estoicismo e sua lição sobre as adversidades da vida

Estoicismo e sua lição sobre as adversidades da vida

Em Comportamento, Filosofia, Série Estoicismo por Gabriel WerneckComentários

Mui­tas esco­las da filo­so­fia vol­tam-se para o abs­trato e o meta­fí­sico — grande parte não se rela­ci­ona com nosso coti­di­ano e, por­tanto, não altera nosso com­por­ta­mento. Den­tre as mais popu­la­res, o estoi­cismo é uma das esco­las que mais se dis­tan­cia desse padrão, pois se ocupa com assun­tos nota­vel­mente prá­ti­cos e ideias apli­cá­veis ao dia-a-dia.

Há duas gran­des per­gun­tas que o estoi­cismo busca res­pon­der:

Em pri­meiro, como posso levar uma vida satis­fa­tó­ria e feliz?

Em segundo, como posso tor­nar-me alguém melhor?

De acordo com o estoi­cismo, a res­posta para ambas as per­gun­tas está rela­ci­o­nada ao auto-con­trole e à cons­ci­ên­cia. Mais espe­ci­fi­ca­mente, o estoi­cismo sugere que a paz interna pode ser alcan­çada por meio da noção de que toda a emo­ção vem de nosso inte­rior — que, por­tanto, está sob nosso con­trole.

Claro, é per­fei­ta­mente natu­ral e comum pre­o­cu­par-se com situ­a­ções fora de nosso con­trole. A frus­tra­ção com aquilo que não nos agrada é algo intrín­seco ao ser humano. Por essa razão, alguns podem supor que tais emo­ções nega­ti­vas são ine­vi­tá­veis. De acordo com os filó­so­fos estoi­cos, porém, todas as sen­sa­ções ruins são meros obs­tá­cu­los que devem ser supe­ra­dos ao longo do tempo.}

Mas supe­rar as emo­ções nega­ti­vas não sig­ni­fica que deve­mos levar nos­sas vidas sem se impor­tar com nada, repri­mindo os pen­sa­men­tos que cau­sam des­con­forto. Embora comu­mente asso­ci­ado à apa­tia, o estoi­cismo não ins­trui seus segui­do­res a igno­rar suas emo­ções: ori­enta, sim, a não des­per­di­çar suas ener­gias frus­trando-se com situ­a­ções irre­me­diá­veis.

Marco Aurélio, poder e mente

Ima­gine um homem cami­nhando num grande campo aberto, quando de repente começa a cho­ver. Frus­trado com a situ­a­ção em que se encon­tra, sem um guarda-chuva ou qual­quer coisa que possa usar para pro­te­ger-se, o homem começa a pra­gue­jar, e fica com um humor pés­simo. Inca­paz de con­tro­lar suas emo­ções, essa nega­ti­vi­dade pro­va­vel­mente per­ma­nece com ele pelo resto do dia.

Inde­pen­dente da filo­so­fia que se siga, é evi­dente que a emo­ção que o homem sente não é de forma alguma pro­du­tiva, e pouco pode fazer para ajudá-lo. Para um estoico, seria muito mais pru­dente ape­nas acei­tar a chuva — se não pode fazer nada a res­peito, não há por­que gas­tar ener­gia se pre­o­cu­pando.

É fácil com­pre­en­der este exem­plo — mui­tas vezes, esta­mos de bom humor e não nos pre­o­cu­pa­mos com algo que, em outro momento, pode­ria nos tirar do sério. A ideia do estoi­cismo, porém, é essen­ci­al­mente não depen­der de estar num bom dia — mas ser capaz de se man­ter no con­trole de suas emo­ções a todo o tempo.

Além disso, o exem­plo da chuva é algo bem pequeno quando com­pa­rado a todo tipo de adver­si­dade que pode­mos sofrer na vida. Um ver­da­deiro estoico é capaz de lidar com qual­quer situ­a­ção com calma e sere­ni­dade, até mesmo com algo muito mais pro­fundo do que uma sim­ples incon­ve­ni­ên­cia.

Nero, escravo das paixões, e Sêneca, liberto pelo estoicismo.

Nero, escravo das pai­xões, e Sêneca, liberto pelo estoi­cismo.

Por exem­plo, um aci­dente ou doença com con­sequên­cias per­ma­nen­tes, ou a perda de um ente que­rido, são situ­a­ções que mui­tas vezes resul­tam em anos de depres­são. Inca­pa­zes de lidar com o acon­te­cido, mui­tos per­dem a von­tade de viver, e suas rea­ções aca­bam cau­sando tão ou mais pre­juízo que o pró­prio acon­te­ci­mento.

Um segui­dor do estoi­cismo, ao lidar com este tipo de situ­a­ção, muito pro­va­vel­mente tam­bém será aba­lado, e não terá a capa­ci­dade de per­ma­ne­cer tran­quilo por certo tempo. Mas ele saberá que, no fundo, não há razão para se per­mi­tir que sen­ti­men­tos noci­vos cor­roam o melhor de si — e assim ele é capaz de supe­rar o acon­te­cido.

Você é uma pes­soa que se vê fre­quen­te­mente dei­xando que suas emo­ções o con­tro­lem em vez de con­trolá-las? Tal­vez o estoi­cismo possa lhe ser útil. Bus­que estar sem­pre cons­ci­ente do seu estado emo­ci­o­nal e inte­lec­tual, e per­gunte-se com frequên­cia se as emo­ções que sente são jus­ti­fi­cá­veis. Caso possa fazer algo para mudar uma situ­a­ção com a qual não está satis­feito, faça-o. Caso não possa, ocupe sua mente de modo a não ali­men­tar o sen­ti­mento de frus­tra­ção.

Mas o estoi­cismo não é só útil para lidar com a adver­si­dade, mas tam­bém prá­tico nas inte­ra­ções soci­ais. É comum que os rela­ci­o­na­men­tos tenham pro­ble­mas dos mais vari­a­dos tipos devido ape­nas à inca­pa­ci­dade de se man­ter a calma e dia­lo­gar de forma raci­o­nal. Quando rejei­ta­mos a raiva, qual­quer tipo de afronta ou outra ação capaz de invocá-la não sur­tirá efeito, e quem nos ofende ou pro­voca terá que se acal­mar ou desis­tir.



Leia o pró­ximo post da série, que trata de estoi­cismo nos rela­ci­o­na­men­tos.
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