“A educação ‘da vida’, das coisas mais práticas, da ética e dos valores deve vir de casa, enquanto que a escola deve ficar responsável pelo conhecimento científico, linguístico e cultural”. Essa é uma ideia do senso comum que, ao que me parece, é pouco refletida e questionada.

Enquanto que as escolas e universidades possuem aparatos institucionais super-valorizados e complexos para que a ciência e linguagem sejam ensinadas, a educação de formação ética e humana é reduzida à responsabilidade de quaisquer pais ou cuidadores.

Não deveria haver, assim como em qualquer outro ofício, uma arte ou ciência da formação de um ser humano digno? Será essa educação algo assim tão simples a ponto de não existir algum tipo de instituição para tal? E mais: por que, nos nossos tempos, a arte de formar um ser humano perdeu espaço e importância para a educação acadêmica-científica? Afinal, parece que é mais importante formar doutores do que pessoas éticas…

Vamos tratar de esmiuçar esse negócio.

 

O potencial humano

 

Nós, seres humanos, possuímos incontestavelmente uma capacidade de realizar as mais nocivas maldades e as mais virtuosas bondades. Podemos dizer que nosso potencial pode tomar tanto a direção do “bem” quanto do “mal”; e isso depende, além dos nossos dotes naturais, de nossa educação “da vida”.

Ora, queremos uma sociedade de pessoas virtuosas, conscientes e senhoras de si mesmas, não queremos? E é ingênuo de nossa parte pensar que nossa natureza essencial será capaz de tomar esse caminho por si mesma; é evidente que precisamos de uma arte, de um dispositivo, que tenha por finalidade a formação de um ser humano íntegro e digno. Mas não temos. Não mais.

 

A arte de formar um ser humano

 

Em alguns momentos e lugares específicos da Antiguidade, a coisa funcionava de outra maneira. As instituições que podemos chamar de Escolas de Mistérios surgiram em muitos locais – como na Trácia, na cidade egípcia de Tebas, e na própria Atenas anterior ao século V a.C – com o poder político, educacional, científico e religioso da época.

A Vitória de Samotrácia, hoje no museu do Louvre. Fazia parte de uma fonte no grande santuário da Samotrácia.
A Vitória de Samotrácia, hoje no museu do Louvre. Fazia parte de uma fonte no grande santuário da Samotrácia.

Só que nessas escolas, o conhecimento era revelado à medida que o estudante progredia no descobrimento e domínio de si mesmo, pois considerava-se, como Platão coloca muito bem, que é preferível alguém totalmente ignorante do que um conhecimento poderoso nas mãos de alguém que não é senhor de si mesmo.

Os principais saberes, no entanto, não eram extraídos diretamente de aulas expositivas que contemplam dados científicos, tal como hoje. A ideia era que, além de aulas, com o conhecimento e domínio dos vícios, a potencialização das virtudes e a reflexão interior, os alunos acessariam níveis não-instintivos de seu ser, e assim tinham contato com as mais extraordinárias verdades.

É praticamente consenso na psicologia moderna que os problemas mentais estão intimamente ligados a padrões psíquicos primitivos; seja lá como as diversas teorias psicológicas denominem isso (ativação de esquemas iniciais desadaptativos, regressão, interrupção no contato, etc). Quando fornecemos meios para superar essas condições iniciais, voltamo-nos para novas questões e novos desafios, que se afastam cada vez mais, gradativamente, dos instintos primitivos. Freud chamou esse processo de sublimação.

Assim, com o domínio de si mesmo e a pureza da alma, nossa razão e intuição são aprimoradas e alcançam verdades maiores e menos influenciadas pelos nossos interesses. Parece, portanto, um jeito mais inteligente de investigar o universo do que a mera memorização e reprodução mecânica de conhecimentos já validados. O próprio Einstein parece ser adepto dessa opinião.

einstei-texto-rodolfo

A pergunta que fica, no entanto, é: a quem caberá formar esses jovens? Como julgar que comportamentos, atitudes e padrões psíquicos nos levam a realização de nosso potencial para a virtude e não para o vício? E por que não temos mais esse tipo de educação em nossa sociedade?

 

Da formação para a informação

 

Uma pessoa educada nesses moldes é alguém que está em maior consonância consigo mesmo. Até aí, ok. O problema é que essa conjuntura é muito particular de cada um. Não há uma fórmula igual para todos, porque cada um é único. Como, portanto, os mestres e educadores poderiam ajudar os jovens a despertar e administrar a si mesmos, se não há esquemas bem-definidos que possam ser aplicados a todos?

Os mestres dedicados à formação de “seres humanos obra de arte, éticos e criadores” (tal como coloca Viktor D. Salis em sua obra Mitologia Viva, sobre o ideal da Antiguidade de um ser humano formado), necessitavam ter muito desenvolvida a faculdade humana mais banalizada e suprimida na Modernidade: a intuição.

Algo tão vivo, dinâmico e complexo quanto a formação de seres humanos não poderia ser compreendido e realizado em esquemas teóricos racionais que pudessem ser usados independentemente de nosso estado interno. O mestre, portanto, deveria ser muito senhor de si mesmo e ter uma alta pureza de alma, pois somente assim ele teria condições de formar jovens e fazê-los encontrarem a si mesmos, através do mais refinado discernimento para avaliar cada caso. Esses eram os requisitos acadêmicos de um mestre na Antiguidade.

É claro que os processos racionais não eram desprezados, mas eram, de fato, colocados em um honroso segundo plano. A intuição está mais próxima da verdade; ela é um foguete enquanto a razão é uma carroça atolada. Por isso, os mitos (que não eram criações populares, mas sim elaborados pelos mestres) eram usados na educação; pois proporcionavam uma relação mais pessoal com os jovens do que as frias e exatas teorias contempladas pela razão.

Mas por que, enfim, os nossos tempos já não são mais abençoados com essa magnífica estrutura de formação de seres humanos?

chargeEm História da Loucura, de Michel Foucault, aprendemos que a palavra patologia vem do grego pathos, que podemos traduzir por “paixão”. Na Grécia Antiga, podia-se dizer que quem estava “com pathos” era quem estava saudável, já quem sofria de algum problema estava apathos, ou seja, sem pathos, apático (palavra que permaneceu mais ou menos com seu significado original na língua portuguesa).

A mudança de sentido dessa palavra diz muito sobre a grande diferença entre o pensamento antigo e pós-antigo. Como, diabos, alguém que está apaixonado virou alguém está sofrendo de alguma enfermidade? Como que pathos-paixão se tornou pathos-patologia?

Naturalmente, se cada pessoa é única na realização de si mesma, então teremos pessoas diferentes, e cada uma realizará somente aquilo que lhe é próprio. Consequentemente, não teremos uma massa homogênea, mas sim indivíduos únicos e conscientes. O pathos grego, portanto, implica em um “desvio da norma”; não da norma ética, mas da “norma da massa”, ou seja, aquilo que é reproduzido simplesmente porque é reproduzido, sem que haja um sentido ou um porquê claro pelo qual a coisa é feita. O pathológico grego é o indivíduo que pensa, sente e age em consonância com o seu coração, jamais cedendo aos caprichos do “socialmente aceito da massa”, preferindo até mesmo a morte à negar sua verdadeira natureza (tal como Sófocles retrata muito bem em Antígona).

Chegou um momento que aquele que busca a si mesmo e o sentido das coisas passou a ser um incômodo, e não mais um aluno. E as ciências biomédicas até hoje de muito têm dessa perspectiva: o doente, o patológico, é o que “desvia da norma da massa”, enquanto que na Antiguidade era justamente ao contrário.

Outra evidência etimológica é a palavra “demônio”. Demônio vem de daemon, que em grego arcaico diz respeito a um gênio imortal interior que nos habita e que deve ser explorado, cultuado e posto à mostra. Assim, em algum momento da Era Cristã, aquele que cultuasse o daemon, ou seja, que buscasse a Deus dentro de si mesmo ao invés de ir à igreja, foi acusado de heresia ou qualquer coisa do tipo.

Essa lógica cristã evidentemente migrou para a ciência moderna, para o incômodo daqueles que tentam colocá-las como completamente opostos e rivais.

 

Manifesto pelo direito de uma educação justa

 

Não há, portanto, somente uma dificuldade metodológica para implementarmos um sistema de educação que preze pela formação humana. Há uma ideia fortíssima no imaginário social de que não devemos acessar os nossos potenciais internos. Ao contrário, devemos adaptar-nos às normas sociais da massa, sob pena de sermos enquadrados como patológicos ou de cultuarmos o demônio.

A academia moderna preza por uma educação de conhecimentos que possam ser utilizados independentes da condição ética e pessoal do profissional que pratica. De fato, nenhum advogado, fisioterapeuta, administrador, engenheiro, etc, teve aulas sobre como conhecer-se a si mesmo, desenvolver suas virtudes, sobre entender e amar o próximo, reflexões sobre a vida, etc.

Por isso, a corrupção e a injustiça assolam nosso mundo. Todo os conhecimentos que conquistamos nos últimos séculos não passam de facas nas mãos de crianças. Para que servem então, senão para nos destruir?

Zeus castigou Prometeu e a humanidade porque o titã roubou o fogo de Héstia (a consciência de nós mesmos e do mundo; que nos leva a investigar e buscar o conhecimento) e entregou aos homens, porém, negou a justa medida de seu uso. Apesar de milenar, o tema desse mito é incrivelmente atual.

A recuperação da excelência da formação humana, ética, dos valores, parece ser simplesmente a maior urgência da humanidade. Antes que as facas das crianças se tornem afiadas demais.


Você pode querer ler também:

A universidade não deve nos preparar para o emprego. Deve nos preparar para a vida.
7 sinais de um indivíduo saudável em uma sociedade enferma

escrito por:

Rodolfo Dall'Agno

Músico, mas graduando para ser psicólogo nas horas vagas. Tenta ao máximo ser escravo dos deuses, ou seja, livre.