Marcelo Crivella, Donald Trump e João Dória | A esquerda é o melhor cabo eleitoral da direita

A esquerda é o melhor cabo eleitoral da direita

Em Consciência, Economia, Política, Sociedade por Renata CarvalhoComentários

A esquerda tem imposto, de forma auto­ri­tá­ria e arro­gante, coi­sas como local de fala, pro­ta­go­nismo e espa­ços segu­ros. Usando aca­de­mês pra mos­trar pro povo como “votar de forma cons­ci­ente” num mundo no qual dife­ren­ças cul­tu­rais resul­tam em mor­tes de civis ino­cen­tes, a eco­no­mia vai mal ou pode­ria estar melhor, homos­se­xu­a­li­dade ainda é motivo de expul­sar os filhos de casa, a maior parte das mulhe­res é do lar ou é a prin­ci­pal res­pon­sá­vel por essas tare­fas.

Vem a direita e usa um dis­curso sim­ples de enten­der inde­pen­den­te­mente da for­ma­ção (ou da falta dela), pro­mete segu­rança, esta­bi­li­dade econô­mica sufi­ci­ente pra aumen­tar teu poder de com­pra, rea­ção con­tra ter­ro­ris­tas e não mexe com tuas cren­ças pes­so­ais. E vence as elei­ções.

O que alguém poderia esperar de diferente?

Cer­tos dis­cur­sos não adi­an­tam. Cer­tos méto­dos não fun­ci­o­nam mais. O mundo ainda tem muito de retró­grado, sim, e tem muito a melho­rar. Mas, embora retró­grado no pen­sa­mento, o mundo não para­li­sou no tempo em outros ângu­los. Há que se pen­sar de forma dife­rente. Mudar cer­tos dis­cur­sos, como:

- A MÍDIA É GOLPISTA E A FAVOR DA DIREITA:

A Globo e a Veja fize­ram uma cam­pa­nha enorme pelo Freixo: Cri­vella ganhou. Pra­ti­ca­mente todas as mídias esta­du­ni­den­ses tor­ce­ram pela Hil­lary: Trump ven­ceu.

Ao invés de ficar ser­vindo de rela­ções públi­cas de par­ti­dos, os veí­cu­los de infor­ma­ção deve­riam tra­tar de sele­ci­o­nar bem o público que inte­ressa para suas metas (não é o mesmo que sele­ci­o­nar um público espe­cí­fico qual­quer), conhecê-lo e dia­lo­gar com ele, dando-lhe infor­ma­ção rele­vante para suas deci­sões. Não mon­tar gru­pi­nho de con­fir­ma­tion bias para cren­tes fer­vo­ro­sos da causa. Isso não é polí­tica, é clu­bismo.

 

- TODO MUNDO QUE DISCORDA DE MIM É UM CEGO ILUDIDO:

Pode ser. Mas se alguém dis­ser o mesmo pra você sobre suas ideias, essa pes­soa vai con­se­guir te con­ven­cer a ade­rir ao que ela defende? Ou, ao con­trá­rio, você vai, além de se afer­rar ao seu pró­prio pen­sa­mento, rea­gir com anti­pa­tia por ter sido cha­mado de igno­rante, tendo sua inte­li­gên­cia posta em xeque logo de cara?

Isso deve­ria ser tão óbvio que nem pre­ci­sa­ria estar nesta lista, mas acon­tece com tanta frequên­cia que só posso pres­su­por que não se tocam, tama­nha a mega­lo­ma­nia.

 

- POSIÇÕES POLÍTICAS DIFERENTES DA MINHA REPRESENTAM O MAL NA TERRA:

De novo a arro­gân­cia moral e falta de inte­resse em quem diz que­rer defen­der; sequer escu­tam os moti­vos da pes­soa, sim­ples­mente se afer­ram à pró­pria visão e saem con­de­nando — e com o carisma de uma motos­serra.

Já para­ram pra repa­rar que polí­ti­cos que defen­dem pau­tas eti­ca­mente ques­ti­o­ná­veis de um ponto de vista pro­gres­sista defen­dem, tam­bém, pau­tas mais bási­cas e que todo mundo tem inte­resse? Não? Então saiam da bolha. Vocês deve­riam saber.

Esse pen­sa­mento arro­gante só afasta mais ainda as pes­soas.

Enquanto vocês estão lá falando que “Fulano de Tal vai cor­tar o Minis­té­rio da Cul­tura e tirar bol­sas de ini­ci­a­ção cien­tí­fica na facul­dade”, o povão só quer saber se vai ter polí­cia na rua, pelo menos, pra sen­tir-se seguro quando for tra­ba­lhar antes do sol nas­cer e vol­tar tão tarde que só tem assom­bra­ção na rua.

Quando se ignora as razões legí­ti­mas que podem estar por trás de deci­sões equi­vo­ca­das (ou que alguns con­si­de­ram equi­vo­ca­das), dá-se as cos­tas ao outro, pas­sando a ima­gem de dita­dor into­le­rante.

Evi­den­te­mente que quem faz isso é con­si­de­rado uma ame­aça àque­les inte­res­ses legí­ti­mos. Basi­ca­mente, estão for­çando as pes­soas a vota­rem “num can­di­dato forte o bas­tante” pra aca­bar com esse seu auto­ri­ta­rismo e desejo de con­trole.

Lem­bre-se: foi você quem fugiu do diá­logo.

 

- DEFENDO AS MASSAS, OS POBRES, OS NEGROS, AS MULHERES, OS LGTBQRSAgenderfluksfluidflux+++:

Vou dar um rápido ras­cu­nho das mas­sas: pobre quer cre­che e grana no bolso, não tex­tão elo­gi­ando funk e apo­lo­gia à pobreza idí­lica; negros que­rem se mis­tu­rar e serem bem tra­ta­dos por carac­te­rís­ti­cas pes­so­ais além da cor da pele, não fica­rem em espaço seguro e terem o mono­pó­lio de “sím­bo­los da raça”; mulhe­res que­rem inde­pen­dên­cia e poder de com­pra, cre­che, emprego legal e coi­sas que os homens que­rem, não tex­tão impli­cando com roupa de dese­nho ani­mado da Dis­ney.

LGBTs que­rem o mesmo que outras pes­soas E TAMBÉM segu­rança para vive­rem sem serem impor­tu­na­dos por suas carac­te­rís­ti­cas. Há for­mas melho­res de aju­dar nisso do que dis­cu­tir por dias os moti­vos que leva­ram a soci­e­dade “hipó­crita, pre­con­cei­tu­osa e burra do caraio” a rejei­tar uma trans pre­gada na cruz como pro­testo.

Não sobrou uma esquerda defen­dendo as mas­sas desde que ela ocu­pou o espaço que antes era “da direita”: car­gos polí­ti­cos e ban­cos uni­ver­si­tá­rios. Ven­deu sonhos e aca­bou presa no pró­prio mundo de exer­cí­cios men­tais.

Isso abriu um espaço ENORME pra direita agir com aque­les que vocês tanto dizem defen­der.

Obser­vem a rela­ção entre o número de pobres evan­gé­li­cos e a ascen­são da ban­cada evan­gé­lica. Obser­vem a forma des­sas igre­jas agi­rem onde os “cons­ci­en­tes defen­so­res do povo” deve­riam agir.

A esquerda hoje é aca­dê­mica. Quem faz tra­ba­lho de base é o outro lado.


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Renata Carvalho
Feminista liberal, com alergia ao pós-modernismo. Administradora da página Feminismo Liberal no Facebook. Groselheira nas horas vagas.

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