Imagem de capa do artigo "A nossa estranha relação com a fotografia", de Bruno Braz, publicado no portal Ano Zero.

A nossa estranha relação com a fotografia

Em Comportamento, Consciência por Bruno BrazComentário

O hábito humano de se ape­gar a ima­gens é atem­po­ral, mas a insa­ci­a­bi­li­dade do olhar foto­grá­fico que trans­forma a maneira como enxer­ga­mos o mundo é ine­ga­vel­mente atual. A foto­gra­fia nos ensina um novo código visual, alte­rando a noção do que é digno de se olhar.

A ima­gem (foto) é um meca­nismo de con­trole que exer­ce­mos sobre 3 coi­sas: o mundo, nossa maneira de expe­ri­mentá-lo e a per­cep­ção dos outros com rela­ção a ante­rior. A foto­gra­fia é como uma “expe­ri­ên­cia cap­tu­rada”, e a câmera, a exten­são ideal de uma cons­ci­ên­cia sedenta por cole­ci­o­nar. Foto­gra­far nos dá a sen­sa­ção de que pode­mos cap­tar o mundo inteiro em ima­gens e, por­tanto, nos apro­priar do que é regis­trado.

Na era das mídias soci­ais, torna-se cada vez mais evi­dente a busca por con­tro­lar, padro­ni­zar e regis­trar uma ver­são ide­a­li­zada da vida — a única com­par­ti­lhada publi­ca­mente. A mani­pu­la­ção inten­ci­o­nal da rea­li­dade, atra­vés da foto­gra­fia ide­a­li­zada, é nada menos que a mani­fes­ta­ção do con­su­mismo visual de con­tem­pla­ção apá­tica frente ao “belo”. Há uma redu­ção implí­cita em cada foto, que trans­for­mam a iden­ti­dade que com­par­ti­lha­mos na rede em “moe­das de troca social”.

fotografia: O selfie pode reduzir a experiência real e nos privar da conexão com o momento.

O sel­fie pode redu­zir a expe­ri­ên­cia real e nos pri­var da cone­xão com o momento.

O rápido avanço tec­no­ló­gico con­ver­teu a foto­gra­fia em um hobby, agora ampla­mente difun­dido, pra­ti­cado e visto como “arte popu­lar”, ou seja, uma ati­vi­dade em que a esma­ga­dora mai­o­ria só se importa em “fazer”, sem saber o porquê. A popu­la­ri­za­ção da foto­gra­fia aca­bou por trans­formá-la numa sim­ples fer­ra­menta de inte­ra­ção social no com­bate à ansi­e­dade ou, ainda, como meca­nismo de auto­a­fir­ma­ção.

Por um lado, há tam­bém o poder de nos unir em comu­ni­da­des e gru­pos meno­res. Atra­vés da foto­gra­fia, cada famí­lia com­põe uma crô­nica de si mesma, como num kit de ima­gens que tes­te­mu­nha­ram seus laços. Por outro lado, quanto do nosso cír­culo fami­liar tem sido subs­ti­tuído pelos cír­cu­los soci­ais cri­a­dos pela inter­net?

Já repa­rou como o turismo se tor­nou depen­dente das fotos? A foto­gra­fia nos faz sen­tir “donos” de um espaço que, de outro modo, nos dei­xa­ria inse­gu­ros. Não se admira, por­tanto, que esteja inti­ma­mente rela­ci­o­nada a uma das ati­vi­da­des mais carac­te­rís­ti­cas da atu­a­li­dade: via­jar. Pela pri­meira vez na his­tó­ria, milhões de pes­soas via­jam regu­lar­mente para além do seu meio habi­tual em cur­tas tem­po­ra­das.

Seja­mos hones­tos: é muito estra­nho via­jar a lazer sem levar algo para tirar algu­mas fotos, não é? As fotos ser­vem como prova irre­fu­tá­vel de que a via­gem acon­te­ceu e, acima de tudo, de que foi ótima. Ape­sar de com­pro­var uma certa vivên­cia, tirar fotos tam­bém é uma maneira de afastá-las, pois aca­bam limi­tando o viver em prol da cons­tante busca pelo melhor ângulo, pela ten­ta­tiva de con­ver­ter a expe­ri­ên­cia em uma ima­gem — ape­nas outro sou­ve­nir.

Das tais recor­da­ções, agora pau­ta­das em sou­ve­nirs, cri­a­mos uma fan­ta­sia — a mesma que pro­je­ta­mos sobre nos­sas pró­prias vidas. Além disso, uma fan­ta­sia que tam­bém con­ce­be­mos sobre os outros, pois mesmo que a foto­gra­fia não con­siga nos dizer nada por conta pró­pria, ainda é um irre­sis­tí­vel con­vite à dedu­ção e espe­cu­la­ção sobre a vida alheia.

Veja­mos outro fenô­meno curi­oso: foto­gra­far tam­bém acalma e ame­niza aquela sen­sa­ção de “não saber o que fazer”, espe­ci­al­mente entre os que via­jam. O turista comum sente-se obri­gado a colo­car a câmera entre si mesmo e qual­quer coisa que chame sua aten­ção. Per­dido e sem opções, recorre à foto­gra­fia. Com o tempo, isso vai mol­dando sua expe­ri­ên­cia e esta­be­le­cendo um padrão: parar, foto­gra­far e con­ti­nuar. Evi­den­te­mente, esse tipo de “turismo auto­ma­ti­zado” tem grande apelo aos que cul­ti­vam uma rotina incan­sá­vel de tra­ba­lho — basta lem­brar do este­rió­tipo “turista japo­nês”.

Fotografia: A foto prova que a viagem aconteceu e que foi ótima.

A foto prova que a via­gem acon­te­ceu e que foi ótima.

A câmera tam­bém é uti­li­zada de forma pali­a­tiva para lidar com uma ansi­e­dade que vem da com­pul­são em “ser útil”, mesmo durante as férias — uma época supos­ta­mente reser­vada para a diver­são. Logo, “tirar fotos” se torna uma “cópia diver­tida do tra­ba­lho”. Mesmo sem per­ce­ber, a obses­são cul­tu­ral pela pro­du­ti­vi­dade cria raí­zes tão pro­fun­das que, por vezes, nos impede de apro­vei­tar o pre­sente — o “aqui”, o “agora e o “com você”.

A rela­ção entre mor­ta­li­dade e foto­gra­fia tam­bém se revela pelo regis­tro da par­ti­ci­pa­ção na vida de outra pes­soa ou objeto, con­ge­lando um dado momento sob um deter­mi­nado ângulo. O mesmo acon­tece com nos­sas time­li­nes reche­a­das de fotos, como se hou­vesse uma neces­si­dade de pro­var que a vida está repleta de acon­te­ci­men­tos — sendo o “último” deles, natu­ral­mente, a morte. Assim, a foto­gra­fia se torna uma afir­ma­ção da nossa pró­pria exis­tên­cia tão pode­rosa quanto vici­ante, pois satis­faz uma neces­si­dade de con­fir­mar a rea­li­dade e extra­po­lar a expe­ri­ên­cia, num ciclo de con­su­mismo esté­tico do qual esta­mos todos depen­den­tes.

Não é exa­gero dizer que a com­pul­são em foto­gra­far se tor­nou comum, como as mídias soci­ais e nos­sas inte­ra­ções coti­di­a­nas já demons­tram. Che­ga­re­mos ao ponto em que ter uma expe­ri­ên­cia será o mesmo que foto­grafá-la, e par­ti­ci­par de um evento público, o mesmo que “con­fir­mar pre­sença” e olhar para suas res­pec­ti­vas fotos? De Mal­larmé à Son­tag: anti­ga­mente, tudo exis­tia para ter­mi­nar num livro; hoje, tudo existe para ter­mi­nar numa foto.


Leia tam­bém em Ano Zero:

Foto­gra­fia: quando a rea­li­dade é uma inven­ção
Você está vivendo no Show de Tru­man?

Bruno Braz
Escrevo pra descobrir o que sei e aprender o que não sei; pra dar vazão e um pouco de ordem ao turbilhão de coisas que me passam pela cabeça e ficam sem ser ditas; pra dar meu empurrãozinho nessa roda da vida e, quem sabe, ainda inspirar alguém.

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