O hábito humano de se apegar a imagens é atemporal, mas a insaciabilidade do olhar fotográfico que transforma a maneira como enxergamos o mundo é inegavelmente atual. A fotografia nos ensina um novo código visual, alterando a noção do que é digno de se olhar.

A imagem (foto) é um mecanismo de controle que exercemos sobre 3 coisas: o mundo, nossa maneira de experimentá-lo e a percepção dos outros com relação a anterior. A fotografia é como uma “experiência capturada”, e a câmera, a extensão ideal de uma consciência sedenta por colecionar. Fotografar nos dá a sensação de que podemos captar o mundo inteiro em imagens e, portanto, nos apropriar do que é registrado.

Na era das mídias sociais, torna-se cada vez mais evidente a busca por controlar, padronizar e registrar uma versão idealizada da vida — a única compartilhada publicamente. A manipulação intencional da realidade, através da fotografia idealizada, é nada menos que a manifestação do consumismo visual de contemplação apática frente ao “belo”. Há uma redução implícita em cada foto, que transformam a identidade que compartilhamos na rede em “moedas de troca social”.

fotografia: O selfie pode reduzir a experiência real e nos privar da conexão com o momento.
O selfie pode reduzir a experiência real e nos privar da conexão com o momento.

O rápido avanço tecnológico converteu a fotografia em um hobby, agora amplamente difundido, praticado e visto como “arte popular”, ou seja, uma atividade em que a esmagadora maioria só se importa em “fazer”, sem saber o porquê. A popularização da fotografia acabou por transformá-la numa simples ferramenta de interação social no combate à ansiedade ou, ainda, como mecanismo de autoafirmação.

Por um lado, há também o poder de nos unir em comunidades e grupos menores. Através da fotografia, cada família compõe uma crônica de si mesma, como num kit de imagens que testemunharam seus laços. Por outro lado, quanto do nosso círculo familiar tem sido substituído pelos círculos sociais criados pela internet?

Já reparou como o turismo se tornou dependente das fotos? A fotografia nos faz sentir “donos” de um espaço que, de outro modo, nos deixaria inseguros. Não se admira, portanto, que esteja intimamente relacionada a uma das atividades mais características da atualidade: viajar. Pela primeira vez na história, milhões de pessoas viajam regularmente para além do seu meio habitual em curtas temporadas.

Fotografia: Um filhote de golfinho morreu para as pessoas poderem tirar fotografias ao seu lado. Estamos todos loucos?
Um filhote de golfinho morreu e as pessoas queriam tirar fotografias ao seu lado. Estamos todos loucos?

Sejamos honestos: é muito estranho viajar a lazer sem levar algo para tirar algumas fotos, não é? As fotos servem como prova irrefutável de que a viagem aconteceu e, acima de tudo, de que foi ótima. Apesar de comprovar uma certa vivência, tirar fotos também é uma maneira de afastá-las, pois acabam limitando o viver em prol da constante busca pelo melhor ângulo, pela tentativa de converter a experiência em uma imagem — apenas outro souvenir.

Das tais recordações, agora pautadas em souvenirs, criamos uma fantasia — a mesma que projetamos sobre nossas próprias vidas. Além disso, uma fantasia que também concebemos sobre os outros, pois mesmo que a fotografia não consiga nos dizer nada por conta própria, ainda é um irresistível convite à dedução e especulação sobre a vida alheia.

Vejamos outro fenômeno curioso: fotografar também acalma e ameniza aquela sensação de “não saber o que fazer”, especialmente entre os que viajam. O turista comum sente-se obrigado a colocar a câmera entre si mesmo e qualquer coisa que chame sua atenção. Perdido e sem opções, recorre à fotografia. Com o tempo, isso vai moldando sua experiência e estabelecendo um padrão: parar, fotografar e continuar. Evidentemente, esse tipo de “turismo automatizado” tem grande apelo aos que cultivam uma rotina incansável de trabalho — basta lembrar do esteriótipo “turista japonês”.

Fotografia: A foto prova que a viagem aconteceu e que foi ótima.
A foto prova que a viagem aconteceu e que foi ótima.

A câmera também é utilizada de forma paliativa para lidar com uma ansiedade que vem da compulsão em “ser útil”, mesmo durante as férias — uma época supostamente reservada para a diversão. Logo, “tirar fotos” se torna uma “cópia divertida do trabalho”. Mesmo sem perceber, a obsessão cultural pela produtividade cria raízes tão profundas que, por vezes, nos impede de aproveitar o presente — o “aqui”, o “agora e o “com você”.

A relação entre mortalidade e fotografia também se revela pelo registro da participação na vida de outra pessoa ou objeto, congelando um dado momento sob um determinado ângulo. O mesmo acontece com nossas timelines recheadas de fotos, como se houvesse uma necessidade de provar que a vida está repleta de acontecimentos — sendo o “último” deles, naturalmente, a morte. Assim, a fotografia se torna uma afirmação da nossa própria existência tão poderosa quanto viciante, pois satisfaz uma necessidade de confirmar a realidade e extrapolar a experiência, num ciclo de consumismo estético do qual estamos todos dependentes.

Não é exagero dizer que a compulsão em fotografar se tornou comum, como as mídias sociais e nossas interações cotidianas já demonstram. Chegaremos ao ponto em que ter uma experiência será o mesmo que fotografá-la, e participar de um evento público, o mesmo que “confirmar presença” e olhar para suas respectivas fotos? De Mallarmé à Sontag: antigamente, tudo existia para terminar num livro; hoje, tudo existe para terminar numa foto.


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escrito por:

Bruno Braz

Escrevo pra descobrir o que sei e aprender o que não sei; pra dar vazão e um pouco de ordem ao turbilhão de coisas que me passam pela cabeça e ficam sem ser ditas; pra dar meu empurrãozinho nessa roda da vida e, quem sabe, ainda inspirar alguém.


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