Sociedade por Felipe NovaesComentários

Sei que a inter­net já está cheia de comen­tá­rios e tex­tos sobre o caso do estu­pro que ocor­reu no Rio de Janeiro há pou­cos dias, mas mesmo assim sinto von­tade de sair um pouco do óbvio e falar sobre a per­sona estu­pra­dor. Não que as pes­soas não tenham o direito de se indig­nar por essa mons­tru­o­si­dade que acon­te­ceu, por­que elas têm, mas sim por­que a mai­o­ria das mani­fes­ta­ções não se pro­põe muito a ana­li­sar o que acon­te­ceu, mas só de rea­fir­mar o que todos pare­cem con­cor­dar — que houve estu­pro e que isso é uma vio­lên­cia.

Sobre isso, acho que não tenho mais nada a acres­cen­tar. Não quero nem mesmo me meter em tre­tas com aque­les que que­rem jus­ti­fi­car o estu­pro pela suposta ideia de que a menina quis par­ti­ci­par de uma orgia, já tinha sei lá quan­tos filhos ou que ido­la­trava a vida ban­dida. Nada disso importa, estu­pro é estu­pro.

O que ainda está me fazendo refle­tir bas­tante é a ale­ga­ção de que todo homem é um estu­pra­dor em poten­cial.

Sin­ce­ra­mente, não tenho cer­teza sobre se isso é ver­dade, mas tenho algu­mas pis­tas. De qual­quer modo, o que tenho cer­teza é que a mai­o­ria das pes­soas está sus­ten­tando isso pelos moti­vos erra­dos.

Abaixo ten­tei com­pi­lar algu­mas das refle­xões que fiz sobre essa frase polê­mica. Tal­vez o pri­meiro item assuste, mas aos pou­cos você vai per­ce­ber que ele não é o que parece.

1- Acre­dito que o homem seja sim um estu­pra­dor em poten­cial, mas isso não é tão dife­rente de dizer que os huma­nos são assas­si­nos em poten­cial, ou san­tos em poten­cial, ou gênios em poten­cial. São afir­ma­ções bem tri­vi­ais até.

2- Exis­tem dois tipos de poten­ci­a­li­dade: a esta­tís­tica, que se refere à popu­la­ção; e a indi­vi­dual, que pode estar ligada a pos­sí­veis con­tex­tos capa­zes de dis­pa­rar com­por­ta­men­tos que qual­quer pes­soa den­tro daquele grupo pos­sui. Esses ter­mos não são ofi­ci­ais, mas achei que divi­dir assim fosse útil pra demons­trar meu ponto aqui sobre essa ques­tão da poten­ci­a­li­dade de algo.

Por exem­plo, a geni­a­li­dade é uma poten­ci­a­li­dade humana. Isso não sig­ni­fica que todos os seres huma­nos podem ser gênios, dada qual­quer con­di­ção con­tex­tual. Algu­mas pes­soas sim­ples­mente não vão ser gênios. No entanto, den­tro da popu­la­ção humana encon­tra­mos sujei­tos fora da curva nor­mal que são gênios. Den­tro dessa divi­são que pos­tu­lei, essa seria uma poten­ci­a­li­dade mera­mente esta­tís­tica, mas não con­tex­tual, por­que até onde se sabe, gênios (os gif­ted, como você pode encon­trar em arti­gos cien­tí­fi­cos sobre super­do­ta­ção) não são cri­a­dos.

Veja este outro caso. Seres huma­nos são poten­ci­al­mente vio­len­tos. TODO mundo vai pro­ta­go­ni­zar algum epi­só­dio de vio­lên­cia pelo menos uma vez na vida. Isso faz parte do reper­tó­rio de com­por­ta­men­tos da espé­cie, diga­mos assim — não quero dizer que deve­mos ser vio­len­tos, aí já é uma ques­tão de outra natu­reza.

Um cara pode se tor­nar um monge budista, mas isso não sig­ni­fica que por isso ele NUNCA possa ser vio­lento a par­tir desse momento. No entanto, a vio­lên­cia não ocorre de maneira gra­tuita, do nada. Exis­tem con­tex­tos que dis­pa­ram esse com­por­ta­mento, de forma que temos eco­lo­gias cor­re­la­ci­o­na­das com uma popu­la­ção humana mais vio­lenta ou não (con­tex­tos com escas­sez de ali­mento, inse­gu­rança e mais homens que mulhe­res têm forte cor­re­la­ção com maior vio­lên­cia, espe­ci­al­mente entre os homens — vio­lên­cia intras­se­xual).

3- Homens podem ser con­si­de­ra­dos estu­pra­do­res em poten­cial por um motivo anatô­mico muito sim­ples: homens têm pênis e mulhe­res têm vagi­nas — como diria o garo­ti­nho sagaz de Um Tira no Jar­dim de Infân­cia. Tam­bém não estou dizendo que “Ah, se homens têm pênis, eles podem sair pene­trando qual­quer um, mesmo à força”. Isso seria um delí­rio pra qual­quer psi­ca­na­lista inte­res­sado em pro­var a supe­ri­o­ri­dade do falo.

Em ter­mos mera­mente mecâ­ni­cos, o homem pre­cisa estar exci­tado para se enga­jar no ato sexual; a mulher, não neces­sa­ri­a­mente — se o cara for vio­lento o sufi­ci­ente, ele vai for­çar o sexo, por mais que a mulher não esteja com von­tade, o que carac­te­ri­za­ria o estu­pro nesse sen­tido mais cru (se o cara passa a mão numa mulher na rua sem sua auto­ri­za­ção, isso tam­bém pode ser carac­te­ri­zado como estu­pro).

Esse é um dos moti­vos — nem de longe uma jus­ti­fi­ca­tiva ou uma expli­ca­ção sufi­ci­ente — pelos quais MUITO RARAMENTE, e digo isso cate­go­ri­ca­mente, vemos/vimos mulhe­res estu­prando homens. Isso hoje até seria pos­sí­vel amar­rando e dando via­gra pro sujeito, mas em ambi­en­tes que remon­tam nosso pas­sado evo­lu­tivo seria impos­sí­vel acon­te­cer algo assim.

4- Não tenho cer­teza disso mas, assim como o com­por­ta­mento vio­lento, o estu­pro pode ser uma poten­ci­a­li­dade mas­cu­lina — mas mais fraca que a vio­lên­cia, afi­nal, são raros os homens que estu­pram mulhe­res, mas não são raras as pes­soas que são vio­len­tas em algum momento.

Em algu­mas eco­lo­gias, o estu­pro pode ser popu­la­ci­o­nal­mente mais comum, de fato. Na nossa cul­tura ele é rarís­simo, se com­pa­rar­mos com épo­cas mais vio­len­tas, como a Idade Média ou a Anti­gui­dade, ou mesmo com paí­ses hos­tis, cons­tan­te­mente em Guerra, como a Síria. O estu­pro era algo até roti­neiro. Era comum na guerra e era comum entre espo­sas e mari­dos. Hoje abo­li­mos esse cos­tume enquanto ins­ti­tui­ção cul­tu­ral, pelo menos no sen­tido de estu­pro enquanto ato sexual não con­sen­tido. Mas outros com­por­ta­men­tos “mais leves” tam­bém con­si­de­ra­dos como estu­pro ainda são enca­ra­dos com certa natu­ra­li­dade, prin­ci­pal­mente por­que temos uma soci­a­li­za­ção cul­tu­ral assi­mé­trica que não rara­mente ensina que o homem deve ser inva­sivo em suas apro­xi­ma­ções ao sexo oposto.

Cer­ta­mente seria inco­e­rente dizer que todos os homens do pas­sado eram doen­tes men­tais estu­pra­do­res, assim como seria inco­e­rente dizer que todos os ale­mães dos anos 30/40 eram psi­co­pa­tas nazis­tas.

Tudo depende da eco­lo­gia, repito.

Mas é sim­ples­mente cruel cul­par todos os ale­mães pelo nazismo, assim como é cruel cul­pa­bi­li­zar todos os homens por alguns estu­pra­do­res, ou cul­par toda a huma­ni­dade por alguns assas­si­nos.


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Felipe Novaes
Já quis ser paleontólogo, biólogo, astrônomo, filósofo e neurocientista, mas parece ter se encontrado na psicologia evolucionista. Nas horas vagas lê compulsivamente, escreve textos sobre a vida, o universo e tudo mais, e arruma um tempinho para o Positrônico Podcast. Contudo, durante todo o tempo procura se aprimorar na sabedoria e nas artes jedis do aikido.

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