Por que você deve estudar ética

Por que você deve estudar ética

Em Consciência, Filosofia por Alysson AugustoComentário

Não é difí­cil enten­der o meu inte­resse apai­xo­nado por ética.

Na Gré­cia Antiga, Heró­doto, o pri­meiro dos gran­des his­to­ri­a­do­res gre­gos, tinha como par­ti­cu­la­ri­dade sua a de que, a ele, o “certo” e o “errado” não pas­sa­vam de con­ven­ções soci­ais. Tra­tava-se do famoso rela­ti­vismo, em nível tanto indi­vi­dual (a ver­dade como depen­dente do ponto de vista de cada um) quanto cul­tu­ral (isto é, da soci­e­dade na qual, casu­al­mente, alguém cres­ceu).

Ainda que até hoje haja rela­ti­vis­tas por aí, na Gré­cia Antiga certo pro­gresso foi feito. A ideia de “Coman­dos Divi­nos” foi ado­tada, e pas­sou a ser senso-comum que viver cor­re­ta­mente con­sis­tisse mera­mente numa cons­tante ten­ta­tiva de agra­dar aos deu­ses. Agora, a ver­dade já não era mera­mente sub­je­tiva. Tra­ços de obje­ti­vi­dade foram alcan­ça­dos e soci­al­mente ins­tau­ra­dos.

Aris­tó­te­les, então, dá um passo que legou às suas ideias 1.700 anos de sucesso, cri­ando o pri­meiro tra­tado extenso e sis­te­má­tico da filo­so­fia oci­den­tal, deno­mi­nado “Ética a Nicô­maco”, no qual apre­sen­tava a sua tese: a Ética das Vir­tu­des — as qua­li­da­des de cará­ter neces­sá­rias para que o bem-viver seja atin­gido.

Com isso, domi­nou o pen­sa­mento oci­den­tal com a sua noção de que tudo na natu­reza, sem exce­ção, existe em fun­ção de algum pro­pó­sito.

Exem­plos dos mais vari­a­das foram uti­li­za­dos como fun­da­mento para expli­ci­tar a ideia: é óbvio que a cadeira, a mesa e toda uma infi­ni­tude de obje­tos arti­fi­ci­ais sir­vam a algo, que são os pro­pó­si­tos e fun­ções que damos a eles. E aos obje­tos orgâ­ni­cos, o que lhes resta? Para Aris­tó­te­les, nos­sos den­tes exis­tem em fun­ção do mas­ti­gar, nos­sos olhos em fun­ção do enxer­gar, e assim por diante.

Por que, então, obje­tos natu­rais dos mais vari­a­dos não teriam moti­vos para exis­tir? A vida pas­sou a ser vista como se hou­vesse uma hie­rar­quia, onde a chuva cai em fun­ção das plan­tas, as plan­tas exis­tem em fun­ção dos ani­mais e os ani­mais o são pelos homens. Estava ins­tau­rado o antro­po­cen­trismo de forma sis­te­má­tica e raci­o­nal.

Esse grande passo grego legou ao mundo a cha­mada “Lei Natu­ral”, ado­tada pos­te­ri­or­mente no mundo medi­e­val como a ver­dade das ver­da­des. Cris­tãos de todos os tipos ado­ta­ram a visão aris­to­té­lica sobre os pro­pó­si­tos, mas enten­de­ram que fal­tava algo… Fal­tava Deus.

Deus na idade média | Por que você deve estudar ética

Gêne­sis”, por Miche­lan­gelo.

Era enten­dido que o mundo fosse orga­ni­zado pro­po­si­tal­mente e de forma inte­li­gente, ali­nhado aos ide­ais de um ser divino. Se a chuva cai para as plan­tas e as plan­tas ser­vem aos ani­mais e huma­nos, isso ocorre por­que Deus quis assim. Há, por­tanto, um grande plano divino por trás da exis­tên­cia.

Com isso, estava auto­ri­zada a ideia de que os huma­nos, como semi-deu­ses na terra (já que tudo existe em fun­ção dos homens), pode­riam usar e abu­sar dos outros ani­mais e da natu­reza como qui­ses­sem. É a “ordem natu­ral” das coi­sas, diziam. E como ordem natu­ral, have­ria que se ter lógica não ape­nas entre nós e os obje­tos natu­rais, mas entre nós e nós mes­mos. Não tar­dou para que a mas­tur­ba­ção e a homos­se­xu­al­di­ade fos­sem tor­na­das pecado capi­tal, uma vez que o pro­pó­sito do sexo, enten­diam, era a pro­cri­a­ção — coisa inal­can­çá­vel às ações que só pode­riam pro­ver pra­zer.

Porém, com o aper­fei­ço­a­mento das ciên­cias natu­rais — com New­ton, Gali­leu e Darwin, den­tre outros -, os conhe­ci­men­tos adqui­ri­dos pas­sa­ram a tor­nar con­fli­tu­osa a rela­ção entre ciên­cia e reli­gião.

Para os novos pen­sa­do­res, essa ideia de que em tudo há pro­pó­sito não passa de bes­teira. Embora as coi­sas pare­çam, numa pri­meira aná­lise, dese­nha­das para pro­pó­si­tos últi­mos, defende-se agora que a sele­ção natu­ral pro­jeta um mundo apa­ren­te­mente dese­nhado, o que não passa de ilu­são. Plan­tas se uti­li­za­rem da água da chuva não tor­nam a chuva sub­ser­vi­ente às plan­tas — na ver­dade são as plan­tas que pegam a quan­ti­dade de chuva neces­sá­ria para sua sobre­vi­vên­cia em deter­mi­nado meio com deter­mi­nada quan­ti­dade de água dis­po­ní­vel.

Agora, o indi­ví­duo já não é mais fruto de uma cri­a­ção divina pela qual pode jus­ti­fi­car seus atos. Sua exis­tên­cia é fruto do acaso, e sua auto­no­mia frente ao meio é o que lhe con­fere a sobre­vi­vên­cia.

Seleção natural |

Pas­sando de um rela­ti­vismo puro ini­cial a uma obje­ti­vi­dade divina, chega-se a uma obje­ti­vi­dade que flerta com as ale­a­to­ri­e­da­des e des­pro­pó­si­tos da vida natu­ral. Tal visão ame­a­çou a igreja cató­lica, legando dis­cor­dân­cias e inco­e­rên­cias entre ciên­cia e fé até os dias de hoje.

O antro­po­cen­trismo foi, então, pro­fun­da­mente aba­lado, e não só por cien­tis­tas. Filó­so­fos como David Hume, em res­posta a Aris­tó­te­les e aos cris­tãos, dei­xa­ram claro: “A vida de um homem não tem mais impor­tân­cia para o uni­verso do que a de uma ostra.”

Outras noções ética sobre a vida, o uni­verso e tudo mais foram pos­te­ri­or­mente pos­tu­la­das. Ques­tões sobre Con­trato Social, Altruísmo e Autoin­te­resse, Impar­ci­a­li­dade, Ética dos Deve­res e mesmo a notá­vel filo­so­fia do Uti­li­ta­rismo mere­cem des­ta­que — livros de James Rachels e de Will Durant são sem­pre reco­men­dá­veis.

O mundo da ética é vasto, rico e muito diver­si­fi­cado. São várias pers­pec­ti­vas que podem ser e foram ado­ta­das ao longo dos milê­nios, para jus­ti­fi­car as mais vari­a­das ações e as mais vari­a­das noções sobre quem somos, o que faze­mos aqui e quais devem ser nos­sos pro­pó­si­tos nesta vida. Mais que isso, a prin­ci­pal pre­o­cu­pa­ção da ética é bus­car elu­ci­dar a melhor ação que pode­mos, no aqui e agora, tomar, a fim de man­ter­mos o curso his­tó­rico nessa cons­tante evo­lu­ção.

Ontem, deba­te­mos a exis­tên­cia da obje­ti­vi­dade, as vir­tu­des e os pro­pó­si­tos, os con­tra­tos soci­ais, a reli­gião e a ciên­cia. Hoje, deba­te­mos cau­sas soci­ais, direi­tos huma­nos, liber­da­des indi­vi­du­ais e econô­mi­cas, direi­tos dos ani­mais e uto­pias e dis­to­pias sobre o advento das inte­li­gên­cias arti­fi­ci­ais.

O que deba­te­re­mos ama­nhã?

Só o curso his­tó­rico da ética defi­nirá. E a ética é, por exce­lên­cia, o indi­ví­duo agindo sobre o mundo. Logo, só nos­sas ações agora, no pre­sente, irão defi­nir qual ética tere­mos para o futuro.

Nada mais justo, por­tanto, que nos inte­res­se­mos de forma apai­xo­nada pelas dis­cus­sões que têm mol­dado nossa soci­e­dade.


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É graduando em Filosofia pela PUCRS, professor de ensino médio e faz vídeos para o Youtube (conheça aqui). E, não menos importante, editor do melhor site da internet, o Ano Zero. Mas o necessário a saber mesmo é de seu amor declarado por churros.

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