Não é difícil entender o meu interesse apaixonado por ética.

Na Grécia Antiga, Heródoto, o primeiro dos grandes historiadores gregos, tinha como particularidade sua a de que, a ele, o “certo” e o “errado” não passavam de convenções sociais. Tratava-se do famoso relativismo, em nível tanto individual (a verdade como dependente do ponto de vista de cada um) quanto cultural (isto é, da sociedade na qual, casualmente, alguém cresceu).

Ainda que até hoje haja relativistas por aí, na Grécia Antiga certo progresso foi feito. A ideia de “Comandos Divinos” foi adotada, e passou a ser senso-comum que viver corretamente consistisse meramente numa constante tentativa de agradar aos deuses. Agora, a verdade já não era meramente subjetiva. Traços de objetividade foram alcançados e socialmente instaurados.

Aristóteles, então, dá um passo que legou às suas ideias 1.700 anos de sucesso, criando o primeiro tratado extenso e sistemático da filosofia ocidental, denominado “Ética a Nicômaco“, no qual apresentava a sua tese: a Ética das Virtudes – as qualidades de caráter necessárias para que o bem-viver seja atingido.

Com isso, dominou o pensamento ocidental com a sua noção de que tudo na natureza, sem exceção, existe em função de algum propósito.

Exemplos dos mais variadas foram utilizados como fundamento para explicitar a ideia: é óbvio que a cadeira, a mesa e toda uma infinitude de objetos artificiais sirvam a algo, que são os propósitos e funções que damos a eles. E aos objetos orgânicos, o que lhes resta? Para Aristóteles, nossos dentes existem em função do mastigar, nossos olhos em função do enxergar, e assim por diante.

Por que, então, objetos naturais dos mais variados não teriam motivos para existir? A vida passou a ser vista como se houvesse uma hierarquia, onde a chuva cai em função das plantas, as plantas existem em função dos animais e os animais o são pelos homens. Estava instaurado o antropocentrismo de forma sistemática e racional.

Esse grande passo grego legou ao mundo a chamada “Lei Natural“, adotada posteriormente no mundo medieval como a verdade das verdades. Cristãos de todos os tipos adotaram a visão aristotélica sobre os propósitos, mas entenderam que faltava algo… Faltava Deus.

Deus na idade média | Por que você deve estudar ética
“Gênesis”, por Michelangelo.

Era entendido que o mundo fosse organizado propositalmente e de forma inteligente, alinhado aos ideais de um ser divino. Se a chuva cai para as plantas e as plantas servem aos animais e humanos, isso ocorre porque Deus quis assim. Há, portanto, um grande plano divino por trás da existência.

Com isso, estava autorizada a ideia de que os humanos, como semi-deuses na terra (já que tudo existe em função dos homens), poderiam usar e abusar dos outros animais e da natureza como quisessem. É a “ordem natural” das coisas, diziam. E como ordem natural, haveria que se ter lógica não apenas entre nós e os objetos naturais, mas entre nós e nós mesmos. Não tardou para que a masturbação e a homossexualdiade fossem tornadas pecado capital, uma vez que o propósito do sexo, entendiam, era a procriação – coisa inalcançável às ações que só poderiam prover prazer.

Porém, com o aperfeiçoamento das ciências naturais – com Newton, Galileu e Darwin, dentre outros -, os conhecimentos adquiridos passaram a tornar conflituosa a relação entre ciência e religião.

Para os novos pensadores, essa ideia de que em tudo há propósito não passa de besteira. Embora as coisas pareçam, numa primeira análise, desenhadas para propósitos últimos, defende-se agora que a seleção natural projeta um mundo aparentemente desenhado, o que não passa de ilusão. Plantas se utilizarem da água da chuva não tornam a chuva subserviente às plantas – na verdade são as plantas que pegam a quantidade de chuva necessária para sua sobrevivência em determinado meio com determinada quantidade de água disponível.

Agora, o indivíduo já não é mais fruto de uma criação divina pela qual pode justificar seus atos. Sua existência é fruto do acaso, e sua autonomia frente ao meio é o que lhe confere a sobrevivência.

Seleção natural |

Passando de um relativismo puro inicial a uma objetividade divina, chega-se a uma objetividade que flerta com as aleatoriedades e despropósitos da vida natural. Tal visão ameaçou a igreja católica, legando discordâncias e incoerências entre ciência e fé até os dias de hoje.

O antropocentrismo foi, então, profundamente abalado, e não só por cientistas. Filósofos como David Hume, em resposta a Aristóteles e aos cristãos, deixaram claro: “A vida de um homem não tem mais importância para o universo do que a de uma ostra.”

Outras noções ética sobre a vida, o universo e tudo mais foram posteriormente postuladas. Questões sobre Contrato Social, Altruísmo e Autointeresse, Imparcialidade, Ética dos Deveres e mesmo a notável filosofia do Utilitarismo merecem destaque – livros de James Rachels e de Will Durant são sempre recomendáveis.

O mundo da ética é vasto, rico e muito diversificado. São várias perspectivas que podem ser e foram adotadas ao longo dos milênios, para justificar as mais variadas ações e as mais variadas noções sobre quem somos, o que fazemos aqui e quais devem ser nossos propósitos nesta vida. Mais que isso, a principal preocupação da ética é buscar elucidar a melhor ação que podemos, no aqui e agora, tomar, a fim de mantermos o curso histórico nessa constante evolução.

Ontem, debatemos a existência da objetividade, as virtudes e os propósitos, os contratos sociais, a religião e a ciência. Hoje, debatemos causas sociais, direitos humanos, liberdades individuais e econômicas, direitos dos animais e utopias e distopias sobre o advento das inteligências artificiais.

O que debateremos amanhã?

Só o curso histórico da ética definirá. E a ética é, por excelência, o indivíduo agindo sobre o mundo. Logo, só nossas ações agora, no presente, irão definir qual ética teremos para o futuro.

Nada mais justo, portanto, que nos interessemos de forma apaixonada pelas discussões que têm moldado nossa sociedade.


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escrito por:

Alysson Augusto

Escritor que não compactua com o rótulo. Graduando em Filosofia pela PUCRS. Professor de ensino médio. E, não menos importante, editor do melhor site da internet, o Ano Zero. Mas o necessário a saber mesmo é de seu amor declarado por churros.


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