Por que estamos todos corruptos?

Por que estamos todos corruptos?

Em Comportamento por Rodolfo Dall'AgnoComentário

A edu­ca­ção ‘da vida’, das coi­sas mais prá­ti­cas, da ética e dos valo­res deve vir de casa, enquanto que a escola deve ficar res­pon­sá­vel pelo conhe­ci­mento cien­tí­fico, lin­guís­tico e cul­tu­ral”. Essa é uma ideia do senso comum que, ao que me parece, é pouco refle­tida e ques­ti­o­nada.

Enquanto que as esco­las e uni­ver­si­da­des pos­suem apa­ra­tos ins­ti­tu­ci­o­nais super-valo­ri­za­dos e com­ple­xos para que a ciên­cia e lin­gua­gem sejam ensi­na­das, a edu­ca­ção de for­ma­ção ética e humana é redu­zida à res­pon­sa­bi­li­dade de quais­quer pais ou cui­da­do­res.

Não deve­ria haver, assim como em qual­quer outro ofí­cio, uma arte ou ciên­cia da for­ma­ção de um ser humano digno? Será essa edu­ca­ção algo assim tão sim­ples a ponto de não exis­tir algum tipo de ins­ti­tui­ção para tal? E mais: por que, nos nos­sos tem­pos, a arte de for­mar um ser humano per­deu espaço e impor­tân­cia para a edu­ca­ção aca­dê­mica-cien­tí­fica? Afi­nal, parece que é mais impor­tante for­mar dou­to­res do que pes­soas éti­cas…

Vamos tra­tar de esmiu­çar esse negó­cio.

 

O potencial humano

 

Nós, seres huma­nos, pos­suí­mos incon­tes­ta­vel­mente uma capa­ci­dade de rea­li­zar as mais noci­vas mal­da­des e as mais vir­tu­o­sas bon­da­des. Pode­mos dizer que nosso poten­cial pode tomar tanto a dire­ção do “bem” quanto do “mal”; e isso depende, além dos nos­sos dotes natu­rais, de nossa edu­ca­ção “da vida”.

Ora, que­re­mos uma soci­e­dade de pes­soas vir­tu­o­sas, cons­ci­en­tes e senho­ras de si mes­mas, não que­re­mos? E é ingê­nuo de nossa parte pen­sar que nossa natu­reza essen­cial será capaz de tomar esse cami­nho por si mesma; é evi­dente que pre­ci­sa­mos de uma arte, de um dis­po­si­tivo, que tenha por fina­li­dade a for­ma­ção de um ser humano ínte­gro e digno. Mas não temos. Não mais.

 

A arte de formar um ser humano

 

Em alguns momen­tos e luga­res espe­cí­fi­cos da Anti­gui­dade, a coisa fun­ci­o­nava de outra maneira. As ins­ti­tui­ções que pode­mos cha­mar de Esco­las de Mis­té­rios sur­gi­ram em mui­tos locais — como na Trá­cia, na cidade egíp­cia de Tebas, e na pró­pria Ate­nas ante­rior ao século V a.C — com o poder polí­tico, edu­ca­ci­o­nal, cien­tí­fico e reli­gi­oso da época.

A Vitória de Samotrácia, hoje no museu do Louvre. Fazia parte de uma fonte no grande santuário da Samotrácia.

A Vitó­ria de Samo­trá­cia, hoje no museu do Lou­vre. Fazia parte de uma fonte no grande san­tuá­rio da Samo­trá­cia.

Só que nes­sas esco­las, o conhe­ci­mento era reve­lado à medida que o estu­dante pro­gre­dia no des­co­bri­mento e domí­nio de si mesmo, pois con­si­de­rava-se, como Pla­tão coloca muito bem, que é pre­fe­rí­vel alguém total­mente igno­rante do que um conhe­ci­mento pode­roso nas mãos de alguém que não é senhor de si mesmo.

Os prin­ci­pais sabe­res, no entanto, não eram extraí­dos dire­ta­mente de aulas expo­si­ti­vas que con­tem­plam dados cien­tí­fi­cos, tal como hoje. A ideia era que, além de aulas, com o conhe­ci­mento e domí­nio dos vícios, a poten­ci­a­li­za­ção das vir­tu­des e a refle­xão inte­rior, os alu­nos aces­sa­riam níveis não-ins­tin­ti­vos de seu ser, e assim tinham con­tato com as mais extra­or­di­ná­rias ver­da­des.

É pra­ti­ca­mente con­senso na psi­co­lo­gia moderna que os pro­ble­mas men­tais estão inti­ma­mente liga­dos a padrões psí­qui­cos pri­mi­ti­vos; seja lá como as diver­sas teo­rias psi­co­ló­gi­cas deno­mi­nem isso (ati­va­ção de esque­mas ini­ci­ais desa­dap­ta­ti­vos, regres­são, inter­rup­ção no con­tato, etc). Quando for­ne­ce­mos meios para supe­rar essas con­di­ções ini­ci­ais, vol­tamo-nos para novas ques­tões e novos desa­fios, que se afas­tam cada vez mais, gra­da­ti­va­mente, dos ins­tin­tos pri­mi­ti­vos. Freud cha­mou esse pro­cesso de subli­ma­ção.

Assim, com o domí­nio de si mesmo e a pureza da alma, nossa razão e intui­ção são apri­mo­ra­das e alcan­çam ver­da­des mai­o­res e menos influ­en­ci­a­das pelos nos­sos inte­res­ses. Parece, por­tanto, um jeito mais inte­li­gente de inves­ti­gar o uni­verso do que a mera memo­ri­za­ção e repro­du­ção mecâ­nica de conhe­ci­men­tos já vali­da­dos. O pró­prio Eins­tein parece ser adepto dessa opi­nião.

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A per­gunta que fica, no entanto, é: a quem caberá for­mar esses jovens? Como jul­gar que com­por­ta­men­tos, ati­tu­des e padrões psí­qui­cos nos levam a rea­li­za­ção de nosso poten­cial para a vir­tude e não para o vício? E por que não temos mais esse tipo de edu­ca­ção em nossa soci­e­dade?

 

Da formação para a informação

 

Uma pes­soa edu­cada nes­ses mol­des é alguém que está em maior con­so­nân­cia con­sigo mesmo. Até aí, ok. O pro­blema é que essa con­jun­tura é muito par­ti­cu­lar de cada um. Não há uma fór­mula igual para todos, por­que cada um é único. Como, por­tanto, os mes­tres e edu­ca­do­res pode­riam aju­dar os jovens a des­per­tar e admi­nis­trar a si mes­mos, se não há esque­mas bem-defi­ni­dos que pos­sam ser apli­ca­dos a todos?

Os mes­tres dedi­ca­dos à for­ma­ção de “seres huma­nos obra de arte, éti­cos e cri­a­do­res” (tal como coloca Vik­tor D. Salis em sua obra Mito­lo­gia Viva, sobre o ideal da Anti­gui­dade de um ser humano for­mado), neces­si­ta­vam ter muito desen­vol­vida a facul­dade humana mais bana­li­zada e supri­mida na Moder­ni­dade: a intui­ção.

Algo tão vivo, dinâ­mico e com­plexo quanto a for­ma­ção de seres huma­nos não pode­ria ser com­pre­en­dido e rea­li­zado em esque­mas teó­ri­cos raci­o­nais que pudes­sem ser usa­dos inde­pen­den­te­mente de nosso estado interno. O mes­tre, por­tanto, deve­ria ser muito senhor de si mesmo e ter uma alta pureza de alma, pois somente assim ele teria con­di­ções de for­mar jovens e fazê-los encon­tra­rem a si mes­mos, atra­vés do mais refi­nado dis­cer­ni­mento para ava­liar cada caso. Esses eram os requi­si­tos aca­dê­mi­cos de um mes­tre na Anti­gui­dade.

É claro que os pro­ces­sos raci­o­nais não eram des­pre­za­dos, mas eram, de fato, colo­ca­dos em um hon­roso segundo plano. A intui­ção está mais pró­xima da ver­dade; ela é um foguete enquanto a razão é uma car­roça ato­lada. Por isso, os mitos (que não eram cri­a­ções popu­la­res, mas sim ela­bo­ra­dos pelos mes­tres) eram usa­dos na edu­ca­ção; pois pro­por­ci­o­na­vam uma rela­ção mais pes­soal com os jovens do que as frias e exa­tas teo­rias con­tem­pla­das pela razão.

Mas por que, enfim, os nos­sos tem­pos já não são mais aben­ço­a­dos com essa mag­ní­fica estru­tura de for­ma­ção de seres huma­nos?

chargeEm His­tó­ria da Lou­cura, de Michel Fou­cault, apren­de­mos que a pala­vra pato­lo­gia vem do grego pathos, que pode­mos tra­du­zir por “pai­xão”. Na Gré­cia Antiga, podia-se dizer que quem estava “com pathos” era quem estava sau­dá­vel, já quem sofria de algum pro­blema estava apathos, ou seja, sem pathos, apá­tico (pala­vra que per­ma­ne­ceu mais ou menos com seu sig­ni­fi­cado ori­gi­nal na lín­gua por­tu­guesa).

A mudança de sen­tido dessa pala­vra diz muito sobre a grande dife­rença entre o pen­sa­mento antigo e pós-antigo. Como, dia­bos, alguém que está apai­xo­nado virou alguém está sofrendo de alguma enfer­mi­dade? Como que pathos-pai­xão se tor­nou pathos-pato­lo­gia?

Natu­ral­mente, se cada pes­soa é única na rea­li­za­ção de si mesma, então tere­mos pes­soas dife­ren­tes, e cada uma rea­li­zará somente aquilo que lhe é pró­prio. Con­se­quen­te­mente, não tere­mos uma massa homo­gê­nea, mas sim indi­ví­duos úni­cos e cons­ci­en­tes. O pathos grego, por­tanto, implica em um “des­vio da norma”; não da norma ética, mas da “norma da massa”, ou seja, aquilo que é repro­du­zido sim­ples­mente por­que é repro­du­zido, sem que haja um sen­tido ou um porquê claro pelo qual a coisa é feita. O patho­ló­gico grego é o indi­ví­duo que pensa, sente e age em con­so­nân­cia com o seu cora­ção, jamais cedendo aos capri­chos do “soci­al­mente aceito da massa”, pre­fe­rindo até mesmo a morte à negar sua ver­da­deira natu­reza (tal como Sófo­cles retrata muito bem em Antí­gona).

Che­gou um momento que aquele que busca a si mesmo e o sen­tido das coi­sas pas­sou a ser um incô­modo, e não mais um aluno. E as ciên­cias bio­mé­di­cas até hoje de muito têm dessa pers­pec­tiva: o doente, o pato­ló­gico, é o que “des­via da norma da massa”, enquanto que na Anti­gui­dade era jus­ta­mente ao con­trá­rio.

Outra evi­dên­cia eti­mo­ló­gica é a pala­vra “demô­nio”. Demô­nio vem de dae­mon, que em grego arcaico diz res­peito a um gênio imor­tal inte­rior que nos habita e que deve ser explo­rado, cul­tu­ado e posto à mos­tra. Assim, em algum momento da Era Cristã, aquele que cul­tu­asse o dae­mon, ou seja, que bus­casse a Deus den­tro de si mesmo ao invés de ir à igreja, foi acu­sado de here­sia ou qual­quer coisa do tipo.

Essa lógica cristã evi­den­te­mente migrou para a ciên­cia moderna, para o incô­modo daque­les que ten­tam colocá-las como com­ple­ta­mente opos­tos e rivais.

 

Manifesto pelo direito de uma educação justa

 

Não há, por­tanto, somente uma difi­cul­dade meto­do­ló­gica para imple­men­tar­mos um sis­tema de edu­ca­ção que preze pela for­ma­ção humana. Há uma ideia for­tís­sima no ima­gi­ná­rio social de que não deve­mos aces­sar os nos­sos poten­ci­ais inter­nos. Ao con­trá­rio, deve­mos adap­tar-nos às nor­mas soci­ais da massa, sob pena de ser­mos enqua­dra­dos como pato­ló­gi­cos ou de cul­tu­ar­mos o demô­nio.

A aca­de­mia moderna preza por uma edu­ca­ção de conhe­ci­men­tos que pos­sam ser uti­li­za­dos inde­pen­den­tes da con­di­ção ética e pes­soal do pro­fis­si­o­nal que pra­tica. De fato, nenhum advo­gado, fisi­o­te­ra­peuta, admi­nis­tra­dor, enge­nheiro, etc, teve aulas sobre como conhe­cer-se a si mesmo, desen­vol­ver suas vir­tu­des, sobre enten­der e amar o pró­ximo, refle­xões sobre a vida, etc.

Por isso, a cor­rup­ção e a injus­tiça asso­lam nosso mundo. Todo os conhe­ci­men­tos que con­quis­ta­mos nos últi­mos sécu­los não pas­sam de facas nas mãos de cri­an­ças. Para que ser­vem então, senão para nos des­truir?

Zeus cas­ti­gou Pro­me­teu e a huma­ni­dade por­que o titã rou­bou o fogo de Hés­tia (a cons­ci­ên­cia de nós mes­mos e do mundo; que nos leva a inves­ti­gar e bus­car o conhe­ci­mento) e entre­gou aos homens, porém, negou a justa medida de seu uso. Ape­sar de mile­nar, o tema desse mito é incri­vel­mente atual.

A recu­pe­ra­ção da exce­lên­cia da for­ma­ção humana, ética, dos valo­res, parece ser sim­ples­mente a maior urgên­cia da huma­ni­dade. Antes que as facas das cri­an­ças se tor­nem afi­a­das demais.


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Rodolfo Dall'Agno
Psicologia de formação, mas música e filosofia de coração. Participante do programa Empresa Viva. Buscador de essências.

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