Usando a Sabedoria Estóica ao Interagir com os Outros

Usando a Sabedoria Estóica ao Interagir com os Outros

Em Consciência, Filosofia, Série Estoicismo por Gabriel WerneckComentários

Já sabe­mos as ideias bási­cas do estoi­cismo: você deve con­cen­trar-se ape­nas naquilo que pode con­tro­lar, e abs­ter-se de gas­tar ener­gia com o que está fora do seu alcance. Essa ideia pode ser apli­cada de forma efe­tiva em pra­ti­ca­mente todos os aspec­tos da vida — mas sua apli­ca­ção é par­ti­cu­lar­mente notá­vel nas inte­ra­ções entre pes­soas.

Em geral, ao inte­ra­gir­mos com os outros, cos­tu­ma­mos ter dese­jos e expec­ta­ti­vas quanto ao que farão. Seres huma­nos bus­cam padrões por natu­reza. A impre­vi­si­bi­li­dade nos assusta — por­tanto, gos­ta­mos de acre­di­tar que esta­mos no con­trole da situ­a­ção. É impos­sí­vel, porém, con­tro­lar o estado men­tal e a res­posta dos outros. Dessa forma, nos­sas expec­ta­ti­vas são fre­quen­te­mente que­bra­das, o que nos deixa frus­tra­dos.

A mai­o­ria dos pro­ble­mas inter­pes­so­ais com os quais lida­mos vem de expec­ta­ti­vas que temos quanto ao com­por­ta­mento dos outros. Tal­vez espe­re­mos que nosso colega de quarto man­te­nha a casa arru­mada, mas ele não o faz. Pode­mos dese­jar que alguém de nosso inte­resse cor­res­ponda o que sen­ti­mos, mas não é o caso. Con­ta­mos um segredo a alguém de con­fi­ança, mas a pes­soa o espa­lha.

Assim como aque­les des­cri­tos no artigo ante­rior, esses pro­ble­mas podem soar como parte ine­vi­tá­vel da expe­ri­ên­cia humana. De fato, é impos­sí­vel garan­tir que as outras pes­soas res­pon­de­rão a nos­sas ações da forma que dese­ja­mos — temos con­trole ape­nas sobre nós mes­mos, não sobre os outros. É pos­sí­vel, porém, estar em paz com isso: você pre­cisa ape­nas se liber­tar des­sas expec­ta­ti­vas.

Claro, é impos­sí­vel aban­do­nar ple­na­mente todas as expec­ta­ti­vas quanto aos outros. Ao lidar com outros seres huma­nos, esta­mos cons­tan­te­mente inter­pre­tando seu com­por­ta­mento e adap­tando nos­sas ações para inte­ra­gir com eles. Se alguém te abraça calo­ro­sa­mente sem­pre que o vê, você supõe que está lidando com uma pes­soa cari­nhosa e que gosta da sua com­pa­nhia. Se você faz um comen­tá­rio nega­tivo quanto a deter­mi­nada crença ou reli­gião e alguém faz uma expres­são de des­gosto, você supõe que esses valo­res sig­ni­fi­cam algo para a pes­soa.

Ao con­vi­ver com alguém, você cons­tan­te­mente acu­mula peque­nas notas men­tais sobre ela. Cada inte­ra­ção o ensina algo a seu res­peito, e even­tu­al­mente você tem um com­plexo modelo men­tal para repre­sentá-la. É fácil, mui­tas vezes, pre­ver que tipo de rea­ção um bom amigo seu terá a deter­mi­nado comen­tá­rio, e ima­gi­nar o que sen­tirá ao ouvi-lo, por exem­plo. Mui­tas vezes assis­ti­mos a um filme, ou escu­ta­mos uma música, e ime­di­a­ta­mente pen­sa­mos que a obra agra­da­ria certa pes­soa que conhe­ce­mos.

Ter esse tipo de pen­sa­mento é per­fei­ta­mente sau­dá­vel, e as expec­ta­ti­vas em si não são ruins. É impor­tante, ape­nas, que você não se ape­gue demais a estes mode­los men­tais. Por mais com­ple­tos que pos­sam ser, e por mais pers­pi­caz que você seja, as pes­soas são impre­vi­sí­veis por natu­reza, e ten­dem a mudar ao longo do tempo. No caso de espa­lha­rem um segredo seu, por exem­plo, é per­fei­ta­mente razoá­vel que você acre­dite poder con­fiar em alguém — mas você não pode ter plena cer­teza.

Se você conta um segredo, auto­ma­ti­ca­mente cria a pos­si­bi­li­dade de que seja espa­lhado. O segredo esta­ria seguro se não tivesse con­tado a nin­guém, de forma que a res­pon­sa­bi­li­dade ini­cial por ele ter sido espa­lhado é exclu­si­va­mente sua. Por mais que você espere que seu con­fi­dente não con­tará o segredo a nin­guém, não é sen­sato ter abso­luta con­fi­ança nele — por­que você não tem con­trole sobre os outros.

Como escola filo­só­fica, o Estoi­cismo está asso­ci­ado a cren­ças em cer­tos valo­res reli­gi­o­sos e morais — mas ao apli­car suas ideias vol­ta­das para o modo de ver o mundo, somos leva­dos dire­ta­mente ao agnos­ti­cismo, à ideia de estar em paz com aquilo que não sabe­mos. Se não é pos­sí­vel ter cer­teza que seu con­fi­dente irá man­ter o segredo para si, você não deve ter cer­te­zas ao con­tar algo a ele.

Na situ­a­ção do colega de quarto, nova­mente, esta­mos espe­rando de alguém algo que não temos garan­tia que fará. Se você se atém à ideia de que ele deve­ria aju­dar na arru­ma­ção da casa — mesmo que você esteja certo, e tenham con­cor­dado pre­vi­a­mente que ele o faria -, você atrela sua feli­ci­dade e satis­fa­ção a algo externo, que está com­ple­ta­mente fora de seu con­trole. Ao se colo­car numa situ­a­ção onde você só estará satis­feito caso alguém faça algo, seu bem-estar depende pura­mente das ações desta pes­soa. Como seres huma­nos são impre­vi­sí­veis, você pro­va­vel­mente ficará insa­tis­feito boa parte do tempo.

Por último, o exem­plo mais dra­má­tico: Quando alguém não cor­res­ponde a seu inte­resse român­tico. Essa é uma situ­a­ção capaz de angus­tiar e frus­trar imen­sa­mente a grande mai­o­ria das pes­soas. É com­pre­en­sí­vel que, ao apai­xo­nar-se, você invista muito em alguém — isso acon­tece o tempo todo. Mas, nova­mente, você está per­mi­tindo que seu bem-estar dependa do outro sem abso­lu­ta­mente nenhuma garan­tia, e dessa vez de forma muito mais dra­má­tica.


Pode ser difí­cil con­tro­lar-se para impe­dir essa situ­a­ção de depen­dên­cia. Mui­tos, em vez de fazê-lo, supri­mem esse tipo de sen­sa­ção com­ple­ta­mente, não se per­mi­tindo apai­xo­nar-se para evi­tar a dor da rejei­ção. Uma solu­ção menos limi­tante é estar cons­ci­ente de si a ponto de per­ce­ber esses sen­ti­men­tos à medida que eles come­çam a sur­gir, e mani­festá-los antes que você tenha tanto a per­der. Dessa forma, caso seja rejei­tado, o impacto no seu emo­ci­o­nal será muito menor — espe­ci­al­mente caso você já tenha desen­vol­vido o hábito de con­tro­lar seu estado men­tal. E, caso seja cor­res­pon­dido, você terá tempo para dei­xar que este sen­ti­mento cresça de forma muito mais con­tro­lada — ao per­ce­ber que pode con­fiar na pes­soa.

Ainda assim, é impor­tante que você não se entre­gue com­ple­ta­mente. Mesmo que o sen­ti­mento dure e nunca se esvaia — o que rara­mente é o caso -, pes­soas podem ser sepa­ra­das pelas mais diver­sas razões. Um de vocês pode ter de ir para outro país, alguma mudança súbita em suas vidas pode impe­dir que tenham tempo de se ver, ou algo pode torná-los incom­pa­tí­veis de alguma forma. Não só os rela­ci­o­na­men­tos não duram pra sem­pre como as pes­soas tam­bém não, de forma que, por mais que soe som­brio pen­sar desta forma, não pode­mos depen­der tanto dos outros.

Em espe­cial ao lidar com pes­soas, é impor­tante que não este­ja­mos ape­ga­dos a expec­ta­ti­vas. Assim como você julga as ações dos outros, eles fazem o mesmo com as suas. Quando você demons­tra ter um obje­tivo em par­ti­cu­lar ao inte­ra­gir, pode pare­cer falso. Se é dema­si­ado óbvio que você busca algo, você soa como um ven­de­dor — ten­tando con­ven­cer a pes­soa de algo que não neces­sa­ri­a­mente é o melhor para ela. Esta­mos acos­tu­ma­dos com gente ten­tando tirar algo de nós, e ao notar­mos essa inten­ção em alguém, fica­mos na defen­siva.

Ao cami­nhar pela rua, se alguém para você com o intuito de ofe­re­cer um pro­duto, ou con­vi­dar para conhe­cer um grupo reli­gi­oso ou polí­tico, na mai­o­ria das vezes sua rea­ção é de fazer o que puder para se livrar da pes­soa. Igual­mente, se você tem a impres­são de que alguém com quem inte­rage está ati­va­mente ten­tando alcan­çar algo — sedu­zir, mudar seu com­por­ta­mento ou extrair certa infor­ma­ção -, auto­ma­ti­ca­mente você des­con­fia dela, e, por­tanto, se dis­tan­cia.

Exis­tem méto­dos de atin­gir tais obje­ti­vos com mais pre­ci­são. As pes­soas são de fato mani­pu­lá­veis até certo ponto, e um bom sedu­tor ou ven­de­dor con­se­guem con­tro­lar a res­posta daque­les com quem estão inte­ra­gindo em mui­tas oca­siões — mas caso você observe-os em ação, verá que eles ale­gre­mente aban­do­nam alvos que não res­pon­dem bem às suas téc­ni­cas, e pas­sam para os seguin­tes. Qual­quer um que entenda como seres huma­nos fun­ci­o­nam sabe que as pes­soas são impre­vi­sí­veis, e que não nos deve­mos per­ma­ne­cer pre­sos às expec­ta­ti­vas quanto a elas.

Da pró­xima vez que tiver um pro­blema com alguém, veja as coi­sas da seguinte forma: você não tem con­trole sobre os outros, por­tanto o máximo que pode fazer é ten­tar resol­ver a situ­a­ção sem se pre­o­cu­par com o resul­tado. Caso o con­flito não se resolva, tudo bem — os outros tem o direito de dis­cor­dar e de estar frus­tra­dos com você. Já que não tem con­trole sobre isso, não se pre­o­cupe — con­cen­tre sua ener­gia em algo dife­rente.


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